Bacewicz pertence a uma geração em que a figura do compositor-intérprete, tão frequente no século XIX, já havia se tornado menos comum. Ela, entretanto, manteve essa dupla condição de maneira particularmente intensa: escreveu sete concertos para violino entre 1938 e 1965, além de concertos para violoncelo, piano e viola e numerosas obras de câmara e orquestrais. O encarte destaca mais de duzentas composições em seu catálogo e apresenta sua linguagem como uma ponte entre o neorromantismo de Karol Szymanowski e o modernismo de Witold Lutosławski.
O Concerto para violino nº 2, de 1945, é o mais antigo dos três registros e impressiona pela energia incessante. Sua abertura, Allegro ma non troppo, coloca imediatamente o violinista diante de uma verdadeira prova de resistência: sucessões vertiginosas de notas rápidas produzem uma sensação de movimento contínuo, interrompida apenas pela longa cadência. Para Joanna Kurkowicz, essa música parece traduzir a velocidade, a pressa e a inquietação do mundo moderno. O contraste surge no Andante, de caráter contemplativo e nostálgico, antes que o terceiro movimento volte a instaurar a energia característica de Bacewicz.
A estreia ocorreu em 18 de outubro de 1946, em Łódź, cidade natal da compositora, com a orquestra filarmônica local sob direção de Tomasz Kiesewetter. O concerto evidencia desde o início seu vínculo com o neoclassicismo, mas sem submeter-se rigidamente aos modelos formais do século XVIII. A música está constantemente em movimento; os materiais são transformados de maneira instintiva, quase improvisatória. A vitalidade muscular do primeiro movimento encontra no virtuosismo do violino seu complemento natural, enquanto o segundo movimento assume uma feição excepcionalmente lírica e até romântica, evocando o universo de Mieczysław Karłowicz.
O Concerto nº 4, de 1951, ocupa posição central no álbum e representa um momento de grande maturidade. Bacewicz encontrava-se então no auge de sua produção: somente naquele ano escreveu outras oito obras, entre elas o Quarto Quarteto de Cordas, a Segunda Sinfonia, o Primeiro Concerto para violoncelo e a Quinta Sonata para violino. O concerto foi estreado em Cracóvia, em 21 de fevereiro de 1952, pela própria Bacewicz, com a Filarmônica de Cracóvia dirigida por Bohdan Wodiczko.
A obra nasceu em um período particularmente delicado da cultura polonesa. Em 1951, o realismo socialista encontrava-se no auge de sua influência sobre as artes, favorecendo linguagem simplificada, referências folclóricas, monumentalidade e finais de caráter otimista. Bacewicz evitou, em grande medida, os excessos dessa orientação, embora alguns vestígios possam ser percebidos no Quarto Concerto, sobretudo na abertura austera, na orquestração mais ampla e na presença de ritmos marciais. Ainda assim, sua escrita permanece impulsiva, combinando lirismo, dramaticidade e humor.
No Andante tranquillo, a música parece suspender o movimento: a sonoridade inicial, quase imóvel, dá lugar ao canto apaixonado do violino, que conduz a um expressivo tutti orquestral antes de retornar à delicadeza inicial. Já o Vivace recupera o impulso dançante e incorpora elementos da música folclórica polonesa. Mudanças métricas constantes desafiam intérpretes e ouvintes, enquanto a escrita virtuosística transforma o movimento em uma das páginas mais brilhantes da compositora. O encarte observa ainda que a riqueza dos tuttis — particularmente os acordes dos metais e as linhas das cordas — revela uma extraordinária capacidade sinfônica.
O Concerto nº 5, escrito em 1954 e estreado em Varsóvia em 17 de janeiro de 1955 por Wanda Wiłkomirska, com a Filarmônica de Varsóvia dirigida por Witold Rowicki, aponta para uma nova etapa. Bacewicz já começava a afastar-se das limitações estéticas impostas pelo período mais rígido do realismo socialista. Sua linguagem tornava-se mais escura, complexa e rigorosa do ponto de vista motívico, chegando a uma espécie de tensão “beethoveniana”.
É justamente nesse concerto que a evolução da compositora se mostra mais evidente. O Andante começa com misteriosos acordes bitonais em pianissimo nas cordas, criando uma atmosfera delicada e impressionista. O violino circula pelo tecido orquestral, ora assumindo o protagonismo, ora funcionando como contraponto aéreo para uma melodia de trompa. Os elementos folclóricos continuam presentes, mas agora aparecem apenas como sugestões, integrados a uma linguagem muito mais cosmopolita. Para Kurkowicz, trata-se de um dos movimentos lentos mais sofisticados de Bacewicz.
Essa transformação também explica a importância do álbum. Os três concertos não são simplesmente peças virtuosas destinadas a exibir as capacidades do violinista: são documentos de uma trajetória estética. Do ímpeto quase obsessivo do Segundo Concerto à monumentalidade do Quarto e à modernidade mais concentrada do Quinto, percebe-se uma artista que nunca deixou de experimentar. A própria Kurkowicz ressalta que a escrita de Bacewicz consegue unir introspecção e virtuosismo graças ao profundo conhecimento que a compositora possuía de seu instrumento.
A interpretação de Joanna Kurkowicz ganha, por isso, significado especial. A violinista, reconhecida por sua “virtuosidade disciplinada”, tem uma relação particularmente pessoal com esse repertório e participou do projeto que registrou os concertos publicados de Bacewicz. Para ela, essas obras são como pedras preciosas que precisam ser encontradas para então revelar seu brilho. A gravação foi realizada na Witold Lutosławski Concert Hall, da Polish Radio, em Varsóvia, entre novembro de 2010 e abril de 2011, com a Polish Radio Symphony Orchestra e Łukasz Borowicz. O projeto contou ainda com o apoio do Adam Mickiewicz Institute, por meio do programa Polska Music.
Mais do que recuperar três partituras pouco conhecidas, este álbum permite reconhecer em Bacewicz uma voz própria no panorama musical europeu do pós-guerra. Sua música não se deixa reduzir ao nacionalismo, ao neoclassicismo ou ao virtuosismo violinístico. Ela absorve essas tendências e as transforma em uma linguagem simultaneamente enérgica, lírica, sofisticada e inquieta. O resultado é um repertório que, como sugere a própria intérprete, pode ainda surpreender novos violinistas e conquistar novos ouvintes. Décadas depois de sua morte, Grażyna Bacewicz continua, portanto, a revelar o brilho de uma obra que merece ocupar lugar mais central na história da música do século XX.
Uma boa apreciação!
Grazyna Bacewicz (1909-1969) -
01 - Violin Concerto No. 4 - I. Allegro non troppo
02 - Violin Concerto No. 4 - II. Andante tranquillo
03 - Violin Concerto No. 4 - III. Vivace
04 - Violin Concerto No. 5 - I. Deciso
05 - Violin Concerto No. 5 - II. Andante
06 - Violin Concerto No. 5 - III. Vivace
07 - Violin Concerto No. 2 - I. Allegro ma non troppo
08 - Violin Concerto No. 2 - II. Andante
09 - Violin Concerto No. 2 - III. Vivo
Polish Radio Symphony Orchestra
Lukasz Borowicz, regente
Joanna Kurkowicz, violino
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