A trajetória de Gershwin é particularmente expressiva porque desmonta a antiga oposição entre “música séria” e música popular. O compositor admirava Bach, Chopin e Debussy e mantinha interesse pela música de Arnold Schoenberg, ao mesmo tempo que absorvia intensamente o jazz, a canção popular e a atmosfera urbana americana. A facilidade melódica de suas obras, porém, chegou a provocar desconfiança entre críticos que consideravam suas partituras excessivamente acessíveis. Sua morte prematura, aos 39 anos, interrompeu uma carreira que havia produzido apenas seis obras orquestrais, entre elas as três reunidas nesta gravação.
O Concerto em Fá, concluído em 1925, surgiu depois do extraordinário sucesso de Rhapsody in Blue. A encomenda partiu da New York Symphony, sob Walter Damrosch, e tinha uma intenção quase programática: Gershwin deveria demonstrar que era capaz de escrever um verdadeiro concerto para piano, e não apenas uma peça de efeito baseada no jazz. O próprio compositor desejava realizar uma obra de “música absoluta”, sem programa extramusical. O resultado combina, entretanto, a disciplina da forma concertante com a vitalidade rítmica e melódica característica de sua linguagem.
A estrutura em três movimentos evidencia esse equilíbrio. O primeiro começa com vigorosas intervenções dos tímpanos e desenvolve uma atmosfera associada ao espírito jovem e pulsante da vida americana, incluindo um motivo de charleston. O segundo desloca a música para uma paisagem noturna e contemplativa: o blues aparece em uma versão particularmente refinada, inicialmente sugerida pelo trompete sobre um tecido sustentado pelos clarinetes, antes da entrada do piano. No finale, Gershwin retoma a energia inicial em uma sucessão exuberante de ritmos e virtuosismo.
A Rhapsody No. 2, de 1931, nasceu de maneira ainda mais diretamente relacionada ao cinema. Gershwin havia sido contratado pela Fox para escrever um breve interlúdio para o filme Delicious, cuja sequência mostrava Manhattan em plena transformação urbana. O compositor ampliou a encomenda até convertê-la em uma obra completa para piano e orquestra. O episódio explica inclusive os títulos provisórios — Rhapsody in Rivets, New York Rhapsody e Manhattan Rhapsody — antes da escolha definitiva de Second Rhapsody.
Musicalmente, a peça transforma a cidade moderna em movimento sonoro. Fragmentos de jazz e blues aparecem em uma escrita veloz, espirituosa e altamente exigente para o pianista, que dialoga constantemente com a orquestra. A obra foi estreada em 29 de janeiro de 1932, pela Boston Symphony Orchestra, sob a direção de Sergey Koussevitzky, tendo o próprio Gershwin como solista.
Já as I Got Rhythm Variations, de 1934, partem de uma das canções mais conhecidas de Gershwin, originalmente escrita para o musical Girl Crazy, de 1930. A encomenda surgiu da necessidade de uma nova peça para uma turnê de concertos na qual o compositor atuaria como pianista. A transformação de uma canção popular em tema de variações revela uma das características mais fascinantes de Gershwin: a capacidade de tratar uma melodia destinada ao teatro como matéria-prima para uma sofisticada elaboração instrumental.
As variações também mostram um Gershwin interessado em experiências harmônicas e orquestrais que ultrapassam os limites convencionais da Broadway. Há uma variação em ritmo de valsa, outra inspirada caricaturalmente em flautas orientais e procedimentos contrapontísticos e rítmicos que exploram o tema de diferentes perspectivas. O próprio compositor descreveu a obra em uma transmissão radiofônica, explicando ao público o percurso das variações. A partitura foi ainda orquestrada pelo próprio Gershwin e constitui, segundo o encarte, sua última partitura completa escrita de próprio punho.
A escolha dos intérpretes reforça a vocação americana do projeto. Orion Weiss, pianista formado pelo Cleveland Institute of Music e pela Juilliard School, onde estudou com Paul Schenly e Emanuel Ax, construiu carreira junto a importantes orquestras e instituições musicais dos Estados Unidos. À frente da Buffalo Philharmonic está JoAnn Falletta, regente particularmente identificada com a música americana: o encarte registra que ela já apresentou cerca de quinhentas obras de compositores dos Estados Unidos, incluindo mais de cem primeiras audições mundiais.
O resultado é um retrato convincente de Gershwin como compositor situado entre dois mundos que, em sua música, nunca precisaram estar separados. O piano virtuoso, os ritmos do jazz, a sofisticação harmônica, o teatro musical e a tradição sinfônica convivem em uma mesma linguagem. O Concerto em Fá demonstra sua ambição de conquistar a sala de concertos; a Rhapsody No. 2 transforma a metrópole em matéria musical; e as I Got Rhythm Variations mostram como uma canção popular pode sobreviver à própria origem e adquirir novas possibilidades formais. Mais do que um compositor que levou o jazz à música de concerto, Gershwin aparece aqui como um dos artífices de uma genuína linguagem musical americana.
Uma boa apreciação!
George Gershwin (1898-1937) -
01 - Piano Concerto in F Major_ I. Allegro
02 - Piano Concerto in F Major_ II. Adagio
03 - Piano Concerto in F Major_ III. Allegro agitato
04 - 2nd Rhapsody
05 - I Got Rhythm Variations
Buffalo Philharmonic Orchestra
JoAnn Falletta, regente
Orion Weiss, piano
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