Composta ao longo de vários anos, entre 1819 e 1822, e revista posteriormente, a obra nasceu de uma encomenda ligada à posse de seu antigo aluno e patrono, o arquiduque Rudolph, como arcebispo de Olmütz. O resultado, porém, ultrapassou desde cedo a finalidade litúrgica: Beethoven transformou o texto da missa em um dos mais ambiciosos testemunhos de sua maturidade criativa. Nesta gravação ao vivo, realizada no Barbican Hall, em Londres, em 17 de outubro de 2012, a obra é apresentada por John Eliot Gardiner, à frente do Monteverdi Choir e da Orchestre Révolutionnaire et Romantique, com Lucy Crowe, Jennifer Johnston, James Gilchrist e Matthew Rose como solistas.
O próprio Beethoven deixou no manuscrito uma frase que se tornou uma espécie de chave para a compreensão da obra: “Do coração — possa ela voltar ao coração!” Embora não tenha sido incluída na primeira edição da partitura, a inscrição sintetiza uma dimensão essencial da Missa Solemnis: a tentativa de converter uma experiência interior em linguagem musical. A primeira indicação de andamento, no Kyrie, já aponta nessa direção: Assai sostenuto. Mit Andacht, isto é, “muito sustentado, com devoção”. A mesma expressão retorna na introdução do Sanctus.
Essa espiritualidade, contudo, não corresponde simplesmente à ortodoxia católica na qual Beethoven fora criado. As notas do encarte destacam como sua relação com a religião se desenvolveu em meio a uma vida marcada por conflitos pessoais, pela surdez progressiva e por uma visão humanista que havia sido profundamente influenciada pelos ideais da Revolução Francesa. O contato com o teólogo Johann Michael Sailer, além do interesse de Beethoven pelo pensamento religioso oriental e pela Bhagavad-Gita, contribuiu para uma concepção mais interiorizada da fé.
A história da composição também revela o grau de exigência que Beethoven impôs a si próprio. Quando chegou a data da entronização de Rudolph, em março de 1820, a missa ainda estava longe de concluída: o compositor havia alcançado apenas o Credo. A partitura completa só ficou pronta em maio de 1822, e novas revisões ainda seriam realizadas. Em 19 de março de 1823, Beethoven finalmente entregou ao arquiduque uma cópia passada a limpo.
O processo de criação foi particularmente intenso no Credo. Um relato de Anton Schindler, embora apresentado no próprio encarte com a ressalva de que ele nem sempre é uma fonte confiável, descreve Beethoven trabalhando obsessivamente sobre a grande fuga do movimento. Mais importante, porém, é o próprio testemunho do compositor: em 1824, Beethoven afirmou que seu objetivo principal ao escrever a missa fora despertar e conservar sentimentos religiosos tanto nos cantores quanto nos ouvintes.
Musicalmente, os cinco grandes movimentos — Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei — constituem uma arquitetura monumental, com duração total de aproximadamente 70 minutos. O Kyrie inicia a obra de maneira relativamente equilibrada, enfatizando o diálogo entre coro e solistas e um contraponto de grande elegância. É no Gloria, porém, que a música assume imediatamente uma dimensão expansiva: o Allegro vivace lança o coro sobre uma corrente orquestral vigorosa, aproximando a linguagem sacra de uma intensidade quase operística.
O Credo representa um dos pontos culminantes da partitura. Beethoven repete insistentemente a palavra credo — “eu creio” — como se a própria repetição transformasse a afirmação litúrgica em experiência dramática. Em Et incarnatus est, uma flauta solista, em registro agudo e aparentemente livre do fluxo principal, cria uma imagem sonora associada à descida do Espírito Santo. Mais adiante, o movimento desemboca em uma gigantesca fuga sobre Et vitam venturi saeculi, Amen, antes de desaparecer em uma conclusão surpreendentemente serena.
No Sanctus, Beethoven combina solenidade, silêncio e luminosidade. O Praeludium que antecede o Benedictus evoca uma sonoridade organística construída pela combinação de madeiras graves, cordas e sustentação harmônica. Sobre esse fundo, o violino solista e a flauta surgem em registro agudo, produzindo uma imagem de luminosidade que contrasta radicalmente com as profundezas do acompanhamento. O Andante molto cantabile do Benedictus, com o violino pairando sobre as vozes, está entre os momentos mais delicados da obra.
É no Agnus Dei, contudo, que a concepção espiritual de Beethoven adquire sua maior complexidade. A oração por paz começa em um ambiente sombrio, em si menor, mas logo é interrompida por fanfarras marciais ameaçadoras. O pedido Dona nobis pacem — “dai-nos a paz” — deixa de ser apenas uma fórmula litúrgica e transforma-se em uma súplica dramaticamente urgente. O encarte levanta a possibilidade de que Beethoven estivesse evocando a memória do bombardeio de Viena de 1809, embora isso permaneça uma hipótese.
O mais surpreendente é que a obra não termina com uma sensação inequívoca de triunfo. As ameaças marciais retornam, e as próprias escolhas instrumentais impedem que o tutti final alcance uma resolução plenamente convencional. O texto de Stephen Johnson interpreta essa conclusão como uma espécie de dissonância não completamente resolvida, aproximando-a da ideia de “capacidade negativa” de John Keats: a possibilidade de permanecer diante da dúvida, do mistério e da incerteza sem exigir uma resposta definitiva. Assim, fé e dúvida podem coexistir na própria estrutura musical.
Uma boa apreciação!
Ludwig van Beethoven (1770-1827) -
01. Kyrie
02. Gloria
03. Credo
04. Sanctus
05. Agnus Dei
Monteverdi Choir
Orchestre Révolutionnaire et Romantique
John Eliot Gardiner, regente
Lucy Crowe, soprano
Jennifer Johnston, mezzo-soprano
James Gilchrist, tenor
Matthew Rose, baixo
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