As cinco obras encontradas neste disco foram compostas entre 1801 e 1808 e pertencem a uma fase particularmente importante da produção de Beethoven, contemporânea de obras como os primeiros quartetos de cordas, as sonatas para violino e piano, o Fidelio, o Concerto para Violino, os Quartetos Razumovski e a Fantasia Coral. Embora todas conservem os quatro movimentos característicos do modelo clássico, o conjunto evidencia uma evolução progressiva na maneira de Beethoven conceber forma, ritmo, timbre e expressão.
A Primeira Sinfonia, composta entre 1799 e 1800 e estreada em Viena em 2 de abril de 1800, apresenta um compositor que ainda dialoga diretamente com o universo clássico. A influência de Haydn e Mozart é perceptível, mas Beethoven já introduz procedimentos que tensionam as convenções do gênero. O início, por exemplo, retarda a confirmação da tonalidade principal, enquanto o terceiro movimento, embora denominado Menuetto, apresenta características que antecipam o Scherzo tipicamente beethoveniano.
A Segunda Sinfonia, composta em 1801-1802 e estreada em 1803, amplia algumas dessas experiências. O encadeamento dos movimentos, a extensão dos desenvolvimentos e das codas e a utilização mais livre dos instrumentos revelam um compositor cada vez mais disposto a ultrapassar os modelos herdados. A Segunda, juntamente com a Primeira e a Quarta, é apresentada no encarte como parte de um grupo de obras situado entre dois séculos: voltado para o passado, mas simultaneamente empenhado em transcendê-lo.
É com a Terceira Sinfonia, “Eroica”, contudo, que a transformação assume uma dimensão radical. Composta em 1803-1804, a obra representa um momento decisivo na passagem do classicismo para o romantismo. Beethoven inicialmente associou a sinfonia à figura de Napoleão, mas, após a coroação do general francês como imperador, modificou sua concepção e passou a apresentá-la como uma obra “heroica”. A dimensão da composição, a força retórica, a extensa marcha fúnebre e a importância atribuída ao movimento final alteram profundamente as expectativas tradicionais em relação à sinfonia.
Depois da monumentalidade da Eroica, a Quarta Sinfonia, de 1806, oferece um contraste significativo. A obra recupera características mais próximas da tradição clássica, mas sem abandonar a liberdade conquistada pelo compositor. Seu início particularmente sugestivo cria uma atmosfera de expectativa, enquanto o tratamento do movimento lento e a energia dos movimentos extremos revelam um Beethoven já plenamente consciente das possibilidades dramáticas da orquestra.
A Quinta Sinfonia, composta entre 1805 e 1808 e estreada em Viena em 22 de dezembro de 1808, encerra este primeiro percurso com uma das obras mais reconhecidas de toda a história da música. O encarte chama atenção para a maneira como Beethoven transforma um motivo extremamente conciso em uma estrutura de grande coerência e intensidade. A obra também amplia a formação orquestral: além do conjunto utilizado nas primeiras sinfonias, aparecem piccolo, contrafagote e trombones, instrumentos ainda associados sobretudo à música teatral.
A proposta interpretativa de Jordi Savall parte de uma questão central: recuperar, tanto quanto possível, o universo sonoro para o qual Beethoven escreveu. Para isso, o projeto levou em consideração manuscritos autógrafos, materiais utilizados nas primeiras apresentações, edições derivadas dessas fontes e as indicações de dinâmica, articulação e andamento deixadas pelo próprio compositor. Savall atribui especial importância às marcações metronômicas de Beethoven, entendendo-as como elementos estruturais da música, e não como indicações secundárias.
Essa busca histórica também determina a dimensão da orquestra. O projeto emprega instrumentos correspondentes aos utilizados na época de Beethoven e um efetivo semelhante ao disponível nas primeiras execuções: aproximadamente 50 a 60 músicos, com cerca de 18 instrumentos de sopro e 32 cordas. O objetivo é recuperar um equilíbrio entre as famílias instrumentais que, segundo o encarte, teria sido alterado pelas grandes formações orquestrais das tradições posteriores.
O trabalho foi preparado no âmbito das Academias Beethoven 250, realizadas em 2019. Os músicos participaram de períodos específicos de preparação e aperfeiçoamento, com as Sinfonias nº 1, 2 e 4 trabalhadas na primavera e as nº 3 e 5 no outono daquele ano. As cinco obras foram posteriormente registradas na Colegiata do Castelo de Cardona, na Catalunha: as Sinfonias nº 2 e 4 em junho de 2019 e as nº 1, 3 e 5 em outubro.
Mais do que uma simples reunião de obras célebres, Beethoven Révolution propõe ouvir as cinco primeiras sinfonias como etapas de um processo. Da herança de Haydn e Mozart à expansão formal e expressiva da Eroica e da Quinta, o conjunto revela um compositor que transforma progressivamente o próprio conceito de sinfonia. Na leitura de Savall, essa transformação ganha ainda outra dimensão: ao recuperar instrumentos, efetivos, articulações e andamentos próximos do contexto original, a interpretação procura retirar essas obras da imagem monumental construída pela tradição e recolocar em primeiro plano sua energia, seus contrastes e sua força revolucionária.
Uma boa apreciação!
Ludwig van Beethoven (1770-1828) -
01. Symphonie No. 1 en Ut majeur, Op. 21 I. Adagio molto - Allegro con brio
02. Symphonie No. 1 en Ut majeur, Op. 21 II. Andante cantabile con moto
03. Symphonie No. 1 en Ut majeur, Op. 21 III. Menuetto Allegro molto e vivace - Trio
04. Symphonie No. 1 en Ut majeur, Op. 21 IV. Finale Adagio - Allegro molto e vivace
05. Symphonie No. 2 en Ré majeur, Op. 36 I. Adagio - Allegro con brio
06. Symphonie No. 2 en Ré majeur, Op. 36 II. Larghetto
07. Symphonie No. 2 en Ré majeur, Op. 36 III. Scherzo Allegro - Trio
08. Symphonie No. 2 en Ré majeur, Op. 36 IV. Allegro molto
09. Symphonie No. 3 en Mi bémol majeur, Op. 55 Eroica I. Allegro con brio
10. Symphonie No. 3 en Mi bémol majeur, Op. 55 Eroica II. Marcia Funebre
11. Symphonie No. 3 en Mi bémol majeur, Op. 55 Eroica III. Scherzo
12. Symphonie No. 3 en Mi bémol majeur, Op. 55 Eroica IV. Finale Allegro molto
13. Symphonie No. 4 en Si bémol majeur, Op. 60 I. Adagio - Allegro vivace
14. Symphonie No. 4 en Si bémol majeur, Op. 60 II. Adagio
15. Symphonie No. 4 en Si bémol majeur, Op. 60 III. Allegro molto e vivace
16. Symphonie No. 4 en Si bémol majeur, Op. 60 IV. Allegro ma non troppo
17. Symphonie No. 5 en Do mineur, Op. 67 I. Allegro con brio
18. Symphonie No. 5 en Do mineur, Op. 67 II. Andante con moto - Pió moto - Tempo I
19. Symphonie No. 5 en Do mineur, Op. 67 III. Allegro
20. Symphonie No. 5 en Do mineur, Op. 67 IV. Allegro - Tempo I - Allegro - Presto
Le Concert des Nations
Jordi Savall, regente
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