quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Wofgang Amadeus Mozart (1756-1791) - The Prussian Quartets

"As últimas obras de Wolfgang Amadeus Mozart para quarteto de cordas — os célebres Quartetos “Prussianos” — figuram entre os pontos culminantes da música de câmara do século XVIII. Embora amplamente registrados em disco, poucos alcançam o nível de excelência desta gravação do Emerson String Quartet, uma interpretação que alia refinamento técnico, profundidade musical e uma notável qualidade de captação sonora.

Um dos primeiros aspectos a chamar a atenção é justamente a engenharia de som. Gravado no pouco conhecido LeFrak Hall, no Queens College, em Nova York, o álbum oferece uma experiência auditiva excepcional. A disposição dos instrumentos no campo estereofônico recria com impressionante naturalidade a sensação de um concerto ao vivo, permitindo ao ouvinte perceber a individualidade de cada voz sem comprometer a perfeita integração do conjunto. É uma gravação que privilegia tanto a transparência quanto a riqueza tímbrica da escrita mozartiana.

Essa clareza sonora evidencia uma das maiores virtudes do Emerson String Quartet: o extraordinário equilíbrio entre seus integrantes. A coesão do grupo permite que as complexas linhas contrapontísticas dessas obras se desenvolvam com absoluta naturalidade, revelando toda a sofisticação da linguagem do último Mozart.

A denominação “Prussianos” remete ao rei Frederico Guilherme II da Prússia, violoncelista amador e patrono das artes, que encomendou a Mozart um conjunto de seis quartetos. O compositor, entretanto, concluiu apenas três. Em atenção ao gosto do monarca, conferiu ao violoncelo uma participação muito mais destacada do que era habitual no gênero, transformando-o em protagonista de um elaborado tecido contrapontístico que caracteriza sua produção camerística tardia.

O Emerson String Quartet compreende plenamente essa concepção. A leitura valoriza a autonomia da linha do violoncelo sem romper o equilíbrio do conjunto, permitindo que a riqueza polifônica emerja com grande sutileza. A interpretação evidencia como Mozart ampliou as possibilidades expressivas do quarteto de cordas, aproximando-o de uma escrita quase orquestral pela densidade de suas vozes.

Os andamentos adotados são relativamente rápidos, privilegiando a energia e a intensidade dramática em detrimento de uma visão excessivamente contemplativa ou formalista. Um exemplo particularmente revelador encontra-se no Trio do Minueto do Quarteto em Fá maior, K. 590, em que o insistente movimento cromático do violoncelo cria uma atmosfera de inquietação que se dissolve, de maneira quase mágica, em uma cadência clássica de surpreendente serenidade. É um momento em que o Emerson alia precisão técnica e refinamento expressivo com rara naturalidade.

Apesar do vigor interpretativo, o quarteto jamais perde o controle do discurso musical. Cada frase é construída com clareza, equilíbrio e senso arquitetônico, enquanto a equipe de gravação acompanha de perto as intenções dos músicos, oferecendo uma reprodução sonora que valoriza todos os detalhes da execução.

O resultado é uma interpretação de extraordinária vitalidade, capaz de renovar a escuta de obras frequentemente gravadas e amplamente conhecidas. Entre excelência técnica, inteligência interpretativa e uma captação sonora exemplar, este registro do Emerson String Quartet firma-se como uma das grandes referências discográficas dos Quartetos “Prussianos”, demonstrando, uma vez mais, por que a música de câmara de Mozart continua a representar um dos pontos mais elevados da criação musical ocidental".

Uma boa apreciação! 

Wofgang Amadeus Mozart (1756-1791) - 

String Quartet In D Major K. 575
01. Allegretto 7:45
02. Andante 4:30
03. Menuetto. Allegretto - Trio 5:29
04. Allegretto 6:10

String Quartet In B-Flat Major K. 589
05. Allegro 6:38
06. Larghetto 6:23
07. Menuetto. Moderato - Trio 6:19
08. Allegro Assai 3:54

String Quartet In F Major K. 590
09. Allegro Moderato 8:59
10. Andante 7:28
11. Menuetto. Allegretto - Trio 4:06
12. Allegro 7:02

Emerson String Quartet 

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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788) - Symphony in E minor, Wq 178 e Cello Concerto in A minor, Wq 170 e Johann Sebastian Bach (1685-1750) - Keyboard Concerto No.1 in D minor, BWV 1052 e Die Himmel erzählen die Ehre Gottes, BWV76 - Sinfonia

Neste notável álbum de estreia da Orfeus Barock Stockholm, conjunto sueco especializado em instrumentos de época, pai e filho dividem o programa em uma seleção que permite acompanhar uma das transformações mais fascinantes da linguagem musical ocidental: a passagem do barroco maduro para a estética sensível que abriria caminho ao classicismo. O resultado é um percurso que une tradição e inovação, tendo como protagonistas Johann Sebastian Bach e seu segundo filho, Carl Philipp Emanuel Bach.

A gravação abre com a Sinfonia em Mi menor, Wq 178, de Carl Philipp Emanuel, uma obra que sintetiza como poucas o chamado Empfindsamer Stil ("estilo sensível"). Publicada originalmente em 1759, a sinfonia impressionou seus contemporâneos pela intensidade dramática, pelas mudanças repentinas de caráter e pela ousadia harmônica. Diferentemente de muitos compositores de sua geração, C. P. E. Bach elimina interrupções entre os dois primeiros movimentos e constrói uma narrativa contínua, culminando em um final de extraordinária energia que antecipa procedimentos formais explorados apenas décadas depois.

Embora ainda conserve elementos herdados do barroco, a escrita orquestral já aponta para um novo horizonte. A expressividade ocupa o lugar da ornamentação, enquanto o contraste emocional passa a orientar o discurso musical. Não por acaso, o libreto destaca a influência que essas sinfonias exerceram sobre compositores como Haydn, Mozart e até o jovem Mendelssohn.

No centro do programa está o Concerto para Cravo em Ré menor, BWV 1052, uma das obras mais célebres de Johann Sebastian Bach. Longe de ser um concerto concebido de uma só vez, trata-se do resultado de um longo processo de reelaboração. Bach adaptou movimentos provenientes de cantatas compostas por volta de 1728, transformando introduções instrumentais e um coro em um concerto para teclado de impressionante unidade artística. Durante essa reconstrução, reescreveu profundamente a parte do solista, enriquecendo-a com novos ornamentos, contrapontos e uma escrita muito mais elaborada para a mão esquerda.

A interpretação de Luca Guglielmi, que também dirige o conjunto, recupera o espírito dessa obra sem tratá-la como um monumento intocável. O músico utiliza uma versão adaptada da célebre cadência escrita por Johannes Brahms para o último movimento, demonstrando como diferentes gerações continuaram dialogando criativamente com a música de Bach.

A segunda contribuição de Carl Philipp Emanuel é o Concerto para Violoncelo em Lá menor, Wq 170, composto em 1750, justamente o ano da morte de Johann Sebastian. O próprio libreto o descreve como uma obra profundamente pessoal, marcada por um caráter melancólico e por discretas referências à música do pai. Mais importante, porém, é sua impressionante modernidade. A retórica barroca ainda está presente, mas a busca por uma expressão mais intensa e dramática anuncia um novo tempo. O violoncelista Johannes Rostamo, diretor artístico da Orfeus Barock Stockholm, interpreta a obra com grande liberdade expressiva e chega a escrever sua própria cadência para o primeiro movimento, incorporando, de maneira surpreendente, referências ao grupo britânico Radiohead. O resultado não pretende ser uma provocação, mas uma demonstração de que a boa música continua capaz de dialogar com qualquer época.

Como delicado epílogo, o disco apresenta a Sinfonia da Cantata BWV 76, originalmente escrita para oboé d'amore, viola da gamba e contínuo, aqui recriada para violino, violoncelo e baixo contínuo. Segundo os intérpretes, trata-se de uma homenagem à amizade entre os músicos envolvidos na gravação, quase um bis oferecido ao ouvinte ao final do concerto.

A Orfeus Barock Stockholm nasceu em 2015 por iniciativa de integrantes da Royal Stockholm Philharmonic Orchestra apaixonados pela interpretação historicamente informada. Tocando instrumentos de época, o grupo procura equilibrar rigor musicológico e espontaneidade interpretativa, explorando tanto o grande repertório barroco quanto compositores menos conhecidos. Este primeiro registro fonográfico demonstra que a proposta foi plenamente alcançada.

Mais do que reunir obras de dois compositores da mesma família, este álbum evidencia um dos momentos decisivos da história da música europeia. Em Johann Sebastian Bach, encontramos o ápice do barroco; em Carl Philipp Emanuel, ouvimos o nascimento de uma nova sensibilidade que prepararia o caminho para o classicismo. A interpretação calorosa da Orfeus Barock Stockholm torna essa transição não apenas compreensível, mas profundamente emocionante, lembrando que a evolução da música nunca acontece por rupturas absolutas, mas por diálogos constantes entre tradição e inovação.

Uma boa apreciação! 

Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788) - 

Symphony in E minor, Wq 178

01. I. Allegro assai
02. II. Andante moderato
03. III. Allegro

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - 

Keyboard Concerto No.1 in D minor, BWV1052

04. I. Allegro
05. II. Adagio
06. III. Allegro

Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788) - 

Cello Concerto in A minor, Wq 170

07. I. Allegro assai
08. II. Andante
09. III. Allegro assai

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - 

10. Die Himmel erzählen die Ehre Gottes, BWV76 - Sinfonia

Orfeus Barock Stockholm
Luca Guglielmi, cravo e regência
Johannes Rostamo, violoncelo

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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Claude Debussy (1862-1918) - The Complete Préludes for Solo Piano

Escritos entre 1909 e 1913 e publicados em dois livros de doze peças cada, eles representam um dos pontos culminantes da literatura pianística não apenas pela sofisticação técnica, mas pela extraordinária liberdade poética que inauguram. Debussy não pretende narrar histórias nem pintar quadros sonoros de forma literal; prefere sugerir paisagens, personagens, lembranças e sensações, deixando que a imaginação do ouvinte complete aquilo que a música apenas insinua.

Uma das características mais curiosas da coleção é a posição dos títulos. Debussy optou por colocá-los apenas ao final de cada prelúdio, entre parênteses, para que a música fosse ouvida antes que qualquer imagem mental condicionasse a escuta. Ainda assim, basta conhecer nomes como La Cathédrale engloutie, Voiles, Ondine ou Feux d'artifice para perceber como cada peça parece abrir uma janela para um universo próprio.

O Primeiro Livro percorre uma impressionante variedade de cenários. Há a solenidade quase escultórica de Danseuses de Delphes; o caráter enigmático de Voiles, construído sobre a escala de tons inteiros; o vento que percorre os campos em Le Vent dans la Plaine; os perfumes e sons crepusculares inspirados em Baudelaire; a violência quase orquestral de Ce qu'a vu le vent d'Ouest; a delicadeza lírica de La Fille aux cheveux de lin; o humor espanhol de La Sérénade interrompue; a monumentalidade mística de La Cathédrale engloutie; a travessura shakespeariana de La Danse de Puck e o espírito do teatro de variedades em Minstrels. Debussy alterna constantemente introspecção, ironia, exuberância e contemplação, criando uma sucessão de atmosferas que jamais se repetem.

O Segundo Livro aprofunda ainda mais essa linguagem. Debussy explora harmonias mais ousadas e uma escrita pianística de extraordinária invenção. Surgem neblinas em Brouillards, folhas mortas, paisagens espanholas evocadas em La Puerta del Vino, fadas retiradas das ilustrações de Arthur Rackham, referências a Charles Dickens, vasos funerários do Egito Antigo, desafios puramente pianísticos em Les Tierces alternées e, finalmente, um espetacular espetáculo de fogos de artifício encerrando a coleção, no qual ecos distantes da Marselhesa aparecem quase como uma lembrança perdida entre as explosões luminosas.

O libreto da pianista Anna Tsybuleva revela também uma dimensão profundamente pessoal dessa música. Seu primeiro contato com Debussy aconteceu aos cinco anos de idade, quando sua mãe lhe apresentou La Fille aux cheveux de lin. Desde então, a pianista passou anos tentando compreender como transformar em som elementos tão intangíveis quanto vento, luz, reflexos na água ou o canto de Ondina. Para ela, interpretar Debussy exige recuperar a capacidade infantil de observar o mundo com espanto, curiosidade e ausência de julgamentos. Não por acaso, dedica esta gravação à memória da mãe, cuja presença continua associada àquele primeiro prelúdio ouvido na infância.

Essa concepção artística encontra perfeita tradução em sua interpretação. Vencedora do Leeds International Piano Competition em 2015, Anna Tsybuleva construiu uma carreira marcada pela combinação de refinamento técnico e intensa sensibilidade poética. A crítica frequentemente destaca justamente essa capacidade de criar uma atmosfera íntima mesmo nas maiores salas de concerto, qualidade especialmente adequada ao universo delicado e sugestivo dos Préludes.

Mais de um século após sua composição, os Préludes continuam a soar surpreendentemente modernos. Debussy rompe com o virtuosismo exibicionista do século XIX para transformar o piano em um laboratório de cores, timbres e texturas. Cada peça parece existir entre o real e o imaginário, entre a descrição e o sonho. A interpretação de Anna Tsybuleva compreende plenamente esse espírito: em vez de oferecer respostas definitivas, convida o ouvinte a percorrer um mundo de sugestões, no qual cada audição revela novos detalhes. É precisamente essa capacidade de permanecer inesgotável que faz dos Préludes uma das maiores realizações da música para piano de todos os tempos.

Uma boa apreciação!

Claude Debussy (1862-1918) -

01 - Préludes, Book 1_ I. Danseuses de Delphes
02 - Préludes, Book 1_ II. Voiles
03 - Préludes, Book 1_ III. Le Vent Dans la Plaine
04 - Préludes, Book 1_ IV. Les Sons Et Les Parfums Tournent Dans L'air Du Soir
05 - Préludes, Book 1_ V. Les Collines D'Anacapri
06 - Préludes, Book 1_ VI. Des Pas Sure la Neige
07 - Préludes, Book 1_ VII. Ce Qu'a Vu Le Vent D'ouest
08 - Préludes, Book 1_ VIII. La Fille Aux Cheveux de Lin
09 - Préludes, Book 1_ IX. La Sérénade Interrompue
10 - Préludes, Book 1_ X. La Cathédrale Engloutie
11 - Préludes, Book 1_ XI. La Danse de Puck
12 - Préludes, Book 1_ XII. Minstrels
13 - Préludes - Book 2_ I. Brouillards
14 - Préludes, Book 2_ II. Feuilles Mortes
15 - Préludes, Book 2_ III. La Puerta del Vino
16 - Préludes, Book 2_ IV. Les Fées Sont D'exquises Danseuses
17 - Préludes, Book 2_ V. Bruyères
18 - Préludes, Book 2_ VI. General Lavine - Excentric
19 - Préludes, Book 2_ VII. La Terrasse Des Audiences Du Clair de Lune
20 - Préludes, Book 2_ VIII. Ondine
21 - Préludes, Book 2_ IX. Hommage À S. Pickwick Esq., P.P.M.P.C
22 - Préludes, Book 2_ X. Canope
23 - Préludes, Book 2_ XI. Les Tierces Alternées
24 - Préludes, Book 2_ XII. Feux D'artifice

Anna Tsybuleva, piano

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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - The 6 French Suites

"A jornada de Francesco Tristano pela obra para teclado de Johann Sebastian Bach ganha um novo capítulo com o lançamento da integral das Seis Suítes Francesas (BWV 812–817), compostas entre aproximadamente 1722 e 1725. Este é o quarto volume do ambicioso projeto desenvolvido pelo pianista luxemburguês para o selo naïve, que pretende registrar toda a produção de Bach para teclado.

As Suítes Francesas ocupam um lugar especial na trajetória artística de Tristano. Foi justamente esse ciclo que o levou a mergulhar de forma mais profunda e duradoura no universo bachiano. O intérprete destaca a beleza discreta e a serenidade quase contemplativa dessas obras, nas quais lirismo e clareza convivem com uma escrita de extraordinária precisão. Para ele, trata-se de uma música espontânea e expressiva, cuja fluidez jamais cede à pressa ou ao excesso de dramatização.

Sob uma aparente simplicidade, as Suítes Francesas revelam um refinamento estrutural notável. Depois da ampliação formal observada nas Suítes Inglesas — registradas por Tristano em 2025 —, Bach parece buscar aqui uma linguagem mais concentrada, condensando suas ideias em formas de extraordinária economia expressiva. Esse processo culminaria, posteriormente, na síntese magistral das Partitas, reunidas na primeira parte do Clavier-Übung, também já gravadas pelo pianista.

Apesar de sua importância, a execução integral das seis suítes permanece relativamente rara. A escrita despojada e a aparente ingenuidade das partituras escondem um sofisticado jogo de contrastes e uma elaboração formal de grande sutileza, fatores que tornam o ciclo um desafio interpretativo considerável. Obras como a Suíte em Mi maior, BWV 817, exemplificam essa delicada combinação entre concisão e riqueza expressiva.

Entre os destaques do programa figura justamente essa suíte, composta por nove movimentos cuidadosamente equilibrados. A obra oferece um amplo panorama das principais danças do barroco, reunindo Allemande, Courante, Sarabande, Gavotte, Bourrée, Gigue, Menuet polonais e Petit Menuet à la française. Nesta gravação, Tristano opta pela versão revisada da partitura, precedida pelo Prelúdio em Mi maior do primeiro livro de O Cravo Bem Temperado, estabelecendo uma introdução de grande coerência musical.

Do ponto de vista interpretativo, o pianista adota uma sonoridade particularmente calorosa e delicada. Em movimentos como a Allemande da Suíte BWV 814, a Sarabande da BWV 815 e a Air da BWV 813, privilegia um toque macio e intimista, ressaltando o caráter contemplativo dessas páginas. A opção contrasta de forma evidente com a abordagem mais expansiva e brilhante das Suítes Inglesas, registradas anteriormente, nas quais predominava uma sonoridade mais incisiva e de maior projeção.

Com este novo lançamento, Francesco Tristano reafirma seu compromisso de revisitar Bach sob uma perspectiva ao mesmo tempo rigorosa e pessoal. Ao explorar a elegância discreta e a profundidade das Suítes Francesas, o pianista acrescenta um capítulo de grande sensibilidade a um projeto que se consolida como uma das mais ambiciosas integrais contemporâneas da obra para teclado do compositor de Leipzig".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

 

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - 

01. French Suite No. 1 in D Minor, BWV 812: I. Allemande
02. French Suite No. 1 in D Minor, BWV 812: II. Courante
03. French Suite No. 1 in D Minor, BWV 812: III. Sarabande
04. French Suite No. 1 in D Minor, BWV 812: IV. Menuet I
05. French Suite No. 1 in D Minor, BWV 812: V. Menuet II
06. French Suite No. 1 in D Minor, BWV 812: VI. Gigue
07. French Suite No. 2 in C Minor, BWV 813: I. Allemande
08. French Suite No. 2 in C Minor, BWV 813: II. Courante
09. French Suite No. 2 in C Minor, BWV 813: III. Sarabande
10. French Suite No. 2 in C Minor, BWV 813: IV. Air
11. French Suite No. 2 in C Minor, BWV 813: V. Menuet (I)
12. French Suite No. 2 in C Minor, BWV 813: VI. Menuet (II, VWV 813a)
13. French Suite No. 2 in C Minor, BWV 813: VII. Gigue
14. French Suite No. 3 in B Minor, BWV 814: I. Allemande
15. French Suite No. 3 in B Minor, BWV 814: II. Courante
16. French Suite No. 3 in B Minor, BWV 814: III. Sarabande
17. French Suite No. 3 in B Minor, BWV 814: IV. Anglaise
18. French Suite No. 3 in B Minor, BWV 814: V. Menuet I
19. French Suite No. 3 in B Minor, BWV 814: VI. Menuet II (Trio)
20. French Suite No. 3 in B Minor, BWV 814: VII. Gigue
21. French Suite No. 4 in E-Flat Major, BWV 815: I. Allemande
22. French Suite No. 4 in E-Flat Major, BWV 815: II. Courante
23. French Suite No. 4 in E-Flat Major, BWV 815: III. Sarabande
24. French Suite No. 4 in E-Flat Major, BWV 815: IV. Gavotte
25. French Suite No. 4 in E-Flat Major, BWV 815: V. Air
26. French Suite No. 4 in E-Flat Major, BWV 815: VI. Menuet
27. French Suite No. 4 in E-Flat Major, BWV 815: VII. Gigue
28. French Suite No. 5 in G Major, BWV 816: I. Allemande
29. French Suite No. 5 in G Major, BWV 816: II. Courante
30. French Suite No. 5 in G Major, BWV 816: III. Sarabande
31. French Suite No. 5 in G Major, BWV 816: IV. Gavotte
32. French Suite No. 5 in G Major, BWV 816: V. Bourrée
33. French Suite No. 5 in G Major, BWV 816: VI. Loure
34. French Suite No. 5 in G Major, BWV 816: VII. Gigue
35. French Suite No. 6 in E Major, BWV 817: I. Prélude
36. French Suite No. 6 in E Major, BWV 817: II. Allemande
37. French Suite No. 6 in E Major, BWV 817: III. Courante
38. French Suite No. 6 in E Major, BWV 817: IV. Sarabande
39. French Suite No. 6 in E Major, BWV 817: V. Gavotte
40. French Suite No. 6 in E Major, BWV 817: VI. Menuet polonais
41. French Suite No. 6 in E Major, BWV 817: VII. Petit Menuet
42. French Suite No. 6 in E Major, BWV 817: VIII. Bourrée
43. French Suite No. 6 in E Major, BWV 817: IX. Gigue

Francesco Tristano Schlimé, piano 

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domingo, 9 de agosto de 2026

Johannes Brahms (1833-1897) - Symphonies No. 1-4

"Gianandrea Noseda figura entre os raros maestros capazes de transitar com igual autoridade entre o repertório operístico e o sinfônico. Em artigo publicado em 2021 por ocasião de sua estreia como Diretor-Geral de Música da Ópera de Zurique, o jornal suíço Neue Zürcher Zeitung resumiu essa versatilidade de forma eloquente: “Em retrospecto, é impossível dizer se Noseda é um maestro de ópera melhor do que um maestro sinfônico, ou vice-versa.” A observação sintetiza a amplitude artística de um regente cuja carreira se destaca tanto nos grandes palcos líricos quanto nas principais salas de concerto do mundo.

Durante sua atuação em Zurique, Noseda dedicou especial atenção à obra de Johannes Brahms, conduzindo um ciclo que reafirmou sua afinidade com o universo sinfônico do compositor alemão. Após uma interpretação amplamente elogiada do Ein deutsches Requiem (Um Réquiem Alemão), o maestro voltou-se para as quatro sinfonias de Brahms, dirigindo-as à frente da Orquestra da Ópera de Zurique em uma série de concertos que agora chega ao público em forma de álbum.

Compostas entre 1876 e 1885, as quatro sinfonias representam um dos pontos culminantes do romantismo orquestral. Nelas, Brahms consolidou uma linguagem que concilia o rigor formal herdado da tradição clássica com uma extraordinária intensidade expressiva, criando obras que permanecem entre os pilares do repertório sinfônico.

As interpretações reunidas nesta gravação foram registradas ao vivo em diferentes apresentações realizadas na Ópera de Zurique. A atmosfera do concerto confere às execuções um senso particular de espontaneidade e energia, preservando a comunicação direta entre maestro, orquestra e público. Sob a direção de Noseda, essas partituras revelam toda a riqueza de sua arquitetura, o refinamento da escrita orquestral e a profundidade emocional que caracterizam a maturidade criativa de Brahms.

Mais do que uma simples integral das sinfonias, este lançamento documenta o encontro entre um dos mais respeitados maestros da atualidade e um repertório central da tradição sinfônica. O resultado reafirma tanto a excelência da Orquestra da Ópera de Zurique quanto a capacidade de Gianandrea Noseda de extrair dessas obras um equilíbrio convincente entre vigor dramático, clareza estrutural e lirismo, oferecendo uma leitura que se insere com destaque na ampla discografia dedicada ao compositor".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Johannes Brahms (1833-1897) - 

DISCO 01

01. Symphony No. 1 in C Minor, Op. 68: I. Un poco sostenuto - Allegro - Meno allegro
02. Symphony No. 1 in C Minor, Op. 68: II. Andante sostenuto
03. Symphony No. 1 in C Minor, Op. 68: III. Un poco allegretto e grazioso
04. Symphony No. 1 in C Minor, Op. 68: IV. Adagio - Più Andante - Allegro non troppo, ma con brio – Più allegro
05. Symphony No. 3 in F Major, Op. 90: I. Allegro con brio: Un poco sostenuto - Tempo I
06. Symphony No. 3 in F Major, Op. 90: II. Andante
07. Symphony No. 3 in F Major, Op. 90: III. Poco allegretto
08. Symphony No. 3 in F Major, Op. 90: IV. Allegro - Un poco sostenuto

DISCO 02

01. Symphony No. 2 in D Major, Op. 73: I. Allegro non troppo
02. Symphony No. 2 in D Major, Op. 73: II. Adagio non troppo - L'istesso tempo, ma grazioso
03. Symphony No. 2 in D Major, Op. 73: III. Allegretto grazioso (quasi andantino) – Presto ma non assai
04. Symphony No. 2 in D Major, Op. 73: IV. Allegro con spirito
05. Symphony No. 4 in E Minor, Op. 98: I. Allegro non troppo
06. Symphony No. 4 in E Minor, Op. 98: II. Andante moderato
07. Symphony No. 4 in E Minor, Op. 98: III. Allegro giocoso - Poco meno presto - Tempo I
08. Symphony No. 4 in E Minor, Op. 98: IV. Allegro energico e passionato - Più allegro 

Orchester der Oper Zürich
Gianandrea Noseda, regente 

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sábado, 8 de agosto de 2026

Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788) - Sonaten für Clavier und Flöte

"Este álbum convida o ouvinte a mergulhar no universo expressivo de Carl Philipp Emanuel Bach, compositor que desempenhou um papel decisivo na transição entre o barroco tardio e o classicismo. Filho de Johann Sebastian Bach, mas dotado de uma linguagem profundamente original, C. P. E. Bach tornou-se uma das figuras mais inovadoras do século XVIII, abrindo novos caminhos para a música instrumental e influenciando diretamente compositores como Haydn, Mozart e Beethoven.

As sonatas para teclado e flauta reunidas neste lançamento refletem com clareza esse momento de transformação estética. Embora ainda preservem a organização formal e o equilíbrio herdados da sonata em trio barroca, as obras revelam uma linguagem muito mais livre, marcada pela busca da expressividade, pela valorização do contraste e por uma intensa exploração das emoções humanas.

Um dos aspectos mais inovadores dessas partituras é o tratamento conferido ao teclado. Longe de exercer apenas a função de acompanhamento, o instrumento assume papel de absoluto protagonismo, estabelecendo um diálogo constante com a flauta. Essa igualdade entre os dois intérpretes cria uma escrita camerística de extraordinária riqueza, na qual as ideias musicais circulam livremente entre as vozes, antecipando características que se tornariam fundamentais na música clássica das décadas seguintes.

Essa concepção está intimamente ligada ao chamado Empfindsamer Stil — o “estilo sensível” —, corrente estética da qual Carl Philipp Emanuel Bach foi um dos maiores representantes. Caracterizada pela valorização da subjetividade, das mudanças repentinas de caráter e da expressão direta dos sentimentos, essa linguagem rompe com a estabilidade típica do barroco e inaugura uma nova forma de comunicação musical, mais íntima, espontânea e emocionalmente complexa.

Ao reunir essas sonatas, o álbum evidencia não apenas o extraordinário talento de C. P. E. Bach, mas também sua importância histórica como elo entre duas grandes épocas da música ocidental. São obras que conservam a solidez estrutural da tradição barroca, mas já apontam para um novo ideal de liberdade expressiva, fazendo deste repertório um dos capítulos mais fascinantes da evolução da música de câmara do século XVIII".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788) -

01. Sonata in E Major for keyboard and flute Wq. 84: I. Allegretto (5:48)
02. Sonata in E Major for keyboard and flute Wq. 84: II. Adagio di molto (3:46)
03. Sonata in E Major for keyboard and flute Wq. 84: III. Allegro assai (3:44)
04. Sonata in C Major for keyboard and flute Wq. 87: I. Allegretto (4:10)
05. Sonata in C Major for keyboard and flute Wq. 87: II. Andantino (3:09)
06. Sonata in C Major for keyboard and flute Wq. 87: III. Allegro (3:42)
07. Sonata in G Major for keyboard and flute Wq. 85: I. Allegretto (4:39)
08. Sonata in G Major for keyboard and flute Wq. 85: II. Andantino (3:26)
09. Sonata in G Major for keyboard and flute Wq. 85: III. Allegro (3:27)
10. Harpsichord Sonata in G Minor Wq. 65/11: I. Allegro (3:10)
11. Harpsichord Sonata in G Minor Wq. 65/11: II. Andante (2:28)
12. Harpsichord Sonata in G Minor Wq. 65/11: III. Allegretto grazioso (2:51)
13. Sonata in G Major for keyboard and flute Wq. 86: I. Andante (2:07)
14. Sonata in G Major for keyboard and flute Wq. 86: II. Allegretto (4:29)
15. Sonata in G Major for keyboard and flute Wq. 86: III. Allegro (3:54)
16. Sonata in D Major for keyboard and flute Wq. 83: I. Allegro un poco (4:27)
17. Sonata in D Major for keyboard and flute Wq. 83: II. Largo (5:15)
18. Sonata in D Major for keyboard and flute Wq. 83: III. Allegro (4:14)

Tini Mathot, cravo
Reine-Marie Verhagen, flauta

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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Dmitry B. Kabalevsky (1904-1987) - Piano Concerto No.1, Op.9 e Piano Concerto No.2, Op.23

 
Contemporâneo de Prokofiev e Shostakovich, construiu uma linguagem menos áspera e experimental, marcada pela clareza melódica, pelo vigor rítmico e por uma comunicação bastante direta com o público. Seus Concertos para Piano nº 1 e nº 2, reunidos nesta gravação da pianista In-Ju Bang com a Russian Philharmonic Orchestra, sob a regência de Dmitry Yablonsky, permitem acompanhar a formação dessa personalidade musical e descobrir um repertório que permanece injustamente à sombra dos concertos russos mais conhecidos.

Escrito em 1928, o Concerto para Piano nº 1 em Lá menor, Op. 9, pertence aos primeiros anos da carreira de Kabalevsky. O compositor ainda estudava no Conservatório de Moscou e encontrava-se em pleno processo de definição de sua linguagem. Não surpreende, portanto, que a obra revele ecos da tradição romântica russa e, ao mesmo tempo, da modernidade que então transformava a música soviética. O piano assume papel de grande destaque, alternando passagens vigorosas e virtuosísticas com episódios de lirismo mais íntimo.

O que chama atenção nesse primeiro concerto é justamente sua combinação de juventude e segurança. Kabalevsky não rompe com a tradição do concerto romântico: solista e orquestra continuam envolvidos em um diálogo dramático, e a escrita pianística conserva o brilho esperado de uma obra do gênero. Entretanto, já aparecem características que se tornariam marcas do compositor, sobretudo a objetividade das formas, o impulso rítmico e a preferência por melodias facilmente reconhecíveis. Mesmo nos momentos mais densos, sua música raramente abandona a clareza.

O Concerto para Piano nº 2 em Sol menor, Op. 23, escrito poucos anos depois, em 1935, apresenta um compositor mais seguro de seus recursos. A obra seria posteriormente revista, em 1973, mas preserva o espírito de sua concepção original. Aqui, o equilíbrio entre virtuosismo e expressão torna-se ainda mais evidente. A escrita pianística é exigente, porém o solista não aparece apenas como protagonista de uma exibição técnica: integra-se constantemente à estrutura orquestral e participa da construção dos contrastes dramáticos.

O segundo concerto também revela com maior nitidez a capacidade de Kabalevsky para transformar materiais aparentemente simples em música de grande eficácia. Há momentos de energia quase percussiva, passagens marcadas por humor e vivacidade e episódios de lirismo que remetem à tradição russa. Essa alternância entre tensão e espontaneidade ajuda a explicar a acessibilidade de sua linguagem. Kabalevsky podia ser moderno sem transformar a modernidade em obstáculo para o ouvinte.

Essa característica acabaria se tornando central em sua trajetória. Professor e autor de numerosas peças destinadas a estudantes, Kabalevsky defendia uma música capaz de aproximar formação técnica e prazer estético. Seus concertos, embora muito mais ambiciosos do que suas célebres obras pedagógicas, compartilham dessa preocupação com a comunicação. Há complexidade, mas ela permanece subordinada à expressão; há virtuosismo, mas raramente como finalidade em si mesmo.

Nesta gravação, In-Ju Bang enfrenta os dois concertos com a combinação necessária de força, precisão e lirismo, enquanto Dmitry Yablonsky e a Russian Philharmonic Orchestra ressaltam a riqueza das cores orquestrais sem obscurecer o piano. A interpretação contribui para mostrar que essas obras merecem ser conhecidas para além de seu valor histórico.

Ouvir os dois primeiros concertos de Kabalevsky lado a lado é, sobretudo, acompanhar um compositor descobrindo a própria voz. Entre a herança do romantismo russo e as novas exigências estéticas do século XX, emerge uma música franca, vigorosa e surpreendentemente comunicativa. Talvez seja justamente essa ausência de afetação que explique seu encanto: Kabalevsky não procura desconcertar o ouvinte, mas conquistá-lo pela força das ideias e pelo prazer imediato de fazer música.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Dmitry B. Kabalevsky (1904-1987) - 

01 - Piano Concerto No.1, op.9 - I. Moderato quasi andantino
02 - Piano Concerto No.1, op.9 - II. Moderato - Allegro assai
03 - Piano Concerto No.1, op.9 - III. Vivace marcato
04 - Piano Concerto No.2, op.23 - I. Allegro moderato
05 - Piano Concerto No.2, op.23 - II. Andantino semplice
06 - Piano Concerto No.2, op.23 - III. Allegro molto

Russian Philharmonic Orchestra
Dmitry Yablonsky, regente
In-JU Bang, piano 

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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Carl Nielsen (1865-1931) - Helios, Op. 17, FS 32, Concerto, Op. 57, FS 129 e Symphony No. 5, Op. 50, FS 97

"A série dedicada às sinfonias de Carl Nielsen, conduzida por Edward Gardner à frente da Orquestra Filarmônica de Bergen, prossegue com uma das obras mais singulares do compositor dinamarquês: a Sinfonia nº 5. O programa é complementado pela abertura Helios e pelo Concerto para Clarineta, que tem Alessandro Carbonare como solista. O álbum reúne, assim, três partituras capazes de revelar diferentes aspectos da personalidade criativa de Nielsen, do luminoso retrato da natureza à tensão dramática de sua escrita tardia.

Composta em 1903, durante uma temporada na Grécia, Helios nasceu em circunstâncias particularmente sugestivas. Nielsen acompanhava sua esposa, a escultora Anne Marie, que havia recebido uma bolsa para copiar obras da Antiguidade conservadas na Acrópole. Em cerca de dez a doze minutos, o compositor transforma em música o percurso diário do sol sobre o Mar Egeu: o amanhecer, a luminosidade plena do meio-dia e, finalmente, o desaparecimento do astro no horizonte. A força evocativa da partitura fez dela uma das obras mais frequentemente executadas de Nielsen.

De natureza muito diferente é o Concerto para Clarineta, composto em 1928. Estruturado em um único grande movimento dividido em quatro seções, o concerto foi dedicado ao clarinetista Aage Oxenvad, amigo de Nielsen e responsável por sua primeira apresentação. A obra pertence à fase final da produção do compositor e concentra em sua escrita uma linguagem marcada por contrastes, tensão e grandes exigências expressivas. Nesta gravação, a parte solista fica a cargo de Alessandro Carbonare.

No centro do programa encontra-se a Sinfonia nº 5, composta entre 1920 e 1922. Excepcional dentro do catálogo de Nielsen, a obra está organizada em apenas dois movimentos - caso único entre suas sinfonias. Diferentemente de outras partituras sinfônicas da maturidade, também não recebeu um subtítulo, característica que permite compreendê-la como uma manifestação de “música pura”, menos vinculada a um programa explicitamente descritivo.

Isso não significa, porém, ausência de conflito ou significado. O próprio Nielsen definiu a sinfonia como uma representação da “divisão entre escuridão e luz, da batalha entre o mal e o bem”, estabelecendo ainda uma oposição entre “Sonhos e Ações”. Essa permanente luta de forças tornou-se um dos elementos mais marcantes da obra e contribuiu para que muitos comentaristas passassem a enxergá-la como uma espécie de “sinfonia de guerra”.

Nielsen rejeitou, contudo, a ideia de que estivesse deliberadamente retratando a Primeira Guerra Mundial. Segundo o compositor, o conflito não estava diretamente em seus pensamentos durante a criação da partitura. Ao mesmo tempo, reconheceu a impossibilidade de escapar completamente das transformações provocadas pela experiência histórica, observando que “nenhum de nós é o mesmo que era antes da guerra”.

Sob a direção de Edward Gardner, a Filarmônica de Bergen dá continuidade, portanto, a uma série que procura iluminar a riqueza e a originalidade do universo sinfônico de Nielsen. Reunindo a luminosidade mediterrânea de Helios, a personalidade inquieta do Concerto para Clarineta e o monumental confronto de forças da Quinta Sinfonia, o programa oferece um retrato expressivo de um compositor que fez do contraste, da energia e da tensão entre opostos alguns dos fundamentos de sua linguagem musical".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Carl Nielsen (1865-1931) - 

01. Helios, Op. 17, FS 32 (1903)

Concerto, Op. 57, FS 129 (1928)
02. I. Allegretto un poco – A tempo, ma tranquillo – Cadenza – Tempo I – Allegro non troppo – Più allegro – Tempo I
03. II. Poco adagio – A tempo, ma tranquillo – Più mosso – Poco adagio –
04. III. Allegro non troppo – Meno – Molto cantabile e ben tenuto – Molto espressivo e ben tenuto – Poco più mosso – Un poco meno – Cadenza – Adagio – Più vivo – Adagio –
05. IV. Allegro vivace – Molto tranquillo – Tempo I – Poco adagio – Allegro – Tempo I (Allegro vivace) – Poco meno

Symphony No. 5, Op. 50, FS 97 (1920) - 
06. I. Tempo giusto – Tranquillo – Tranquillo –
07. Adagio – Cadenza [snare drum] – Tranquillo – Cadenza [clarinet]
08. II. Allegro – Un poco di più –
09. Presto –
10. Andante poco tranquillo –
11. Allegro (Tempo I)

Bergen Philharmonic Orchestra
Edward Gardner, regente
Allessandro Carbonare, clarinet (2-5) 

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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Pyotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893) - Serenade for Strings in C major, Op. 48, Edward Elgar (1857-1934) - Serenade for Strings in E minor, Op. 20 e Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) - Serenade in G major, KV 525 "Eine kleine Nachtmusik"

"Para celebrar seus 75 anos de história, a Orquestra de Câmara de Zurique reuniu em um novo álbum algumas das obras mais queridas de seu repertório. Concebida como uma homenagem tanto aos músicos quanto ao público que acompanhou sua trajetória ao longo de décadas, a gravação sintetiza uma tradição artística marcada pela excelência interpretativa e pela permanente renovação.

Fundada em 1945 pelo maestro Edmond de Stoutz, a Orquestra de Câmara de Zurique construiu uma trajetória de grande prestígio, percorrendo um repertório que se estende do barroco à criação contemporânea. Ao longo desse caminho, o conjunto consolidou uma identidade própria, caracterizada pela precisão, pela flexibilidade e por uma sonoridade especialmente adequada às exigências da literatura para orquestra de câmara.

Para este lançamento comemorativo, os músicos unem-se ao diretor musical Daniel Hope na escolha de três serenatas clássicas que ocupam lugar privilegiado na história do conjunto. São obras que representam não apenas alguns dos momentos mais conhecidos do repertório para cordas, mas também uma tradição interpretativa cultivada pela orquestra ao longo de sua existência.

A escolha da serenata como fio condutor do programa mostra-se particularmente significativa. Associado à leveza, à elegância e ao prazer da convivência musical, o gênero permite evidenciar algumas das principais virtudes de uma formação camerística: equilíbrio entre as vozes, transparência das texturas, refinamento do fraseado e estreita comunicação entre os intérpretes.

Mais do que simplesmente revisitar páginas consagradas, este álbum assume assim o caráter de uma celebração. Ao lado de Daniel Hope, a Orquestra de Câmara de Zurique transforma seus 75 anos em música, reafirmando uma identidade construída entre tradição e renovação e oferecendo ao público um retrato afetivo de algumas das obras que ajudaram a definir sua história artística".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Pyotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893)

Serenade for Strings in C major, Op. 48

01. 1. Pezzo in forma di sonatina. Andante non troppo - Allegro moderato
02. 2. Valse. Moderato. Tempo di Valse
03. 3. Élégie. Larghetto elegiaco
04. 4. Finale. Tema russo. Andante - Allegro con spirito 

Edward Elgar (1857-1934)

Serenade for Strings in E minor, Op. 20

05. 1. Allegro piacevole
06. 2. Larghetto
07. 3. Allegretto

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)

Serenade in G major, KV 525 "Eine kleine Nachtmusik"

08. 1. Allegro
09. 2. Romance. Andante
10. 3. Menuetto. Allegretto - Trio
11. 4. Rondo. Allegro

Zürcher Kammerorchester
Daniel Hope, regente 

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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Ludwig van Beethoven (1770-1827) - Piano Trios, Op. 70 & 121

Três músicos de projeção internacional decidiram unir suas trajetórias em 2011 e deram origem ao Hamlet Piano Trio, conjunto que desde então vem conquistando crescente reconhecimento no cenário camerístico mundial. Seus integrantes já haviam construído carreiras sólidas tanto como solistas quanto como músicos de câmara, experiência que rapidamente se refletiu na identidade artística do trio. O primeiro álbum do grupo, dedicado aos Trios para Piano de Mendelssohn, recebeu elogios da crítica internacional. Neste novo lançamento, o conjunto volta-se para Ludwig van Beethoven e para a linguagem revolucionária que marcou seus primeiros anos em Viena.

Quando Beethoven chegou à capital austríaca, sua personalidade musical provocou reações contraditórias. Para muitos ouvintes da época, aquela música parecia excessivamente brutal, obstinada, inquieta e até inconveniente. O jovem pianista virtuose, porém, estava determinado a construir também uma carreira como compositor e pouco se importava com a incompreensão daqueles que ainda não estavam preparados para sua linguagem.

Essa determinação pode ser percebida até mesmo na maneira como Beethoven organizou sua produção. Ao estabelecer-se em Viena, praticamente deixou de lado as obras escritas anteriormente em Bonn e iniciou uma nova contagem de seu catálogo. Não por acaso, reservou o Opus 1 justamente para seus primeiros Trios para Piano, obras que funcionavam como uma espécie de cartão de apresentação do jovem compositor diante da sofisticada sociedade musical vienense.

A recepção, contudo, esteve longe de ser consensual. Um crítico da época reconheceu que Beethoven seguia um caminho próprio, mas classificou esse percurso como “bizarro e cansativo”. Reclamava da ausência de melodias facilmente reconhecíveis, das modulações inesperadas, das progressões harmônicas pouco convencionais e do acúmulo de dificuldades que, segundo ele, acabavam por esgotar a paciência e o prazer do ouvinte.

Beethoven respondeu com a concisão e a segurança que se tornariam características de sua personalidade: “Eles não entendem nada.” O tempo acabaria lhe dando razão. Anos depois, ainda lembrando daquele julgamento desfavorável, o compositor não hesitaria em chamar o crítico de “boi”.

A anedota ilustra de maneira eloquente o impacto causado pelos primeiros Trios para Piano de Beethoven. Aquilo que parte do público vienense interpretava como obstinação ou excentricidade era, na verdade, o surgimento de uma linguagem que começava a desafiar as convenções do classicismo e a ampliar os horizontes da música de câmara.

É justamente esse Beethoven inquieto, ousado e determinado a seguir seu próprio caminho que o Hamlet Piano Trio procura recuperar neste álbum. Depois da elogiada incursão pelo universo de Mendelssohn, o conjunto volta-se para as origens da trajetória vienense de um compositor que inicialmente desconcertou seus contemporâneos, mas cuja música acabaria por transformar definitivamente a história da tradição instrumental europeia".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Ludwig van Beethoven (1770-1827) - 


01. Piano Trio No.5 in D Major, Op. 70 No.1 "Geister-Trio": I. Allegro vivace e con brio
02. Piano Trio No.5 in D Major, Op. 70 No.1 "Geister-Trio": II. Largo assai ed espressivo
03. Piano Trio No.5 in D Major, Op. 70 No.1 "Geister-Trio": III. Presto
04. Piano Trio in E-Flat Major, Op. 70 No.2: I. Poco sostenuto-Allegro ma non troppo
05. Piano Trio in E-Flat Major, Op. 70 No.2: II. Allegretto
06. Piano Trio in E-Flat Major, Op. 70 No.2: III. Allegretto man non troppo
07. Piano Trio in E-Flat Major, Op. 70 No.2: IV. Finale. Allegro
08. 10 Variations on 'Ich bin der Schneider Kakadu', Op.121a

Hamlet Piano Trio 

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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Sergei Rachmaninov (1873-1943) - 24 Preludes

Os 24 Prelúdios de Sergei Rachmaninoff constituem uma das grandes sínteses do pianismo tardo-romântico. Neles, densidade emocional, lirismo delicado e virtuosismo explosivo convivem em equilíbrio permanente, formando um vasto panorama das possibilidades expressivas do piano. Justamente por suas elevadas exigências técnicas e pela complexidade de seu universo emocional, apresentações e gravações da integral permanecem menos frequentes do que as dedicadas a outras obras importantes do repertório pianístico.

É nesse contexto que se destaca a nova gravação da pianista sul-coreana Noh Ye-jin, realizada ao piano Fazioli F278. O lançamento não apenas acrescenta uma nova interpretação à extensa discografia de Rachmaninoff, mas também representa um marco particular: trata-se da primeira gravação integral dos 24 Prelúdios realizada por uma pianista coreana.

O projeto é resultado de aproximadamente quatro anos de preparação. Durante esse período, Noh Ye-jin dedicou-se ao estudo do conjunto como algo que ultrapassa uma simples sucessão de peças independentes. Seu trabalho procura revelar as melodias ocultas, as mudanças de atmosfera e as múltiplas camadas emocionais que atravessam essas páginas, construindo uma visão abrangente do universo pianístico de Rachmaninoff.

Mais do que vencer os formidáveis desafios técnicos impostos pela partitura, a intérprete demonstra especial atenção à dimensão lírica e introspectiva da música. Sua abordagem busca transformar os 24 Prelúdios em um percurso coerente e orgânico, no qual cada peça conserva sua personalidade ao mesmo tempo que participa de uma narrativa musical mais ampla.

O álbum representa, assim, um momento significativo na trajetória artística de Noh Ye-jin. Ao enfrentar um dos grandes monumentos do repertório para piano, a intérprete evidencia não apenas domínio técnico, mas também amadurecimento musical e sensibilidade para penetrar nas regiões mais íntimas da escrita de Rachmaninoff. O resultado promete enriquecer a discografia dedicada ao compositor e oferecer uma nova perspectiva sobre uma coleção que permanece entre as realizações mais exigentes e fascinantes do pianismo romântico.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Sergei Rachmaninov (1873-1943) -

01. Prelude, Op. 3, No. 2 in C-sharp minor
02. 10 Preludes, Op. 23: Prelude, Op. 23, No. 1 in F-sharp minor
03. 10 Preludes, Op. 23: Prelude, Op. 23, No. 2 in B-flat major
04. 10 Preludes, Op. 23: Prelude, Op. 23, No. 3 in D minor
05. 10 Preludes, Op. 23: Prelude, Op. 23, No. 4 in D major
06. 10 Preludes, Op. 23: Prelude, Op. 23, No. 5 in G minor
07. 10 Preludes, Op. 23: Prelude, Op. 23, No. 6 in E-flat major
08. 10 Preludes, Op. 23: Prelude, Op. 23, No. 7 in C minor
09. 10 Preludes, Op. 23: Prelude, Op. 23, No. 8 in A-flat major
10. 10 Preludes, Op. 23: Prelude, Op. 23, No. 9 in E-flat minor
11. 10 Preludes, Op. 23: Prelude, Op. 23, No. 10 in G-flat major
12. 13 Preludes, Op. 32: Prelude, Op. 32, No. 1 in C major
13. 13 Preludes, Op. 32: Prelude, Op. 32, No. 2 in B-flat minor
14. 13 Preludes, Op. 32: Prelude, Op. 32, No. 3 in E major
15. 13 Preludes, Op. 32: Prelude, Op. 32, No. 4 in E minor
16. 13 Preludes, Op. 32: Prelude, Op. 32, No. 5 in G major
17. 13 Preludes, Op. 32: Prelude, Op. 32, No. 6 in F minor
18. 13 Preludes, Op. 32: Prelude, Op. 32, No. 7 in F major
19. 13 Preludes, Op. 32: Prelude, Op. 32, No. 8 in A minor
20. 13 Preludes, Op. 32: Prelude, Op. 32, No. 9 in A major
21. 13 Preludes, Op. 32: Prelude, Op. 32, No. 10 in B minor
22. 13 Preludes, Op. 32: Prelude, Op. 32, No. 11 in B major
23. 13 Preludes, Op. 32: Prelude, Op. 32, No. 12 in G-sharp minor
24. 13 Preludes, Op. 32: Prelude, Op. 32, No. 13 in D-flat major 

Yejin Noh, piano 

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domingo, 2 de agosto de 2026

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - Brandenburg Concertos, Orchestral Suites

"Para os ouvintes mais familiarizados com a obra de Johann Sebastian Bach, é provável que já existam gravações favoritas dos Concertos de Brandemburgo e das Suítes Orquestrais. Para quem começa a explorar esse repertório, porém, esta coleção de três CDs, com Neville Marriner à frente da Academy of St Martin in the Fields, continua sendo uma opção particularmente atraente, combinando qualidade artística, excelente execução e uma abordagem acessível dessas obras fundamentais do barroco.

Realizadas em 1984 e 1985, as gravações conservam uma qualidade sonora bastante convincente para os padrões do início da era digital. Do ponto de vista interpretativo, Marriner não adota com o mesmo rigor as práticas historicamente informadas associadas a especialistas como Gustav Leonhardt ou Trevor Pinnock. Sua leitura, contudo, está longe de ignorar os conhecimentos musicológicos sobre o período. O resultado é um Bach elegante, vigoroso e musicalmente consistente, ainda que executado em instrumentos modernos — característica que poderá incomodar os defensores mais rigorosos dos instrumentos de época.

A Academy of St Martin in the Fields apresenta sua habitual excelência técnica. A execução é limpa, precisa e profundamente musical. Se a sonoridade não possui os timbres peculiares dos instrumentos históricos e pode parecer mais encorpada do que aquela preferida pelos admiradores de um barroco mais enxuto, dificilmente se poderá acusar essas interpretações de falta de vitalidade ou colorido.

Nos Concertos de Brandemburgo, Marriner privilegia energia e clareza, apoiado por solistas de excelente nível. O resultado é robusto e frequentemente empolgante. Um dos grandes destaques surge no Concerto de Brandemburgo nº 5, no qual George Malcolm assume o célebre solo de cravo com vigor e extraordinária presença, projetando-se claramente sobre o conjunto orquestral.

As interpretações das quatro Suítes Orquestrais também se destacam pelo cuidado técnico, pela aproximação criteriosa às práticas barrocas e pela qualidade da captação digital. Particularmente interessante é a Suíte nº 2 em Si menor, apresentada com um caráter mais vigoroso do que o habitual e executada com a mesma desenvoltura das suítes mais extrovertidas que a sucedem.

Nas Suítes nº 3 e nº 4, ambas em Ré maior, os metais assumem naturalmente posição de destaque, conferindo às interpretações um caráter festivo e jubiloso. Marriner e seus músicos exploram com entusiasmo essa dimensão cerimonial da escrita de Bach, sem comprometer a clareza das texturas.

O contraste mais expressivo aparece na célebre Ária da Suíte nº 3, posteriormente popularizada como Air on the G String. Aqui, a exuberância cede lugar à introspecção. A Academy interpreta a página com excepcional delicadeza, permitindo que sua serenidade melódica surja sem sentimentalismo excessivo.

Embora as décadas seguintes tenham produzido inúmeras gravações historicamente informadas capazes de oferecer perspectivas diferentes sobre essas obras, o Bach de Marriner mantém seu interesse. A elegância, a precisão e a vitalidade da Academy of St Martin in the Fields fazem desta coleção uma excelente introdução aos Concertos de Brandemburgo e às Suítes Orquestrais — e, mesmo para ouvintes experientes, um testemunho valioso de uma tradição interpretativa que soube conciliar o refinamento da orquestra moderna com uma compreensão cada vez mais profunda do estilo barroco".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - 

DISCO 01

Brandenburg Concerto No. 1 in F major, BWV 1046

01. 1. Allegro
02. 2. Adagio
03. 3. Allegro
04. 4. Menuet 1 - Trio 1 - Menuet 2 - Polonaise - Menuet 3 - Trio 2 - Menuet 4

Brandenburg Concerto No. 2 in F major, BWV 1047
05. 1. Allegro
06. 2. Andante
07. 3. Allegro assai

Brandenburg Concerto No. 3 in G major, BWV 1048

08. 1. Allegro
09. 2. Adagio
10. 3. Allegro

Brandenburg Concerto No. 4 in G major, BWV 1049
11. 1. Allegro
12. 2. Andante
13. 3. Presto

DISCO 02

Brandenburg Concerto No. 5 in D major, BWV 1050
01. 1. Allegro
02. 2. Affettuoso
03. 3. Allegro

Brandenburg Concerto No. 6 in B flat major, BWV 1051

04. 1. Allegro
05. 2. Adagio ma non tanto
06. 3. Allegro

Orchestral Suite No. 1 in C major, BWV 1066

07. 1. Overture
08. 2. Courante
09. 3. Gavotte 1 & 2
10. 4. Forlane
11. 5. Menuet 1 & 2
12. 6. Bourrée 1 & 2
13. 7. Passepied 1 & 2

DISCO 03

Orchestral Suite No. 2 in B minor, BWV 1067

01. 1. Overture
02. 2. Rondeau
03. 3. Sarabande
04. 4. Bourrée 1 & 2
05. 5. Polonaise
06. 6. Menuet
07. 7. Badinerie

Orchestral Suite No. 3 in D major, BWV 1068
08. 1. Overture
09. 2. Air
10. 3. Gavotte 1 & 2
11. 4. Bourrée
12. 5. Gigue

Orchestral Suite No. 4 in D major, BWV 1069

13. 1. Overture
14. 2. Bourrée 1 & 2
15. 3. Gavotte
16. 4. Menuet 1 & 2
17. 5. Réjouissance

Academy of St Martin in the Fields
Neville Marriner, regente 

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sábado, 1 de agosto de 2026

Fondo Barocco - Baroque Cello Sonatas - Antonio Caldara, Giuseppe Sammartini, Wenceslaus Spourni e Giovanni Bononcini

"Quando se fala em sonatas barrocas para violoncelo e baixo contínuo, o repertório mais frequentemente lembrado costuma limitar-se às obras de Antonio Vivaldi e Benedetto Marcello. No entanto, para além desse cânone amplamente conhecido, existe um rico universo de composições que permanece injustamente à margem das salas de concerto e da discografia. É justamente esse patrimônio pouco explorado que este álbum se propõe a revelar.

Ao lado de nomes como Antonio Caldara, Giuseppe Sammartini e Giovanni Bononcini, o programa resgata ainda a figura praticamente esquecida de Wenceslaus Spourni. Nascido por volta de 1700 na Boêmia com o nome de Václav Spurný, o músico estabeleceu-se em Paris, onde conquistou reconhecimento como violoncelista e compositor. Sua produção, hoje raramente executada, evidencia a riqueza e a diversidade da escola barroca europeia para instrumentos de cordas.

A redescoberta desse repertório deve-se ao trabalho do Duo Fondo Barocco, formado pela violoncelista Marie Orsini-Rosenberg e pelo contrabaixista Herwig Neugebauer. Com espírito investigativo e profundo conhecimento das práticas interpretativas da música antiga, os dois músicos dedicam-se a recuperar obras que permaneceram durante séculos praticamente esquecidas, devolvendo-as ao público em interpretações marcadas por vitalidade e refinamento.

A cumplicidade artística entre os intérpretes revela-se na fluidez do diálogo entre violoncelo e baixo contínuo, valorizando tanto a riqueza melódica quanto a inventividade harmônica dessas páginas barrocas. Cada obra evidencia uma faceta distinta da escrita instrumental do período, demonstrando que a tradição da sonata para violoncelo foi muito mais ampla e diversificada do que normalmente sugere o repertório consagrado.

Mais do que uma curiosidade musicológica, este lançamento constitui um convite à redescoberta de compositores que contribuíram significativamente para a evolução da música instrumental do século XVIII. Graças às interpretações vivas e expressivas do Duo Fondo Barocco, essas verdadeiras joias do barroco voltam a ocupar o lugar que lhes cabe, enriquecendo o repertório e ampliando nossa compreensão da extraordinária diversidade da música europeia desse período".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Antonio Caldara (1670–1736) - 

Sonata IV in D Minor (1735) for violoncello and basso continuo

01. Allegro
02. Largo
03. Allegro assai

Giuseppe Sammartini (1693-1750) -

Sonata III in A Minor for violoncello and basso continuo

04. Andante
05. Allegro
06. Minuet Allegro

Wenceslaus Spourni (1700-1754) - 

Sonata V in F Major for violoncello and basso continuo

07. Largo
08. Allegro
09. Grave
10. Tempo di Men(uet) Alternativement

Antonio Caldara (1670–1736) - 

Sonata XIV in A Minor (1735) for violoncello and basso continuo

11. Largo
12. Allegro
13. Aria Larghetto
14. Allegro e spiritoso

Giovanni Bononcini (1670-1747) - 

Sonata I in A Minor for violoncello and basso continuo

15. Andante
16. Allegro
17. Grazioso Minuet

Antonio Caldara (1670–1736) - 

Sonata II in D Major (1735) for violoncello and basso continuo

18. Allegro
19. Largo
20. Allegro

Fondo Barocco  

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Piotr I. Tchaikovsky (1840-1893) - Orchestral Works

"Esta coletânea reúne algumas das mais célebres páginas orquestrais e trechos de balé de Piotr Ilitch Tchaikovsky, oferecendo um panorama representativo da extraordinária capacidade do compositor russo de unir lirismo, brilho orquestral e intenso poder dramático. O álbum reafirma a força de uma parceria artística amplamente reconhecida pela crítica internacional: o maestro Dmitrij Kitajenko e a Orquestra Gürzenich de Colônia.

Desde que foi nomeado maestro honorário da tradicional formação alemã, em 2009, Kitajenko consolidou uma das mais importantes colaborações discográficas dedicadas ao repertório russo. Juntos, maestro e orquestra registraram as integrais das sinfonias de Dmitri Shostakovich, Sergei Prokofiev, Piotr Ilitch Tchaikovsky e Sergei Rachmaninoff, interpretações que receberam inúmeros prêmios internacionais e hoje figuram entre as principais referências da discografia contemporânea.

Essa afinidade com a música russa também se manifestou de forma marcante na gravação da ópera Iolanta, de Tchaikovsky, lançada em 2015. Reunindo Olesya Golovneva, Alexander Vinogradov e Andrei Bondarenko nos papéis principais, a produção foi amplamente elogiada pela crítica especializada e conquistou o prêmio de Ópera do Ano concedido pelo International Classical Music Awards (ICMA), consolidando ainda mais o prestígio da parceria entre Kitajenko e a Gürzenich.

Nesta nova coletânea, a experiência acumulada ao longo de anos de dedicação ao repertório do compositor traduz-se em interpretações de grande naturalidade e refinamento. As páginas orquestrais revelam toda a riqueza melódica e a sofisticada paleta de cores que caracterizam a escrita de Tchaikovsky, enquanto as seleções extraídas de seus balés evidenciam o vigor rítmico, a elegância da dança e a inesgotável capacidade narrativa que fizeram dessas partituras um patrimônio permanente da música ocidental.

Mais do que uma simples reunião de obras célebres, o álbum sintetiza uma trajetória artística marcada pela excelência interpretativa e pelo profundo conhecimento da tradição sinfônica russa. É uma gravação que confirma Dmitrij Kitajenko e a Orquestra Gürzenich de Colônia entre os mais importantes intérpretes contemporâneos da obra de Tchaikovsky, oferecendo ao público uma leitura ao mesmo tempo vibrante, elegante e fiel ao espírito do compositor".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Piotr I. Tchaikovsky (1840-1893) -

DISCO 01


01. The Queen of Spades, Op. 68, TH 10: Overture (03:56)
02. Capriccio italien, Op. 45, TH 47 (16:42)
03. The Snow Maiden, Op. 12, TH 19 (Excerpts): No. 1, Introduction (05:54)
04. The Snow Maiden, Op. 12, TH 19 (Excerpts): No. 10, Melodrama (04:47)
05. The Snow Maiden, Op. 12, TH 19 (Excerpts): No. 13, Dance of the Tumblers (04:49)
06. The Sleeping Beauty Suite, Op. 66a, TH 234: I. Introduction (05:03)
07. The Sleeping Beauty Suite, Op. 66a, TH 234: II. Adagio - III. Pas de caractère (06:39)
08. The Sleeping Beauty Suite, Op. 66a, TH 234: IV. Panorama (03:06)
09. The Sleeping Beauty Suite, Op. 66a, TH 234: V. Waltz (04:58)
10. Variations on a Rococo Theme, Op. 33, TH 57 (Ed. W. Fitzenhagen): Theme (02:37)
11. Variations on a Rococo Theme, Op. 33, TH 57 (Ed. W. Fitzenhagen): Var. 1 (00:51)
12. Variations on a Rococo Theme, Op. 33, TH 57 (Ed. W. Fitzenhagen): Var. 2 (01:19)
13. Variations on a Rococo Theme, Op. 33, TH 57 (Ed. W. Fitzenhagen): Var. 3 (03:52)
14. Variations on a Rococo Theme, Op. 33, TH 57 (Ed. W. Fitzenhagen): Var. 4 (02:00)
15. Variations on a Rococo Theme, Op. 33, TH 57 (Ed. W. Fitzenhagen): Var. 5 (03:43)
16. Variations on a Rococo Theme, Op. 33, TH 57 (Ed. W. Fitzenhagen): Var. 6 (02:35)
17. Variations on a Rococo Theme, Op. 33, TH 57 (Ed. W. Fitzenhagen): Var. 7 (02:10)

DISCO 02

01. String Quartet No. 1 in D Major, Op. 11: II. Andante cantabile, TH 63 (Version for Cello & String Orchestra) (07:10)
02. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): Overture (03:28)
03. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 1, Decoration of the Christmas Tree (04:21)
04. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 2, March (02:59)
05. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 3, Children's Galop and Entry of the Parents (02:40)
06. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 9, Waltz of the Snowflakes (07:23)
07. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 12a, Divertissement. Chocolate [Spanish Dance] (01:20)
08. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 12b, Divertissement. Coffee [Arabian Dance] (03:11)
09. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 12c, Divertissement. Tea [Chinese Dance] (01:10)
10. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 12d, Divertissement. Trépak [Russian Dance] (01:15)
11. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 12e, Divertissement. Dance of the Reed Flutes (02:32)
12. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 12f, Divertissement. Mother Gigogne and the Clowns (02:56)
13. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 13, Waltz of the Flowers (07:36)
14. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 14a, Pas de deux. Andante maestoso (05:25)
15. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 14b, Pas de deux. Tarantella (00:43)
16. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 14c, Pas de deux. Dance of the Sugarplum Fairy (02:32)
17. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 14d, Pas de deux. Coda (01:34)
18. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 15, Final Waltz and Apotheosis (05:45)

Gürzenich-Orchester Köln
Dmitri Kitayenko, regente 

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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Demidenko plays Bach-Busoni

Há quem veja a transcrição musical como um exercício de adaptação, quase uma concessão prática. Ferruccio Busoni pensava exatamente o contrário. Para ele, toda execução já era, em alguma medida, uma transcrição: a passagem da ideia musical para o som. Sob essa perspectiva, recriar Johann Sebastian Bach para o piano não significava diminuir o original, mas revelar novas possibilidades expressivas de uma música capaz de sobreviver a qualquer meio. O álbum Bach-Busoni Transcriptions, interpretado pelo pianista russo Nikolai Demidenko, reúne algumas das mais célebres recriações do compositor italiano e oferece uma oportunidade privilegiada para compreender uma das mais fascinantes relações de continuidade da história da música.

Busoni foi uma das personalidades mais extraordinárias da vida musical europeia. Pianista de técnica monumental, compositor, regente, pensador e professor, enxergava a tradição não como um museu, mas como matéria viva. Admirador profundo de Bach, Beethoven e Liszt, defendia que as grandes obras permanecem essencialmente as mesmas, qualquer que seja o instrumento que lhes dê voz. Em um célebre texto de 1910, afirma que uma transcrição não destrói o original; ao contrário, revela sua essência sob outra linguagem. Essa ideia orienta todo o repertório reunido neste disco.

As obras escolhidas mostram diferentes facetas dessa concepção artística. A monumental Tocata e Fuga em Ré menor, BWV 565, originalmente escrita para órgão, transforma-se em um espetáculo pianístico de enorme impacto sonoro, sem perder a arquitetura contrapontística de Bach. A célebre Tocata, Adagio e Fuga em Dó maior, a fantasia coral Ich ruf' zu dir, Herr Jesu Christ e os demais prelúdios corais revelam outra dimensão de Busoni: a capacidade de preservar a espiritualidade da música sacra enquanto explora toda a riqueza tímbrica do piano moderno.

Talvez a obra mais comovente da coletânea seja o Capriccio sobre a partida do irmão muito amado, uma das primeiras composições de Bach. Busoni amplia suas possibilidades expressivas sem trair o caráter profundamente humano da peça. Cada episódio - o lamento, a despedida, a marcha e a fuga final - ganha nova densidade pianística, demonstrando que a transcrição pode ser também um exercício de interpretação histórica e afetiva.

O libreto insiste em um aspecto importante: Busoni jamais buscou imitar o órgão ou reproduzir mecanicamente a escrita bachiana. Seu objetivo era recriar a música segundo os recursos específicos do piano, aproveitando toda a extensão do teclado, as possibilidades de dinâmica, de pedalização e de coloração sonora disponíveis no instrumento moderno. Assim, suas transcrições não pretendem substituir Bach, mas estabelecer um diálogo entre dois criadores separados por quase dois séculos, unidos pela mesma ambição artística.

Essa postura diferencia Busoni de muitos transcritores românticos. Enquanto outros procuravam apenas tornar obras célebres acessíveis ao público dos salões, ele utilizava a transcrição como um laboratório de composição e interpretação. Cada página evidencia não apenas sua devoção ao mestre barroco, mas também sua própria personalidade criativa. O resultado pertence simultaneamente aos dois compositores: reconhecemos imediatamente Bach, mas também ouvimos a voz inconfundível de Busoni.

Nikolai Demidenko mostra-se o intérprete ideal para esse repertório. Pianista de extraordinária solidez técnica e refinamento intelectual, evita transformar essas obras em simples demonstrações de virtuosismo. Seu toque privilegia a clareza das vozes, a arquitetura do contraponto e a construção das grandes linhas musicais, permitindo que o ouvinte perceba tanto a grandeza de Bach quanto a inteligência criativa de Busoni.

Mais do que um recital de transcrições, este álbum convida à reflexão sobre a própria natureza da criação artística. Ele demonstra que a tradição não se preserva pela repetição literal, mas pela capacidade de dialogar com cada nova época. Nas mãos de Busoni, Bach não é um monumento intocável: continua vivo, respirando através do piano moderno, provando que as grandes obras jamais pertencem exclusivamente ao passado.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

01 Toccata And Fugue In D Minor, BWV 565 - I.
02 Toccata And Fugue In D Minor, BWV 565 - II.
03 Chorale Prelude In F Minor 'Ich Ruf' zu Dir, Herr Jesu Christ' BWV 639
04 Capriccio In B-Flat Major _On The Departure Of A Beloved Brother_ BWV 992-Ario
05 Capriccio In B-Flat Major _On The Departure Of A Beloved Brother_ BWV 992-Fuga
06 Capriccio In B-Flat Major _On The Departure Of A Beloved Brother_ BWV 992-Adag
07 Capriccio In B-Flat Major _On The Departure Of A Beloved Brother_ BWV 992-Mars
08 Capriccio In B-Flat Major _On The Departure Of A Beloved Brother_ BWV 992-Aria
09 Capriccio In B-Flat Major _On The Departure Of A Beloved Brother_ BWV 992-Fuga
10 Chorale Prelude In G Minor _Nun Komm Der Heiden Heiland,_ BWV 659
11 Organ Prelude And Fugue In E-Flat Major, BWV 552 ('St. Anne') - I.
12 Organ Prelude And Fugue In E-Flat Major, BWV 552 ('St. Anne') - II.
13 Chorale Prelude In G Major _Nun Freut Euch, Lieben Christen Gmein,_ BWV 734
14 Toccata, Adagio And Fugue In C Major, BWV 564 - I - Prelude
15 Toccata, Adagio And Fugue In C Major, BWV 564 - II - Intermezzo
16 Toccata, Adagio And Fugue In C Major, BWV 564 - III - Fugue

Nikolai Demidenko, piano 

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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) - Serenade in B flat major, ’Gran Partita’, K 361/370a e Ludwig van Beethoven (1770-1827) - Eight Variations on ‘Là ci darem la mano’

Entre todas as obras que Wolfgang Amadeus Mozart escreveu para instrumentos de sopro, nenhuma ocupa lugar tão privilegiado quanto a Serenata em Si bemol maior, K. 361, conhecida desde o século XIX como Gran Partita. Longe de ser apenas uma serenata destinada ao entretenimento aristocrático, trata-se de uma composição monumental que amplia os limites do gênero e demonstra que Mozart era capaz de conferir profundidade artística até mesmo à música escrita para ocasiões festivas. A gravação realizada por integrantes da Royal Concertgebouw Orchestra, sob a direção do oboísta Alexei Ogrintchouk, evidencia toda a riqueza dessa obra-prima e acrescenta, como complemento, as Oito Variações sobre "Là ci darem la mano", de Beethoven.

A Gran Partita nasceu em um momento em que a chamada Harmoniemusik vivia seu auge na Viena imperial. O imperador José II havia institucionalizado conjuntos de sopros destinados a acompanhar banquetes, celebrações e eventos públicos, estimulando uma intensa produção de arranjos operísticos e obras originais. Mozart, entretanto, foi muito além do que o gênero normalmente exigia. Em vez do habitual octeto de sopros, escreveu para treze instrumentos, distribuídos em sete movimentos que totalizam quase cinquenta minutos de música, conferindo à serenata dimensões praticamente sinfônicas e uma sofisticada unidade estrutural.

A data exata da composição permanece incerta, mas sabe-se que a obra já estava concluída em março de 1784, quando foi anunciada em um concerto beneficente do clarinetista Anton Stadler, grande amigo de Mozart e futuro destinatário do célebre Concerto para Clarinete. Um relato da época descreve o impacto causado pela execução da obra, elogiando tanto a qualidade da escrita quanto o virtuosismo dos treze instrumentistas. A grandiosidade da serenata era tamanha que provavelmente apenas parte dela foi apresentada naquela ocasião, a única execução documentada durante a vida do compositor.

Cada um dos sete movimentos revela um aspecto distinto da genialidade mozartiana. O amplo movimento inicial alterna momentos de delicada conversa entre os instrumentos e passagens de grande força coletiva, explorando sobretudo a sonoridade calorosa dos clarinetes e dos cornos di bassetto. O célebre Adagio, imortalizado também pelo filme Amadeus, permanece como um dos momentos mais sublimes já escritos para sopros: oboé, clarinete e corno di bassetto parecem dialogar como personagens de uma ópera, sustentados por uma textura orquestral de extraordinária serenidade. Os dois minuetos, a Romanze, o conjunto de variações e o vibrante rondó final demonstram a inesgotável capacidade de Mozart de combinar elegância formal, imaginação tímbrica e espontaneidade melódica.

O disco encerra-se com uma curiosidade histórica igualmente fascinante: as Oito Variações sobre "Là ci darem la mano", compostas por Beethoven a partir do famoso dueto de Don Giovanni. Na década de 1790, quando os arranjos de óperas constituíam parte importante do repertório para conjuntos de sopros, Beethoven escolheu transformar apenas esse trecho da ópera em uma refinada série de variações para dois oboés e corne inglês. Embora publicadas apenas após sua morte, elas revelam a profunda admiração do jovem Beethoven por Mozart e estabelecem um elo direto entre dois dos maiores compositores da história.

A interpretação dos músicos da Royal Concertgebouw Orchestra faz plena justiça a essa música. Sob a liderança de Alexei Ogrintchouk, o conjunto evita qualquer excesso de solenidade e privilegia a fluidez da conversação musical, característica essencial da escrita de Mozart. Cada instrumento possui personalidade própria, mas jamais perde de vista o equilíbrio coletivo, elemento que faz da Gran Partita um verdadeiro laboratório da música de câmara.

Mais de dois séculos após sua criação, a serenata continua impressionando pela modernidade de sua concepção. Ela demonstra que Mozart transformou uma forma originalmente destinada ao entretenimento em uma das maiores realizações da literatura para sopros. A Gran Partita não é apenas uma obra-prima do repertório camerístico: é uma demonstração definitiva de que, nas mãos de Mozart, até a música concebida para divertir podia alcançar a mais alta expressão artística".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) - 

Serenade in B flat major, ’Gran Partita’, K 361/370a

01. I. Largo - Molto allegro
02. II. Menuetto - Trio I & II
03. III. Adagio
04. IV. Menuetto. Allegretto - Trio I & II
05. V. Romanze. Adagio - Allegretto - Adagio & VI. Tema con variazioni
06. Tema. Andante
07. Variation 1
08. Variation 2
09. Variation 3
10. Variation 4
11. Variation 5
12. Variation 6
13. Variation 7

Ludwig van Beethoven (1770-1827) - 

Eight Variations on ‘Là ci darem la mano’
14. Thema. Andante
15. Variation I
16. Variation II
17. Variation III
18. Variation IV
19. Variation V
20. Variation VI
21. Variation VII
22. Variation VIII

Members of Concertgebouworkest
Alexei Ogrintchouk, oboé e direção

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