quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Gustav Holst (1874-1934) - Orchestral Works

A música de Gustav Holst (1874–1934) revela um compositor cuja imaginação ultrapassou as fronteiras da tradição musical inglesa. Embora seja amplamente lembrado por Os Planetas, sua produção inclui obras orquestrais que exploram diferentes universos culturais, interesses filosóficos e possibilidades de expressão sinfônica. O álbum Holst: Cotswolds Symphony, lançado pelo selo Naxos, reúne cinco composições que permitem acompanhar aspectos importantes de sua formação e de seu desenvolvimento artístico: a abertura Walt Whitman, a Sinfonia The Cotswolds, A Winter Idyll, o poema sinfônico Indra e a Japanese Suite. A Orquestra Ulster interpreta o repertório sob a regência de JoAnn Falletta, em gravações realizadas em outubro de 2011, no Ulster Hall, em Belfast.

Nascido em uma família de músicos, Holst estudou no Royal College of Music, em Londres, onde estabeleceu uma amizade duradoura com Ralph Vaughan Williams. A relação entre os dois compositores foi marcada pela troca de ideias e pela crítica mútua de suas partituras. Antes de se dedicar prioritariamente à composição, Holst trabalhou como trombonista em companhias de ópera e orquestras, experiência que contribuiu para seu conhecimento prático dos instrumentos e das possibilidades da escrita orquestral. Mais tarde, sua atuação como professor, especialmente na St Paul’s Girls’ School e no Morley College, ajudou a conciliar a atividade criativa com as necessidades de sua vida profissional.

A abertura Walt Whitman, composta em 1899, evidencia o entusiasmo juvenil de Holst por Richard Wagner. A obra apresenta uma escrita expansiva e vigorosa, reveladora de um compositor que ainda buscava consolidar uma voz própria. Seu interesse pelo poeta norte-americano Walt Whitman relacionava-se à combinação de misticismo e realismo presente em sua literatura, características que também atraíram outros compositores britânicos da época. A abertura constitui, assim, um testemunho dos primeiros passos de Holst e de sua aproximação com ideias artísticas que ultrapassavam os limites estritos da tradição nacional.

A Sinfonia em fá maior, conhecida como The Cotswolds, foi escrita entre 1899 e 1900 e estreou em 1902. Embora seu primeiro movimento apresente referências à música folclórica britânica, o centro emocional da composição encontra-se no segundo movimento, a Elegy (In memoriam William Morris). A passagem homenageia William Morris, artista, escritor e defensor de ideias socialistas e utópicas, cuja influência intelectual também alcançou Holst. O caráter elegíaco confere à sinfonia uma profundidade particular, contrastando com o movimento de caráter mais vivo que a sucede e com o finale, que demonstra a segurança do compositor na condução dos recursos orquestrais.

Em A Winter Idyll, obra de 1897, a escrita orquestral já demonstra considerável domínio técnico, apesar de ter sido composta durante a juventude do músico. O encarte destaca a segurança com que Holst trabalha os instrumentos, resultado possivelmente de sua formação, da influência de seus professores e da experiência adquirida como instrumentista. A peça funciona, portanto, como um importante registro de seu amadurecimento artístico, anterior às composições que lhe dariam maior projeção pública.

O interesse de Holst por culturas não europeias ocupa lugar central em Indra, poema sinfônico composto em 1903. Inspirada em uma narrativa da mitologia indiana, a obra retrata o confronto entre Indra, divindade associada aos céus, à chuva e às tempestades, e o demônio Vritra. Segundo a lenda, Vritra provoca uma seca, mas acaba derrotado com a ajuda de Vishnu, permitindo o retorno das chuvas e a restauração da fertilidade da terra. Holst transforma essa narrativa em matéria musical, explorando o potencial dramático da luta entre as forças que ameaçam a vida e aquelas que restabelecem o equilíbrio natural. Seu interesse pela cultura indiana também se manifestou no estudo do sânscrito e na adaptação de textos do Rig Veda para hinos corais.

Já a Japanese Suite, op. 33, nasceu de uma encomenda ligada ao bailarino e coreógrafo japonês Michio Ito, que atuava em Londres e precisava de música com características japonesas para uma apresentação. Holst respondeu com uma sequência de peças que incorpora elementos de inspiração oriental. Entre elas, destacam-se a Dance of the Marionette, cuja linguagem pode evocar o universo de Petrushka, de Stravinsky, e a Dance of the Wolves, que encerra a suíte com energia e intensidade. A obra evidencia a curiosidade do compositor por diferentes tradições culturais e sua disposição para incorporar referências externas à música ocidental sem abandonar os recursos da orquestra sinfônica.

A seleção também permite compreender o contraste entre a trajetória relativamente discreta de muitas obras de Holst e o sucesso extraordinário de Os Planetas, cuja primeira execução pública integral ocorreu em 1920. A popularidade dessa composição acabou por ofuscar parte de sua produção posterior, embora trabalhos como Egdon Heath, St Paul’s Suite e Hymn of Jesus tenham conquistado reconhecimento em seus respectivos repertórios. Nesse contexto, o álbum conduz o ouvinte para além de sua obra mais célebre, revelando a variedade de interesses e a evolução da linguagem musical do compositor.

Sob a direção de JoAnn Falletta, a Ulster Orchestra apresenta um programa que aproxima diferentes momentos da carreira de Holst e diferentes fontes de inspiração. A regente norte-americana, conhecida por seu trabalho com repertórios variados e pela defesa da música de seu país, conduz a orquestra em um percurso que vai da exuberância wagneriana à evocação de mitos indianos e danças japonesas. O resultado é um retrato abrangente de Holst: um compositor que soube transformar referências literárias, folclóricas e culturais em experiências orquestrais distintas, ampliando os horizontes da música britânica do início do século XX.

Uma boa apreciação! 

Gustav Holst (1874-1934) - 

01. Walt Whitman Overture, Op. 7, H. 42
02. Symphony in F Major, Op. 8, H. 47 _The Cotswolds__ I. Allegro con brio
03. Symphony in F Major, Op. 8, H. 47 _The Cotswolds__ II. Elegy. Molto adagio
04. Symphony in F Major, Op. 8, H. 47 _The Cotswolds__ III. Scherzo. Presto - Allegretto
05. Symphony in F Major, Op. 8, H. 47 _The Cotswolds__ IV. Finale. Allegro moderato
06. A Winter Idyll, H. 31
07. Japanese Suite, Op. 33, H. 126_ I. Prelude. Song of the Fisherman
08. Japanese Suite, Op. 33, H. 126_ II. Ceremonial Dance
09. Japanese Suite, Op. 33, H. 126_ III. Dance of the Marionette
10. Japanese Suite, Op. 33, H. 126_ IV. Interlude. Song of the Fisherman
11. Japanese Suite, Op. 33, H. 126_ V. Dance Under the Cherry Tree
12. Japanese Suite, Op. 33, H. 126_ VI. Finale. Dance of the Wolves
13. Indra, Op. 13, H. 66

Ulster Orchestra
JoAnn Falletta, regente 

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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Georg P. Telemann (1681-1767) - Six Sonatas for two Flutes

As seis sonatas para duas flautas de Georg Philipp Telemann (1681–1767), reunidas no álbum Six Sonatas for Two Flutes, oferecem um retrato expressivo da versatilidade de um compositor que ocupou posição central na música alemã do século XVIII. Interpretado pelos flautistas Conor Nelson e Eric Lamb, o repertório apresenta obras publicadas em 1726 que combinam o rigor contrapontístico do Barroco com a leveza e a elegância do estilo galante. A gravação, lançada pelo selo Paladino Music em 2023, foi realizada em junho de 2022 no Schloss Weinberg, na Áustria, e reúne as seis sonatas em um programa de aproximadamente 67 minutos.

Telemann foi um dos compositores mais produtivos e inventivos de sua época. Sua trajetória profissional passou por diferentes cidades alemãs, até que, em 1721, assumiu o posto de diretor musical municipal de Hamburgo, importante centro urbano e cultural. Sua produção abrange óperas, oratórios, cantatas religiosas, concertos e música de câmara. O encarte destaca que sobreviveram mais de três mil obras atribuídas ao compositor e que sua capacidade de combinar influências nacionais e estilos distintos contribuiu para o reconhecimento de seus contemporâneos.

A reputação de Telemann, entretanto, sofreu um declínio significativo no século XIX. Em um ambiente cultural que valorizava a figura romântica do artista genial e atormentado, sua extraordinária produtividade passou a ser interpretada por alguns como sinal de superficialidade. Além disso, sua imagem ficou em segundo plano diante da consagração de Johann Sebastian Bach como referência da música sacra alemã. Foi sobretudo a partir do final do século XX que sua importância histórica voltou a receber maior atenção, com o reconhecimento de sua inventividade e de sua contribuição para o desenvolvimento da linguagem musical europeia.

As seis sonatas para duas flautas constituem um exemplo particularmente revelador dessa criatividade. Escritas para dois instrumentos sem acompanhamento, as peças demonstram como Telemann transforma uma formação aparentemente modesta em espaço para a elaboração de um diálogo musical complexo. As duas vozes não se limitam a uma divisão convencional entre melodia e acompanhamento: alternam funções, compartilham o material temático e participam igualmente do desenvolvimento contrapontístico. Essa independência das partes confere às obras uma dinâmica própria, na qual a clareza da escrita convive com a riqueza das combinações sonoras.

A estrutura das sonatas evidencia o encontro entre tradição e renovação. Cada uma apresenta quatro movimentos, alternando andamentos lentos e rápidos, conforme a organização característica da sonata da chiesa. Os movimentos rápidos centrais exploram a escrita fugada, revelando o domínio de Telemann sobre o contraponto. Em contrapartida, os movimentos lentos privilegiam a expressividade melódica e uma linguagem próxima da música vocal, enquanto os finais frequentemente incorporam o impulso rítmico das danças. O resultado não é uma simples justaposição de estilos: elementos antigos e modernos se integram de maneira orgânica ao longo das seis obras.

Alguns momentos demonstram de maneira especial a imaginação do compositor. Na primeira sonata, o terceiro movimento, Andante, começa com características de um lamento, apoiado em um baixo ostinato que percorre um tetracorde cromático descendente. Na sexta sonata, o movimento Soave apresenta uma introdução que funciona como ritornelo, envolvendo uma seção melódica de caráter cantabile, marcada por motivos que evocam suspiros. Já o Presto dessa mesma sonata chama a atenção pelo equilíbrio entre a escrita fugada e passagens de textura mais leve. São exemplos de como Telemann explora recursos contrapontísticos sem sacrificar a expressividade ou a fluidez musical.

A importância dessas composições também se manifesta em sua recepção histórica. As sonatas circularam por diferentes centros europeus, com reedições em Amsterdã, Paris e Londres. Segundo o encarte, Georg Friedrich Händel aproveitou ideias temáticas desse conjunto em duas obras de 1743: o Dettingen Te Deum e o oratório Semele. O sucesso das peças contribuiu ainda para que Telemann continuasse explorando a formação de duo instrumental em publicações posteriores. O compositor e flautista Johann Joachim Quantz considerava suas sonatas modelos para a composição e para o ensino, ressaltando sua utilidade tanto para músicos experientes quanto para estudantes.

A interpretação de Conor Nelson e Eric Lamb coloca em evidência as características que tornam esse repertório tão atraente: o equilíbrio entre as vozes, a variedade dos afetos e a alternância entre densidade contrapontística e espontaneidade melódica. Nelson reúne experiência como solista e músico de câmara, enquanto Lamb combina atuação internacional com pesquisa sobre práticas interpretativas dos séculos XVII e XVIII. O encarte informa, porém, que esta gravação utiliza flautas modernas, detalhe importante para situar a proposta sonora do álbum.

Mais do que um conjunto de peças destinadas à exibição técnica, as seis sonatas revelam a riqueza de uma música concebida como conversa entre iguais. Nelas, a tradição barroca não impede a leveza, e a complexidade do contraponto não exclui a clareza. O álbum permite redescobrir um Telemann inventivo, atento às possibilidades expressivas dos instrumentos e capaz de transformar a intimidade de duas flautas em um universo musical de notável variedade.

Uma boa apreciação!

Georg P. Telemann (1681-1767) - 

01 - Sonata No. 1 in G Major, TWV 40_101 (1726)_ I. Soave
02 - Sonata No. 1 in G Major, TWV 40_101 (1726)_ II. Allegro
03 - Sonata No. 1 in G Major, TWV 40_101 (1726)_ III. Andante
04 - Sonata No. 1 in G Major, TWV 40_101 (1726)_ IV. Allegro
05 - Sonata No. 2 in G Major, TWV 40_101 (1726)_ I. Largo
06 - Sonata No. 2 in E Minor, TWV 40_102 (1726)_ II. Allegro
07 - Sonata No. 2 in E Minor, TWV 40_102 (1726)_ III. Affettuoso
08 - Sonata No. 2 in E Minor, TWV 40_102 (1726)_ IV. Vivace
09 - Sonata No. 3 in D Major, TWV 40_103 (1726)_ I. Dolce
10 - Sonata No. 3 in D Major, TWV 40_103 (1726)_ II. Allegro
11 - Sonata No. 3 in D Major, TWV 40_103 (1726)_ III. Largo
12 - Sonata No. 3 in D Major, TWV 40_103 (1726)_ IV. Vivace
13 - Sonata No. 4 in B Minor, TWV 40_104 (1726)_ I. Largo
14 - Sonata No. 4 in B Minor, TWV 40_104 (1726)_ II. Vivace
15 - Sonata No. 4 in B Minor, TWV 40_104 (1726)_ III. Gratioso
16 - Sonata No. 4 in B Minor, TWV 40_104 (1726)_ IV. Allegro
17 - Sonata No. 5 in A Major, TWV 40_105 (1726)_ I. Siciliano
18 - Sonata No. 5 in A Major, TWV 40_105 (1726)_ II. Vivace
19 - Sonata No. 5 in A Major, TWV 40_105 (1726)_ III. Andante
20 - Sonata No. 5 in A Major, TWV 40_105 (1726)_ IV. Allegro
21 - Sonata No. 6 in E Major, TWV 40_106 (1726)_ I. Affettuoso
22 - Sonata No. 6 in E Major, TWV 40_106 (1726)_ II. Presto
23 - Sonata No. 6 in E Major, TWV 40_106 (1726)_ III. Soave
24 - Sonata No. 6 in E Major, TWV 40_106 (1726)_ IV. Spirituoso

Conor Nelson, flauta
Eric Lamb, flauta 

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terça-feira, 20 de outubro de 2026

Jean Sibelius (1865-1957) - Symphony No. 2 in D Major, Op. 43

Jean Sibelius teria afirmado certa vez que Herbert von Karajan era o único regente capaz de compreender verdadeiramente sua música. Essa declaração, que se tornou emblemática da relação artística entre os dois, encontra uma expressão particularmente eloquente nesta gravação de 1980 da Sinfonia nº 2 em ré maior, op. 43, realizada por Karajan à frente da Filarmônica de Berlim.

O registro é apresentado como um testemunho extraordinário da afinidade entre o compositor finlandês e o maestro austríaco. Em vez de adotar a abordagem enxuta, austera e de tonalidade fria frequentemente associada à interpretação do repertório nórdico, Karajan privilegia uma leitura de proporções monumentais, explorando toda a potência sonora e a riqueza tímbrica da orquestra alemã.

A Segunda Sinfonia, composta entre 1901 e 1902, ocupa um lugar importante na trajetória de Sibelius. Sua escrita combina a construção sinfônica rigorosa com uma expressividade que alterna passagens de inquietação, atmosferas sombrias e momentos de crescente afirmação. A obra também se distingue pela maneira como seus materiais musicais são desenvolvidos e integrados em um percurso dramático de grande unidade.

Na interpretação de Karajan, os movimentos internos revelam uma atmosfera de mistério e tensão, enquanto o finale conduz a música a uma conclusão de caráter triunfal. O regente enfatiza os contrastes dinâmicos e a amplitude dos crescendos, fazendo com que a energia acumulada ao longo da sinfonia desembarque em um desfecho luminoso e avassalador.

É nesse contraste entre introspecção e afirmação que a gravação encontra sua força. A Filarmônica de Berlim responde à concepção do maestro com uma sonoridade densa, homogênea e de grande impacto, características que se tornaram marcas reconhecíveis da estética interpretativa de Karajan.

O resultado representa o chamado “som Karajan” em uma de suas manifestações mais grandiosas: uma interpretação que privilegia a amplitude orquestral, a intensidade dramática e a construção de um arco musical de proporções épicas. Para os admiradores de Sibelius e Karajan, esta gravação constitui um registro particularmente expressivo do encontro entre duas personalidades artísticas cuja afinidade musical se tornou lendária.

Uma boa apreciação! 

Jean Sibelius (1865-1957) -

01. Symphony No. 2 in D Major, Op. 43: I. Allegretto (9:56)
02. Symphony No. 2 in D Major, Op. 43: II. Tempo andante, ma rubato (14:38)
03. Symphony No. 2 in D Major, Op. 43: III. Vivacissimo (6:43)
04. Symphony No. 2 in D Major, Op. 43: IV. Finale. Allegro moderato (16:34)

Berliner Philharmoniker
Herbert von Karajan, regente 

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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Federico Mompou (1883-1897) - Piano Works

Depois de seu aclamado recital de estreia, a pianista Marina Staneva retorna com um programa dedicado à música do compositor espanhol-catalão Federico Mompou (1893–1987). A seleção percorre diferentes momentos de sua produção pianística e revela aspectos essenciais de uma linguagem marcada pela delicadeza lírica, pela atenção às nuances sonoras e pela busca de um equilíbrio particular entre melodia e ritmo.

O recital começa com Paisajes (Paisagens), conjunto de peças compostas em 1942, 1947 e 1960. As duas primeiras são dedicadas à pianista catalã Carmen Bravo, que Mompou conheceu em 1942, após retornar de Paris a Barcelona. A relação entre os dois se aprofundou com o tempo, culminando no casamento. Essas dedicatórias conferem às peças um significado pessoal e ajudam a situá-las no contexto da trajetória afetiva do compositor.

Outro destaque do programa são as Variations sur un thème de Chopin (Variações sobre um tema de Chopin). Iniciada em 1938, a obra foi concluída em 1957, após uma encomenda do Royal Ballet, de Londres. A instituição pretendia obter uma nova criação para suceder ao balé The House of Birds, de 1955, que utilizava peças para piano de Mompou orquestradas por John Lanchbery. O projeto inspirado em Chopin, entretanto, nunca chegou a ser levado ao palco. As variações pianísticas, contudo, sobreviveram à iniciativa e passaram a integrar o repertório de concerto do compositor.

O programa inclui ainda as Cançons i danses (Canções e danças), série de doze peças escritas entre 1921 e 1962. Em linhas gerais, cada composição combina uma seção lenta, a cançó (canção), com outra mais movimentada, a dansa (dança). Essa estrutura, porém, não constitui uma fórmula rígida: Mompou modifica o padrão conforme as necessidades expressivas de cada peça, explorando diferentes relações entre lirismo e movimento.

O próprio compositor explicava que pretendia estabelecer um contraste entre o lirismo e o ritmo, evitando que a série se transformasse em uma simples sucessão de canções seguida por outra de danças. Essa concepção revela sua preocupação com a variedade interna do conjunto e com a possibilidade de integrar atmosferas contemplativas e passagens de maior vivacidade em uma mesma unidade musical.

Ao reunir Paisajes, as variações sobre Chopin e as Cançons i danses, Marina Staneva apresenta diferentes facetas da escrita de Mompou. O programa permite acompanhar a evolução de sua linguagem ao longo de quatro décadas e evidencia como o compositor explorou as possibilidades do piano sem se prender a estruturas previsíveis. Entre a introspecção das paisagens sonoras, a reelaboração de um tema de Chopin e o diálogo entre canção e dança, emerge uma música que privilegia a expressividade, a sutileza e a liberdade formal.

Uma boa apreciação! 

Federico Mompou (1883-1897) - 

01. Mompou: Paisajes: I. La Fuente y la campana
02. Mompou: Paisajes: II. El lago
03. Mompou: Paisajes: III. Carros de Galicia
04. Mompou: Variations sur un thème de Chopin: I. Thème
05. Mompou: Variations sur un thème de Chopin: II. Variation I. Tranquillo
06. Mompou: Variations sur un thème de Chopin: III. Variation II. Gracioso
07. Mompou: Variations sur un thème de Chopin: IV. Variation III. Lento [for the left hand]
08. Mompou: Variations sur un thème de Chopin: V. Variation IV. Espressivo
09. Mompou: Variations sur un thème de Chopin: VI. Variation V. Temnpo di Mazurka
10. Mompou: Variations sur un thème de Chopin: VII. Variation VI. Recitativo
11. Mompou: Variations sur un thème de Chopin: VIII. Variation VII. Allegro leggiero
12. Mompou: Variations sur un thème de Chopin: IX. Variation VIII. Andante dolce e espressivo
13. Mompou: Variations sur un thème de Chopin: X. Variation IX. Valse
14. Mompou: Variations sur un thème de Chopin: XI. Variation X. Évocation. Cantabile molto espressivo
15. Mompou: Variations sur un thème de Chopin: XII. Variation XI. Lento dolce e legato
16. Mompou: Variations sur un thème de Chopin: XIII. Variation XII. Galope y Epílogo
17. Mompou: Cançons i Danses: I. Quasi moderato
18. Mompou: Cançons i Danses: II. Lento
19. Mompou: Cançons i Danses: III. À Frank Marshall. Modéré
20. Mompou: Cançons i Danses: IV. À madame la Princesse Bassiano. Moderat
21. Mompou: Cançons i Danses: V. Lento liturgico
22. Mompou: Cançons i Danses: VI. À Arthur Rubinstein. Cantabile espressivo
23. Mompou: Cançons i Danses: VII. Lento
24. Mompou: Cançons i Danses: VIII. Moderato cantabile con sentimento
25. Mompou: Cançons i Danses: IX. À Gonzalo Soriano. Cantabile espressivo
26. Mompou: Cançons i Danses: X. Sobre dos Cantigas del Rey Alfonso X (Siglo XII) À S.A.R. la Infanta Da. Maria Cristina de Borbón Battenberg. Larghetto molto cantabile
27. Mompou: Cançons i Danses: XI. À Rafael Puyana. Lent et majestueux
28. Mompou: Cançons i Danses: XII. À la mémoire de Léon Fargue. Molto cantabile
29. Mompou: Jeunes Filles au Jardin (Bonus Track)

Marina Staneva, piano 

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domingo, 18 de outubro de 2026

Ludwig van Beethoven (1770-1756) - String Quartets Op. 74, 95, 127, 132, 133, 135

Este disco traz o aclamado Melos Quartett Stuttgart, um dos mais prestigiados conjuntos de câmara alemães do século XX, conhecido por sua precisão arquitetônica, coesão sonora e clareza analítica. 

O primeiro volume do projeto abre com o Quarteto nº 10 em Mib Maior, Op. 74 ("As Harpas"), composto em 1809. Caracterizado por delicados arpejos em pizzicato que sugerem o dedilhar de um instrumento dedilhado, o Op. 74 sintetiza o lirismo expansivo do período intermediário de Beethoven.

A atmosfera se adensa vertiginosamente com o Quarteto nº 11 em Fá Menor, Op. 95 ("Serioso"). Escrita em 1810, trata-se de uma peça marcada pela brevidade, austeridade e tensão dramática constante, na qual o Melos Quartett demonstra admirável rigor na articulação das frases rítmicas e na condução das vozes.

O segundo disco dedica-se ao limiar do testamento tardio do compositor. O Quarteto nº 12 em Mib Maior, Op. 127 - o primeiro da série encomendada pelo príncipe russo Nikolai Galitzin - destaca-se pelo monumental Adagio ma non troppo de mais de 16 minutos, no qual o conjunto de Stuttgart constrói um ambiente de profunda meditação e elevação espiritual.

Fechando o CD 2, o Quarteto nº 16 em Fá Maior, Op. 135 traz o derradeiro ciclo de Beethoven. Concluída em 1826, poucos meses antes de sua morte, a obra oscila entre a serenidade translúcida de seu Lento assai e a ironia filosófica do movimento final, que imortaliza a célebre indagação do compositor: "Muss es sein? - Es muss sein!" ("Deve ser? - Deve ser!").
 
O encerramento do box, no terceiro disco, reserva duas das páginas mais complexas de toda a música de câmara:   Quarteto nº 13 em Lá Menor, Op. 132: Famoso por abrigar o sublime Heiliger Dankgesang ("Canção Sagrada de Agradecimento de um Convalescente à Divindade"), movimento lento em modos eclesiásticos renascentistas escrito após a recuperação de uma enfermidade grave.   Grande Fuga em Sib Maior, Op. 133 (Grosse Fuge): Originalmente concebida para integrar o Op. 130, a peça foi destacada por sua complexidade avassaladora e dissonâncias ferozes. A interpretação do Melos Quartett equilibra a violência estrutural do contraponto beethoveniano com uma clareza polifônica exemplar. 
 
Uma boa apreciação! 

Ludwig van Beethoven (1770-1756) - 

DISCO 01


01 - Streichquartett Es-Dur op. 74 'Harfenquartett' - 1 - Poco adagio - Allegretto
02 - Streichquartett Es-Dur op. 74 'Harfenquartett' - 2 - Adagio ma non troppo
03 - Streichquartett Es-Dur op. 74 'Harfenquartett' - 3 - Presto - Piu presto quas...
04 - Streichquartett Es-Dur op. 74 'Harfenquartett' - 4 - Allegretto con variazioni
05 - Streichquartett f-moll op. 95 - 1 - Allegro con brio
06 - Streichquartett f-moll op. 95 - 2 - Allegretto ma non troppo
07 - Streichquartett f-moll op. 95 - 3 - Allegro assai vivace ma serioso
08 - Streichquartett f-moll op. 95 - 4 - Larghetto espressivo

DISCO 02

01 - Streichquartett Es-Dur op. 127 - 1 - Maestoso - Allegro
02 - Streichquartett Es-Dur op. 127 - 2 - Adagio ma non troppo
03 - Streichquartett Es-Dur op. 127 - 3 - Scherzando vivace
04 - Streichquartett Es-Dur op. 127 - 4 - Finale
05 - Streichquartett F-Dur op. 135 - 1 - Allegretto
06 - Streichquartett F-Dur op. 135 - 2 - Vivace
07 - Streichquartett F-Dur op. 135 - 3 - Lento assai
08 - Streichquartett F-Dur op. 135 - 4 - 'Der schwer gefasste Entschluss' (Grave -...

DISCO 03

01 - Streichquartett a-moll op. 132 - 1 - Assai sostenuto - Allegro
02 - Streichquartett a-moll op. 132 - 2 - Allegro ma non tanto
03 - Streichquartett a-moll op. 132 - 3 - Molto adagio - Andante - Molto Adagio
04 - Streichquartett a-moll op. 132 - 4 - Alla marcia, assai vivace - Pi¨´ Allegro
05 - Streichquartett a-moll op. 132 - 5 - Allegro appassionato - Presto
06 - Gro.e Fuge B-Dur op. 133 Overtura - Allegro - Allegro - Fuga

Melos Quartett Stuttgart 

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sábado, 17 de outubro de 2026

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) - Requiem in D Minor, K. 626

A última grande obra sacra de Wolfgang Amadeus Mozart (1756–1791), o Réquiem em ré menor, K. 626, permanece como uma das composições mais comoventes e enigmáticas da história da música. Iniciada em 1791, nos meses finais da vida do compositor, a obra combina a dramaticidade do texto litúrgico com uma escrita musical de extraordinária força expressiva. Nesta gravação, publicada pelo selo Alia Vox, o maestro Jordi Savall conduz o conjunto Le Concert des Nations e a Capella Nacional de Catalunya, acompanhado por quatro solistas vocais: Rachel Redmond, soprano; Marianne Beate Kielland, mezzo-soprano; Mingjie Lei, tenor; e Manuel Walser, barítono.

A história do Réquiem é inseparável das circunstâncias misteriosas de sua encomenda. Em julho de 1791, Mozart recebeu, por intermédio de um emissário anônimo, uma solicitação do conde Franz von Walsegg para compor uma missa em memória de sua esposa, falecida naquele ano. O anonimato do contratante, somado à morte prematura do compositor, alimentou lendas que associavam a obra a uma espécie de pressentimento do próprio fim. A pesquisa histórica, contudo, esclareceu boa parte desse episódio: Mozart trabalhava no Réquiem por encomenda e não há documentação confiável que sustente a célebre narrativa de que teria recebido a visita de um mensageiro sobrenatural.

Mozart morreu em dezembro de 1791 sem concluir a partitura. O manuscrito revela diferentes estágios de composição: o Introitus foi inteiramente escrito por ele, assim como o Kyrie, enquanto diversas seções seguintes chegaram a um estágio avançado, mas incompleto. O Lacrimosa, um dos momentos mais intensos da obra, interrompe-se no manuscrito autógrafo após os primeiros oito compassos. Coube inicialmente a Joseph Eybler tentar concluir a composição, mas foi sobretudo Franz Xaver Süßmayr, discípulo de Mozart, quem realizou o trabalho que deu origem à versão tradicionalmente executada. A partitura, portanto, é resultado de uma colaboração póstuma, embora a concepção musical de Mozart permaneça reconhecível em sua arquitetura e em sua expressividade.

O percurso musical começa com o Introitus, cuja atmosfera solene prepara o ouvinte para a alternância entre súplica, temor e esperança que atravessa a obra. No Dies irae, a energia rítmica e a força do coro evocam o Juízo Final; em contraste, o Recordare oferece um espaço de recolhimento, com a participação dos quatro solistas. Já o Confutatis opõe a intensidade do coro masculino à suavidade das vozes femininas, enquanto o Lacrimosa transforma o lamento em uma expressão de profunda humanidade. No Offertorium, no Sanctus, no Benedictus e no Agnus Dei, a obra prossegue explorando diferentes dimensões da oração, até chegar ao Lux æterna, que retoma materiais do início e encerra o percurso com uma evocação da luz eterna.

A interpretação de Savall busca aproximar a execução das condições musicais do final do século XVIII. O maestro emprega instrumentos de época, com uma orquestra de cordas e sopros de dimensões reduzidas, além de órgão e tímpanos. O coro foi organizado com vinte integrantes, e os cantores interpretam o texto latino procurando recuperar a pronúncia utilizada na Viena daquele período. Essa opção favorece a transparência das texturas, a clareza do contraponto e a percepção dos contrastes entre a declamação dramática e os momentos de oração. A intenção, segundo Savall, é conciliar a força rítmica do texto litúrgico com a dimensão espiritual da música, sem perder a intensidade emocional que caracteriza a composição.

A gravação foi realizada entre 11 e 13 de maio de 2022, na Igreja Colegiada do Castelo de Cardona, na Catalunha. O projeto também se relaciona às academias profissionais promovidas por Savall desde 2019, que reúnem jovens cantores e instrumentistas a músicos experientes. Mais do que revisitar uma obra cercada de lendas, o registro propõe uma escuta atenta ao equilíbrio entre rigor histórico e expressão artística. Para Savall, o contato com o Réquiem, ainda na adolescência, foi decisivo para sua vocação musical: a obra lhe revelou a capacidade da música de tocar profundamente a alma humana e oferecer consolo diante do mistério da morte. Essa experiência pessoal ilumina a concepção desta gravação, na qual o lamento fúnebre de Mozart também se torna uma meditação sobre a vida, a misericórdia e a esperança.

Uma boa apreciação! 

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) - 

01. Requiem in D Minor, K. 626 -  I. Introitus -  Requiem aeternam
02. Requiem in D Minor, K. 626 -  II. Kyrie eleison
03. Requiem in D Minor, K. 626 -  III. Sequentia -  No. 1, Dies irae
04. Requiem in D Minor, K. 626 -  III. Sequentia -  No. 2, Tuba mirum
05. Requiem in D Minor, K. 626 -  III. Sequentia -  No. 3, Rex tremendae
06. Requiem in D Minor, K. 626 -  III. Sequentia -  No. 4, Recordare
07. Requiem in D Minor, K. 626 -  III. Sequentia -  No. 5, Confutatis
08. Requiem in D Minor, K. 626 -  III. Sequentia -  No. 6, Lacrymosa
09. Requiem in D Minor, K. 626 -  IV. Offertorium -  No. 1, Domine Jesu
10. Requiem in D Minor, K. 626 -  IV. Offertorium -  No. 2, Hostias
11. Requiem in D Minor, K. 626 -  V. Sanctus
12. Requiem in D Minor, K. 626 -  VI. Benedictus
13. Requiem in D Minor, K. 626 -  VII. Agnus Dei
14. Requiem in D Minor, K. 626 -  VIII. Communio -  Lux aeterna

La Capella Nacional de Catalunya
Le Concert des Nations

Jordi Savall, regente 

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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Leopold Godowsky (1870-1938) - Piano Music

A relação entre tradição e virtuosismo ganha destaque em Chopin Waltz Transcriptions, álbum dedicado a obras de Frédéric Chopin reelaboradas por Leopold Godowsky (1870–1938), pianista e compositor polonês-americano. Interpretado por Konstantin Scherbakov, o repertório integra o nono volume da coleção dedicada à música para piano de Godowsky, publicada pelo selo Marco Polo. O disco reúne transcrições de valsas de Chopin e peças como a Arabesque e a Barcarolle-Valse, revelando a habilidade do compositor para transformar materiais conhecidos em elaboradas criações pianísticas.

Godowsky foi reconhecido em sua época como um dos grandes virtuoses do piano. Nascido em 1870, nas proximidades de Vilnius, demonstrou talento musical desde a infância e começou a se apresentar publicamente ainda muito jovem. Depois de estudar brevemente em Berlim, construiu uma carreira internacional, atuando tanto como concertista quanto como professor. Viveu nos Estados Unidos e em diferentes centros europeus, incluindo Berlim e Viena, e desenvolveu estudos e publicações dedicados à técnica pianística. Um acidente vascular cerebral, em 1930, interrompeu sua carreira de intérprete, levando-o a concentrar seus últimos anos sobretudo na composição e nas transcrições para piano.

As reelaborações de Chopin constituem o eixo central deste álbum. Godowsky não se limita a reproduzir as melodias originais: amplia as texturas, enriquece as harmonias e reorganiza os efeitos de cada peça, sem abandonar o caráter essencial da música. O resultado é uma escrita que exige do pianista grande controle técnico, precisão e independência dos dedos. Em algumas passagens, o compositor confere às valsas dimensões próximas das grandes paráfrases virtuosísticas de Franz Liszt, fazendo com que peças originalmente breves adquiram maior densidade sonora e complexidade.

Entre os destaques está a Paraphrase de concert: Grande Valse Brillante, Op. 18, de Chopin, que encerra o disco. Nessa versão, Godowsky transforma a conhecida valsa em uma peça de maior complexidade, com mudanças de tonalidade e uma elaboração pianística que ultrapassa consideravelmente as exigências do original. Outras transcrições também demonstram sua liberdade criativa: o célebre Minuto, Op. 64, n.º 1, por exemplo, recebe a indicação Allegretto grazioso, em lugar do Molto vivace de Chopin, enquanto a ampliação harmônica se torna particularmente perceptível na seção central.

O álbum não se limita, contudo, às transcrições. A Arabesque em fá maior, Op. 16, n.º 2, publicada em 1899, evidencia a delicadeza cromática da escrita original de Godowsky. Já a Barcarolle-Valse, Op. 16, n.º 4, combina o balanço sereno de uma barcarola, marcada Allegretto grazioso, com uma valsa em lá maior de caráter mais enérgico. O contraste entre essas duas seções demonstra como o compositor explora diferentes atmosferas sem abandonar a fluência característica da escrita pianística.

A interpretação de Konstantin Scherbakov é central para a realização desse repertório. O pianista russo, radicado na Suíça desde 1992, construiu uma carreira internacional marcada pela atuação em recitais, concertos com orquestras e festivais. Segundo o encarte, sua execução foi elogiada pela clareza da articulação, pela segurança rítmica e pela capacidade de combinar as diferentes vozes e camadas da escrita musical. Essas qualidades são particularmente importantes diante de partituras que exigem não apenas virtuosismo, mas também atenção às sutilezas harmônicas e à preservação do caráter das obras de Chopin.

Gravado em Potton Hall, Suffolk, na Inglaterra, em dezembro de 2000 e outubro de 2004, o disco apresenta um panorama da criatividade de Godowsky como compositor e transcritor. Ao recriar as valsas de Chopin, ele não pretende simplesmente ornamentar o repertório, mas investigar suas possibilidades expressivas e técnicas. O resultado é um encontro entre a elegância melódica de Chopin e a inventividade de um pianista-compositor que fez do próprio instrumento o centro de sua imaginação artística.

Uma boa apreciação!  

Leopold Godowsky (1870-1938) - 

01. Arabesque, Op. 16, No. 2
02. Barcarolle-Valse, Op. 16, No. 4
03. Valse-scherzo
04. Grande valse romantique
05. Waltz Poem No. 4
06. Chopin - Waltz No. 12 in F Minor, Op. 70, No. 2
07. Chopin - Waltz No. 13 in D-Flat Major, Op. 70, No. 3
08. Chopin - Waltz No. 9 in A-Flat Major, Op. 69, No. 1
09. Chopin - Waltz No. 8 in A-Flat Major, Op. 64, No. 3
10. Chopin - Waltz in D-Flat Major, Op. 64 No. 1
11. Chopin - Waltz No. 1 in E-Flat Major, Op. 18, ''Grande valse brillante''

Konstantin Scherbakov, piano 

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Ludwig van Beethoven (1770-1827) - Consecration Of The House Overture, Op. 124, Leonore Overture #3, Op. 72A e Violin Concerto In D, Op. 61

Este registro apresenta o Concerto para violino e orquestra em ré maior, Op. 61, além das aberturas A Consagração da Casa, Op. 124, e Leonore III, Op. 72a. As gravações foram realizadas entre 1959 e 1962, em Nova York, e documentam diferentes aspectos da escrita beethoveniana: a exploração das possibilidades do instrumento solista, a energia teatral e a expressão de ideais humanos por meio da música.

Composto em 1806 para o violinista Franz Clement, o Concerto para violino ocupa um lugar singular no repertório do gênero. Sua estreia, em 23 de dezembro daquele ano, não parece ter provocado o reconhecimento imediato que a obra alcançaria posteriormente. Foi sobretudo a interpretação de Joseph Joachim, décadas mais tarde, que contribuiu para consolidá-la entre as grandes páginas do repertório violinístico. A obra exige do solista não apenas domínio técnico, mas também capacidade de sustentar longas linhas melódicas e integrar sua voz à arquitetura orquestral.

O primeiro movimento, Allegro ma non troppo, distingue-se pela originalidade de sua abertura: cinco pulsações do tímpano estabelecem um ritmo que atravessa o movimento e serve de base para o desenvolvimento das ideias musicais. Em vez de apresentar o violino como protagonista isolado, Beethoven o insere gradualmente no discurso da orquestra, construindo uma progressão que combina lirismo, ornamentação e expansões dramáticas. O Larghetto, segundo movimento, oferece um contraste expressivo, com uma melodia principal inicialmente confiada à orquestra e posteriormente elaborada pelo solista. Já o Rondo: Allegro encerra o concerto com caráter dançante e luminoso, alternando o tema recorrente com episódios de virtuosismo. As cadências de Fritz Kreisler presentes nesta gravação acrescentam uma dimensão histórica à interpretação.

O programa inclui também duas aberturas que revelam facetas distintas da escrita teatral de Beethoven. A Consagração da Casa, composta em 1822 para a inauguração do teatro de Josefstadt, em Viena, possui caráter festivo e exuberante. Sua construção combina energia rítmica, escrita polifônica e brilho orquestral. Leonore III, por sua vez, está ligada à história de Fidelio, a única ópera de Beethoven, cuja trajetória envolveu sucessivas revisões. A abertura condensa elementos dramáticos fundamentais da narrativa, articulando tensão, expectativa e a ideia de libertação que atravessa a obra.

Mais do que um conjunto de registros históricos, o álbum evidencia a amplitude da linguagem de Beethoven. No concerto, a invenção musical se manifesta no diálogo entre solista e orquestra; nas aberturas, a música assume uma dimensão dramática e simbólica, associada à esperança e à superação. A presença de Bernstein à frente da Filarmônica de Nova York e de Stern como solista reúne intérpretes capazes de explorar tanto a força estrutural quanto a expressividade dessas partituras. O resultado é um retrato de Beethoven em que o virtuosismo nunca se separa da construção musical e em que a energia dramática se associa a uma visão profundamente humanista.

Uma boa apreciação! 

Ludwig van Beethoven (1770-1827) - 

01. Beethoven_ Consecration Of The House Overture, Op. 124
02. Beethoven_ Leonore Overture #3, Op. 72A
03. Beethoven_ Violin Concerto In D, Op. 61 - 1. Allegro Ma Mon Troppo
04. Beethoven_ Violin Concerto In D, Op. 61 - 2. Larghetto
05. Beethoven_ Violin Concerto In D, Op. 61 - 3. Rondo

Filarmônica de Nova York
Leonard Bernstein, regente
Isaac Stern, violino 

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