quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - Three Chamber Symphonies

 

Há algo de particularmente revelador no projeto que reúne três “sinfonias de câmara” de Dmitri Shostakovich (1906–1975) em arranjos de Rudolf Barshai (1924–2010). Em vez de simplesmente ampliar a sonoridade dos quartetos de cordas, Barshai transforma obras concebidas para quatro instrumentistas em peças para conjuntos mais numerosos, revelando dimensões orquestrais que permaneciam implícitas no original. O álbum, lançado pela Naxos, apresenta os arranjos do Primeiro, Oitavo e Quarto Quartetos de Cordas, interpretados pelos Kiev Soloists sob a direção de Dmitry Yablonsky.

A ideia de transcrever os quartetos de Shostakovich para forças maiores não é um episódio isolado. O compositor escreveu ao longo da vida 15 quartetos de cordas, conjunto que se tornou uma das realizações fundamentais da música de câmara do século XX. Quase todos eles acabaram recebendo algum tipo de transcrição para formações ampliadas, e Barshai foi o principal responsável por esse movimento. Violista, integrante do Borodin Quartet entre 1945 e 1953 e fundador da Moscow Chamber Orchestra em 1955, ele manteve uma relação profissional estreita com Shostakovich até a morte do compositor.

O Primeiro Quarteto, escrito entre maio e julho de 1938 e originalmente associado ao subtítulo Spring-time, representa o lado mais luminoso e despretensioso do programa. A transcrição de Barshai, realizada em 1995 para a Orchestra Sinfonica di Milano Giuseppe Verdi e estreada no ano seguinte, preserva a ingenuidade e a economia expressiva da obra, mas permite que elas sejam percebidas em uma superfície sonora mais ampla. O primeiro movimento alterna uma melodia melancólica com um segundo tema de caráter igualmente plaintivo; o segundo assume a forma de uma série de variações sobre uma melodia de sabor folclórico; e o terceiro introduz um scherzo cuja elegância é reforçada por um movimento de barcarola. O finale, mais energético, conduz a obra a uma conclusão decidida.

Se o Primeiro Quarteto revela um Shostakovich mais espontâneo, o Oitavo Quarteto, de 1960, conduz o ouvinte para uma atmosfera completamente diferente. Composto em apenas três dias, enquanto o músico trabalhava em uma trilha para cinema em Dresden, o quarteto nasceu em um período de profundas transformações pessoais e assumiu um caráter marcadamente autobiográfico. Shostakovich introduz na partitura citações de obras anteriores e, sobretudo, o célebre motivo DSCH, construído a partir das letras musicais correspondentes ao seu próprio nome.

Na transcrição, esse caráter confessional ganha uma dimensão quase sinfônica. O primeiro movimento começa com o motivo DSCH em tom sombrio, seguido por uma linha meditativa da viola e uma cantilena dos violinos. A aparente consolação é interrompida pelo retorno do motivo inicial. O segundo movimento irrompe violentamente, com um tema pulsante lançado de um grupo de cordas a outro, enquanto o terceiro transforma o material anterior em um intermezzo inquieto. Depois de uma passagem marcada por dissonâncias, o quarto movimento retorna às sombras iniciais e encaminha a obra para uma conclusão contida, suspensa entre desespero e resignação.

O Quarto Quarteto, composto entre abril e dezembro de 1949, ocupa uma posição particularmente importante no álbum. Escrito em uma época em que grande parte da produção de Shostakovich estava proibida de ser apresentada publicamente, o quarteto só teve sua estreia oficial em Moscou, em dezembro de 1953, pelo Beethoven Quartet. Barshai produziu a transcrição décadas mais tarde, apresentada pela primeira vez em 1990, em uma transmissão radiofônica de Cardiff. Diferentemente dos arranjos do Primeiro e do Oitavo Quartetos, sua versão incorpora, além das cordas, madeiras, corne inglês, duas trompas, trompete, percussão e tímpano.

Essa ampliação altera significativamente a perspectiva da obra. As inflexões judaicas presentes na música do final dos anos 1940 tornam-se particularmente perceptíveis, enquanto o conjunto instrumental ressalta a dimensão sinfônica de uma partitura que, em sua versão original, pode parecer menos monumental que os quartetos que a cercam. O primeiro movimento parte de uma ampla melodia sustentada pelas cordas graves; o segundo apresenta uma das páginas mais comoventes de Shostakovich, inicialmente confiada ao oboé; o terceiro assume a forma de um scherzo discreto, enquanto o finale acumula tensão até uma transformação vigorosa do material temático.

A proposta de Barshai, portanto, não deve ser entendida apenas como uma tentativa de produzir versões “maiores” dos quartetos. Seu trabalho funciona como uma espécie de lente de aumento: a ampliação da formação permite ouvir de outra maneira os contrastes de timbre, as linhas secundárias e os conflitos internos da escrita de Shostakovich. O arranjador conhecia profundamente essa linguagem e sua relação com o compositor ajudou a conferir legitimidade artística a essas novas versões.

A interpretação cabe aos Kiev Soloists, conjunto de câmara sediado na capital ucraniana, formado majoritariamente por jovens músicos e reconhecido por sua atuação tanto na música ocidental quanto no repertório contemporâneo. O grupo mantém vínculos especialmente estreitos com compositores como Krzysztof Penderecki, Valentin Silvestrov e Myroslav Skoryk. À frente do ensemble está Dmitry Yablonsky, violoncelista e regente nascido em Moscou, cuja carreira inclui apresentações em importantes salas internacionais e colaborações com diversas orquestras. Ele é o regente principal dos Kiev Soloists desde 2014.

O resultado é um álbum que propõe uma escuta particularmente interessante de Shostakovich. Entre a delicadeza do Primeiro Quarteto, a dimensão autobiográfica e sombria do Oitavo e a densidade histórica do Quarto, as três obras mostram como a música de câmara do compositor pode assumir novas proporções sem perder sua identidade. Barshai não transforma simplesmente quartetos em pequenas sinfonias: ele revela a dimensão sinfônica que já estava latente dentro deles.

Uma boa apreciação! 

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - 

01 - I. Moderato
02 - II. Moderato
03 - III. Allegro molto
04 - IV. Allegro
05 - I. Largo
06 - II. Allegro molto
07 - III. Allegretto
08 - IV. Largo
09 - V. Largo
10 - I. Allegretto
11 - II. Andantino
12 - III. Allegretto
13 - IV. Allegretto

Kiev Soloists
Dmitry Yablonsky 

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