quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Grazyna Bacewicz (1909-1969) - Violin Concertos Nos. 1, 3 & 7

Nascida em Łódź, Bacewicz estudou inicialmente em sua cidade natal e em Varsóvia. No começo dos anos 1930, transferiu-se para Paris, onde estudou composição com Nadia Boulanger e violino com André Touret, além de ter recebido aulas de Carl Flesch. De volta à Polônia, atravessou a Segunda Guerra Mundial e, ao longo das décadas seguintes, desenvolveu uma carreira dupla, como compositora e intérprete. Seu catálogo ultrapassa duzentas obras e inclui quatro sinfonias, sete concertos para violino, sete quartetos de cordas, cinco sonatas para violino e piano e concertos para piano, dois pianos e viola, entre numerosas peças orquestrais e camerísticas.

É significativo que sua experiência como violinista tenha desempenhado papel tão importante em sua produção. Bacewicz foi spalla da Orquestra da Rádio Polonesa entre 1936 e 1938 e continuou a atuar como solista depois da guerra. Essa familiaridade íntima com o instrumento permitiu-lhe explorar suas possibilidades técnicas sem transformar a virtuosidade em mero exibicionismo. Seus concertos são difíceis, mas, como observa Joanna Kurkowicz, as dificuldades parecem nascer naturalmente das próprias ideias musicais e são organizadas com extraordinária clareza.

O álbum da Chandos, Bacewicz: Overture / Violin Concertos Nos 1, 3 and 7, oferece uma espécie de retrato em três momentos da compositora. A violinista Joanna Kurkowicz atua como solista, acompanhada pela Polish Radio Symphony Orchestra, sob a direção de Łukasz Borowicz. O programa reúne o Primeiro Concerto, de 1937, o Terceiro, de 1948, o Sétimo, de 1965, e a Overture, de 1943.

A Overture, escrita durante a guerra, abre o percurso. É uma obra em que o neoclassicismo francês se combina a uma poderosa energia rítmica. O início, confiado aos tímpanos, utiliza o ritmo correspondente à letra “V” em código Morse — o mesmo gesto associado pelo serviço da BBC ao sinal de “Vitória” derivado do começo da Quinta Sinfonia de Beethoven. O encarte ressalta que não é possível afirmar se Bacewicz empregou conscientemente essa referência. De todo modo, a música rapidamente se transforma em uma vigorosa construção de caráter quase barroco, interrompida por um Andante de atmosfera bucólica. O contraste, contudo, é apenas momentâneo: por trás dos episódios de aparente triunfo ou de dança popular permanece uma tensão quase febril.

O Concerto para Violino nº 1, de 1937, pertence à juventude da compositora e revela uma linguagem ainda próxima de um ambiente musical do início do século XX. Bacewicz estreou a obra em março de 1938, com a Orquestra da Rádio Polonesa dirigida por Grzegorz Fitelberg. O concerto permaneceu inédito por aproximadamente seis décadas, até sua redescoberta revelar uma peça de grande encanto e personalidade.

São apenas três movimentos, mas a concisão não significa simplicidade. O primeiro começa com uma apresentação quase improvisatória do violino solista e é marcado por deslocamentos métricos e motívicos que mantêm a música em constante movimento. O Andante central introduz uma dimensão mais lírica, embora uma passagem inquietante, próxima do final, combine harmônicos das cordas orquestrais com registros agudos dos sopros. O Vivace final, por sua vez, recupera a energia rítmica característica de Bacewicz, alternando o compasso 6/8 com uma ideia em 2/4 associada à vitalidade e à alegria de viver.

No Concerto nº 3, de 1948, a compositora já apresenta uma relação mais evidente com a música tradicional polonesa. A obra respira uma atmosfera semelhante à encontrada em Szymanowski, sobretudo em sua utilização de elementos provenientes das regiões montanhosas do sul da Polônia. Bacewicz incorpora melodias tradicionais, mas também as transforma e complementa com material próprio. O resultado não é uma simples reprodução do folclore, mas uma integração entre identidade nacional e linguagem composicional individual.

O Andante contém uma melodia baseada, segundo a própria Bacewicz, em uma canção “muito pouco conhecida, mas muito bonita”. O movimento incorpora ainda linhas descendentes relacionadas às tradições musicais dos Tatras, associadas ao músico e guia montanhês do século XIX Jan Krzeptowski, conhecido como Sabała. No finale, surge o oberek, dança polonesa rápida aparentada à mazurca. A obra foi estreada em 4 de março de 1949, com a Orquestra Filarmônica do Báltico sob a direção de Stefan Śledziński.

O Concerto nº 7, de 1965, mostra uma Bacewicz muito mais madura. A essa altura, ela já havia abandonado a carreira de intérprete, mas sua compreensão do violino permanecia intacta. A estreia ocorreu em 14 de janeiro de 1966, em Bruxelas, com o violinista espanhol Agustín León Ara, a Orquestra Sinfônica da Rádio Belga e o regente Daniel Sternefeld. Ao mesmo tempo, sua linguagem havia absorvido o impacto da nova música polonesa representada por compositores mais jovens como Krzysztof Penderecki e Henryk Górecki.

Apesar de conservar a tradicional estrutura em três movimentos, o Sétimo Concerto apresenta um universo muito mais ambíguo e sofisticado. A compositora utiliza técnicas como harmônicos, sul ponticello, trinados e glissandos, explorando não apenas as possibilidades virtuosísticas do solista, mas também a cor da própria orquestra. O primeiro movimento contém inflexões que podem evocar o folclore, embora Bacewicz tenha negado uma influência direta de canções populares.

É, contudo, no segundo movimento que a imaginação sonora atinge um grau particularmente fascinante. A melodia inicial deriva de uma antiga canção; posteriormente, o violino apresenta trinados sobre uma delicada textura de flauta e clarinete. As linhas descendentes provenientes dos Tatras reaparecem, e a melodia de Sabała é apresentada em quartas superpostas, passando a dominar o restante do movimento. O finale, um Vivo de caráter despreocupado, assume a forma episódica de um oberek, reafirmando a importância da dança na música de Bacewicz.

Para Joanna Kurkowicz, o Sétimo é a obra mais complexa e sofisticada do álbum — e sua favorita. A violinista destaca sobretudo a imaginação colorística de Bacewicz e o caráter quase surreal do segundo movimento. Essa sofisticação, entretanto, não elimina uma das marcas fundamentais da compositora: energia, rapidez e impulso rítmico. O próprio Fitelberg certa vez perguntou quando ela deixaria de escrever tantas semicolcheias rápidas. A resposta — “esse é o meu estilo” — resume com precisão uma característica essencial de sua linguagem.

Essa energia talvez seja a chave para compreender a unidade do conjunto. Do Primeiro ao Sétimo Concerto, separados por quase três décadas, há uma compositora que muda profundamente sem abandonar sua identidade. O neoclassicismo inicial dá lugar a uma exploração cada vez mais refinada da cor, do ritmo e do folclore, enquanto a experiência do modernismo polonês amplia seu vocabulário. Bacewicz ocupa, assim, uma posição intermediária particularmente fértil entre a neorromântica tradição de Szymanowski e o modernismo de Lutosławski.

O mérito deste registro está justamente em tornar perceptível essa trajetória. Ao reunir três concertos de diferentes fases e a Overture de 1943, a gravação permite ouvir não apenas obras isoladas, mas a evolução de uma personalidade artística. Kurkowicz defende que esses concertos deveriam ocupar um lugar muito mais importante no repertório violinístico internacional, pois permanecem relativamente desconhecidos fora da Polônia. A própria concepção do álbum nasceu dessa convicção.

Grażyna Bacewicz não é apenas uma compositora polonesa a ser redescoberta: é uma compositora cuja música parece pedir para ser ouvida. Sua obra combina rigor e espontaneidade, virtuosismo e lirismo, tradição e modernidade. Há nela uma espécie de movimento permanente — exatamente como naquele “pequeno motor invisível” que a própria Bacewicz dizia carregar dentro de si. Talvez seja essa energia, mais do que qualquer rótulo estilístico, que melhor explique a vitalidade de sua música.

Uma boa apreciação! 

Grazyna Bacewicz (1909-1969) - 

01 - Violin Concerto No. 7 - I. Tempo mutabile
02 - Violin Concerto No. 7 - II. Largo
03 - Violin Concerto No. 7 - III. Allegro
04 - Violin Concerto No. 3 - I. Allegro molto moderato
05 - Violin Concerto No. 3 - II. Andante
06 - Violin Concerto No. 3 - III. Vivo
07 - Violin Concerto No. 1 - I. Allegro
08 - Violin Concerto No. 1 - II. Andante (molto espressivo)
09 - Violin Concerto No. 1 - III. Vivace

Polish Radio Symphony Orchestra
Lukasz Borowicz, regente
Joanna Kurkowicz, violino 

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