Embora Antonín Dvořák seja hoje sobretudo associado às sinfonias e aos concertos, sua produção de música de câmara ocupa lugar fundamental em sua trajetória. É justamente nesse repertório mais íntimo que se revela, segundo o texto do encarte, um Dvořák menos público e mais reflexivo, herdeiro de Schubert e dotado de uma extraordinária capacidade melódica. Os Quartetos de Cordas nº 8 em mi maior, Op. 80, e nº 9 em ré menor, Op. 34, compostos em 1876 e 1877, respectivamente, pertencem a um mesmo período criativo e permitem acompanhar duas manifestações distintas de sua linguagem.
O Quarteto nº 8 em mi maior foi escrito no início de 1876, quando Dvořák tinha 34 anos. Apesar de ocupar o Op. 80, foi composto antes do Quarteto nº 9, circunstância que contribuiu para a conhecida confusão em torno da numeração e da organização editorial de suas obras. O período coincidiu com importantes acontecimentos na vida do compositor: Dvořák começava a conquistar reconhecimento e acabara de receber a bolsa do Estado austríaco. Ao mesmo tempo, carregava a dor provocada pela morte de sua primeira filha, ocorrida no ano anterior. O encarte sugere que essa experiência pode ter contribuído para a atmosfera mais sombria da obra.
Formalmente, o Quarteto em mi maior conserva os quatro movimentos tradicionais, mas Dvořák introduz modificações discretas que alteram profundamente o percurso musical. O primeiro movimento começa de maneira tranquila, mas logo é interrompido por duplos ataques das cordas e rápidas figuras ascendentes, criando uma sensação de inquietação que atravessa boa parte do movimento. Quando surge o segundo tema, a escrita assume caráter mais próximo de um diálogo entre dois violinos, acompanhado delicadamente pela viola e pelo violoncelo em pizzicato. O desenvolvimento aumenta a tensão, enquanto a reexposição é marcada por um motivo pontuado de caráter ameaçador.
O movimento lento aprofunda essa dimensão expressiva. A partir de uma harmonia relativamente simples, Dvořák extrai uma linguagem de forte intensidade emocional. O Scherzo seguinte alivia parcialmente a tensão, mas a alternância entre compassos de 3/4 e 2/4 mantém uma espécie de instabilidade subterrânea. No Finale, embora a música adquira maior vivacidade, a atmosfera ansiosa introduzida no início nunca desaparece completamente. O encerramento, portanto, transmite mais uma sensação de firmeza e conclusão do que de triunfo exuberante.
O Quarteto nº 9 em ré menor, Op. 34, escrito menos de um ano depois, apresenta afinidades com o anterior, mas possui personalidade própria. Dedicada a Johannes Brahms, a obra começa com um tema sereno no violino sobre um acompanhamento sinuoso de colcheias. Já em sua segunda aparição, o tema recebe uma figura de tercinas que terá importância no desenvolvimento. A música desloca-se posteriormente para fá maior, onde surge um segundo tema mais caloroso, antes que o desenvolvimento conduza a uma região dominada pelo mi menor e a um clímax marcado por acordes acentuados e pelo confronto entre os dois violinos, de um lado, e viola e violoncelo, de outro.
O segundo movimento substitui o Scherzo convencional por uma polca, solução que evidencia o interesse de Dvořák por formas e ritmos de caráter popular. O Adagio que se segue assume uma atmosfera quase noturna, com um tema de caráter hínico e caloroso. A serenidade, contudo, é interrompida pelo Finale, cuja dança em ré menor e o trabalho contrapontístico retomam a tensão presente desde o início. Mesmo adotando uma forma próxima da sonata, Dvořák surpreende ao diluir a fronteira entre desenvolvimento e reexposição — procedimento apontado no encarte como exemplo da sutileza de sua escrita.
A comparação entre os dois quartetos é particularmente reveladora. O Op. 80 é descrito como o mais sombrio dos dois, enquanto o Op. 34, embora igualmente marcado por tensão e introspecção, aponta para uma linguagem que seria desenvolvida posteriormente pelo compositor. Em ambos, entretanto, a influência de Schubert é perceptível, sobretudo no lirismo melódico e na capacidade de transformar estruturas harmônicas aparentemente simples em música de grande densidade emocional.
O Chilingirian Quartet, responsável pelo registro, reúne Levon Chilingirian e Mark Butler, violinos; Louise Williams, viola; e Philip De Groote, violoncelo. A gravação foi realizada em outubro de 1989, na Faculty of Music Concert Hall da Universidade de Cambridge, em um registro digital produzido pela Chandos. O encarte ressalta justamente a importância da música de câmara de Dvořák para compreender o compositor para além de suas obras mais conhecidas.
Esses dois quartetos mostram, enfim, um Dvořák que combina tradição e invenção, lirismo e inquietação. Longe de constituírem meros exercícios de escrita camerística, as obras revelam um compositor capaz de modificar sutilmente as formas herdadas para construir percursos expressivos pessoais. É na intimidade do quarteto, entre o diálogo das quatro vozes e a riqueza de suas melodias, que emerge com especial nitidez o músico que o encarte apresenta: reservado, reflexivo e profundamente ligado à força comunicativa da música.
Uma boa apreciação!
Antonín Dvorak (1841-1904) -
01 - String Quartet No. 8 in E major, B. 57 (Op.80)- Allegro
02 - String Quartet No. 8 in E major, B. 57 (Op.80)- Andante con moto
03 - String Quartet No. 8 in E major, B. 57 (Op.80)- Allegro scherzando
04 - String Quartet No. 8 in E major, B. 57 (Op.80)- Finale, Allegro con brio
05 - String Quartet No. 9 in D minor, B. 75 (Op.34) (once listed as Op. 43)- Allegro
06 - String Quartet No. 9 in D minor, B. 75 (Op.34) (once listed as Op. 43)- Alla ...
07 - String Quartet No. 9 in D minor, B. 75 (Op.34) (once listed as Op. 43)- Adagio
08 - String Quartet No. 9 in D minor, B. 75 (Op.34) (once listed as Op. 43)- Poco ...
Chilingirian Quartet
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