Na Leipzig de Bach, o coral luterano ainda era uma forma musical viva, submetida a transformações contínuas, e o compositor não foi apenas seu grande conservador: foi também um de seus mais inventivos agentes de desenvolvimento.
O ponto de partida é o Musicalisches Gesang-Buch, publicado em 1736 por Georg Christian Schemelli, aluno da Thomasschule de Leipzig e cantor em Zeitz. A coleção reunia melodias e textos destinados ao uso religioso e, segundo o encarte, não se limitava aos cânticos tradicionais da Igreja luterana. Incluía também materiais mais recentes, ligados ao pietismo, movimento que havia introduzido novas formas de expressão devocional.
Essa coexistência entre tradição e novidade é fundamental para compreender a participação de Bach no projeto. O compositor preparou os baixos contínuos de diversas melodias do hinário e, embora nem todas as composições da coleção possam ser atribuídas a ele com segurança, sua contribuição revela uma relação muito mais dinâmica com o coral do que a imagem de um músico simplesmente voltado para o passado poderia sugerir.
Algumas melodias originalmente destinadas à comunidade aparecem transformadas, em Bach, por procedimentos próximos daqueles da escrita de árias. Um exemplo é Lasset uns mit Jesu ziehen, cuja melodia, apresentada no hinário como pertencente ao repertório de Johann Schop, reaparece associada à linguagem bachiana. A fronteira entre o canto comunitário e a expressão individual, portanto, torna-se menos rígida.
A própria trajetória de Bach ajuda a explicar esse fenômeno. Ao longo dos anos de Leipzig, sua produção religiosa atravessou diferentes momentos: das cantatas corais de 1724 e 1725, fortemente vinculadas à tradição luterana, à Paixão segundo São Mateus e ao Oratório de Natal. Paralelamente, Bach continuou interessado em preservar e reelaborar melodias antigas. Seu trabalho não consistia simplesmente em escolher entre o antigo e o moderno, mas em fazer com que ambos pudessem coexistir.
Essa concepção aparece também na relação entre as melodias do hinário de Schemelli e as peças instrumentais incluídas no registro. Entre elas estão quatro obras para órgão que completam a seleção: Jesus, meine Zuversicht (BWV 728), Jesu, meine Freude (BWV 713), Gelobet seist du, Jesu Christ (BWV 697) e O Lamm Gottes, unschuldig (BWV deest). O conjunto permite observar diferentes maneiras pelas quais Bach transforma uma melodia coral em matéria para elaboração contrapontística.
Jesu, meine Freude, por exemplo, é apresentado como uma fantasia coral, com tratamento particularmente inventivo da melodia. A obra combina procedimentos contrapontísticos com a apresentação do coral, chegando, em sua conclusão, a uma ousada elaboração melódica. Já Gelobet seist du, Jesu Christ assume a forma de uma pequena fughetta construída a partir da primeira linha do coral. A repetição insistente do motivo confere à peça uma concentração extraordinária.
Ainda mais reveladora é O Lamm Gottes, unschuldig, cuja autoria bachiana, segundo o texto, não é absolutamente segura. A obra pertence ao conjunto de quatro peças para órgão tradicionalmente atribuídas a Bach e poderia ser uma das mais antigas desse grupo. Sua escrita remete ao chamado “tipo Pachelbel”, no qual as vozes entram sucessivamente em imitação até que a melodia principal se torne plenamente perceptível.
O registro também recupera um aspecto particularmente interessante da prática pedagógica de Bach. Segundo o testemunho transmitido por Johann Nikolaus Forkel, seus alunos começavam aprendendo a realizar um baixo contínuo de quatro vozes; depois, passavam a cantar as diferentes partes e, finalmente, aprendiam a escrever o baixo. A atividade pedagógica estava, portanto, intimamente ligada à prática musical cotidiana.
Um dos aspectos mais importantes do encarte é justamente a demonstração de que Bach não trabalhava com uma separação absoluta entre baixo contínuo, coral e escrita a quatro vozes. Há exemplos de movimentos entre essas linguagens: materiais originalmente concebidos para quatro partes reaparecem em contextos de baixo contínuo, enquanto linhas de baixo podem conservar características melódicas estreitamente relacionadas ao coral.
A questão da autoria também permanece aberta em diversos casos. O encarte observa que é difícil determinar quantas melodias do Musicalisches Gesang-Buch foram realmente compostas por Bach. Algumas atribuições tradicionais são contestadas, enquanto outras parecem mais seguras. O próprio caráter da coleção — que pretendia oferecer melodias, inclusive algumas pouco conhecidas, para uma futura segunda edição — torna difícil separar completamente o que Bach criou, adaptou, preservou ou simplesmente recebeu da tradição.
Essa incerteza, longe de diminuir o interesse do repertório, torna-o ainda mais significativo. O que emerge é a imagem de um Bach profundamente consciente da tradição, mas também atento às transformações de seu tempo. Ele podia recuperar uma melodia antiga, incorporar procedimentos modernos, aproximar o coral da ária e explorar uma mesma matéria em diferentes contextos musicais.
É essa tensão entre memória e invenção que constitui o verdadeiro centro do registro. O coral luterano não aparece como uma peça de museu, mas como uma linguagem em permanente transformação. Bach, nesse processo, ocupa uma posição singular: preserva melodias, reelabora formas, ensina seus alunos a dominá-las e, simultaneamente, amplia suas possibilidades expressivas.
A frase de Albert Schweitzer escolhida para abrir o texto resume bem essa perspectiva: para Bach, o coral não era simplesmente um repertório herdado, mas o próprio fundamento de sua linguagem. O compositor encontrou nesse patrimônio uma matéria suficientemente sólida para sustentar sua música e suficientemente viva para continuar sendo transformada. É justamente nessa combinação de fidelidade e invenção que reside uma das características mais fascinantes de sua arte.
Uma boa apreciação!
Johann Sebastian Bach (1685-1750) -
DISCO 01
01 - Nun lob, mein Seel, den Herren BWV 390
02 - Kommt, Seelen, dieser Tag BWV 479
03 - Brunnquell aller Güter BWV 445
04 - Dir, dir, Jehova, will ich singen BWV 452
05 - Die güldne Sonne BWV 451
06 - Liebes Herz, bedenke doch BWV 482
07 - Eins ist not! Ach Herr, dies Eine BWV 453
08 - Jesus, meine Zuversicht BWV 365
09 - Es kostet viel, ein Christ zu sein BWV 459
10 - DerTag ist hin BWV 447
11 - Der lieben Sonne Licht und Pracht BWV 446
12 - Gott lebet noch BWV 320 & 461
13 - Gib dich zufrieden BWV 460
14 - Ich liebe Jesum alle Stund BWV 468
15 - Jesu meine Freude BWV 358
16 - Liebster Immanuel, Herzog der Frommen BWV 485
17 - Komm süßer Tod BWV 478
18 - Liebster Herr Jesu, wo bleibst du so lange BWV 484
19 - So wünsch ich mir zu guter Letzt BWV 502
20 - O wie selig seid ihr doch, ihr Frommen BWV 405 & 495
DISCO 02
01 - Uns ist ein Kindlein heut geborn BWV 414
02 - Auf, auf die rechte Zeit ist hier BWV 440
03 - Ermuntre dich, mein schwacher Geist BWV 454
04 - Ihr Gestirn, ihr hohlen Lüfte BWV 366 & 476
05 - Ich steh an deiner Krippen hier BWV 469
06 - Ich freue mich in dir BWV 465
07 - O Jesulein süß BWV 493
08 - Beschränkt, ihr Weisen BWV 443
09 - Belobet seist du, Jesu Christ BWV 314
10 - O Mencsh, bewein' dein Sünde groß BWV 402
11 - So gehst du nun, mein Hesu, hin BWV 500
12 - Mein Jesu, was für Seelenweh BWV 487
13 - Es ist vollbracht BWV 458
14 - Sei gegrüßet, Jesu gütig BWV 499 & 410
15 - O Lamm Gottes unschuldig
16 - Auf, auf, mein Herz mit Freuden
17 - Jesu unser Trost und Leben BWV 475
18 - Lasset uns mit Jesu ziehen BWV 481
Gächinger Kantorei Stuttgart
Bach-Collegium Stuttgart
Helmuth Rilling, regente
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