segunda-feira, 13 de julho de 2026

Francis Poulenc (1899-1963) - Stabat Mater, Karol Szymanowski (1882-1937) - Stabat Mater, Op. 53, Krzysztof Penderecki (1933-2020) - Stabat Mater (Lukas-Passion) etc


"Lançado em 2004, este álbum oferece um instigante panorama de interpretações modernas do Stabat Mater Dolorosa, a célebre sequência litúrgica medieval que, ao longo dos séculos, inspirou alguns dos mais profundos testemunhos musicais da tradição cristã. A gravação integra um ambicioso projeto do maestro Marcello Viotti dedicado à redescoberta de obras sacras do século XX que, embora pouco frequentes nas salas de concerto, ocupam lugar de destaque pela qualidade artística e pela força espiritual.

Realizado em parceria com a Orquestra da Rádio de Munique e o Coro da Rádio da Baviera, no âmbito da série de concertos Paradisi gloria, o álbum reúne quatro abordagens profundamente distintas do mesmo texto litúrgico, assinadas por Francis Poulenc, Karol Szymanowski, Krzysztof Penderecki e Wolfgang Rihm. Mais do que composições destinadas ao uso litúrgico, essas obras podem ser entendidas como manifestações pessoais de fé, nas quais cada compositor projeta sua própria visão da dor, da esperança e da transcendência.

A versão de Francis Poulenc apresenta-se como uma cantata sinfônica de atmosfera austera e profundamente contemplativa. Sua linguagem aproxima-se da densidade dramática de Dialogues des Carmélites, revelando um compositor que alia espiritualidade intensa a uma escrita de notável sobriedade.

Em sentido oposto, Karol Szymanowski oferece uma leitura exuberante do texto, traduzido para o polonês sob o título Stała Matka. Sua escrita, impregnada de lirismo pós-romântico, combina riqueza harmônica e intensa carga emocional, transformando o sofrimento da Virgem em uma experiência sonora de extraordinária intensidade.

A contribuição de Krzysztof Penderecki é mais concisa, mas não menos impactante. Extraído de sua monumental Paixão segundo São Lucas, o trecho preserva a linguagem de vanguarda que tornou essa obra um marco da música sacra do século XX. As texturas corais a cappella, de rigor quase ascético, e a expressividade contida conferem à peça uma força espiritual singular.

Já Wolfgang Rihm apresenta a interpretação mais sintética e concentrada do conjunto. Seu Stabat Mater, retirado da obra Deus Passus, revela uma escrita cromática densa e altamente condensada que, embora pareça à primeira vista a mais distante da tradição, estabelece um diálogo evidente com o universo das Paixões de Johann Sebastian Bach. É uma leitura moderna, mas profundamente enraizada na herança espiritual da música sacra ocidental.

A qualidade da reprodução sonora é satisfatória, preservando a atmosfera das apresentações ao vivo que deram origem à gravação. Ainda assim, a captação poderia oferecer maior nitidez e presença acústica em determinados momentos. Trata-se, contudo, de uma limitação que pouco compromete o valor artístico de um álbum raro e revelador, capaz de demonstrar como um mesmo texto medieval continua a inspirar, séculos depois, algumas das mais profundas reflexões musicais sobre o sofrimento, a fé e a condição humana".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Francis Poulenc (1899-1963) - 

Stabat Mater
01. I. Stabat mater dolorosa. Tres calme (3:48)
02. II. Cujus aninmam gementem. Allegro molto, tres violent (1:05)
03. III. O quam tristis. Tres lent (2:39)
04. IV. Quae moerebat. Andantino (1:28)
05. V. Quis est homo. Allegro molto (1:28)
06. VI. Vidit suum. Andante (3:13)
07. VII. Eja mater. Allegro (1:08)
08. VIII. Fac, ut ardeat. Maestoso (2:22)
09. IX. Santa mater. Moderato (3:24)
10. X. Fac, ut portem. Tempo de Sarabande (3:23)
11. XI. Inflammatus et accensus. Anime et tres rythme (1:52)
12. XII. Quando corpus. Tres calme (4:22)

Karol Szymanowski (1882-1937) - 

 Stabat Mater, Op. 53
13. I. Stabat mater dolorosa. Andante, mesto (6:32)
14. II. Quis es homo. Moderato (2:38)
15. III. O eia mater. Lento, dolcissimo (3:57)
16. IV. Fac me tecum pie fiere. Moderato (2:53)
17. V. Virgo virginum praeclara. Allegro moderato (3:18)
18. VI. Christe, cum sit hinc exire. Andante tranquillissimo (4:19)

Krzysztof Penderecki (b.1933-2020) - 

19. Stabat Mater (Lukas-Passion) (7:36)

Wolfgang Rihm (b.1952-2002)
20. Rihm - Stabat Mater (Deus Passus) (4:35)

Chor des Bayerisvchen Rundfunks
Munchner Rundfunkorchester
Marcello Viotti, regente
Krzysztof Penderecki, regente
Helmuth Rilling, regente
Georgina von Benza, soprano
Violeta Urmana, mezzo-soprano
Iris Vermillion, mezzo-soprano
Birgit Remmert, alto
Fabio Previati, barítono 

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domingo, 12 de julho de 2026

Ludwig Van Beethoven (1770-1827) - The Late String Quartets


"O Quatuor Diotima dedica este novo álbum aos últimos quartetos de cordas de Ludwig van Beethoven, oferecendo interpretações que aliam rigor analítico, clareza sonora e intensa expressividade a algumas das obras mais profundas já escritas para a música de câmara.

Compostos nos derradeiros anos de vida do compositor, esses quartetos representam o ápice de sua maturidade artística. Neles, Beethoven ultrapassa os limites formais de seu tempo para construir um universo musical de extraordinária riqueza, no qual arquitetura, contraponto e emoção se fundem em um discurso de impressionante originalidade. Da majestade solene do Quarteto Op. 127 às variações de caráter quase transcendental do Op. 132, culminando na energia concentrada e no espírito afirmativo do Op. 135, cada partitura revela um compositor que, diante da proximidade da morte, transformou a música em uma reflexão sobre a condição humana.

A interpretação do Quatuor Diotima evidencia com notável sensibilidade cada uma dessas múltiplas camadas. O conjunto faz emergir a complexidade das texturas contrapontísticas sem perder de vista o lirismo que atravessa essas obras, revelando tanto a ousadia inventiva quanto a profunda humanidade que fizeram dos últimos quartetos de Beethoven um dos maiores legados da história da música ocidental.

Reconhecido como um dos mais requisitados grupos de música de câmara da atualidade, o Quatuor Diotima construiu sua identidade artística a partir de um intenso diálogo com a criação contemporânea. Ao longo de sua trajetória, colaborou estreitamente com alguns dos mais importantes compositores da segunda metade do século XX, experiência que lhe permitiu lançar um novo olhar sobre o repertório clássico e moderno. Sob essa perspectiva, os quartetos tardios de Beethoven surgem como obras surpreendentemente atuais, cuja linguagem continua a dialogar com a música de nosso tempo.

Este lançamento marca mais um capítulo da bem-sucedida parceria do conjunto com o selo PENTATONE. Após os elogiados álbuns Metamorphosis Ligeti (2023), Bruckner & Klose: String Quartets (2024), Boulez: Livre pour Quatuor (2025) e, mais recentemente, Lachenmann: Works for String Quartet, lançado no final de 2025, o Quatuor Diotima reafirma sua posição entre os grandes intérpretes do repertório camerístico, oferecendo uma leitura de Beethoven que combina rigor intelectual, refinamento estilístico e uma expressividade profundamente contemporânea".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Ludwig Van Beethoven (1770-1827) - 

01 Beethoven- String Quartet No. 12 in E-Flat Major, Op. 127- I. Maestoso - Allegro
02 Beethoven- String Quartet No. 12 in E-Flat Major, Op. 127- II. Adagio ma non troppo e molto cantabile
03 Beethoven- String Quartet No. 12 in E-Flat Major, Op. 127- III. Scherzando vivace
04 Beethoven- String Quartet No. 12 in E-Flat Major, Op. 127- IV. Finale.
05 Beethoven- String Quartet No. 14 in C-Sharp Minor, Op. 131- I. Adagio ma non troppo e molto espressivo
06 Beethoven- String Quartet No. 14 in C-Sharp Minor, Op. 131- II. Allegro molto vivace
07 Beethoven- String Quartet No. 14 in C-Sharp Minor, Op. 131- III. Allegro moderato
08 Beethoven- String Quartet No. 14 in C-Sharp Minor, Op. 131- IV. Andante ma non troppo e molto cantabile
09 Beethoven- String Quartet No. 14 in C-Sharp Minor, Op. 131- V. Presto
10 Beethoven- String Quartet No. 14 in C-Sharp Minor, Op. 131- VI. Adagio quasi un poco andante
11 Beethoven- String Quartet No. 14 in C-Sharp Minor, Op. 131- VII. Allegro
12 Beethoven- String Quartet No. 15 in A Minor, Op. 132- I. Assai sostenuto - Allegro
13 Beethoven- String Quartet No. 15 in A Minor, Op. 132- II. Allegro ma non tanto
14 Beethoven- String Quartet No. 15 in A Minor, Op. 132- III. Molto adagio – Andante
15 Beethoven- String Quartet No. 15 in A Minor, Op. 132- IV. Alla marcia assai vivace – Più allegro
16 Beethoven- String Quartet No. 15 in A Minor, Op. 132- V. Allegro appassionato
17 Beethoven- String Quartet No. 16 in F Major, Op. 135- I. Allegretto
18 Beethoven- String Quartet No. 16 in F Major, Op. 135- II. Vivace
19 Beethoven- String Quartet No. 16 in F Major, Op. 135- III. Assai lento cantante e tranquillo
20 Beethoven- String Quartet No. 16 in F Major, Op. 135- IV. Der schwer gefasste Entschluss. Grave, ma non troppo tratto — Allegro
21 Beethoven- String Quartet No. 13 in B-Flat Major, Op. 130- I. Adagio ma non troppo — Allegro
22 Beethoven- String Quartet No. 13 in B-Flat Major, Op. 130- II. Presto
23 Beethoven- String Quartet No. 13 in B-Flat Major, Op. 130- III. Poco scherzoso. Andante con moto ma non troppo
24 Beethoven- String Quartet No. 13 in B-Flat Major, Op. 130- IV. Alla danza tedesca. Allegro assai
25 Beethoven- String Quartet No. 13 in B-Flat Major, Op. 130- V. Cavatina. Adagio molto espressivo
26 Beethoven- Overtura - Fuga [Grosse Fuge, Op. 133]
27 Beethoven- String Quartet No. 13 in B-Flat Major, Op. 130- VI. Finale. Allegro

Quatuor Diotima 

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sábado, 11 de julho de 2026

Camille Saint-Saëns (1835-1921) - Samson & Dalila

"Sansão e Dalila (Samson et Dalila) é uma ópera de Camille Saint-Saëns com libreto de Ferdinand Lemaire baseada no relato bíblico de Sansão e Dalila, capítulo 13 do Livro dos Juízes do Velho Testamento. Como refere o texto do Coliseu do Porto, “É a história de um homem que foi forte o suficiente para derrotar os inimigos de Israel, os filisteus, mas não o suficiente para resistir à malícia de uma mulher”. 

Numa praça perto do templo de Dagom, Gaza, os hebreus pedem a Jeová que os liberte da opressão dos filisteus. Sansão encoraja-os a não perderem a fé e resistirem. Surge Abimeleque, o governador dos filisteus, diz-lhes que foram abandonados pelo seu Deus, luta com Sansão desarmado mas este mata-o. Temendo o que se seguirá, os hebreus fogem e abandonam Sansão. O sumo-sacerdote de Dagom amaldiçoa a força de Sansão e decide utilizar Dalila para vencê-la.

Dalila surge do templo e tenta seduzir Sansão, ajudada por outras sacerdotisas. Um ancião hebreu alerta Sansão, em vão, para os perigos de se deixar seduzir por Dalila. No vale de Sorek, Sansão está com Dalila. Chega o sumo-sacerdote que confirma que os hebreus derrotaram os filisteus. Oferece ouro a Dalila pela captura de Sansão mas ela recusa porque apenas se quer vingar, por lealdade aos seus deuses e ódio aos hebreus. Jura descobrir o segredo da sua força sobrenatural.

Depois de uma longa cena de sedução, Sansão afirma o seu amor por Dalila e revela-lhe o segredo. A força está nos cabelos. Ela chama os soldados filisteus que o prendem e cegam. Em Gaza, Sansão, preso e com remorsos por ter traído o povo hebreu que continua em sofrimento às mãos dos filisteus, oferece a sua vida. É levado por um rapaz para o templo de Dagom para uma cerimónia sacrificial comemorativa da vitória dos filisteus. É ridicularizado por todos, incluindo Dalila. Diz ao rapaz que o leve para o local onde estão os dois pilares principais do templo. Pede a Deus para lhe restituir a força e derruba os pilares que, com todo o templo, caem sobre ele e todos os inimigos".

Daqui 

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Camille Saint-Saëns (1835-1921) - 

DISCO 01

01. Dieu! Dieu d'Israël! Ecoute la prière
02. Un jour, de nous tu detournas la face
03. Arretez, ô mes frères!
04. L'as-tu donc oublée, celui dont la puissance
05. Qui donc élève ici la voix
06. C'est toi que sa bouche invective
07. Que vois-je Abimélech!
08. Seigneur! La troupe furieuse
09. Hymne de joie, Hymne de délivrance
10. Voici le printemps nous portant des fleurs
11. Je viens célébrer la victoire
12. Danse des prêtresses de Dagon
13. Printemps qui commence

DISCO 02

01. Prélude
02. Samson, recherchant ma presence
03. J'ai gravi la montagne
04. Qu'importe a Dalila ton or
05. Il faut, pour assouvir ma haine
06. Samson, me disais-tu, dans ces lieux
07. En ces lieux, malgré moi
08. Qu'importe a mon coeur désolé
09. Mon coeur s'ouvre à ta voix
10. Mais!...Non! que dis-je
11. Vois ma misère, hélas! vois ma détresse!
12. L'aube qui blanchit déjà les coteaux
13. Bacchanale
14. Salut! Salut au juge d'Israël
15. Laisse-moi prendre ta main
16. Allons, Samson, divertis-nous
17. Viens, Dalila, rendre grâce à nos dieux
18. Guidez ses pas vers le milieu du temple

London Symphony Chorus
London Symphony Orchestra

Sir Colin Davis, regente

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Maurice Ravel (1875-1937) - Le Tombeau de Couperin, M. 68a, Pavane pour une infante défunte, M. 19a, Introduction et Allegro, M. 46 e Piano Concerto in G Major, M. 83

"O aguardado álbum Ravel: Le Tombeau de Couperin and Concertante Works, lançado em 2026 pelo selo canadense ATMA Classique, reúne alguns dos mais destacados intérpretes da música clássica do Canadá francófono em uma homenagem à genialidade orquestral de Maurice Ravel.

O programa concentra-se em algumas das mais representativas obras sinfônicas e concertantes do compositor francês, revelando a extraordinária sofisticação de sua escrita, marcada por refinamento tímbrico, elegância formal e uma imaginação orquestral sem paralelos. No centro do álbum está Le Tombeau de Couperin, uma das páginas mais emblemáticas de Ravel, na qual o compositor presta tributo à tradição barroca francesa ao mesmo tempo em que imprime sua inconfundível linguagem harmônica e orquestral.

A reunião de importantes músicos da cena clássica franco-canadense confere ao projeto uma identidade artística sólida, combinando excelência técnica e profundo conhecimento estilístico. O resultado é uma interpretação que evidencia tanto a delicadeza quanto o brilho da escrita raveliana, ressaltando o equilíbrio entre clareza, colorido orquestral e requinte expressivo.

Mais do que um simples registro discográfico, este lançamento reafirma a vitalidade da música de Ravel e demonstra como sua obra continua a inspirar novas gerações de intérpretes. Trata-se de uma celebração da arte orquestral francesa em sua forma mais refinada, conduzida por músicos que colocam sua sensibilidade e virtuosismo a serviço de um dos maiores mestres da música do século XX".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

01. Le Tombeau de Couperin, M. 68a: I. Prélude (Version for Orchestra)
02. Le Tombeau de Couperin, M. 68a: II. Fugue (Orch. Kenneth Hesketh)
03. Le Tombeau de Couperin, M. 68a: III. Forlane (Version for Orchestra)
04. Le Tombeau de Couperin, M. 68a: IV. Rigaudon (Version for Orchestra)
05. Le Tombeau de Couperin, M. 68a: V. Menuet (Version for Orchestra)
06. Le Tombeau de Couperin, M. 68a: VI. Toccata (Orch. Kenneth Hesketh)
07. Pavane pour une infante défunte, M. 19a :Pavane for a Dead Princess: (Version for Orchestra)
08. Introduction et Allegro, M. 46 (Version for Orchestra)
09. Piano Concerto in G Major, M. 83: I. Allegramente
10. Piano Concerto in G Major, M. 83: II. Adagio assai
11. Piano Concerto in G Major, M. 83: III. Presto

Orchestre symphonique de Trois-Rivières
Valérie Milot, harpa
Alain Trudel, regente
Élisabeth Pion, piano 

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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Anton Bruckner (1824-1896) - Symphony No. 9 in D minor

 

“Vejam, eu já dediquei sinfonias a duas majestades, ao pobre Rei Luís e ao nosso ilustre Imperador, como a mais alta majestade terrena que reconheço, e agora dedico minha última obra à Majestade de todas as Majestades, ao querido Senhor, e espero que Ele me conceda tempo suficiente para completá-la e aceite misericordiosamente meu presente. Portanto, pretendo introduzir o Aleluia (provavelmente queria dizer Te Deum) do segundo movimento novamente no Finale com toda a força, para que a sinfonia termine com um cântico de louvor ao querido Senhor.” 

Estas foram as palavras de Bruckner ao seu médico, Richard Heller, que simplesmente apagam de forma convincente a tradição fortemente enraizada de executar a Nona Sinfonia como um corpo abrangente de três movimentos, que deveria terminar com aqueles últimos compassos sussurrantes e absolutamente comoventes para trompas e cordas no Adagio, o movimento que tão claramente marca a "Despedida da vida", cujo lema aparece pela primeira vez no compasso 29.

Além do manuscrito do Finale que Bruckner legou à posteridade, suas palavras a Heller também revelam que a Nona Sinfonia não foi concebida apenas sob a perspectiva de um conceito musical. Pelo contrário, a semântica insuperável de Bruckner era guiada pela religião, e ele encomendou sua última obra, no auge de sua capacidade criativa, a Deus . Ele certamente sabia disso, pois moldou o simbolismo em seus gestos artísticos finais.

Deus está presente em toda a Nona Sinfonia, com suas amplas indicações demonstrando a devoção de Bruckner e seu reconhecimento da majestade de Deus, em momentos gloriosos de retrospectiva e despedida, adoração e êxtase, humildade e absolvição, mas também na Última Provação, Dies Irae , e na realidade das sombras da morte que se aproximam, o curso da vida chegando ao seu capítulo final.

Não há dúvida de que o último Adagio de Bruckner contém elementos autobiográficos ancorados em sua forte crença religiosa e, portanto, em sua confiança na misericórdia de Deus diante da morte, uma declaração artística clara e contundente, imersa nas complexidades de progressões harmônicas ambíguas, forte e radicalmente sinfônica, não apenas um refúgio intermitente. O grande coral para tubas e trompas traz a própria descrição de Bruckner: "Adeus à vida", e neste hemisfério esquivo, sem um Finale completo à disposição, não é difícil entender por que a longa tradição de execução confinou a obra-prima de Bruckner aos três primeiros movimentos, com o Adagio como a confirmação conclusiva de que "tudo foi dito".

Daqui 

Anton Bruckner (1824-1896) - 

01. Bruckner: I. Feierlich: Misterioso (24:31)
02. Bruckner: II. Scherzo: Bewegt, lebhaft - Trio. Schnell (10:45)
03. Bruckner: III. Adagio: Langsam, feierlich (22:32)
04. Bruckner: IV. Finale: (Bewegt, doch nicht zu schnell) (21:52)

London Philharmonic Orchestra
Gerd Schaller, regente 

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quinta-feira, 9 de julho de 2026

César Guerra-Peixe (1914-1993) - A retirada da laguna, Violin Concertino e Museu da inconfidência

O compositor César Guerra-Peixe, cuja família possuía ascendência portuguesa, nascido em Petrópolis, no Rio de Janeiro, é um dos nomes mais importantes nomes da música brasileira do século XX. Guerra-Peixe foi um compositor que se debruçou sobre a identidade brasileira. O compositor mergulhou na história, nas danças, nas festas, nas tradições; na história por trás de certos eventos.

Por exemplo, no período em que esteve em Pernambuco, fez pesquisa de campo, viajando pelo interior do estado – e por outras regiões do Nordeste – a fim de compreender as manifestações musicais populares. Estudou os ritmos como o maracatu, o côco, o xangô e o frevo. Sobre o frevo, descobriu que foi trazido para o Brasil por ciganos eslavos e espanhóis, e não por negros africanos, como se intuía até aquele momento.

Neste disco, encontramos três de suas principais composições. A primeira delas é “A Retirada da Laguna”, uma suíte sinfônica, baseada no clássico literário de Visconde de Taunay, que narra um dos episódios mais graves e trágicos da Guerra do Paraguai. O compositor constrói uma obra programática; a música procura narrar uma história literal. Guerra-Peixe se apropria da influência impressionismo de Debussy e Ravel para estruturar cada movimento da obra. O trabalho com as cores orquestrais é belíssimo. Há uma enorme preocupação em descrever a natureza e o clima. A obra foi escrita em 1971.

Em seguida, encontramos o “Violin Concertino”, escrito em 1972. O compositor era violinista de formação. Seu domínio do instrumento era íntimo. Há obra é um casamento entre o erudito e o popular. A maior influência nesta obra é a rabeca do Nordeste brasileiro. Guerra-Peixe transpõe os modos melódicos (escalas nordestinas), os ritmos, as duplas cordas e os timbres rústicos da rabeca para o violino de concerto europeu. A influência neoclássica de Bartók e Stravinsky é perceptível.

E, por último, encontramos a suíte orquestral “Museu da Inconfidência”, cuja preocupação é realizar uma visita sonora ao museu localizado em Ouro Preto, uma das mais importantes cidades históricas do Brasil. O compositor é fortemente influenciado pela música colonial mineira e, por consequência, pelo Barroco mineiro. A atmosfera procura dialogar com a herança afro-brasileira e as tradições dos reisados. É uma das obras mais admiradas e executadas do compositor. Ela funciona como um mosaico de evocações – dos fantasmas do passado, do heroísmo, da opressão, da religiosidade.

Não deixe de ouvir este importante disco. Uma boa apreciação! 

César Guerra-Peixe (1914-1993) - 

01 - A retirada da laguna_ I. Partida para os campos
02 - A retirada da laguna_ II. Pantanais
03 - A retirada da laguna_ III. Alegria em Nioaque
04 - A retirada da laguna_ IV. Laguna
05 - A retirada da laguna_ V. Uma noite calma
06 - A retirada da laguna_ VI. Incêndio, depois o temporal
07 - A retirada da laguna_ VII. Esperança no campo das cruzes
08 - A retirada da laguna_ VIII. A morte do guia Lopes
09 - A retirada da laguna_ IX. Regresso pacífico
10 - A retirada da laguna_ X. Canção à fraternidade universal
11 - Violin Concertino_ I. Allegro comodo
12 - Violin Concertino_ II. Andantino
13 - Violin Concertino_ III. Allegro un poco vivo
14 - Museu da inconfidência_ I. Entrada
15 - Museu da inconfidência_ II. Cadeira de arruar
16 - Museu da inconfidência_ III. Panteão dos inconfidentes
17 - Museu da inconfidência_ IV. Restos de um reinado negro

Goiás Philharmonic Orchestra
Neil Thomson, regente 

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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) - Flute Concerto No. 2 in D Major, K. 314, Flute Concerto No. 1 in G Major, K. 313 e Concerto for Flute and Harp in C Major, K. 299

Talvez, os dois Concertos para flauta e orquestra de Mozart sejam as obras do compositor que mais escutei em minha vida. Trata-se de obras que escutei repetidas vezes quando eu tinha próximo dos meus vinte anos. Recordo-me que eu tinha um CD com os dois concertos. Esse CD ainda está comigo. De vez em quando, ainda o escuto. Consigo distinguir a distância a melodia de cada andamento da música.

Tanto o Concerto No. 1 quanto o No. 2, possuem uma bruma pastoral. Mozart tornou a flauta em instrumento capaz de atingir o divino. São dois dos concertos de que mais gosto na vida. Encomendados pelo cirurgião e flautista amador holandês Ferdinand De Jean, os Concertos N.º 1 em Sol Maior (K. 313) e N.º 2 em Ré Maior (K. 314) - este último, na verdade, uma engenhosa adaptação de seu próprio concerto para oboé - desafiam a suposta aversão do compositor. O que se ouve não é o tédio de um artesão sob contrato, mas a aplicação rigorosa da estética do Aufklärung (o Iluminismo alemão): a busca pela clareza, pelo equilíbrio formal e por uma comunicabilidade que nunca subestima o ouvinte.

Já em 1778, Mozart compôs seu belíssimo Concerto para Flauta e Orquestra. A estreia se deu em Paris. Encomendado pelo Duque de Guînes (flautista) e sua filha (harpista), o concerto une dois instrumentos que Mozart, teoricamente, desdenhava. O resultado, contudo, é a quintessência do Estilo Galante francês: uma obra de texturas diáfanas, sofisticação aristocrática e um fluxo melódico tão generoso que as ideias parecem sobrepor-se umas às outras sem esforço.

Não deixe de ouvir este bonito disco. Uma boa apreciação! 

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) - 

01. Flute Concerto No. 2 in D Major, K. 314 - I. Allegro aperto
02. Flute Concerto No. 2 in D Major, K. 314 - II. Andante ma non troppo
03. Flute Concerto No. 2 in D Major, K. 314 - III. Rondo. Allegretto
04. Flute Concerto No. 1 in G Major, K. 313 - I. Allegro maestoso
05. Flute Concerto No. 1 in G Major, K. 313 - II. Adagio ma non troppo
06. Flute Concerto No. 1 in G Major, K. 313 - III. Rondo. Tempo di menuetto
07. Concerto for Flute and Harp in C Major, K. 299 - I. Allegro
08. Concerto for Flute and Harp in C Major, K. 299 - II. Andantino
09. Concerto for Flute and Harp in C Major, K. 299 - III. Rondeau. Allegro

Kammerorchester Arcata Stuttgart
Patrick Strub, condutor
Raffaele Trevisani, flauta
Luisa Prandina, harpa

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terça-feira, 7 de julho de 2026

François Couperin (1668-1733) - The Complete Organ Masses

"Aqui está a tradução em estilo jornalístico, preservando o caráter informativo do original e ampliando sua fluidez:

James Tibbles é reconhecido como um dos principais intérpretes neozelandeses especializados em instrumentos históricos de teclado. Com uma carreira marcada pela versatilidade, atua como solista, camerista, artista de gravação e maestro, dedicando especial atenção à interpretação historicamente informada do repertório antigo.

Neste álbum, Tibbles volta-se para as obras de juventude para órgão de François Couperin, apresentadas em um instrumento de excepcional importância histórica: o órgão Rozay. Mais do que um raro exemplar sobrevivente da tradição organística francesa do século XVII, o instrumento conserva uma ligação direta com o próprio compositor, que certamente chegou a tocar em seus teclados.

A escolha do órgão confere à gravação uma dimensão histórica particularmente sugestiva. Ouvir essas primeiras composições de Couperin em um instrumento ligado ao ambiente musical que ele conheceu permite uma aproximação privilegiada de seu universo sonoro. Sob as mãos de James Tibbles, essas páginas juvenis ganham nova vida, revelando tanto as raízes da grande tradição francesa para órgão quanto os primeiros sinais da elegância, do refinamento e da personalidade que fariam de Couperin uma das figuras centrais do barroco francês.

Se quiser, posso também adotar nas próximas traduções um estilo mais próximo de crítica de revista especializada, como Gramophone ou BBC Music Magazine".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

François Couperin (1668-1733) - 

DISCO 01

01. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Kyrie: Plein chant du premier Kyrie en taille
02. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Kyrie: Fugue sur les jeux d'anches
03. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Kyrie: Recit de chromhorne
04. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Kyrie: Dialogue sur la trompette et le chromhorne
05. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Kyrie: Plein chant
06. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Gloria: Plein chant. Et in terra pax
07. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Gloria: Petite fugue sur le chromhorne
08. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Gloria: Duo sur les tierces
09. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Gloria: Dialogue sur les trompettes, clairon et tierces du grand
10. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Gloria: Trio a dessus de chromhorne et la basse de tierce
11. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Gloria: Tierce en taille
12. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Gloria: Dialogue sur la voix humaine
13. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Gloria: Dialogue en trio du cornet et de la tierce
14. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Gloria: Dialogue sur les grands jeux
15. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Offertoire sur les grands jeux
16. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Sanctus: Plein chant du premier Sanctus en Canon
17. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Sanctus: Recit de cornet
18. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Benedictus: Chromhorne en taille
19. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Agnus Dei: Plein chant de l'Agnus Dei en basse et en taille alter
20. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Agnus Dei: Dialogue sur les grands jeux
21. Messe a l'usage ordinaire des paroisses (Mass for the Parishes): Deo Gratias

DISCO 02

01. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Kyrie: Plein jeu
02. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Kyrie: Fugue sur la trompette
03. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Kyrie: Recit de chromhorne
04. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Kyrie: Trio a dessus de chromhorne et la basse
05. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Kyrie: Dialogue sur la trompette du grand clav
06. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Gloria: Plein jeu
07. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Gloria: Petite fugue sur le chromhorne
08. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Gloria: Duo sur les tierces
09. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Gloria: Basse de trompette
10. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Gloria: Chromhorne sur la taille
11. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Gloria: Dialogue sur la voix humaine
12. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Gloria: Trio. Les dessus sur la tierce et la b
13. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Gloria: Recit de tierce
14. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Gloria: Dialogue sur les grands jeux
15. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Offertoire sur les grands jeux
16. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Sanctus: Premier couplet du Sanctus
17. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Sanctus: Recit de cornet
18. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Elevation: Tierce en taille
19. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Agnus Dei
20. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Agnus Dei: Dialogue sur les grands jeux
21. Messe propre pour les convents de religieux et religieuses (Mass for the Convents): Deo Gratias

James Tibbles, órgão 

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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Daniel-François-Esprit Auber (1782-1871) - Overtures, Vol. 3

 

"Embora tenha sido um dos compositores franceses mais populares do século XIX, Daniel-François-Esprit Auber permanece hoje como uma presença rara nos palcos operísticos. Sua música, outrora celebrada em toda a Europa, passou a ocupar uma posição injustamente periférica no repertório. Esta série discográfica procura corrigir parte desse esquecimento, recuperando aberturas e excertos orquestrais de suas óperas e revelando um vasto universo de música elegante, refinada e historicamente fundamental para a evolução do teatro lírico francês.

Entre os destaques deste volume está a abertura de La Muette de Portici, obra-prima revolucionária de Auber e um dos títulos mais importantes de sua carreira. Nela, a energia dramática e o brilho orquestral demonstram a capacidade do compositor de transformar a abertura operística em verdadeiro prelúdio teatral, preparando o público para a intensidade dos acontecimentos que se desenrolariam no palco.

O álbum apresenta ainda primeiras gravações mundiais de páginas extraídas de La Barcarolle e Les Chaperons blancs. Essas obras revelam duas qualidades essenciais da arte de Auber: de um lado, a habilidade para construir situações de grande impacto dramático; de outro, o charme melódico, a leveza e a elegância que atravessam toda a sua produção da maturidade.

Ao recuperar esse repertório, a série oferece mais do que simples curiosidades históricas. Ela permite redescobrir um compositor cuja influência sobre a ópera francesa do século XIX foi profunda e cuja música conserva uma surpreendente vitalidade. Entre brilho teatral, refinamento orquestral e irresistível fluência melódica, Auber emerge como uma figura decisiva da história da ópera europeia — e como um autor cuja obra merece, definitivamente, retornar aos palcos e às salas de concerto".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Daniel-François-Esprit Auber (1782-1871) -

01. Grande Ouverture pour l'Inauguration de l'Exposition à Londres

La Barcarolle, ou L'Amour et la Musique, S. 38
02. Overture
03. Act II: Entr'acte
04. Act III: Air de danse

Les Chaperons Blancs, S. 27
05. Overture
06. Act II: Entr'acte
07. Act III: Entr'acte

Lestocq, ou L'Intrigue et l'Amour, S. 24
08. Overture
09. Act II: Entr'acte
La muette de Portici, S. 16
10. La Overture

Rêve d'Amour, S. 51
11. Overture
12. Act III: Entr'acte
Le Serment, ou Les Faux Monnayeurs, S. 22
13. Overture

Moravian Philharmonic Orchestra
Dario Salvi, regente 

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Georg Philipp Telemann (1683-1767) - Violin Sontas (Frankfurt 1715)



Geralmente, quando nos propomos a falar sobre o Barroco, lembramos os nomes inescapáveis de Bach, Handel e Vivaldi. Bach pela engenhosidade da arquitetura matemática das composições; Handel pela dramaticidade operística de suas composições; Vivaldi pelo dinamismo e virtuosismo da escrita. Esquecemo-nos do gênio alemão de Georg Philipp Telemann, um dos compositores mais prolíficos da história da música; alguém que teve um enorme sucesso no período em que viveu.

Não se deve omitir o fato de que Telemann foi o compositor mais famoso e bem-sucedido de seu tempo. Enquanto Bach lutava contra as autoridades locais em Leipzig por melhores condições de trabalho, Telemann, em Hamburgo, ditava os rumos da vida cultural europeia. Ele não era apenas um compositor de corte ou de igreja; era um homem de negócios visionário que fundou periódicos musicais e organizou concertos públicos, democratizando o acesso à música que antes era restrito à aristocracia.

Além de exímio gestor cultural, Telemann destacava-se pela sua escrita. Telemann foi o grande mestre do chamado "estilo misto". Com uma sensibilidade aguçada e uma ausência total de preconceitos estéticos, ele fundiu a vivacidade e a clareza da tradição italiana, a elegância e a precisão da dança francesa, o rigor contrapontístico germânico e, de forma surpreendente, o exotismo rítmico da música folclórica polonesa, que conheceu em suas viagens.

O resultado dessa amálgama não foi uma colcha de retalhos, mas uma linguagem inteiramente nova. Suas obras - desde a monumental Musique de Table (Tafelmusik) até os seus concertos para instrumentos pouco usuais para a época, como a viola e a flauta doce - transbordam uma leveza e uma espontaneidade que já apontavam diretamente para o Estilo Galante e o Classicismo de Haydn e Mozart. Telemann percebeu, antes de todos, que a música precisava respirar, libertando-se ocasionalmente da densidade quase sufocante do contraponto estrito para dialogar mais de perto com o ouvinte.

É, por isso, que suas composições soam tão agradáveis. Telemann era um visionário, alguém atento ao espírito do seu tempo; que parecia antever o que viria pela frente em matéria de produção estética.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Georg Philipp Telemann (1683-1767) - 

01 - Stefan Schardt - Sonata I in G Minor, TWV 41-g1- I. Adagio
02 - Stefan Schardt - Sonata I in G Minor, TWV 41-g1- II. Allegro
03 - Stefan Schardt - Sonata I in G Minor, TWV 41-g1- III. Adagio
04 - Stefan Schardt - Sonata I in G Minor, TWV 41-g1- IV. Vivace
05 - Stefan Schardt - Sonata II in D Major, TWV 41-D1- I. Allemanda. Lar
06 - Stefan Schardt - Sonata II in D Major, TWV 41-D1- II. Corrente. Viv
07 - Stefan Schardt - Sonata II in D Major, TWV 41-D1- III. Sarabanda
08 - Stefan Schardt - Sonata II in D Major, TWV 41-D1- IV. Gigue
09 - Stefan Schardt - Sonata III in B Minor, TWV 41-h1- I. Cantabile
10 - Stefan Schardt - Sonata III in B Minor, TWV 41-h1- II. Allegro assa
11 - Stefan Schardt - Sonata III in B Minor, TWV 41-h1- III. Andante
12 - Stefan Schardt - Sonata III in B Minor, TWV 41-h1- IV. Vivace
13 - Stefan Schardt - Sonata IV in G Major, TWV 41-G1- I. Largo
14 - Stefan Schardt - Sonata IV in G Major, TWV 41-G1- II. Allegro
15 - Stefan Schardt - Sonata IV in G Major, TWV 41-G1- III. Adagio
16 - Stefan Schardt - Sonata IV in G Major, TWV 41-G1- IV. Allegro
17 - Stefan Schardt - Sonata V in A Minor, TWV 41-a1- I. Allemanda. Larg
18 - Stefan Schardt - Sonata V in A Minor, TWV 41-a1- II. Corrente. Viva
19 - Stefan Schardt - Sonata V in A Minor, TWV 41-a1- III. Sarabanda
20 - Stefan Schardt - Sonata V in A Minor, TWV 41-a1- IV. Giga
21 - Stefan Schardt - Sonata VI in A Major, TWV 41-a1- I. Allemanda. Lar
22 - Stefan Schardt - Sonata VI in A Major, TWV 41-a1- II. Corrente. All
23 - Stefan Schardt - Sonata VI in A Major, TWV 41-a1- III. Sarabanda
24 - Stefan Schardt - Sonata VI in A Major, TWV 41-a1- IV. Giga
25 - Stefan Schardt - Der getreue Music-Meister, Suite for Violin and Ba
26 - Stefan Schardt - Der getreue Music-Meister, Suite for Violin and Ba
27 - Stefan Schardt - Der getreue Music-Meister, Suite for Violin and Ba
28 - Stefan Schardt - Der getreue Music-Meister, Suite for Violin and Ba
29 - Stefan Schardt - Der getreue Music-Meister, Suite for Violin and Ba
30 - Stefan Schardt - Der getreue Music-Meister, Suite for Violin and Ba

Stephan Schardt, violino
Elisabeth Wand, violoncelo
Sonja Kemnitzer, cravo 

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domingo, 5 de julho de 2026

Jean Sibelius (1865-1957) - The 7 Symphonies

"O maestro Jukka-Pekka Saraste mantém, ao longo de toda a sua carreira, uma relação profunda e duradoura com as sinfonias de Jean Sibelius. Durante décadas, levou esse repertório às salas de concerto de diferentes partes do mundo, consolidando uma interpretação amadurecida pelo tempo e pela convivência contínua com o universo musical do compositor finlandês.

Agora, trinta e cinco anos depois de sua primeira gravação da integral do ciclo sinfônico, Saraste retorna às sinfonias de Sibelius em uma parceria carregada de significado histórico: à frente da Orquestra Filarmônica de Helsinque, conjunto intimamente ligado à trajetória do compositor.

A escolha da orquestra confere ao projeto uma dimensão especial. Foi com os músicos dessa tradição orquestral que o próprio Sibelius esteve envolvido nas primeiras apresentações de suas sinfonias, estabelecendo uma ligação histórica entre compositor, intérpretes e repertório que atravessa gerações.

Este novo ciclo representa, assim, mais do que um retorno discográfico. É o reencontro de Saraste com obras que o acompanharam durante grande parte de sua vida artística, agora revisitadas à luz de décadas de experiência e em colaboração com uma orquestra que ocupa lugar privilegiado na história da música finlandesa".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Jean Sibelius (1865-1957) -

01. Symphony No. 1 in E minor, Op. 39 (1899/1900): I. Andante, ma non troppo – Allegro energico (10:52)
02. Symphony No. 1 in E minor, Op. 39 (1899/1900): II. Andante (ma non troppo) (8:49)
03. Symphony No. 1 in E minor, Op. 39 (1899/1900): III. Scherzo. Allegro (5:08)
04. Symphony No. 1 in E minor, Op. 39 (1899/1900): IV. Finale (Quasi una Fantasia): Andante – Allegro molto (12:26)
05. Symphony No. 4 in A minor, Op. 63 (1911): I. Tempo molto moderato, quasi adagio (9:11)
06. Symphony No. 4 in A minor, Op. 63 (1911): II. Allegro molto vivace (4:51)
07. Symphony No. 4 in A minor, Op. 63 (1911): III. Il tempo largo (8:55)
08. Symphony No. 4 in A minor, Op. 63 (1911): IV. Allegro (9:46)
09. Symphony No. 2 in D major, Op. 43 (1902/1903): I. Allegretto (9:13)
10. Symphony No. 2 in D major, Op. 43 (1902/1903): II. Tempo andante, ma rubato (13:13)
11. Symphony No. 2 in D major, Op. 43 (1902/1903): III. Vivacissimo (5:46)
12. Symphony No. 2 in D major, Op. 43 (1902/1903): IV. Finale. Allegro moderato (13:23)
13. Symphony No. 5 in E flat major, Op. 82 (1915/1916/1919): I. Tempo molto moderato – Allegro moderato (ma poco a poco stretto) (13:18)
14. Symphony No. 5 in E flat major, Op. 82 (1915/1916/1919): II. Andante mosso, quasi allegretto (8:20)
15. Symphony No. 5 in E flat major, Op. 82 (1915/1916/1919): III. Allegro molto (9:16)
16. Symphony No. 3 in C major, Op. 52 (1907): I. Allegro moderato (9:42)
17. Symphony No. 3 in C major, Op. 52 (1907): II. Andantino con moto, quasi allegretto (8:46)
18. Symphony No. 3 in C major, Op. 52 (1907): III. Moderato – Allegro (ma non tanto) (8:44)
19. Symphony No. 6 in D minor, Op. 104 (1923): I. Allegro molto moderato (8:57)
20. Symphony No. 6 in D minor, Op. 104 (1923): II. Allegretto moderato (6:04)
21. Symphony No. 6 in D minor, Op. 104 (1923): III. Poco vivace (3:48)
22. Symphony No. 6 in D minor, Op. 104 (1923): IV. Allegro molto (10:06)
23. Symphony No. 7 in C major, Op. 105 (1924) (19:59)

Helsinki Philharmonic Orchestra
Jukka-Pekka Saraste, regente

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sábado, 4 de julho de 2026

Hector Berlioz (1803-1869) - Symphonie fantastique, Op. 14, H. 48

A Sinfonia Fantástica, Op. 14 (Symphonie Fantastique), que apareceu nesta lista, foi composta em 1830 pelo francês Hector Berlioz. Ao que me consta, é sua obra mais conhecida e uma das sinfonias mais importantes de todo o repertório.

O nome "Fantástica" não é no sentido de "olha que sinfonia fantástica", mas no sentido de que é uma grande fantasia. É uma obra programática, isto é, conta uma história. Observem.

São momentos na vida de um jovem artista, que, a certa altura, aparentemente rejeitado por sua amada, resolve se matar com uma dose monumental de ópio. Acontece que ele não morre, mas entra numa alucinação profunda. Os movimentos, que vão contando a história, são:

1. Rêveries - Passions ("Devaneios - Paixões") - O artista vê uma moça e imediatamente se apaixona. Ela surge na forma de um tema que irá se repetir por toda a obra: a ideia fixa. O movimento é composto por alternâncias entre esse amor desesperado e outros estados de espírito, como alegria, exaltação, raiva, ciúme.

2. Un Bal ("Um Baile") - Ele se vê em vários momentos da sua vida: num baile confuso, contemplando a natureza etc. Mas, qualquer que seja a situação, aparece o pensamento intrusivo da mulher, que o atormenta. Esse movimento é uma valsa superagradável. Algumas gravações da sinfonia incluem uma seção com solo de corneta, que Berlioz acrescentou posteriormente.

3. Scène aux Champs (Cena no Campo) - Ele está numa noite no campo e algo lhe chama a atenção: dois pastores (no bom sentido) tocam o Ranz des Vaches, uma melodia tocada numa espécie de trompa para tanger o gado. Um toca aqui, o outro responde à distância. Esse dueto o faz ter o palpite de que ele também não andará mais só. Mas então vem a pergunta: e se ela for infiel? Essa dúvida vira uma tormenta. O movimento termina com o Ranz des Vaches novamente, mas, desta vez, só um toca, o outro não mais responde. Um grande professor que eu tive, Germán, me fez perceber a orquestração desse movimento. Para ele, no aspecto de orquestração, o romantismo se consolidou aqui. Isso porque as madeiras (flautas, oboés, cornes-ingleses, clarinetes, fagotes) têm importância maior que as cordas aqui. De fato, até então as cordas dominavam, os sopros servindo apenas para lhes dar suporte ou para fazer frases curtas. Nesse movimento, o toque dos pastores é feito no corne-inglês e no oboé. E a ideia fixa aparece no oboé e na flauta.

4. Marche au Supplice ("Marcha ao Suplício") - É aqui que ele, achando que ela não o queria, resolve tomar ópio em dose mortal. Mas ele não morre, caindo, em vez disso, num sono cheio de visões e premonições. É um sonho terrível: possuído pelo ciúme, ele mata a amada e é condenado à morte. Ele assiste à própria execução. No delírio, seu último pensamento é nela, representada, como sempre, pela ideia fixa, que aparece tocada no clarinete.

5. Songe d'une Nuit du Sabbat (Sonho de uma Noite de Sabá) - Ele sonha que seu funeral é um sabá (encontro diabólico de feiticeiras), ao qual comparecem monstros e demônios. Em meio a risadas grotescas, grunhidos e gritos, ele ouve, uma vez mais, a ideia fixa, mas agora ela está destituída de qualquer charme, transformada em uma "música de dança vulgar". Nesse movimento, ouvimos o Dies Irae, um cantochão medieval ameaçador que costuma ser evocado por compositores quando estes querem falar de morte.

Obra extremamente madura para um compositor de 27 anos, ela inaugura a escrita sinfônica francesa de forma brilhante (Berlioz era um exímio orquestrador). A estrutura cíclica da peça, em que cada movimento tem relação com os outros, é realizada de maneira impecável.

Daqui

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Hector Berlioz (1803-1869) - 

01. Symphonie fantastique, Op. 14 - I. Reveries — Passions (Largo — Allegro agitato e appassionato assai)
02. Symphonie fantastique, Op. 14 - II. A Ball (Allegro non troppo)
03. Symphonie fantastique, Op. 14 - III. In the Country (Adagio)
04. Symphonie fantastique, Op. 14 - IV. March to the Scaffold (Allegretto non troppo)
05. Symphonie fantastique, Op. 14 - V. Dream of the Witches' Sabbath (Larghetto — Allegro)

The Cleveland Orchestra
Welser-Möst, regente 

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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - The Cello Concertos


Após uma década de trabalho contínuo, Andris Nelsons e a Orquestra Sinfônica de Boston encerram seu premiado projeto dedicado a Dmitri Shostakovich com a apresentação da aclamada integral das sinfonias do compositor. Gravado na excepcional acústica da Symphony Hall de Boston, o ciclo beneficia-se de uma qualidade sonora de altíssimo nível, capaz de revelar com extraordinária nitidez a riqueza orquestral e a complexidade expressiva da escrita shostakovichiana.

O álbum traz ainda a participação especial de Yo-Yo Ma, que oferece interpretações inspiradas dos dois Concertos para Violoncelo, obras que figuram entre as mais importantes do repertório do instrumento. O Primeiro Concerto, de notável inventividade, foi composto para Mstislav Rostropovich, amigo próximo do compositor e destinatário de uma partitura célebre por suas enormes exigências técnicas e expressivas. A obra também ocupa um lugar especial na trajetória artística de Yo-Yo Ma, tendo representado um dos primeiros marcos de sua carreira internacional.

Em contraste, o Segundo Concerto para Violoncelo revela um Shostakovich muito mais introspectivo e contemplativo. Escrito como uma espécie de presente que o compositor ofereceu a si próprio por ocasião de seu sexagésimo aniversário, a partitura abandona o ímpeto virtuosístico do concerto anterior para mergulhar em uma atmosfera de reflexão, melancolia e profunda humanidade.

Combinando a visão interpretativa de Andris Nelsons, a excelência da Sinfônica de Boston e a extraordinária musicalidade de Yo-Yo Ma, este lançamento constitui o ponto culminante de um dos mais importantes projetos discográficos dedicados à obra de Shostakovich nas últimas décadas. O resultado é um registro que alia rigor artístico, intensidade emocional e excelência técnica, reafirmando a permanente atualidade da música de um dos grandes sinfonistas do século XX.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - 

01 I. Allegretto
02 II. Moderato
03 III. Cadenza
04 IV. Allegro Con Moto
05 I. Largo
06 II. Scherzo. Allegretto
07 III. Finale. Allegretto

Boston Symphony Orchestra
Andris Nelsons, regente
Yo-Yo Ma, violoncelo 

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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Daniel-François-Esprit Auber (1782-1871) - Overtures, vol. 2

O segundo volume desta série prossegue na redescoberta de páginas pouco conhecidas do refinado universo operístico de Daniel-François-Esprit Auber, um dos grandes mestres da ópera francesa do século XIX. A seleção revela um compositor de extraordinária elegância melódica e notável sensibilidade dramática, cuja produção ainda reserva inúmeras joias à espera de um público mais amplo.

Julie, sua primeira obra destinada aos palcos, já anuncia muitas das qualidades que marcariam sua carreira. Sua beleza quase fantasiosa antecipa o estilo que floresceria nas óperas, opéras-comiques e dramas líricos compostos nas décadas seguintes, revelando um jovem compositor de imaginação fértil e refinado senso teatral.

As aberturas e entr’actes reunidos neste álbum são permeados por melodias cativantes e episódios de delicada atmosfera evocativa, evidenciando a habilidade de Auber em construir narrativas musicais de grande charme e fluidez. Entre os destaques figura a abertura de Léocadie, na qual o compositor introduz discretos matizes ibéricos, explorados com elegância e sutileza, sem jamais comprometer a leveza característica de sua escrita.

O programa inclui ainda o Concerto para Violino, obra de instrumentação transparente e delicada, que privilegia a cantabilidade do solista em vez do virtuosismo ostensivo. Seu movimento final, inspirado no ritmo vibrante da tarantela, encerra a partitura com irresistível energia e um sabor popular que confere frescor e espontaneidade à obra.

Mais do que ampliar o conhecimento sobre um compositor frequentemente lembrado apenas por algumas de suas óperas mais célebres, este lançamento reafirma a riqueza e a sofisticação da produção de Auber, revelando uma música de refinamento melódico, elegância formal e irresistível apelo teatral.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Daniel-François-Esprit Auber (1782-1871) - 

01. Le concert à la cour, ou La débutante, S. 11: Overture

Violin Concerto in D Major, S. 165
02. I. Allegro ma non troppo
03. II. Andante
04. III. Presto

Fiorella, S. 15
05. Overture
06. Act III: Entr'acte

Julie, ou L'erreur d'un moment, S. 1
07. Overture
08. Finale

Lestocq, ou L'Intrigue et l'Amour, S. 24
09. Act III: Entr'acte

Léocadie, S. 12
10. Overture
11. Act II: Entr'acte
12. Act III: Entr'acte

Couvin, ou Jean de Chimay, S. 2
13. Act I: Introduction
14. Act II: Introduction

La fiancée, S. 17
15. Act III: Entr'acte

Czech Chamber Philharmonic Orchestra Pardubice
Dario Salvi, regente
Markéta Čepická, violino 

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Camille Saint-Säens (1835-1921) - Piano Concerto No. 2 in G Minor, Op. 22, R. 190 e Robert Schumann (1810-1856) - Piano Concerto in A Minor, Op. 54

 

Camille Saint-Säens foi um compositor com muitas habilidades. Aliás, não era unicamente um compositor. Era considerado um polímata, ou seja, adjetivo que se dá àquelas pessoas que possuem múltiplas habilidades. Saint-Säens, além de compositor, gostava de astronomia, filosofia e arqueologia. Chegou a escrever livros de crítica literária. Menino prodígio, aos dois anos, já estudava piano; aos dez, apresentou-se tocando Beethoven. Outra questão interessante é que o compositor viveu bastante.

Nasceu em 1835, ou seja, em uma época em que Mendelssohn e Chopin ainda estavam vivos. Conviveu com Liszt, que o denominava como o maior organista do mundo. Ele era um virtuose do instrumento. Sua produção é vasta e variada, pois, ao longo da prolífica carreira, pôde inovar e experimentar.

Um exemplo são os concertos para piano. O compositor escreveu cinco. O Concerto No. 2, escrito em 1868, é um dos mais famosos – senão o mais famoso. Composto em menos de três semanas para uma apresentação em Paris, na qual o próprio compositor seria o solista, o Concerto Nº 2 tornou-se uma das obras mais célebres do repertório pianístico justamente por desafiar convenções. Em vez de abrir com uma exposição orquestral grandiosa, Saint-Saëns inicia sozinho ao piano, numa introdução livre que lembra uma improvisação sobre um órgão barroco. Não por acaso, muitos ouvintes pensam imediatamente em Johann Sebastian Bach ao ouvir os primeiros compassos.

A abertura solene é contrastada pelo segundo movimento que exibe uma elegância cheia de espírito, ou seja, um aceno quase mozartiano. E o terceiro movimento é tomado por uma enxurrada de arpejos complexos. Há uma oscilação da gravidade, da solenidade, ao humor. É atribuída ao pianista e maestro Anton Rubinstein a seguinte frase: o Segundo Concerto de Saint-Säens “começa como Bach e termina como Offenbach”. Ou seja, a frase apesar de carregar o chiste, captura muito bem o espírito da obra.

Enquanto o Concerto de Saint-Säens é caudaloso, Schumann opta pelo diálogo poético entre o piano e a orquestra. Não há no Concerto apenas a preocupação com virtuosismo. Schumann procura retratar a planícies interiores do artista. Seu Concerto em Lá menor parece menos interessado em impressionar pela velocidade ou pela força do que em revelar emoções contraditórias: entusiasmo e melancolia, esperança e inquietação, serenidade e paixão.

Schumann iniciou a escrita do seu famoso Concerto para piano em 1841 e concluiu quatro anos mais tarde. Inicialmente, a ideia era escrever uma fantasia para piano e orquestra em homenagem à Clara Wieck, sua companheira. A peça acabou ganhando contornos mais amplos, tornando-se em um dos mais bonitos e importantes concertos para piano da história. Ele se destaca pelo lirismo, pela reflexão profunda, pela sensibilidade emocional e pela evocação de uma paisagem interior. Há uma cumplicidade orgânica entre piano e orquestra, o que o torna bem diferente de outros concertos para o instrumento, cuja preocupação era com a forma e com o virtuosismo.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

01 - Piano Concerto No. 2 in G Minor, Op. 22, R. 190_ I. Andante sostenuto
02 - Piano Concerto No. 2 in G Minor, Op. 22, R. 190_ II. Scherzando
03 - Piano Concerto No. 2 in G Minor, Op. 22, R. 190_ III. Presto
04 - Piano Concerto in A Minor, Op. 54_ I. Allegro affettuoso
05 - Piano Concerto in A Minor, Op. 54_ II. Intermezzo. Andantino
06 - Piano Concerto in A Minor, Op. 54_ III. Allegro vivace

London Philharmonic Orchestra
Bryden Thmson, regente
Israela Margalit, piano 

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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Gustav Mahler (1860-1911) - Das Lied von der Erde

Das Lied von der Erde é uma dessas obras-primas cuja grandeza parece desafiar constantemente as gravações. Sua atmosfera ao mesmo tempo espectral e profundamente evocativa resiste, com impressionante frequência, às tentativas de ser plenamente capturada em estúdio. Não existem versões verdadeiramente insatisfatórias, mas apenas duas ou três gravações às quais se retorna repetidamente com a certeza de reencontrar a mesma emoção que a obra costuma despertar na sala de concertos. Infelizmente, esta nova interpretação não chega a integrar esse grupo seleto.

Isso não significa, contudo, que se trate de uma gravação menor. Ao contrário, ela confirma o elevado padrão artístico do ciclo Mahler realizado pela Orquestra da Rádio de Frankfurt sob a direção de Eliahu Inbal. A engenharia de som é praticamente irrepreensível: o equilíbrio entre as seções da orquestra é exemplar, nenhum detalhe da textura instrumental recebe destaque excessivo e, ainda assim, toda a riqueza da partitura permanece perfeitamente audível. A execução orquestral é de altíssimo nível, embora o timbre do oboé não esteja entre os mais sedutores, e Inbal demonstra um conhecimento profundo da obra.

Ainda assim, em seu evidente cuidado para evitar qualquer sentimentalismo excessivo — risco sempre presente em uma partitura tão carregada de emoção —, o maestro acaba sacrificando parte da ternura, da dor e da pungência que constituem o núcleo expressivo da obra. Sua leitura possui maior densidade emocional do que a famosa gravação de Georg Solti para a Decca, mas permanece distante da intensidade alcançada por duas referências históricas: o registro incomparável de Bruno Walter com Kathleen Ferrier e Julius Patzak, também para a Decca, e a interpretação austera, porém devastadoramente comovente, conduzida por Otto Klemperer para a EMI.

Peter Schreier oferece, por sua vez, aquela que talvez seja a mais convincente interpretação das canções destinadas ao tenor desde a lendária gravação de Fritz Wunderlich sob a regência de Klemperer. Embora sua voz esteja longe do perfil de um Heldentenor, ela projeta-se com segurança sobre a orquestra no primeiro movimento — ainda que permaneça a dúvida sobre como esse equilíbrio se sustentaria em uma apresentação ao vivo. Sua dicção é exemplar, revelando uma clareza textual rara. Curiosamente, é no quinto movimento que sua emissão parece encontrar maiores dificuldades, como se a escrita vocal levasse o cantor aos limites de seus recursos.

A mezzo-soprano holandesa Jard van Nes, por sua vez, ainda não pode ser colocada ao lado das grandes intérpretes dessa obra. Sua pronúncia do alemão revela certa irregularidade, comprometendo parcialmente a força poética do texto — elemento inseparável da expressividade de Das Lied von der Erde. Embora cante frequentemente com beleza e precisão, sua abordagem transmite mais a impressão de um exercício de refinamento vocal do que de uma verdadeira imersão no universo emocional concebido por Mahler.

Em uma obra como esta, momentos decisivos dependem de algo que transcende a mera perfeição técnica. Quando a frase “Still ist mein Herz und harret seiner Stunde!” não provoca aquele arrepio quase inevitável, é sinal de que o intérprete ainda não alcançou plenamente o centro espiritual da partitura. Há motivos para acreditar que Jard van Nes venha a atingir esse grau de compreensão artística no futuro. Por ora, ela canta as notas — e o faz com admirável exatidão —, mas ainda permanece a certa distância da dimensão existencial que torna Das Lied von der Erde uma das mais profundas meditações musicais sobre a vida, a despedida e a eternidade.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Gustav Mahler (1860-1911) - 

01. I. Das Trinklied vom Jammer der Erde [0:08:22.60]
02. II. Der Einsame im Herbst [0:09:36.26]
03. III. Von der Jugend [0:03:16.93]
04. IV. Von der Schönheit [0:07:20.44]
05. V. Der Trunkene im Frühling [0:04:28.29]
06. VI. Der Abschied [0:28:36.40]

Frankfurt Radio Symphony Orchestra
Eliahu Inbal, regente
Peter Schreier, tenor
Jard van Nes, mezzo-soprano 

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terça-feira, 30 de junho de 2026

Antonio Vivaldi (1678-1741) - Argippo, RV 697 / Act 1: "Se lento ancora il fulmine", Orlando furioso, RV 728: "Sol da te, mio dolce amore", Il Giustino, RV 717 / Act 2: "Vedrò con mio diletto" etc

 

Vinte anos depois de seu célebre Vivaldi Album contribuir decisivamente para reacender o interesse pelas extraordinárias óperas de Antonio Vivaldi, Cecilia Bartoli retorna ao universo operístico do compositor em um novo registro de impressionante maturidade artística. Ao lado do Ensemble Matheus e sob a direção de Jean-Christophe Spinosi, a mezzo-soprano italiana volta a enfrentar as vertiginosas exigências vocais desse repertório com uma técnica que permanece absolutamente admirável.

Se o virtuosismo continua intacto, a passagem do tempo acrescentou um novo elemento à sua arte. Sua voz amadureceu como um grande vinho, adquirindo uma riqueza tímbrica, uma profundidade expressiva e um calor interpretativo que conferem nova dimensão a essas páginas de brilho extraordinário.

Mais do que uma simples coletânea de árias, o álbum constitui um panorama valioso da produção operística de Vivaldi, revelando a impressionante inventividade teatral de um compositor cuja criação para os palcos permaneceu injustamente esquecida durante séculos. Bartoli, porém, vai muito além do papel de intérprete ou pesquisadora: imprime a cada peça seu carisma inconfundível e uma presença artística que transforma cada ária em um pequeno drama musical.

O resultado é uma interpretação marcada por exuberância técnica, refinamento estilístico e um entusiasmo genuíno por essa música inesgotavelmente criativa. A parceria com o Ensemble Matheus e Jean-Christophe Spinosi reforça ainda mais a vitalidade do conjunto, oferecendo uma leitura vibrante, elegante e profundamente comprometida com a riqueza expressiva do teatro musical de Vivaldi.

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Serguei Prokofiev (1891-1953) - String Quartet No. 1 in B Minor, Op. 50 e String Quartet No. 2 in F Major, Op. 92 - "Kabardinian"

Sergei Prokofiev, um dos maiores compositores do século passado, escreveu apenas dois quartetos de cordas. São obras pouco conhecidas. O próprio Prokofiev não é um compositor identificado com essa forma. Geralmente, associamos o seu nome às sinfonias, aos concertos para piano, às sonatas para piano ou aos poemas sinfônicos. Todavia, mesmo tendo escrito apenas dois quartetos – separados por onze anos – há uma linguagem e uma arquitetura inconfundíveis, ou seja, tipicamente prokofievianas.  

O Quarteto de Cordas N.º 1 em Si Menor, Op. 50, foi composto em 1930, durante um período em que Prokofiev ainda vivia no Ocidente. A obra surgiu por encomenda da Biblioteca do Congresso, em Washington, e foi estreada naquele mesmo ano pelo Quarteto Brosa. Naquele momento, o compositor encontrava-se dividido entre a carreira internacional e a crescente possibilidade de retornar definitivamente à União Soviética, mudança que se concretizaria poucos anos depois.

Desde os primeiros compassos, o Primeiro Quarteto surpreende pela economia de meios. Ao contrário do virtuosismo quase teatral presente em muitas obras do compositor, aqui tudo parece submetido a um rigor arquitetônico impressionante. As melodias possuem clareza quase clássica, enquanto as harmonias, discretamente modernas, evitam qualquer excesso de experimentalismo.

O primeiro movimento alterna tensão e serenidade com uma naturalidade admirável. O segundo, um delicado Andante molto, talvez represente uma das páginas mais líricas escritas por Prokofiev. Já o movimento final recupera a energia rítmica tão característica do compositor, sem jamais abandonar a elegância formal que domina toda a obra.

Pouco mais de uma década depois, o cenário era completamente diferente. A Europa encontrava-se devastada pela Segunda Guerra Mundial, e Prokofiev vivia na União Soviética, submetido às exigências do regime e às dificuldades impostas pelo conflito.

Foi nesse contexto que nasceu o Quarteto de Cordas n.º 2 em Fá Maior, Op. 92, composto em 1941. Durante a evacuação de diversos artistas soviéticos para o Cáucaso, Prokofiev estabeleceu-se temporariamente na cidade de Nalchik, onde teve contato direto com a rica tradição musical do povo cabardino. As autoridades culturais incentivaram os compositores a utilizar elementos do folclore local, mas, no caso de Prokofiev, a iniciativa resultou em algo muito mais profundo do que simples propaganda cultural.

As melodias populares aparecem organicamente integradas à estrutura da obra. Em nenhum momento soam como citações artificiais. Pelo contrário, tornam-se matéria-prima para um discurso musical de enorme vitalidade.

O primeiro movimento apresenta uma energia quase selvagem, impulsionada por ritmos assimétricos e motivos que evocam danças tradicionais do Cáucaso. O segundo movimento mergulha num lirismo contemplativo, enquanto o terceiro explode numa celebração rítmica de extraordinária força. É impossível ouvir seu final sem imaginar músicos populares transformando tradições ancestrais em linguagem de concerto.

O Segundo Quarteto talvez seja a obra camerística mais calorosa de Prokofiev. Ao contrário da frieza frequentemente atribuída ao compositor por alguns críticos, aqui encontramos uma escrita profundamente humana, repleta de humor, nostalgia e vitalidade.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Serguei Prokofiev (1891-1953) -

01. Endres Quartet - String Quartet No. 1 in B Minor, Op. 50_ I. Allegro
02. Endres Quartet - String Quartet No. 1 in B Minor, Op. 50_ II. Andante molto - Vivace
03. Endres Quartet - String Quartet No. 1 in B Minor, Op. 50_ III. Andante
04. Endres Quartet - String Quartet No. 2 in F Major, Op. 92 _Kabardinian__ I. Allegro sostenuto
05. Endres Quartet - String Quartet No. 2 in F Major, Op. 92 _Kabardinian__ II. Adagio - Poco più animato
06. Endres Quartet - String Quartet No. 2 in F Major, Op. 92 _Kabardinian__ III. Allegro - Pochissimo meno

Endres Quartet

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