sábado, 7 de novembro de 2026

Richard Strauss (1864-1949) - Salome, Op. 54

A gravação integral de Salomé, de Richard Strauss, sob a regência de Herbert von Karajan, ocupa um lugar especial na história fonográfica da ópera. Seu prestígio está associado, em grande medida, à ousada decisão do maestro de confiar o papel-título à jovem soprano Hildegard Behrens, então relativamente desconhecida. A escolha revelou-se decisiva: Behrens conferiu à personagem uma combinação de vulnerabilidade visceral, intensidade dramática e entrega emocional.

Seu desempenho encontra um contraponto à altura na interpretação de José van Dam como Jochanaan. Com uma voz de timbre poderoso e metálico, o baixo-barítono constrói uma figura de impressionante autoridade, cuja nobreza e imponência foram amplamente elogiadas. O contraste entre a intensidade de Salomé e a firmeza moral de Jochanaan constitui um dos elementos mais expressivos desta produção.

Acompanhando os solistas, a Filarmônica de Viena apresenta uma execução de extraordinária riqueza sonora. A orquestra explora a opulência tímbrica e as tensões da partitura de Strauss, enquanto Karajan conduz a narrativa com notável senso de atmosfera e dramaticidade. Em suas mãos, a música não se limita ao impacto provocado pelo escândalo e pela violência da trama: transforma-se em um envolvente thriller psicológico, marcado pela sensualidade, pela decadência e pela crescente tensão emocional.

O resultado é uma interpretação de intensidade dramática excepcional, na qual a sofisticação orquestral se combina à força teatral dos protagonistas. Sensual, perturbadora e eletrizante, esta gravação de Salomé representa um triunfo artístico e um dos registros mais memoráveis da colaboração de Karajan com a Filarmônica de Viena.

Uma boa apreciação! 

Richard Strauss (1864-1949) - 

01. Salome, Op. 54, Scene 1: "Wie schön ist die Prinzessin Salome" (Narraboth, Page, Soldaten) (2:56)
02. Salome, Op. 54, Scene 1: "Nach mir wird Einer kommen" (Jochanaan, Soldaten, Kappadozier, Narraboth, Page) (2:48)
03. Salome, Op. 54, Scene 2: "Ich will nicht bleiben" (Salome, Page) (1:50)
04. Salome, Op. 54, Scene 2: "Siehe, der Herr ist gekommen" (Jochanaan, Salome, Soldaten, Narraboth, Sklave) (1:39)
05. Salome, Op. 54, Scene 2: "Jauchze nicht, du Land Palästina" (Jochanaan, Salome, Soldaten, Page) (2:29)
06. Salome, Op. 54, Scene 2: "Du wirst das für mich tun" (Salome, Narraboth) (4:20)
07. Salome, Op. 54, Scene 3: "Wo ist er?" (Jochanaan, Salome, Narraboth) (9:38)
08. Salome, Op. 54, Scene 3: "Jochanaan! Ich bin verliebt in deinen Leib" (Salome, Jochanaan, Narraboth) (8:49)
09. Salome, Op. 54, Scene 3: "Wird dir nicht bange, Tochter der Herodias?" (Jochanaan, Salome) (8:27)
10. Salome, Op. 54, Scene 4: "Wo ist Salome?" (Herodes, Herodias, Erster Soldat) (2:38)
11. Salome, Op. 54, Scene 4: "Es ist kalt hier" (Herodes, Herodias) (1:27)
12. Salome, Op. 54, Scene 4: "Salome, komm, trink Wein mit mir" (Herodes, Salome, Herodias) (2:50)
13. Salome, Op. 54, Scene 4: "Sieh, die Zeit ist gekommen" (Jochanaan, Herodias, Herodes) (0:54)
14. Salome, Op. 54, Scene 4: "Wahrhaftig, Herr, es wäre besser" (Juden, Herodes, Herodias, Erster Nazarener) (2:59)
15. Salome, Op. 54, Scene 4: "Siehe, der Tag ist nahe" (Jochanaan, Herodes, Nazarener, Erster Jude, Herodias) (3:03)
16. Salome, Op. 54, Scene 4: "Eine Menge Menschen" (Jochanaan, Herodias, Herodes) (2:24)
17. Salome, Op. 54, Scene 4: "Tanz für mich, Salome" (Herodes, Herodias, Salome, Jochanaan) (4:27)
18. Salome, Op. 54, Scene 4: Tanz der sieben Schleier (9:24)
19. Salome, Op. 54, Scene 4: "Ach! Herrlich! Wundervoll" (Herodes, Salome, Herodias) (3:50)
20. Salome, Op. 54, Scene 4: "Still, sprich nicht zu mir!" (Herodes, Salome, Herodias) (3:16)
21. Salome, Op. 54, Scene 4: "Salome, bedenk, was du tun willst" (Herodes, Salome, Juden) (3:34)
22. Salome, Op. 54, Scene 4: "Wer hat meinen Ring genommen?" (Herodes, Herodias) (1:41)
23. Salome, Op. 54, Scene 4: "Es ist kein Laut zu vernehmen" (Salome) (2:08)
24. Salome, Op. 54, Scene 4: "Ah! Du wolltest mich nicht deinen Mund küssen lassen" (Salome) (12:26)
25. Salome, Op. 54, Scene 4: "Sie ist ein Ungeheuer, deine Tochter" (Herodes, Herodias) (1:07)
26. Salome, Op. 54, Scene 4: "Ah! Ich habe deinen Mund geküsst, Jochanaan" (Salome, Herodes) (4:25)

Wiener Philharmonic Orchestra
Herbert von Karajan, regente 

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Johan Svendsen (1840-1911) - Symphonic Works

A música de Johan Severin Svendsen (1840–1911) ocupa um lugar importante na construção de uma identidade musical norueguesa no século XIX. Contemporâneo de Edvard Grieg e profundamente ligado às tradições culturais de seu país, o compositor desenvolveu uma linguagem que combina o domínio das formas orquestrais europeias com elementos melódicos e rítmicos do folclore escandinavo. Essa combinação, longe de representar uma simples reprodução de melodias populares, revela um compositor capaz de transformar materiais tradicionais em obras de elaboração sinfônica consistente.

O encarte dedicado às obras orquestrais de Svendsen apresenta uma trajetória artística marcada por episódios de superação, reconhecimento e também por uma perda particularmente dolorosa. Um dos relatos mais impressionantes diz respeito à destruição de sua Terceira Sinfonia, concluída no inverno de 1882–1883. Segundo o testemunho de seu amigo John Paulsen, a esposa do compositor, Sarah, tomada por ciúmes após receber equivocadamente um buquê de flores acompanhado de uma declaração amorosa destinada a Svendsen, retirou da escrivaninha o manuscrito da sinfonia e o lançou ao fogo. A obra, na qual o compositor havia trabalhado durante longo período, desapareceu sem que pudesse ser recuperada. O episódio ajuda a compreender a dimensão pessoal da relação entre o artista e sua produção: a perda não representou apenas a destruição de uma partitura, mas o desaparecimento de um trabalho intelectual e criativo singular.

Nascido em 20 de setembro de 1840, em Oslo — então conhecida como Christiania —, Svendsen cresceu em condições econômicas modestas. Seu pai, Gulbrand, era músico e tocava violino, instrumento que despertou precocemente o interesse do filho. Aos seis anos, Johan Severin começou a receber aulas paternas e, posteriormente, também estudou clarinete. Ainda jovem, integrou conjuntos orquestrais, experiência que lhe proporcionou familiaridade com os instrumentos e com as possibilidades da escrita para grandes formações. As primeiras composições surgiram cedo: entre elas, marchas, danças e um ciclo de valsas intitulado Til Sæters, no qual já demonstrava interesse pelas melodias populares norueguesas.

A formação profissional levou Svendsen a viajar pela Europa. Em 1862, uma excursão pela Suécia, Dinamarca e norte da Alemanha abriu-lhe novas perspectivas, embora a tentativa de construir uma carreira internacional como violinista não tenha alcançado o resultado esperado. Em Lübeck, recebeu apoio do cônsul norueguês-sueco para estudar no Conservatório de Leipzig, onde teve contato com professores importantes, entre eles Carl Reinecke. Foi nesse ambiente que sua vocação composicional se consolidou. Apesar de uma dificuldade física no dedo mínimo da mão esquerda, que prejudicava sua atuação como violinista, Svendsen encontrou na composição o caminho para desenvolver plenamente suas capacidades artísticas.

Sua primeira sinfonia, em ré maior, Op. 4, concluída em 1867, já apresenta sinais de independência criativa. Embora organizada segundo convenções formais tradicionais, a obra demonstra uma preocupação particular com a sonoridade orquestral e com a integração de elementos nacionais. O terceiro movimento, Allegretto scherzando, merece atenção especial: nele, Svendsen introduz características da música popular de sua terra natal, fazendo do folclore uma parte orgânica da construção sinfônica. O procedimento seria retomado por outros compositores europeus, mas, no caso do norueguês, tornou-se um dos caminhos fundamentais para a afirmação de uma linguagem musical própria.

A aproximação entre música de concerto e tradição popular ganha ainda mais destaque nas quatro Rapsódias Norueguesas. Nelas, Svendsen utiliza melodias recolhidas principalmente da coletânea Melodias antigas e novas das montanhas norueguesas, organizada por Ludvig Mathias Lindeman. Das dezessete melodias identificadas nas quatro rapsódias, quinze provêm dessa publicação. O compositor, contudo, não se limita a transcrever o material recolhido: modifica ritmos, acrescenta elementos melódicos, altera acentuações e reorganiza os temas de acordo com suas necessidades expressivas. O resultado é uma síntese entre a música popular e os recursos da composição sinfônica europeia.

Entre as obras orquestrais destacadas no encarte estão também Zorahayda, Op. 11, e Carnaval dos Artistas do Norte, Op. 14, ambas de 1874. A primeira inspira-se em uma narrativa de Washington Irving sobre uma princesa mourisca que, após uma experiência amorosa e religiosa frustrada, permanece prisioneira na Alhambra. A música acompanha a dimensão dramática da história, explorando contrastes de caráter e momentos de intensidade emocional. Já Carnaval dos Artistas do Norte apresenta uma concepção mais festiva: concebida para um evento da associação de artistas noruegueses, a obra representa musicalmente o encontro entre o universo lendário do norte europeu e personagens associados ao carnaval do sul. Ritmos vigorosos, danças e transformações temáticas contribuem para o caráter teatral da composição.

Outro exemplo da capacidade narrativa de Svendsen é a fantasia Romeu e Julieta, Op. 18, concluída em 1876. A obra estabelece um diálogo com a tragédia de Shakespeare, embora o compositor desenvolva a narrativa por meio de contrastes musicais, sem depender exclusivamente de uma descrição literal dos acontecimentos. O encarte observa que a partitura apresenta uma abordagem distinta daquela encontrada na versão de Tchaikovsky: enquanto o compositor russo se identifica profundamente com o sofrimento de seus personagens, Svendsen adota uma perspectiva mais objetiva, construindo musicalmente os diferentes ambientes e conflitos da história.

A interpretação dessas obras está associada à Orquestra Sinfônica Nacional da Letônia (LNSO), conjunto fundado em 1926 como Orquestra Sinfônica da Rádio Letã. Ao longo de sua história, a formação trabalhou com importantes regentes e solistas internacionais e passou a utilizar seu nome atual em 1990, após a restauração da independência da Letônia. O maestro norueguês Terje Mikkelsen, nascido em 1957, manteve uma relação significativa com a orquestra: foi seu regente titular entre 1997 e 2001 e, posteriormente, seu principal regente convidado. Sua trajetória inclui colaborações com importantes orquestras europeias e asiáticas, além de um trabalho dedicado à divulgação da música de compositores noruegueses e letões.

O legado de Svendsen reside, sobretudo, em sua capacidade de conciliar tradição e invenção. Sua música não se limita a reproduzir o folclore norueguês como elemento decorativo: transforma-o em matéria de elaboração artística, integrando-o a estruturas sinfônicas de amplo alcance. Ao lado de Grieg, contribuiu decisivamente para que a produção musical da Noruega conquistasse reconhecimento internacional no século XIX. O encarte também evidencia uma personalidade artística disciplinada, cuja produção revela equilíbrio entre rigor formal, imaginação narrativa e sensibilidade para as tradições de seu país.

Observação sobre o material enviado: as imagens correspondem às páginas 6 a 35 do encarte e trazem um extenso ensaio biográfico e analítico sobre Svendsen, além de informações sobre a Orquestra Sinfônica Nacional da Letônia e o maestro Terje Mikkelsen. Como não foram enviadas as páginas iniciais com a relação das faixas, não é possível confirmar quais obras integram efetivamente a gravação. Por isso, o texto apresenta as composições discutidas no encarte, sem afirmar que todas estejam incluídas no álbum.

Uma boa apreciação! 

Johan Svendsen (1840-1911) - 

DISCO 01


01 - Symphony No. 1 in D major, Op. 4 Molto Allegro
02 - Symphony No. 1 in D major, Op. 4 Andante
03 - Symphony No. 1 in D major, Op. 4 Allegretto scherzando
04 - Symphony No. 1 in D major, Op. 4 Finale. Maestoso - Allegro assai con fuoco
05 - Symphony No. 2 in B flat major, Op. 15 Allegro
06 - Symphony No. 2 in B flat major, Op. 15 Andante sostenuto
07 - Symphony No. 2 in B flat major, Op. 15 Intermezzo. Allegro giusto
08 - Symphony No. 2 in B flat major, Op. 15 Finale. Andante - Allegro con fuoco

DISCO 02

01 - Norwegian Artists' Carnival, for orchestra, Op. 14
02 - Romeo & Juliet, fantasy for orchestra, Op. 18
03 - Carnival in Paris, episode for orchestra, Op. 9
04 - Zorahayd's Legend, for orchestra, Op. 11
05 - Festival Polonaise, for orchestra, Op. 12
06 - Andante funèbre, for orchestra

DISCO 03

01 - Sigurd Slembe, Op.8
02 - Ifjol gjætt' e gjeitinn (Last year I was tending the goats), variations for o...
03 - Norwegian Rhapsodies (4) for orchestra-1, Op 17
04 - Norwegian Rhapsodies (4) for orchestra-1, Op 17
05 - Norwegian Rhapsodies (4) for orchestra-1, Op 17
06 - Norwegian Rhapsodies (4) for orchestra-1, Op 17

Latvian National Symphony Orchestra
Terje Mikkelsen, regente 

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sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77 e Paul Hindemith (1895-1963) - Violin Concerto

A experiência da guerra, a perseguição política e a necessidade de afirmação artística aproximam dois compositores de trajetórias distintas: Dmitri Shostakovich (1906–1975) e Paul Hindemith (1895–1963). Embora tenham desenvolvido linguagens musicais próprias, ambos enfrentaram regimes autoritários que tentaram impor limites à criação artística. Essa aproximação histórica e estética está no centro do álbum que reúne o Concerto para violino nº 1, em lá menor, Op. 77, de Shostakovich, e o Concerto para violino, de Hindemith, interpretados pela violinista Alexandra Tirsu, acompanhada pela Royal Philharmonic Orchestra, sob a regência de Vasily Petrenko. O disco, lançado pelo selo Fuga Libera, foi gravado em agosto de 2024, no Henry Wood Hall, em Londres.

O registro representa um marco na trajetória de Alexandra Tirsu, pois constitui seu primeiro álbum dedicado a concertos. Nascida na Moldávia e radicada em Viena, a violinista ganhou projeção internacional ao conquistar um importante prêmio no Concurso Internacional da Rádio da Baviera (ARD), em Munique, em 2021. Naquela edição, o Concerto para violino de Hindemith foi a obra obrigatória da etapa final. A formação musical de Tirsu também foi marcada pela convivência com o pai, um reconhecido trompetista, de quem afirma ter herdado a flexibilidade rítmica e a influência da música folclórica. Sua carreira, interrompida temporariamente pela pandemia de Covid-19, ganhou novo impulso após a premiação, levando-a a se apresentar como solista e camerista em diferentes países.

Composto entre 1947 e 1948, o Primeiro Concerto para violino de Shostakovich nasceu em um dos períodos mais difíceis da vida do compositor. Naquele momento, ele ainda sofria as consequências da campanha de condenação promovida pelo regime soviético, sob a influência do dirigente cultural Andrei Jdanov. Sua música era acusada de não corresponder às diretrizes estéticas oficiais, e o compositor, que já havia enfrentado críticas severas por sua ópera Lady Macbeth do distrito de Mtsensk, vivia sob constante ameaça. O medo de uma prisão era tão intenso que, durante algumas noites, Shostakovich chegou a dormir no corredor de seu apartamento para evitar que a mulher e os filhos presenciassem uma eventual detenção.

Por essa razão, o concerto permaneceu sem execução pública durante vários anos. Sua estreia ocorreu somente em 29 de outubro de 1955, depois da morte de Stalin e do início de um período de relativa abertura política, tendo como solista o violinista David Oistrakh. A obra apresenta uma estrutura incomum de quatro movimentos, aproximando-se, em determinados aspectos, de uma sinfonia com violino solista. O primeiro movimento, Nocturne, estabelece uma atmosfera sombria e introspectiva; o segundo, Scherzo, combina energia e inquietação; o terceiro, Passacaglia, constitui o núcleo dramático da composição e culmina em uma extensa cadência do violino. O movimento final, Burlesque, encerra a obra com uma combinação de grotesco, ironia e intensidade rítmica.

Um elemento particularmente significativo é a utilização da sequência de notas DSCH — ré, mi bemol, dó e si natural, conforme a notação musical alemã —, formada a partir das iniciais do nome do compositor. Esse motivo, empregado por Shostakovich como uma espécie de assinatura musical, reforça a dimensão pessoal da obra. O concerto, contudo, não se limita a expressar o sofrimento individual: sua linguagem permite diferentes interpretações dos movimentos mais rápidos, que podem soar tanto como manifestações de resistência quanto como representações de um indivíduo perseguido por forças hostis.

O Concerto para violino de Hindemith também está profundamente relacionado ao contexto político europeu. Durante a Primeira Guerra Mundial, o compositor foi obrigado a servir no Exército alemão. Mais tarde, em 1936, sua música foi proibida pelo regime nazista, que a classificou como degenerada. Diante das dificuldades, Hindemith deixou Berlim e se estabeleceu temporariamente em Ancara, na Turquia, onde participou da estruturação do ensino de música clássica. Em 1938, mudou-se para a Suíça com a esposa, cuja ascendência judaica tornava ainda mais delicada a permanência do casal na Alemanha. No ano seguinte, ambos partiram para os Estados Unidos, onde o compositor lecionou na Universidade Yale durante treze anos.

Escrito em 1939, o concerto foi encomendado por Wilhelm Mengelberg para a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã. Hindemith deveria conduzir a estreia, mas as circunstâncias políticas e o risco de atravessar a Alemanha impediram sua viagem. A primeira apresentação aconteceu em março de 1940, sob a direção de Ferdinand Helmann, músico da própria orquestra. Poucas semanas depois, em 19 de abril, a obra foi apresentada nos Estados Unidos pela Orquestra Sinfônica de Boston, sob a regência de Serge Koussevitzky, tendo Richard Burgin como solista. Apesar de sua construção musical refinada, o concerto não alcançou a mesma popularidade de outras obras do repertório violinístico. O encarte sugere que a linguagem de Hindemith talvez tenha sido considerada excessivamente intelectual para determinados públicos e períodos históricos.

Em três movimentos, a composição revela uma abordagem diferente daquela encontrada em Shostakovich. O primeiro apresenta uma abertura de caráter pastoral, na qual o violino estabelece um diálogo com uma orquestra mais vigorosa. O segundo, Langsam, assume uma atmosfera contemplativa, com lirismo melancólico, embora menos marcado pela angústia do que o movimento lento do concerto de Shostakovich. No último movimento, melodias de caráter despreocupado alternam-se com passagens de energia rítmica e influências do jazz. Um coral orquestral conduz a uma cadência reflexiva do solista, antes de a música alcançar uma conclusão otimista. A obra parece, assim, afirmar a possibilidade de preservar a liberdade criativa e a serenidade mesmo em meio à turbulência histórica.

A escolha dessas duas partituras tem também uma dimensão afetiva para Alexandra Tirsu. Em seu depoimento, a violinista conta que o concerto de Shostakovich a acompanha desde os anos de formação. As histórias de guerra transmitidas por seu avô, que serviu no Exército soviético, contribuíram para sua identificação com a música do compositor. Mais recentemente, a morte do pai aprofundou sua compreensão da perda e da ausência, fortalecendo sua ligação com a obra. Já o concerto de Hindemith tornou-se especialmente importante durante o Concurso ARD, quando Tirsu descobriu sua clareza estrutural, energia e sutileza emocional.

Uma boa apreciação! 

01 - Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77_ Nocturne. Moderato
02 - Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77_ Scherzo. Allegro
03 - Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77_ Passacaglia. Andante - Cadenza
04 - Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77_ Burlesque. Allegro con brio - Presto
05 - Violin Concerto_ I. Mäßig bewegte Halbe
06 - Violin Concerto_ II. Langsam
07 - Violin Concerto_ III. Lebhaft

Royal Philharmonic Orchestra
Vasily Petrenko, regente
Alexandra Tirsu, violino 

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quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Anton Bruckner (1824-1896) - Symphony No. 4 in E-Flat Major, WB 104 "Romantic"

 

A Sinfonia nº 4 em mi bemol maior, WAB 104, conhecida como Romântica, de Anton Bruckner, é uma das obras mais celebradas e frequentemente executadas do repertório orquestral do Romantismo tardio. Composta em um período de intensa transformação da linguagem sinfônica europeia, a obra ocupa lugar de destaque na produção do compositor austríaco, especialmente por sua amplitude sonora e riqueza de construção musical.

Bruckner revisou a sinfonia diversas vezes ao longo de sua trajetória, produzindo diferentes versões da partitura. Entre elas, destaca-se a edição organizada pelo musicólogo Robert Haas, em 1936, baseada na ampla revisão realizada pelo compositor entre 1878 e 1880. Essa versão, frequentemente identificada como a versão Haas de 1881, é considerada uma representação de referência das modificações introduzidas por Bruckner naquele período.

A edição de Haas tornou-se particularmente importante para a compreensão da concepção musical amadurecida pelo compositor. Ao reunir os resultados de sua revisão, oferece aos intérpretes e ouvintes uma perspectiva sobre a arquitetura sinfônica e as escolhas artísticas que marcaram uma das etapas fundamentais da evolução da Sinfonia Romântica.

Uma boa apreciação!

Anton Bruckner (1824-1896) - 

01. Symphony No. 4 in E-Flat Major, WB 104 "Romantic": I. Bewegt, nicht zu schnell (1881 Haas Version) (20:49)
02. Symphony No. 4 in E-Flat Major, WB 104 "Romantic": II. Andante, quasi allegretto (1881 Haas Version) (15:35)
03. Symphony No. 4 in E-Flat Major, WB 104 "Romantic": III. Scherzo. Bewegt - Trio. Nicht zu schnell (1881 Haas Version) (10:41)
04. Symphony No. 4 in E-Flat Major, WB 104 "Romantic": IV. Finale. Bewegt, doch nicht zu schnell (1881 Haas Version) (23:08)

Berliner Philharmoniker
Herbert von Karajan, regente 

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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Joseph Haydn (1732-1809) - Piano Concerto Nº 11 in D major e Piano Concerto Nº 04 in G major

Embora Joseph Haydn seja reconhecido sobretudo por sua contribuição à música de câmara e ao gênero sinfônico, sua produção para piano e orquestra também revela aspectos importantes de sua personalidade artística. Os concertos para esse instrumento, menos numerosos e conhecidos do que suas sinfonias e quartetos de cordas, apresentam uma combinação característica de inventividade, domínio formal e expressividade. O repertório abordado neste registro reúne duas obras de particular interesse: os Concertos em sol maior e em ré maior, que permitem observar diferentes momentos e possibilidades da escrita concertante do compositor.

A atribuição de algumas obras para piano a Haydn nem sempre foi inteiramente segura. No catálogo temático elaborado por Anthony van Hoboken, pelo menos 14 composições desse gênero foram consideradas autênticas. Muitas delas, porém, são peças breves, de instrumentação simples e conteúdo musical relativamente leve. Entre as exceções estão os concertos em fá maior, Hob. XVIII:3, e em sol maior, além do conhecido Concerto em ré maior, registrado neste álbum. Embora não tenham sobrevivido partituras autógrafas dessas obras, sua autenticidade deixou de ser motivo de dúvida.

O Concerto em sol maior é considerado o mais antigo e também o mais próximo de uma concepção tradicional do gênero. Sua composição provavelmente remonta a aproximadamente 1770. A obra está associada à pianista, cantora e compositora austríaca Maria Theresia von Paradis, que, apesar de cega, desenvolveu uma carreira musical expressiva. Haydn teria cedido a ela determinados direitos de execução da composição. Em 1784, Paradis apresentou o concerto em Paris, durante uma série de apresentações públicas, e a obra foi publicada posteriormente naquela cidade.

Musicalmente, o Concerto em sol maior apresenta uma estrutura em três movimentos. O primeiro, um Allegro de caráter moderado, segue a forma de ritornelo, alternando intervenções orquestrais e passagens do instrumento solista. O movimento seguinte, um Adagio em dó maior, destaca-se pelo caráter grave e dramático, com violinos em surdina e uma parte solista ornamentada. O Finale, por sua vez, assume a forma de um rondó exuberante, cujo tema apresenta características da música folclórica húngara. O encarte observa que sua inspiração pode estar relacionada à dança croata conhecida como Siri Kolo, embora a origem exata do tema seja objeto de discussão.

O Concerto em ré maior, composto provavelmente por volta de 1780, apresenta uma concepção mais elaborada. Sua estrutura também compreende três movimentos, mas a organização do primeiro se aproxima mais claramente da forma sonata, com dois grupos temáticos distintos e uma seção de desenvolvimento. O movimento inicial, bastante vivo, combina a elegância melódica característica de Haydn com uma escrita instrumental que exige agilidade e precisão do solista.

O segundo movimento, em dó maior, é um Un poco Adagio de atmosfera expressiva. A ausência de oboés e trompas contribui para a delicadeza da textura orquestral, enquanto o instrumento solista recebe uma parte ornamentada e de grande refinamento. O encerramento, um rondó, recupera o vigor e a vivacidade do primeiro movimento. Seu tema, de inspiração dançante, remete novamente à música húngara e à dança Siri Kolo, estabelecendo um vínculo entre os dois concertos apresentados no disco.

Diferentemente de compositores como Bach, Mozart e Beethoven, o austríaco não se projetou como pianista virtuose. Embora soubesse tocar teclado, sua atuação estava mais associada às funções de mestre de capela do que à exibição pública de habilidades instrumentais. Essa circunstância ajuda a compreender por que sua produção concertante para teclado não ocupa o mesmo lugar de destaque que suas obras sinfônicas e camerísticas.

Isso não significa, contudo, que os concertos sejam obras de importância secundária. Ao contrário, revelam a capacidade de Haydn de explorar as possibilidades do instrumento solista sem submetê-lo a demonstrações gratuitas de virtuosismo. A escrita para teclado é marcada por equilíbrio, clareza e inventividade, enquanto a orquestra participa ativamente do desenvolvimento musical. Solista e conjunto não se apresentam apenas como protagonistas em oposição, mas como elementos complementares de uma construção compartilhada.

Os dois concertos permitem, portanto, reconhecer a riqueza de uma parcela menos conhecida da produção de Haydn. Entre a elegância do Concerto em sol maior e a elaboração formal do Concerto em ré maior, encontram-se a inteligência construtiva, o humor e a imaginação musical de um compositor que soube transformar recursos aparentemente simples em experiências expressivas de grande qualidade.

Uma boa apreciação! 

Joseph Haydn (1732-1809) - 

01 - Keyboard Concerto in D major, H. 18-11 1. Vivace
02 - Keyboard Concerto in D major, H. 18-11 2.Un Poco Adagio
03 - Keyboard Concerto in D major, H. 18-11 3. Rondo all’Ungarese (Allegro assai)
04 - Keyboard Concerto in G major, H. 18-4 1. Allegro Moderato - Cadenza - Tempo I
05 - Keyboard Concerto in G major, H. 18-4 2. Adagio Cantabile - Cadenza - Tempo I
06 - Keyboard Concerto in G major, H. 18-4 3. Rondo (Presto)

Züricher Kammerorchester
Edmond de Stoutz, regente
Arturo Michelangeli Benedetti, piano

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terça-feira, 3 de novembro de 2026

Gustav Mahler (1860-1911) - Symphony No. 5 in C-sharp minor

Em outubro de 2026, a Orquestra Sinfônica da NHK celebra seu centenário com uma interpretação da Sinfonia nº 5, de Gustav Mahler, sob a regência de seu maestro titular, Fabio Luisi. A apresentação representa mais um capítulo de uma trajetória recente de aproximação entre a orquestra japonesa e a obra sinfônica do compositor austríaco.

Nos últimos anos, a NHK Symphony Orchestra recebeu elogios por suas interpretações de Mahler, incluindo a Sinfonia nº 8, em 2023, e as Sinfonias nº 3 e nº 4, apresentadas durante o Festival Mahler de 2025. Nesse contexto, a Quinta Sinfonia surge como um aguardado desafio artístico, dando continuidade ao trabalho desenvolvido pelo conjunto em torno da produção sinfônica mahleriana.

A interpretação percorre os cinco movimentos da obra, explorando a diversidade de atmosferas e a intensidade dramática que caracterizam sua construção. No primeiro movimento, a Marcha Fúnebre, as sombras e a solenidade se impõem por meio de um ritmo sombrio, que estabelece o clima inicial da composição. O segundo movimento apresenta um desenvolvimento dramático marcado pelo encontro entre paixão e silêncio, em uma sucessão de contrastes e momentos de grande tensão expressiva.

No terceiro movimento, um Scherzo dinâmico, os instrumentos de metal, especialmente as trompas, assumem papel de destaque. A escrita vigorosa e o caráter dançante da música evocam a tradição vienense, conferindo ao movimento uma combinação de energia, elegância e complexidade rítmica.

O quarto movimento, o célebre Adagietto, apresenta uma atmosfera inteiramente distinta. Conhecido também por sua utilização no filme Morte em Veneza, de Luchino Visconti, o movimento se caracteriza por sua sonoridade contemplativa e pela intensa carga poética. Cordas e harpa conduzem uma das passagens mais emblemáticas de toda a produção de Mahler, em uma expressão musical de delicadeza e profunda ressonância emocional.

No movimento final, a música se transforma em uma torrente sonora de grande intensidade, conduzindo a sinfonia a uma conclusão triunfante. A combinação entre a concepção estética de Fabio Luisi e a expressividade da Orquestra Sinfônica da NHK dá origem, segundo a apresentação do lançamento, a uma interpretação de grande maturidade artística.

Uma boa apreciação! 

Gustav Mahler (1860-1911) - 

01. Symphony No. 5 in C-sharp minor: I. Trauermarsch. In gemessenem Schritt. Streng. Wie ein Kondukt
02. Symphony No. 5 in C-sharp minor: II. Sturmisch bewegt. Mit grosster Vehemenz.
03. Symphony No. 5 in C-sharp minor: III. Scherzo. Kraftig, nicht zu schnell
04. Symphony No. 5 in C-sharp minor: IV. Adagietto. Sehr langsam
05. Symphony No. 5 in C-sharp minor: V. Rondo-Finale. Allegro 

NHK Symphony Orchestra, Tokyo
Fabio Luisi, regente 

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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Félix Mendelssohn (1809-1847) - Symphony No. 3 in A Minor, Op. 56, MWV N18 Scottish, Symphony No. 4 in A Major, Op. 90, MWV N16 Italian e A Midsummer Night's Dream, Op. 61, MWV M13

Mendelssohn escreveu, ao todo, cinco sinfonias. As sinfonias de número 3 e número 4 são dois dos trabalhos mais expressivos do compositor. As duas são resultado de impressões de viagens. De família rica e influente, aos vinte anos, o compositor resolveu fazer uma viagem pelo continente europeu. Sua intenção era se enriquecer e absorver impressões culturais dos vários países do continente. Essas viagens alimentaram a imaginação romântica do compositor. É o que podemos observar nos dois trabalhos encontrados neste disco. A Escócia lhe trouxe o fascínio pela névoa, pelas ruínas medievais e pela mitologia celta; a Itália lhe deu a luz do sol, o calor humano e as cores vibrantes do Mediterrâneo.

A Sinfonia número 3, também conhecida como "Escocesa". O compositor visitou a Escócia em 1829 e ficou impressionado. Após os primeiros contatos, Mendelssohn rascunhou o tema de abertura imediatamente. Poucos dias depois, visitou a ilha de Staffa e a famosa Gruta de Fingal, experiência que consolidou a atmosfera sombria e marinha que permeia tanto esta sinfonia quanto sua famosa abertura As Hébridas.

Já no caso da Sinfonia número 4, Mendelssohn constrói a antítese da número 3. Enquanto a Escocesa é sombria, repleta de insinuações graves. A "Italiana", por sua vez, é ensolarada, festiva, repleta de danças. A viagem à Itália aconteceu em 1830; o rascunho para a Sinfonia Nº 4, começou em 1831. A conclusão se deu em 1833. É uma das minhas sinfonias favoritas. 

Uma boa apreciação! 

Félix Mendelssohn (1809-1847) - 

01. Symphony No. 3 in A Minor, Op. 56, MWV N18 Scottish -  I. Andante con moto - Allegro un poco agitato
02. Symphony No. 3 in A Minor, Op. 56, MWV N18 Scottish -  II. Scherzo. Vivace non troppo
03. Symphony No. 3 in A Minor, Op. 56, MWV N18 Scottish -  III. Adagio
04. Symphony No. 3 in A Minor, Op. 56, MWV N18 Scottish -  IV. Allegro vivacissimo - Allegro maestoso assai
05. Symphony No. 4 in A Major, Op. 90, MWV N16 Italian -  I. Allegro vivace
06. Symphony No. 4 in A Major, Op. 90, MWV N16 Italian -  II. Andante con moto
07. Symphony No. 4 in A Major, Op. 90, MWV N16 Italian -  III. Con modo moderato
08. Symphony No. 4 in A Major, Op. 90, MWV N16 Italian -  IV. Saltarello. Presto
09. A Midsummer Night's Dream, Op. 61, MWV M13 -  Overture
10. A Midsummer Night's Dream, Op. 61, MWV M13 -  No. 1, Scherzo
11. A Midsummer Night's Dream, Op. 61, MWV M13 -  No. 2, Fairies' March
12. A Midsummer Night's Dream, Op. 61, MWV M13 -  No. 5, Intermezzo
13. A Midsummer Night's Dream, Op. 61, MWV M13 -  No. 7, Nocturne
14. A Midsummer Night's Dream, Op. 61, MWV M13 -  No. 11, Dance of the Clowns
15. A Midsummer Night's Dream, Op. 61, MWV M13 -  No. 9, Wedding March

London Philharmonic Orchestra
Sir Adrian Boult, regente 

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domingo, 1 de novembro de 2026

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) - Complete Violin Concertos

O violinista Ning Feng apresenta a integral dos concertos para violino de Wolfgang Amadeus Mozart ao lado da Kammerakademie Potsdam, em lançamento pelo selo Channel Classics Records. O álbum reúne os cinco concertos compostos pelo músico austríaco para o instrumento, obras que revelam tanto seu domínio da escrita violinística quanto sua crescente capacidade de explorar os recursos dramáticos da linguagem musical.

A criação desses concertos esteve relacionada também às preocupações de Leopold Mozart, pai do compositor. Ele se mostrava frustrado com a possibilidade de que Wolfgang, durante suas viagens, negligenciasse o violino como uma potencial fonte de renda. Afinal, Mozart era um violinista habilidoso, capaz de executar o instrumento com grande beleza, além de possuir notável talento para escrever música destinada a ele.

Compostos principalmente em 1775, quando Mozart tinha apenas 19 anos, os cinco concertos apresentam características que já se tornariam marcas de sua personalidade artística. As obras são permeadas por reviravoltas teatrais, contrastes e mudanças de atmosfera que demonstram a familiaridade cada vez maior do jovem compositor com os recursos da expressão dramática.

Naquele período, seus pensamentos e aspirações estavam constantemente voltados para a ópera e para o universo teatral. Essa inclinação aparece também nos concertos para violino, nos quais o diálogo entre solista e orquestra ganha frequentemente um caráter cênico, com alternância de tensão, lirismo e vivacidade. A interpretação de Ning Feng, acompanhado pela Kammerakademie Potsdam, oferece ao ouvinte a oportunidade de percorrer esse conjunto de obras fundamentais da produção instrumental de Mozart.

Uma boa apreciação! 

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) - 

01. Mozart: Violin Concerto No. 1 in B-Flat Major, K. 207: I. Allegro moderato (7:45)
02. Mozart: Violin Concerto No. 1 in B-Flat Major, K. 207: II. Adagio (8:24)
03. Mozart: Violin Concerto No. 1 in B-Flat Major, K. 207: III. Presto (5:55)
04. Mozart: Violin Concerto No. 2 in D Major, K. 211: I. Allegro moderato (9:14)
05. Mozart: Violin Concerto No. 2 in D Major, K. 211: II. Andante (7:46)
06. Mozart: Violin Concerto No. 2 in D Major, K. 211: III. Rondeau. Allegro (4:47)
07. Mozart: Violin Concerto No. 5 in A Major, K. 219: I. Allegro aperto (9:42)
08. Mozart: Violin Concerto No. 5 in A Major, K. 219: II. Adagio (10:55)
09. Mozart: Violin Concerto No. 5 in A Major, K. 219: III. Rondeau. Tempo di menuetto (8:33)
10. Mozart: Violin Concerto No. 3 in G Major, K. 216: I. Allegro (9:53)
11. Mozart: Violin Concerto No. 3 in G Major, K. 216: II. Adagio (8:08)
12. Mozart: Violin Concerto No. 3 in G Major, K. 216: III. Rondeau. Allegro (6:23)
13. Mozart: Rondo in B-Flat Major, K. 269/261A (7:07)
14. Mozart: Adagio in E Major, K. 261 (8:08)
15. Mozart: Rondo in C Major, K. 373 (6:03)
16. Mozart: Violin Concerto No. 4 in D Major, K. 218: I. Allegro (9:30)
17. Mozart: Violin Concerto No. 4 in D Major, K. 218: II. Andante cantabile (6:57)
18. Mozart: Violin Concerto No. 4 in D Major, K. 218: III. Rondeau. Andante grazioso (7:15)

Kammerakademie Potsdam
Suyeon Kang, regente
Ning Feng, violino 

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sábado, 31 de outubro de 2026

Jazz - Alice Coltrane (1937-2007) - Universal Consciousness (1971)

Lançado em 1971 pelo selo Impulse!, Universal Consciousness ocupa um lugar singular na trajetória de Alice Coltrane (1937–2007). Pianista, harpista, organista e compositora, a artista construiu nesse álbum uma linguagem musical na qual o jazz se aproxima de tradições espirituais indianas, da música de concerto e de experiências sonoras profundamente ligadas à improvisação. O resultado é uma obra de caráter contemplativo e, ao mesmo tempo, intenso, na qual a busca pela transcendência se manifesta tanto na composição quanto na sonoridade dos instrumentos.

O disco reúne seis faixas: “Universal Consciousness”, “Battle at Armageddon”, “Oh Allah”, “Hare Krishna”, “Sita Ram” e “The Ankh of Amen-Ra”. A diversidade dos títulos já anuncia o horizonte espiritual que orienta o trabalho. Referências ao hinduísmo, ao islamismo e à tradição egípcia convivem em um repertório que procura expressar diferentes caminhos de elevação e consciência. Não se trata, porém, de uma simples justaposição de referências religiosas: Alice Coltrane transforma essas influências em matéria musical, articulando-as por meio de uma escrita própria, marcada pela repetição, pela exploração tímbrica e pela liberdade dos músicos.

A faixa de abertura, “Universal Consciousness”, apresenta de imediato a atmosfera característica do álbum. O órgão e a harpa de Alice Coltrane estabelecem um ambiente sonoro de grande densidade, enquanto as cordas, organizadas em arranjos da própria compositora, ampliam o alcance expressivo da música. O encarte destaca a participação dos violinistas John Blair, Leroy Jenkins, Julius Brand e Joan Kalisch, além de Jimmy Garrison no contrabaixo e Jack DeJohnette na bateria. A combinação desses instrumentos produz uma sonoridade que ultrapassa as convenções mais habituais do jazz, aproximando o conjunto de uma experiência orquestral e meditativa.

Em “Battle at Armageddon”, a música assume um caráter mais dramático. A presença da bateria de Rashied Ali, ao lado de DeJohnette, intensifica a pulsação e confere à faixa uma energia quase ritualística. O texto do encarte associa a composição à ideia de um conflito espiritual permanente, no qual forças opostas disputam o destino da humanidade. A batalha, nesse contexto, não deve ser entendida apenas como confronto exterior, mas também como representação das tensões interiores que acompanham a busca por purificação e iluminação.

Em contraste, “Oh Allah” apresenta uma atmosfera de recolhimento e devoção. A composição expressa a procura por harmonia e pela união com o divino, enquanto “Hare Krishna” e “Sita Ram” aproximam o álbum de cânticos tradicionais indianos. Alice Coltrane adaptou essas melodias para o conjunto instrumental, preservando sua dimensão religiosa e, simultaneamente, incorporando-as à linguagem musical do jazz. O uso de fórmulas repetitivas e de estruturas de caráter contemplativo favorece a construção de uma experiência de escuta que se aproxima da oração e da meditação.

O encerramento, com “The Ankh of Amen-Ra”, retoma o universo simbólico da espiritualidade e da tradição egípcia. O título faz referência ao ankh, símbolo associado à vida, e a Amen-Ra, divindade relacionada ao antigo Egito. A peça integra o percurso espiritual proposto pelo álbum, no qual diferentes tradições são aproximadas pela busca de uma dimensão universal da existência.

A gravação contou com a produção de Alice Coltrane e Ed Michel e foi realizada em Nova York, em abril de 1971. Além de tocar órgão e harpa, a artista assumiu a responsabilidade pelos arranjos de cordas, demonstrando o controle que exercia sobre os diferentes elementos da concepção musical. A participação de Ornette Coleman na transcrição do arranjo de cordas também merece destaque, assim como a presença de músicos associados a diferentes vertentes do jazz de vanguarda.

Mais do que um registro de jazz experimental, Universal Consciousness representa uma etapa importante da pesquisa artística e espiritual de Alice Coltrane. A compositora amplia as fronteiras do gênero ao incorporar elementos de tradições religiosas e explorar uma sonoridade que valoriza tanto a liberdade improvisatória quanto a organização cuidadosa dos timbres. Em suas seis faixas, o álbum propõe uma experiência musical que não se limita ao entretenimento: convida à contemplação, à reflexão e à percepção da música como caminho de busca interior.

Uma boa apreciação!

01. Universal Consciousness (05:06)
02. Battle at Armageddon (07:20)
03. Oh Allah (05:00)
04. Hare Krishna (08:14)
05. Sita Ram (04:47)
06. The Ankh of Amen-Ra (06:09) 

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