quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Ludwig van Beethoven (1770-1827) - Mass in C Major, Op. 86, Vestas feuer, Hess 115 e Meeresstille und glückliche Fahrt, Op. 112

A obra central do álbum é a Missa em Dó maior, composta em 1807 por encomenda do príncipe Nikolaus Esterházy. A tradição de celebrar o dia do nome da princesa Esterházy com uma nova missa havia sido estabelecida na década de 1790 e, durante anos, ficara a cargo de Joseph Haydn. Beethoven recebeu a encomenda em um momento particularmente difícil de sua vida: a surdez já limitava severamente sua atuação como intérprete, enquanto problemas financeiros e familiares também o preocupavam. A obra foi apresentada em Eisenstadt, onde sua recepção pelo príncipe foi fria. Posteriormente, Beethoven dedicou a missa ao príncipe Ferdinand Kinsky.

Apesar das circunstâncias pouco favoráveis de sua estreia, a Missa em Dó maior apresenta uma linguagem marcada pelo brilho, equilíbrio e impulso celebratório. O Kyrie combina os quatro solistas e o coro em uma escrita de caráter simultaneamente lírico e movimentado. O Gloria intensifica essa dimensão festiva, mas interrompe o júbilo no trecho “Qui tollis peccata mundi”, em Fá menor, confiado inicialmente aos solistas antes da entrada do coro. O contraste entre súplica e celebração reaparece ao longo da obra, conferindo ao texto litúrgico uma expressividade essencialmente musical.

O Credo, por sua vez, demonstra a atenção de Beethoven à relação entre palavra e estrutura musical. A mudança para Mi bemol maior em “Et incarnatus est” cria uma alteração significativa de atmosfera, enquanto o “Resurrexit” recebe um desenho melódico ascendente associado ao verbo ascendit. O final do movimento recorre ao tratamento fugado das palavras “et vitam venturi saeculi”. No Sanctus, um Adagio em Lá maior prepara a expansão luminosa de “Pleni sunt coeli”, enquanto o Agnus Dei, iniciado em Dó menor, conduz a música de volta ao Dó maior e faz uma breve referência ao início da missa.

O segundo bloco do programa recupera um episódio menos conhecido da trajetória de Beethoven: Vestas Feuer, projeto operístico desenvolvido em 1803 a partir de um libreto de Emanuel Schikaneder, o mesmo autor ligado a Die Zauberflöte, de Mozart. Schikaneder foi uma figura central do teatro vienense — ator, cantor, escritor e empresário — e chegou a oferecer hospedagem a Beethoven no Theater an der Wien, onde o compositor posteriormente trabalharia em Fidelio. Beethoven, entretanto, não se entusiasmou com o libreto e abandonou o projeto. Das páginas sobreviventes, apenas dois números foram concluídos; um deles acabaria transformado em “O namenlose Freude!” em Fidelio.

O fragmento incluído na gravação concentra-se no conflito entre Volivia e Sartagones, cujo amor é rejeitado inicialmente por Porus, pai da jovem. A cena reúne ciúme, ameaça, reconciliação e, finalmente, perdão. O momento em que Sartagones ameaça tirar a própria vida conduz o drama ao limite, até que Porus abandona sua hostilidade e concede sua bênção aos amantes. A conclusão assume caráter quase ritual, com os personagens invocando os deuses para que protejam a união amorosa.

O programa se encerra com Meeresstille und glückliche Fahrt, de 1815, baseada em dois poemas de Johann Wolfgang von Goethe. A obra contrapõe duas experiências marítimas radicalmente distintas. Em Meeresstille, o mar permanece imóvel, sem vento ou ondas, e a paisagem assume uma atmosfera inquietante, quase mortal. Em Glückliche Fahrt, porém, a neblina se dissipa, o céu clareia e o vento retorna. O movimento do navio transforma a ansiedade em expectativa e culmina na visão da terra.

Essa oposição entre imobilidade e movimento, angústia e libertação oferece uma chave particularmente adequada para compreender o conjunto do álbum. Na missa, Beethoven articula solenidade, súplica e celebração; em Vestas Feuer, explora o conflito dramático e a reconciliação; em Goethe, transforma uma experiência poética em uma poderosa imagem sonora de passagem da tensão à esperança. São diferentes manifestações de uma mesma capacidade de converter palavras e situações em estruturas musicais expressivas.

Mais do que uma reunião circunstancial de obras vocais, o álbum apresenta um retrato de Beethoven como compositor da palavra, do gesto dramático e da transformação. Entre a liturgia da Missa em Dó maior, os conflitos amorosos de Vestas Feuer e o mar que passa da imobilidade ao movimento em Meeresstille und glückliche Fahrt, o compositor revela diferentes faces de uma linguagem que sabe transformar celebração, sofrimento e expectativa em experiência musical.

Uma boa apreciação! 

Ludwig van Beethoven (1770-1827) - 

01. Mass in C Major, Op. 86_ I. Kyrie
02. Mass in C Major, Op. 86_ II. Gloria
03. Mass in C Major, Op. 86_ III. Credo
04. Mass in C Major, Op. 86_ IV. Sanctus
05. Mass in C Major, Op. 86_ V. Agnus Dei
06. Vestas feuer, Hess 115
07. Meeresstille und glückliche Fahrt, Op. 112

Soloists Chorus Cathedralis Aboensis
Turku Philharmonic Orchestra

Leif Segerstam, regente 

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