sábado, 18 de julho de 2026

Carl Maria von Weber (1786 - 1826) - Clarinet Quintet in B-Flat Major, Op. 34, J. 182 e Wolfgang Amadeus Mozart (1756 - 1791) - Clarinet Quintet in A Major, Op. 108, K. 581

"O clarinetista Julian Bliss une-se ao premiado Carducci String Quartet para interpretar duas das mais importantes obras já escritas para clarineta e quarteto de cordas: o Quinteto para Clarineta em Si bemol maior, Op. 34, de Carl Maria von Weber, e o Quinteto para Clarineta em Lá maior, K. 581, de Wolfgang Amadeus Mozart. O resultado é um encontro entre duas obras-primas que definiram os rumos do repertório camerístico para o instrumento e continuam figurando entre seus maiores monumentos.

Tanto Mozart quanto Weber encontraram inspiração em extraordinários virtuoses de sua época. O Quinteto de Mozart nasceu da amizade e da admiração pelo clarinetista Anton Stadler, cuja sonoridade aveludada e excepcional domínio técnico estimularam o compositor a explorar novas possibilidades expressivas para o instrumento. Décadas depois, Weber escreveria seu Quinteto para Heinrich Baermann, outro intérprete lendário, cuja técnica e musicalidade contribuíram decisivamente para ampliar os horizontes da literatura clarinetística.

Em ambos os casos, a parceria entre compositor e intérprete deu origem a obras que ultrapassaram seu contexto histórico e se consolidaram como referências absolutas do gênero. A delicadeza lírica e o equilíbrio clássico do Quinteto de Mozart contrastam com o brilho virtuoso e o romantismo apaixonado da escrita de Weber, oferecendo um retrato da extraordinária evolução da clarineta entre o final do século XVIII e o início do XIX.

Este álbum marca a segunda colaboração discográfica entre Julian Bliss e o Carducci String Quartet. A primeira, lançada em 2016, reuniu Gumboots, de David Bruce, e o Quinteto para Clarineta de Brahms, recebendo calorosa acolhida da crítica especializada. Na ocasião, a revista Gramophone destacou a excelência do projeto, classificando-o como “um duplo prazer”: de um lado, uma obra contemporânea digna de integrar o grande repertório camerístico; de outro, uma interpretação apaixonada do Quinteto de Brahms, capaz de rivalizar com gravações consagradas. A publicação elogiou ainda a naturalidade e o brilhantismo de Julian Bliss, recomendando enfaticamente o álbum.

Com essa nova gravação, Bliss e o Carducci String Quartet reafirmam a afinidade artística que caracteriza sua parceria. O refinamento do fraseado, a coesão do conjunto e o equilíbrio entre virtuosismo e sensibilidade interpretativa permitem que essas duas obras-primas revelem toda a sua riqueza expressiva. O resultado é um álbum que celebra não apenas o extraordinário legado de Mozart e Weber, mas também a permanente vitalidade de um dos mais fascinantes repertórios da música de câmara".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

01. Clarinet Quintet in B-Flat Major, Op. 34, J. 182: I. Allegro 10:15
02. Clarinet Quintet in B-Flat Major, Op. 34, J. 182: II. Fantasia – Adagio ma non troppo 05:14
03. Clarinet Quintet in B-Flat Major, Op. 34, J. 182: III. Minuetto Capriccio – Presto 05:13
04. Clarinet Quintet in B-Flat Major, Op. 34, J. 182: IV. Rondo – Allegro giocoso 06:12
05. Clarinet Quintet in A Major, K. 581: I. Allegro 09:20
06. Clarinet Quintet in A Major, K. 581: II. Larghetto 06:20
07. Clarinet Quintet in A Major, K. 581: III. Menuetto – Trio I – Trio II 06:57
08. Clarinet Quintet in A Major, K. 581: IV. Allegretto con Variazioni 09:15

Carducci String Quartet
Julian Bliss, clarinete 

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sexta-feira, 17 de julho de 2026

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - The Complete Keyboard Concertos

"O ambicioso projeto de Mahan Esfahani de registrar a integral das obras para cravo de Johann Sebastian Bach alcança um de seus momentos mais significativos com o lançamento de The Complete Keyboard Concertos. Mais do que uma nova gravação das célebres partituras, o álbum reafirma a proposta artística que norteia toda a série: revisitar Bach sob uma perspectiva renovada, questionando interpretações cristalizadas ao longo de décadas e convidando o ouvinte a redescobrir um compositor cuja modernidade permanece surpreendente.

Em cada etapa desse projeto, Esfahani tem procurado desafiar concepções tradicionais sobre a música de Bach. Nesta gravação, a parceria com a Britten Sinfonia representa uma das escolhas mais ousadas. Em vez de recorrer a instrumentos de época, como seria esperado em uma abordagem historicamente informada, o cravista opta por dialogar com uma orquestra de instrumentos modernos, demonstrando que o cravo está longe de ser uma relíquia do passado. Pelo contrário, surge aqui como um instrumento de extraordinária vitalidade, plenamente capaz de dialogar com uma sonoridade contemporânea sem perder sua identidade.

Essa perspectiva é aprofundada nas notas de livreto escritas pelo próprio Esfahani, sempre marcadas por rigor acadêmico e grande capacidade de comunicação. Nelas, o intérprete apresenta Bach como um verdadeiro inovador, destacando o papel pioneiro do compositor ao colocar o instrumento de teclado no centro do concerto, inaugurando um modelo que influenciaria profundamente toda a história da música ocidental.

Além de atuar como solista e diretor musical, Esfahani acrescenta uma nova faceta ao projeto ao assumir também o papel de compositor e pesquisador. O álbum traz a primeira gravação de sua reconstrução do chamado Concerto Perdido nº 8 (BWV 1059), obra preservada apenas em um fragmento. A partir desse material incompleto, o músico elaborou uma reconstrução que busca respeitar o pensamento musical de Bach sem abrir mão de um sólido trabalho crítico e criativo.

O resultado é um lançamento que transcende o simples registro fonográfico. Trata-se de uma reflexão sobre a permanência da música de Bach, apresentada por um intérprete que alia virtuosismo, erudição e espírito investigativo. Ao desafiar convenções e propor novas formas de escutar essas obras fundamentais, Mahan Esfahani reafirma não apenas a inesgotável riqueza do repertório bachiano, mas também a capacidade da grande música de renovar continuamente o diálogo entre tradição e modernidade".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - 

DISCO 01


01 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in D Minor, BWV 1052_ I. Allegro
02 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in D Minor, BWV 1052_ II. Adagio
03 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in D Minor, BWV 1052_ III. Allegro
04 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in E Major, BWV 1053_ I. [Allegro]
05 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in E Major, BWV 1053_ II. Siciliano
06 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in E Major, BWV 1053_ III. Allegro
07 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in D Major, BWV 1054 (After BWV 1042)_ I. [Allegro]
08 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in D Major, BWV 1054 (After BWV 1042)_ II. Adagio e piano sempre
09 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in D Major, BWV 1054 (After BWV 1042)_ III. Allegro
10 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in F Major, BWV 1057_ I. [Allegro]
11 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in F Major, BWV 1057_ II. Andante
12 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in F Major, BWV 1057_ III. Allegro assai

DISCO 02

01 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in A Major, BWV 1055_ I. Allegro
02 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in A Major, BWV 1055_ II. Larghetto
03 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in A Major, BWV 1055_ III. Allegro ma non tanto
04 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in F Minor, BWV 1056_ I. [Allegro]
05 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in F Minor, BWV 1056_ II. Adagio
06 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in F Minor, BWV 1056_ III. Presto
07 J.S. Bach_ Concerto for Flute, Violin & Harpsichord in A Minor, BWV 1044_ I. Allegro
08 J.S. Bach_ Concerto for Flute, Violin & Harpsichord in A Minor, BWV 1044_ II. Adagio ma non tanto e dolce
09 J.S. Bach_ Concerto for Flute, Violin & Harpsichord in A Minor, BWV 1044_ III. Tempo di alla breve
10 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in G Minor, BWV 1058 (After BWV 1041)_ I. [Allegro]
11 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in G Minor, BWV 1058 (After BWV 1041)_ II. Andante
12 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in G Minor, BWV 1058 (After BWV 1041)_ III. Allegro assai
13 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in D Minor, BWV 1059 (Reconstr. Esfahani)_ I. Allegro
14 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in D Minor, BWV 1059 (Reconstr. Esfahani)_ II. Cembalo ad libitum
15 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in D Minor, BWV 1059 (Reconstr. Esfahani)_ III. Presto

Britten Sinfonia
Mahan Esfahani, cravo 

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quinta-feira, 16 de julho de 2026

Jean-Phillippe Rameau (1683-1764) - Hippolyte et Aricie

Quando Rameau (1683–1764) estreou Hippolyte et Aricie, em 1º de outubro de 1733, na Ópera de Paris, o público francês percebeu imediatamente que algo havia mudado. Aos cinquenta anos, conhecido sobretudo como teórico e compositor para órgão, Rameau ingressava no teatro lírico com uma obra que revolucionaria a tradição inaugurada por Jean-Baptiste Lully meio século antes. A recepção foi dividida: para alguns, a música era excessivamente complexa; para outros, tratava-se do nascimento de uma nova era da ópera francesa.

Baseado na tragédia Phèdre, de Racine, e em episódios da mitologia grega, o libreto do Abbé Simon-Joseph Pellegrin narra o amor impossível entre Hipólito, filho de Teseu, e Arícia, princesa mantida cativa. A paixão proibida de Fedra pelo enteado desencadeia uma sucessão de ciúmes, mal-entendidos e tragédias, envolvendo deuses, monstros marinhos e intervenções sobrenaturais, até que a deusa Diana restaura a ordem e reúne os amantes no desfecho. O enredo reúne todos os elementos da tragédie lyrique: heroísmo, destino, paixão, moralidade e a constante presença do mundo divino.

Mas é na música que reside a verdadeira grandeza da obra. Rameau preserva a elegância da tradição francesa, marcada pela importância da declamação do texto e pela integração entre canto, dança e coro, ao mesmo tempo em que amplia extraordinariamente os recursos harmônicos e orquestrais. Sua escrita impressiona pela riqueza das cores instrumentais, pela ousadia das modulações e pela capacidade de transformar a orquestra em protagonista do drama. As célebres cenas infernais do segundo ato, os momentos pastorais dedicados a Diana e as grandiosas danças que encerram a ópera revelam um compositor capaz de conciliar sofisticação intelectual e impacto teatral.

Outro aspecto marcante é a variedade expressiva. Em poucos minutos, Rameau transita da serenidade quase contemplativa das cenas de Arícia para a violência emocional de Fedra, da solenidade ritual às explosões dramáticas que acompanham a aparição do monstro enviado por Netuno. Essa alternância constante impede qualquer sensação de monotonia e confere à partitura uma vitalidade que permanece surpreendentemente moderna.

A gravação apresentada neste libreto, realizada pela English Chamber Orchestra, pelos St. Anthony Singers e regida por Anthony Lewis, representa um importante marco na redescoberta da ópera barroca francesa durante o século XX. O elenco, liderado por Angela Hickey, Robert Tear e John Shirley-Quirk, alia clareza estilística e rigor histórico a interpretações expressivas, contribuindo para recolocar Hippolyte et Aricie no repertório internacional.

Quase trezentos anos após sua estreia, Hippolyte et Aricie continua sendo uma obra indispensável para compreender o barroco francês. Mais do que a primeira ópera de Rameau, ela representa a afirmação de uma nova linguagem musical, capaz de unir tradição e inovação com rara naturalidade. Poucas estreias na história da música produziram impacto tão profundo. Ao romper os limites impostos pelo modelo de Lully, Rameau inaugurou uma fase de extraordinária criatividade que consolidaria seu nome como o maior compositor de ópera da França antes da Revolução.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Jean-Phillippe Rameau (1683-1764) - 

DISCO 01

01. Acte I ¡P Ouverture
02. Acte I ¡P Scene I - Prelude - Temple sacre, sejour tranquille (Aricie)
03. Acte I ¡P Scene II - Princesse, quels apprets me frappent (Hippolyte)
04. Acte I ¡P Scene III - Marche - Dans ce paisible sejour (Choeur des Pretresses)
05. Acte I ¡P Scene IV - Princesse, ce grand jour par des noeuds eternels (Phedre)
06. Acte I - Scene V - Prelude - Ne vous alarmez pas d'un projet temeraire (Diane)
07. Acte I ¡P Prelude - Scene VI - Quoi ! la terre et le ciel contre moi (Phedre)
08. Acte I ¡P Scene VIII - Mes yeux commencent d'entrevoir (Oenone)
09. Acte II ¡P Scene I - Laisse-moi respirer, implacable Furie! (Thesee)
10. Acte II ¡P Scene II - Prelude - Inexorable Roi de l'Empire infernal! (Thesee)
11. Acte II ¡P Scene III - Qu'a servir mon courroux tout l'Enfer se prepare! (Pluton)
12. Acte II ¡P Scene IV - Dieux! que d'infortunes gemissent (Thesee)
13. Acte II ¡P Scene IV - Ah! qu'on daigne du moins...Puisque Pluton (Thesee)
14. Acte II ¡P Scene V - Prelude - Neptune vous demande grace (Mercure)
15. Acte III ¡P Scene I - Prelude - Cruelle mere des amours (Phedre)

DISCO 02

01. [ACT III] Scene 2 - Phedre Eh bien!
02. Scene 8 - Choeur Que ce rivage retentisse
03. Scene 9 - Thesee Quels biens! Je fremis quand j'y pense
04. [ACT IV] Scene 1 - Hippolyte Ah! faut-il, en ce jour
05. Scene 2 - Aricie C'en est donc fait, cruel
06. Scene 3 - Choeur Faisons partout voler nos traits
07. Scene 4 - Phedre Quelle plainte en ces lieux m'appelle
08. [ACT V] Scene 1 - Thesee Grands dieux! de quels remords
09. Scene 2 - Neptune, Thesee Arrete!...Pour un fils quelle pitie vous presse
10. Scene 3 - Aricie Ou suis-je De mes sens j'ai recouvre l'usage
11. Scene 4 - Choeur Descendez, brillante immortelle
12. Scene 5 - Diane Peuples toujours soumis a mon obeissance
13. Scene 7 - Hippolyte Ou suis-je transporte
14. Scene 8 - Choeur Chantons sur la musette
15. Scene 8 - Diane Bergers, vous allez voir combien je suis fidele
16. Scene 8 - Chaconn
17. Scene 8 - Une Bergere Rossignols amoureux

English Chamber Orchestra
The St. Anthony Singers

Sir Anthony Lewis, regente 

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Johannes Brahms (1833-1897) - Symphony No. 2 in D Major, Op. 73, Symphony No. 3 in F Major, Op. 90 e Tragic Overture, Op. 81

É curioso que Brahms tenha levado quinze anos para escrever a sua monumental Primeira Sinfonia. Ele parecia saber que, após Beethoven, escrever uma sinfonia era um gesto por demasia excessivo. Demandava uma responsabilidade incomensurável. Por sua, a escrita da Segunda para a Terceira teve um intervalo de apenas seis anos. Olhando de fora parece um tempo excessivo, todavia, quando falamos de Brahms, é tempo curto. 

Brahms era um compositor meticuloso. Revisava. Analisava. Buscava profundidade. Sua música era absoluta. Procurava fugir das grandiloquências wagnerianas tão costumeiras em seu tempo. Ele olhava para trás e só enxergava a tradição de Bach, Haydn, Mozart e Beethoven. 

A sua Segunda Sinfonia é do ano de 1877. O trabalho nasceu após o triunfo da Primeira. rahms retirou-se para Pörtschach, às margens do lago Wörthersee, na Áustria, onde encontrou um ambiente de rara tranquilidade. O resultado foi uma obra frequentemente comparada à "Pastoral" de Beethoven, embora essa analogia diga apenas parte da verdade. Sim, a Segunda Sinfonia respira ar puro, montanhas e lagos. Mas seu lirismo nunca é ingênuo. Sob a superfície luminosa existe uma melancolia discreta, quase outonal, que impede qualquer leitura excessivamente otimista.

A Terceira é do ano de 1883. Ela é menos contemplativa do que a Segunda. É possível perceber uma camada de inquietação existencial abaixo de sua superfície. Seu discurso alterna momentos de ímpeto triunfal, com reflexões que espargem uma fragrância de resignação. 

A Abertura Trágica é do ano de 1880. Nesse mesmo período, vale lembrar que Brahms escreveu a festiva Abertura para um festival acadêmico.  A Abertura Trágica é bem diversa daquela obra. Trata-se de uma das obras orquestrais mais concentradas de Brahms. Em pouco mais de quinze minutos, o compositor constrói uma atmosfera de tensão permanente, baseada em ritmos incisivos, contrastes abruptos e uma escrita orquestral de extraordinária densidade.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Johannes Brahms (1833-1897) - 

01 - Symphony No. 2 in D Major, Op. 73_ I. Allegro non troppo
02 - Symphony No. 2 in D Major, Op. 73_ II. Adagio non troppo
03 - Symphony No. 2 in D Major, Op. 73_ III. Allegretto grazioso. Quasi andantino - Presto ma non as
04 - Symphony No. 2 in D Major, Op. 73_ IV. Allegro con spirito
05 - Symphony No. 3 in F Major, Op. 90_ I. Allegro con brio
06 - Symphony No. 3 in F Major, Op. 90_ II. Andante
07 - Symphony No. 3 in F Major, Op. 90_ III. Poco allegretto
08 - Symphony No. 3 in F Major, Op. 90_ IV. Allegro - Un poco sostenuto
09 - Tragic Overture, Op. 81

Philharmonia Orchestra
Carlo Maria Giulini, regente 

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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Michel-Richard De Lalande (1657-1726) - Leçons de Ténèbres

Celebrado por grandiosos motetos para a Capela Real de Versalhes, Michel-Richard de Lalande soube revelar extraordinária sensibilidade em obras de dimensões muito mais modestas. As Leçons de Ténèbres e o Miserere, compostos para a Semana Santa, pertencem a esse universo intimista e constituem algumas das páginas mais refinadas da música sacra francesa do período barroco.

Durante os séculos XVII e XVIII, os chamados Ofícios das Trevas (Tenebrae) ocupavam lugar singular na vida religiosa e cultural francesa. Celebrados nas noites que antecediam a Páscoa, esses ofícios combinavam profunda devoção com uma impressionante teatralidade litúrgica. À medida que os salmos e as Lamentações de Jeremias eram entoados, quinze velas eram apagadas progressivamente, simbolizando o abandono de Cristo por seus discípulos e conduzindo a igreja à escuridão quase completa. O efeito dramático transformava a cerimônia em uma experiência espiritual de rara intensidade, atraindo não apenas fiéis, mas também a elite parisiense.

Foi nesse contexto que Lalande escreveu suas Três Lições das Trevas e o Miserere para voz solo e baixo contínuo. A economia dos meios contrasta com a riqueza expressiva. Em vez do brilho orquestral de seus grandes motetos, o compositor explora uma escrita de extraordinária delicadeza, na qual a voz humana assume papel central. As longas ornamentações sobre as letras do alfabeto hebraico, que introduzem cada versículo das Lamentações de Jeremias, unem a tradição do canto gregoriano ao refinamento do chamado beau chant francês, caracterizado pela elegância declamatória e pela ornamentação extremamente elaborada.

Lalande, contudo, não se limita a seguir a tradição. Sua escrita alterna passagens de caráter recitativo com momentos de intensa elaboração melódica, utiliza contrastes expressivos cuidadosamente planejados e interrompe a narrativa com breves interlúdios instrumentais que convidam à contemplação. No Miserere, chega mesmo a reorganizar alguns versículos do Salmo 50 para ampliar seu impacto emocional, demonstrando notável liberdade criativa diante da prática litúrgica.

A gravação apresentada pela soprano Sophie Karthäuser, pelo Ensemble Correspondances e dirigida por Sébastien Daucé procura recriar precisamente esse ambiente de recolhimento e solenidade. O uso criterioso do órgão, da viola da gamba, do alaúde e do teorba restitui a sonoridade transparente que caracterizava os conventos franceses do final do século XVII, enquanto a interpretação vocal alia pureza técnica, expressividade e rara sensibilidade ao texto litúrgico.

Mais de três séculos após sua composição, as Leçons de Ténèbres continuam impressionando pela capacidade de transformar penitência em beleza artística. Nelas, Lalande demonstra que a música sacra barroca francesa não se limitava ao esplendor de Versalhes: sabia também encontrar, na simplicidade de uma única voz, uma força expressiva capaz de converter a liturgia em verdadeira experiência estética e espiritual.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Michel-Richard De Lalande (1657-1726) - 

01 O mors, ero mors tua, antiphon for Tenebrae
02 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Miserere mei Deus _ Et secundum multitudinem miserationem tuarum
03 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Amplius lava me _ Tibi soli peccavi
04 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Ecce enim in iniquitatibus _ Ecce enim veritatem dilexisti
05 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Asperges me hyssopo _ Averte faciem tuam
06 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Co mundum - Ne pojicias me
07 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Redde mihi laetitiam _ Docebo iniquos vias tuas
08 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Libera me de sanguinibus _ Quoniam si voluisses sacrificium
09 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Sacrificium Deo spiritus contribulatus _ Benigne fac Domine
10 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Tunc acceptabis
11 Tristis est anima mea, responsory
12 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Jod. Manum suam misit hostis
13 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Caph. Omnis populus ejus
14 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Vide Domine
15 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Lamed
16 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ O vos omnes
17 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Mem. De excelso
18 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Nun. Vigilavit
19 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Infirmata est
20 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Jerusalem
21 Ecce vidimus, responsory  in Mode 5
22 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Aleph. Ego vir videns
23 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Aleph. Me minavit
24 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Aleph. Tantum in me vertit
25 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Beth. Vetustam fecit
26 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Beth.Aedificavit in gyro meo
27 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Beth. In tenebrosis
28 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Ghimel. Circum aedificavit
29 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Ghimel. Sed, et cum clamavero
30 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Ghimel. Conclusit vias meas
31 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Jerusalem
32 Vinea mea electa, responsory
33 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Incipit oratio
34 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Recordare
35 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Pupili facti sumus
36 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Cervicibus nostris
37 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Lassis non dabatur
38 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Recordare
39 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Ægypto dedimus manum
40 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ In animabus nostris
41 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Pellis nostra
42 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Mulieres
43 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Jerusalem
44 Plange quasi virgo, responsory

Ensemble Correspondances 
Sébastien Daucé, diretor
Sophie Karthäuser, soprano 

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