quinta-feira, 23 de julho de 2026

Richard Strauss (1864-1949) - Burleske in D Minor, TrV 145 e Ein Heldenleben, Op. 40, TrV 190

No final do século XIX, quando a tradição sinfônica alemã parecia ter alcançado seu auge com Beethoven, Brahms e Wagner, Strauss encontrou um caminho próprio: transformou a orquestra em um poderoso instrumento narrativo, capaz de contar histórias, criar personagens e retratar estados psicológicos com uma riqueza de detalhes inédita. O álbum apresentado pela Netherlands Philharmonic Orchestra, sob a regência de Marc Albrecht, reúne duas obras que revelam momentos muito diferentes dessa trajetória: Burleske para piano e orquestra e o poema sinfônico Ein Heldenleben (Uma Vida de Herói).

Composta entre 1885 e 1886, a Burleske pertence ao período de juventude de Strauss. Escrita inicialmente como um Scherzo, a obra nasceu sob forte influência de Johannes Brahms e foi dedicada ao célebre maestro e pianista Hans von Bülow. O curioso é que Bülow recusou a peça por considerá-la excessivamente difícil para o pianista, obrigando Strauss a deixá-la de lado durante quatro anos. Quando finalmente estreou, em 1890, o compositor já havia iniciado uma nova fase criativa e passou a enxergar a obra como um testemunho de um estilo que havia superado.

Hoje, porém, a Burleske é vista de forma bem diferente. Embora dialogue claramente com Brahms, a obra está longe de ser mera imitação. Strauss brinca com o modelo clássico, exagerando suas características e transformando-as em uma espécie de paródia musical. O humor aparece desde a inesperada abertura com um solo de tímpanos, enquanto o piano alterna passagens de virtuosismo quase acrobático com momentos de surpreendente lirismo. É uma música espirituosa, ousada e tecnicamente desafiadora, que já revela a personalidade irreverente do jovem compositor.

Se a Burleske apresenta um Strauss em formação, Ein Heldenleben, concluída em 1898, mostra um artista no auge da maturidade criativa. Trata-se do mais ambicioso de seus poemas sinfônicos, uma obra de grandes proporções dividida em seis seções que narram a trajetória de um herói: seus adversários, sua companheira, suas batalhas, suas realizações e sua retirada do mundo. Embora Strauss jamais tenha admitido tratar-se de um autorretrato explícito, o caráter autobiográfico é difícil de ignorar. O "herói" enfrenta críticos implacáveis, celebra suas conquistas artísticas e revisita temas de obras anteriores, como Don Juan, Till Eulenspiegel, Assim Falou Zaratustra e Dom Quixote, numa espécie de balanço de sua própria carreira.

Musicalmente, Ein Heldenleben impressiona pela escala monumental. Strauss emprega uma orquestra gigantesca e explora cada instrumento para criar uma narrativa cinematográfica muito antes do surgimento do cinema sonoro. Os sopros caricaturam os críticos do herói; um solo de violino retrata sua companheira, inspirada na esposa Pauline; a batalha transforma a orquestra em um turbilhão de sons; e o desfecho substitui o triunfo convencional por uma conclusão contemplativa, sugerindo que a verdadeira vitória do herói reside em sua obra e em seu legado.

A interpretação da Netherlands Philharmonic Orchestra, conduzida por Marc Albrecht, especialista no repertório germânico, valoriza tanto a exuberância orquestral de Ein Heldenleben quanto a energia e o brilho da Burleske, que conta com a participação do pianista Denis Kozhukhin, um dos nomes mais destacados de sua geração.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Richard Strauss (1864-1949) - 

01. Burleske in D Minor, TrV 145
02. Ein Heldenleben, Op. 40, TrV 190 - I. Der Held
03. Ein Heldenleben, Op. 40, TrV 190 - II. Des Helden Widersacher
04. Ein Heldenleben, Op. 40, TrV 190 - III. Des Helden Gefährtin
05. Ein Heldenleben, Op. 40, TrV 190 - IV. Des Helden Walstatt
06. Ein Heldenleben, Op. 40, TrV 190 - V. Des Helden Friedenswerke
07. Ein Heldenleben, Op. 40, TrV 190 - VI. Des Helden Weltflucht und Vollendung

Netherlands Philharmonic Orchestra
Marc Albrecht, regente
Denis Kazhukhin, piano 

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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Richard Wagner (1813-1883) - Der Ring - Symphonie

Que o Anel do Nibelungo é uma das maiores realizações do ser humano isso é inegável.  Composto por quatro óperas e cerca de quinze horas de duração, o monumental drama musical costuma ser visto como uma experiência reservada aos iniciados. Mas será que é possível condensar essa epopeia sem trair sua essência?

Foi exatamente esse desafio que o compositor e arranjador alemão Andreas N. Tarkmann aceitou enfrentar ao criar uma versão puramente orquestral do Anel. Em vez de selecionar apenas os trechos mais famosos, como acontece nas tradicionais coletâneas de "melhores momentos", Tarkmann concebeu uma narrativa sinfônica capaz de contar a história por meio da própria orquestra. O resultado preserva o desenvolvimento dramático, os famosos leitmotivs de Wagner e a impressionante arquitetura musical da obra, ainda que em proporções muito mais acessíveis.

A ideia, aliás, não é totalmente nova. O próprio Wagner, em determinadas ocasiões, regeu excertos de suas óperas em concertos, e ao longo do século XX diversos maestros tentaram aproximar o Anel do público por meio de versões reduzidas. A mais conhecida talvez seja The Ring Without Words, organizada por Lorin Maazel, que apresenta uma longa sequência sinfônica extraída das quatro óperas. Tarkmann, porém, segue outro caminho: divide o ciclo em quatro blocos independentes, um para cada ópera, mantendo uma progressão dramática clara e cronológica.

O trabalho exigiu muito mais do que simples cortes. A instrumentação original, concebida para uma das maiores orquestras da história, foi cuidadosamente reduzida para permitir a execução por conjuntos sinfônicos de porte mais convencional. Ainda assim, o objetivo nunca foi "simplificar" Wagner, mas preservar sua identidade sonora, alternando momentos de grande potência orquestral com passagens de delicada intimidade.

A ausência de cantores também revela um aspecto fascinante da escrita wagneriana. A orquestra deixa de ser mero acompanhamento e assume integralmente o papel de narradora. São os instrumentos que descrevem o curso do Reno, a entrada dos deuses em Valhala, a Cavalgada das Valquírias, a forja da espada Nothung, o despertar de Brünnhilde e o crepúsculo final dos deuses. Os leitmotivs - pequenas ideias musicais associadas a personagens, objetos e sentimentos - conduzem o ouvinte pela trama mesmo sem uma única palavra ser cantada.

Naturalmente, nenhuma redução pode substituir a experiência integral do Anel. Certas cenas precisaram ser omitidas e algumas transições foram inevitavelmente condensadas. Ainda assim, Tarkmann sustenta que seu objetivo nunca foi criar uma versão definitiva, mas oferecer uma nova perspectiva sobre a obra, respeitando sua lógica dramática e sua força expressiva.

Para quem já conhece Wagner, essa adaptação oferece uma oportunidade de redescobrir a extraordinária riqueza de sua escrita orquestral. Para quem sempre se intimidou diante da extensão das óperas, ela funciona como uma excelente porta de entrada para um dos maiores monumentos da cultura ocidental. Afinal, quando a música é capaz de narrar uma história inteira sem recorrer às palavras, compreendemos por que Wagner continua sendo uma das figuras mais revolucionárias da história da arte.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Richard Wagner (1813-1883) - 

DISCO 01


1.01. Das Rheingold Vorspiel. Der Rhein (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
1.02. Das Rheingold Das Leuchten des Rheingolds (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
1.03. Das Rheingold Die Götterburg Walhall (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
1.04. Das Rheingold Die Riesen (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
1.05. Das Rheingold Die schmiedenden Zwerge (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
1.06. Das Rheingold Gott Donner vertreibt Dunst und Nebel (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
1.07. Das Rheingold Finale. Einzug der Götter in Walhall (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
1.08. Die Walküre Vorspiel. Unwetter und erste Begegnung der Geschwister (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
1.09. Die Walküre Siegmunds Lied und gemeinsame Flucht (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
1.10. Die Walküre Vorspiel. Aufzug und Wotans Wut (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
1.11. Die Walküre Walkürenritt (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
1.12. Die Walküre Wotans Abschied von Brünhilde (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
1.13. Die Walküre Finale. Feuerzauber (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)

DISCO 02

2.01. Siegfried Vorspiel. In Mimes Höhle (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
2.02. Siegfried Mimes Zittern vor dem Drachen (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
2.03. Siegfried Siegfried schmiedet das Schwert Nothung (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
2.04. Siegfried Waldweben und Gesang des Waldvogels (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
2.05. Siegfried Siegfrieds Hornruf (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
2.06. Siegfried Der Kampf mit dem Drachen (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
2.07. Siegfried Finale. Liebesszene Brünnhilde - Siegfried (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
2.08. Götterdämmerung Vorspiel (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
2.09. Götterdämmerung Morgengrauen, Sonnenaufgang - Abschied von Brünnhilde (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
2.10. Götterdämmerung Siegfrieds Rheinfahrt (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
2.11. Götterdämmerung Trauermarsch (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)
2.12. Götterdämmerung Finale. Brünnhildes Opfer und Feuertod (Arr. for Orchestra by Andreas Tarkmann)

Nordwestdeutsche Philharmonie
Daniel Klajner, regente 

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terça-feira, 21 de julho de 2026

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - Goldberg Variations (Version for 2 Pianos by Rheinberger/Reger)


"Desde sua primeira edição autorizada, publicada entre 1741 e 1742, as Variações Goldberg ocupam um lugar central no repertório para teclado e figuram entre as obras mais emblemáticas da história da música ocidental. Com o advento da indústria fonográfica, a partitura de Johann Sebastian Bach tornou-se um verdadeiro rito de passagem para grandes pianistas, que nela encontraram um espaço privilegiado para afirmar suas identidades artísticas. Interpretações históricas de nomes como Glenn Gould, Evgeny Koroliov, Maria Tipo e Rosalyn Tureck ajudaram a consolidar a obra como um dos maiores desafios da literatura pianística.

A influência das Variações Goldberg estendeu-se também ao campo dos arranjos. Ao longo das décadas, a obra recebeu versões para violão, órgão, trio de cordas e até uma monumental adaptação pianística de Ferruccio Busoni, testemunhando sua inesgotável capacidade de inspirar novas leituras sem perder sua identidade.

Menos conhecida, porém igualmente fascinante, é a transcrição realizada por Josef Rheinberger e posteriormente revisada por Max Reger. Durante muito tempo esquecida, essa versão ressurge agora graças a uma nova gravação lançada pela Sony Classical, em parceria com a Bayer Kultur e o festival Max-Reger-Tage. O projeto ganha vida nas mãos da consagrada dupla de pianistas Yaara Tal e Andreas Groethuysen, responsáveis por devolver ao repertório uma das mais curiosas releituras da obra-prima bachiana.

Profundo admirador de Bach, Rheinberger concebeu, no início da década de 1880, uma versão para dois pianos guiada por três objetivos principais. O primeiro consistia em ampliar a dimensão sonora da obra, explorando possibilidades quase orquestrais proporcionadas pelos dois instrumentos. O segundo buscava preservar integralmente a clareza da extraordinária arquitetura contrapontística de Bach. Por fim, como compositor plenamente inserido no universo romântico, Rheinberger procurou enriquecer a partitura com novos recursos expressivos, aproximando-a da linguagem pianística de seu tempo. O resultado foi amplamente elogiado por sua inventividade e pelo elevado grau de virtuosismo.

Entre 1909 e 1915, Max Reger assumiu a defesa dessa versão em diversos recitais e promoveu uma nova revisão da partitura. Sua intervenção acrescentou uma dimensão interpretativa ainda mais sofisticada, marcada por detalhadas indicações de dinâmica, refinamento na construção das frases e uma exploração das possibilidades tímbricas herdadas de sua vasta experiência como compositor para órgão. Reger procurou realçar a eloquência e o dinamismo próprios da música barroca sem renunciar à intensidade emocional característica do romantismo tardio.

É justamente essa dupla herança que Yaara Tal e Andreas Groethuysen exploram com notável sensibilidade. A interpretação combina absoluto rigor contrapontístico, cuidadosa valorização das linhas do baixo e refinada construção das unidades motívicas, preservando a transparência polifônica da escrita de Bach enquanto evidencia a riqueza expressiva acrescentada por Rheinberger e Reger.

Um dos aspectos mais marcantes da gravação é o uso extremamente criterioso dos contrastes. Na 17ª variação, por exemplo, a dupla alterna delicadíssimos pianissimi com passagens de brilho quase etéreo, criando uma atmosfera de rara elegância. Também chama atenção a liberdade com que administra os andamentos: as variações mais contemplativas — como a Ária e as de números 13 e 25 — são conduzidas em tempos amplos, permitindo que a música respire e revele toda a profundidade de sua arquitetura. Em contrapartida, variações de caráter mais virtuoso, como as de números 5, 14, 19 e 20, irradiam energia, leveza e um irresistível senso de vitalidade.

Outro mérito da interpretação reside na atenção dedicada às repetições, frequentemente tratadas apenas como convenção formal. Aqui, cada retorno é cuidadosamente diferenciado, ampliando a expressividade do discurso musical e recuperando uma prática interpretativa profundamente ligada à tradição barroca.

Com pouco mais de 76 minutos de duração, esta gravação vai muito além da simples recuperação de uma curiosidade histórica. Ela oferece uma perspectiva inédita sobre uma das obras mais celebradas do repertório pianístico, estabelecendo um diálogo entre Bach, Rheinberger, Reger e os intérpretes contemporâneos. O resultado é uma leitura de extraordinária elegância e imaginação, capaz de lançar nova luz sobre um monumento da música ocidental e de reafirmar a inesgotável vitalidade das Variações Goldberg".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - 

01. Aria: Andante Espressivo
02. Variation I: Più Animato
03. Variation II: Allegretto
04. Variation III: Canone All' Unisono. Andantino
05. Variation IV: Energico
06. Variation V: Con Fuoco
07. Variation VI: Canone Alla Seconda. Allegro
08. Variation VII: Allegretto Scherzando
09. Variation VIII: Allegro
10. Variation IX: Canone Alla Terza. Moderato
11. Variation X: Fughetta, Alla Breve
12. Variation XI: Allegro
13. Variation XII: Canone Alla Quarta. Andanta
14. Variation XIII: Adagio
15. Variation XIV: Con Fuoco
16. Variation XV: Canone Alla Quinta. Adagio
17. Variation XVI: Overture. Maestoso-Allegretto
18. Variation XVII: Poco Allegro
19. Variation XVIII: Canone Alla Sexta. Alla Breve
20. Variation XIX: Allegretto
21. Variation XX: Allegro Marcato
22. Variation XXI: Canone Alla Settima
23. Variation XXII: Alla Breve
24. Variation XXIII: Allegro
25. Variation XXIV: Canone All' Ottava. Andantino
26. Variation XXV: Adagio Espressivo
27. Variation XXVI: Allegro Deciso
28. Variation XXVII: Canone Alla Nona. Allegro
29. Variation XXVIII: Allegretto
30. Variation XXIX: Allegro
31. Variation XXX: Quodlibet
32. Aria. Andante Espressivo

Yaara Tal, piano
Andreas Groethuysen, piano 

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segunda-feira, 20 de julho de 2026

Otorrino Respighi (1879-1936) - Works for piano

À primeira vista, pode parecer estranho reduzir ao piano obras célebres justamente por sua riqueza tímbrica. Mas Respighi não tratava essas partituras como simples adaptações editoriais. Suas transcrições preservam a arquitetura da música e, ao mesmo tempo, revelam detalhes que a exuberância da orquestra às vezes disfarça. No piano, as linhas melódicas, as relações harmônicas e a construção formal surgem com extraordinária nitidez, permitindo ao ouvinte enxergar o esqueleto de obras que normalmente admiramos por sua superfície sonora.

As duas grandes protagonistas do disco pertencem à chamada "Trilogia Romana". Fontane di Roma, composta em 1916, foi a obra que projetou Respighi internacionalmente, embora seu início tenha sido conturbado. A estreia enfrentou rejeição do público e da crítica, até que Arturo Toscanini a apresentou em Milão, transformando-a em um sucesso definitivo. Dividida em quatro quadros, a obra acompanha diferentes fontes da capital italiana ao longo do dia: da serenidade da Fonte de Valle Giulia ao amanhecer à grandiosidade da Fontana di Trevi ao meio-dia, culminando no silêncio contemplativo da Fonte da Villa Medici ao entardecer.

Pini di Roma, concluída em 1924, amplia esse universo poético. Também estruturada em quatro episódios, percorre paisagens simbólicas da cidade: as brincadeiras infantis na Villa Borghese, o recolhimento diante das catacumbas, o lirismo noturno do Gianicolo — célebre pelo canto do rouxinol gravado em disco - e a monumental marcha final pela Via Ápia, um dos grandes crescendos da literatura sinfônica. Ainda que inspiradas por lugares específicos, essas páginas transcendem a descrição geográfica e transformam Roma em um estado de espírito.

O álbum também apresenta as duas primeiras suítes de Antiche Danze e Arie per Liuto, nas quais Respighi recria melodias renascentistas e barrocas com refinamento incomum. Fascinado pela música antiga, o compositor não buscava reconstruir o passado arqueologicamente, mas reinterpretá-lo com sensibilidade moderna. O resultado é um equilíbrio raro entre elegância histórica e imaginação orquestral - qualidades que permanecem igualmente convincentes na versão pianística.

Fechando o programa aparecem os delicados Sei piccoli pezzi (1926), pequenas miniaturas para piano a quatro mãos dedicadas ao universo infantil. Embora breves e aparentemente despretensiosas, revelam um Respighi intimista, de escrita clara e afetuosa, capaz de alternar lirismo, humor e discretas referências folclóricas sem jamais perder a sofisticação.

Interpretadas pelos pianistas Gabriele Baldocci e Francesco Caramiello, essas transcrições demonstram que Respighi era muito mais do que um "mago da orquestra". Ao retirar o esplendor dos metais, das madeiras e das cordas, o piano não empobrece sua música; ao contrário, revela sua extraordinária solidez estrutural. Para quem conhece apenas as versões orquestrais, este repertório oferece uma oportunidade rara de ouvir Respighi por outra perspectiva: mais íntima, mais transparente e talvez ainda mais próxima do gesto criador do compositor. É uma experiência que amplia nossa compreensão de um dos grandes nomes da música italiana do século XX.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Otorrino Respighi (1879-1936) - 

01. Pini di Roma, P. 141 (Version for Piano 4-Hands)
02. Antiche danze et arie, Suite No. 1, P. 116 (Version for Piano 4-Hands) I. Simone Molinaro
03. Antiche danze et arie, Suite No. 1, P. 116 (Version for Piano 4-Hands) II. Vincenzo Galilei
04. Antiche danze et arie, Suite No. 1, P. 116 (Version for Piano 4-Hands) III. Ignoto
05. Antiche danze et arie, Suite No. 1, P. 116 (Version for Piano 4-Hands) IV. Ignoto
06. 6 Little Pieces for Piano 4-Hands, P. 149 No. 1, Romanza
07. 6 Little Pieces for Piano 4-Hands, P. 149 No. 2, Canto di caccia siciliano
08. 6 Little Pieces for Piano 4-Hands, P. 149 No. 3, Canzone armena
09. 6 Little Pieces for Piano 4-Hands, P. 149 No. 4, Natale, Natale!
10. 6 Little Pieces for Piano 4-Hands, P. 149 No. 5, Cantilena scozzese
11. 6 Little Pieces for Piano 4-Hands, P. 149 No. 6, Piccoli highlanders
12. Antiche danze et arie, Suite No. 2, P. 139 (Version for Piano 4-Hands) I. Fabrizio Carosio
13. Antiche danze et arie, Suite No. 2, P. 139 (Version for Piano 4-Hands) II. Jean-Baptiste Besard
14. Antiche danze et arie, Suite No. 2, P. 139 (Version for Piano 4-Hands) III. Anonymous
15. Antiche danze et arie, Suite No. 2, P. 139 (Version for Piano 4-Hands) IV. Bernardo Gianoncelli
16. Fontane di Roma, P. 106 (Version for Piano 4-Hands)

Gabriele Baldocci, piano
Francesco Caramiello, piano 

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Antonín Dvorak (1841-1904) - Symphony No. 7 in D-Sharp Minor, Op. 70 e Symphony No. 8 in G-Sharp Major, Op. 88

Composta entre o final de 1884 e o início de 1885 para a Sociedade Filarmônica de Londres, a Sétima Sinfonia nasceu em um período de intensa maturidade artística. Dvořák já era um compositor reconhecido internacionalmente, mas atravessava uma fase de profundas reflexões pessoais e criativas. O resultado é uma obra de grande densidade dramática, frequentemente comparada às sinfonias de Brahms por sua arquitetura rigorosa e pela força do desenvolvimento temático.

Desde os primeiros compassos, a música estabelece um ambiente de tensão. O primeiro movimento apresenta um embate constante entre impulsos opostos; o Adagio oferece um momento de aparente serenidade, sem dissipar completamente a inquietação; o Scherzo transforma ritmos de dança popular em energia quase combativa; e o Finale conduz a uma vitória conquistada com esforço, como se a luz só pudesse surgir depois de atravessar a sombra. Não há triunfalismo fácil: a conclusão soa como a recompensa de uma longa batalha interior.

Quatro anos depois, em 1889, Dvořák escreveu uma obra de espírito completamente diverso. A Oitava Sinfonia parece respirar o ar do campo boêmio, refletindo o fascínio do compositor pela natureza, pela vida rural e pelas melodias populares de sua terra natal. É uma música que transmite gratidão, equilíbrio e confiança, sem abrir mão da sofisticação estrutural.

Seu primeiro movimento alterna momentos contemplativos e explosões de entusiasmo; o segundo possui caráter meditativo, quase pastoral; o terceiro substitui o tradicional scherzo por uma elegante valsa de delicada melancolia; e o Finale, iniciado por uma célebre fanfarra de trompete, desenvolve uma série de variações brilhantes que culminam em uma celebração luminosa. Tudo parece fluir com espontaneidade, embora cada detalhe revele o refinamento de um mestre em pleno domínio de sua linguagem.

Ouvir essas duas sinfonias em conjunto é compreender a extraordinária versatilidade de Dvořák. A Sétima representa o compositor que enfrenta os dilemas da existência com coragem e profundidade. A Oitava revela o artista reconciliado consigo mesmo, capaz de transformar a contemplação da natureza em música de irresistível beleza.

Essa complementaridade explica por que ambas ocupam lugar permanente no repertório das grandes orquestras. Elas condensam características que tornaram Dvořák um dos maiores sinfonistas do século XIX: invenção melódica inesgotável, orquestração transparente, domínio formal e a rara habilidade de unir tradição germânica e identidade eslava em um discurso absolutamente pessoal.

Mais de um século após suas estreias - ambas regidas pelo próprio compositor -, essas obras permanecem surpreendentemente atuais. Em tempos de contrastes e incertezas, a Sétima nos lembra que a superação nasce do enfrentamento das dificuldades; a Oitava reafirma que ainda é possível celebrar a beleza das pequenas coisas. Poucos compositores conseguiram traduzir essas duas dimensões da experiência humana com tamanha sinceridade e poder expressivo. É justamente por isso que as Sinfonias nº 7 e nº 8 continuam sendo não apenas monumentos da música clássica, mas também retratos universais da condição humana.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Antonín Dvorak (1841-1904) -

01 - Symphony No. 7 in D-Sharp Minor, Op. 70, ._ I. Allegro maestoso
02 - Symphony No. 7 in D-Sharp Minor, Op. 70, ._ II. Poco adagio
03 - Symphony No. 7 in D-Sharp Minor, Op. 70, ._ III. Scherzo
04 - Symphony No. 7 in D-Sharp Minor, Op. 70, ._ V. Finale
05 - Symphony No. 8 in G-Sharp Major, Op. 88, ._ I. Allegro con brio
06 - Symphony No. 8 in G-Sharp Major, Op. 88, ._ II. Adagio
07 - Symphony No. 8 in G-Sharp Major, Op. 88, ._ III. Allegretto grazioso
08 - Symphony No. 8 in G-Sharp Major, Op. 88, ._ IV. Allegro ma non troppo

Czech Philharmonic Orchestra
Václav Neumann, regente 

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