Um exemplo disso é a sua Quarta
Sinfonia. À época da escrita, na década
de 30 do século passado, ou seja, há quase cem anos, Shostakovich era um jovem compositor
em ascensão. Sua obra ganhava cada vez
mais visibilidade. Certamente, o Partido sob a liderança do camarada Stálin
passou a colocar os olhos sobre o compositor. Para piorar as coisas, a ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk foi
tirada de cartaz a mando do próprio Stálin. O líder supremo da União Soviético
enxergou “libertinagens” excessivas no trabalho baseado em uma novela de
Nikolai Leskov. Em artigo no Pravda,
o jornal do Partido, o líder soviético fez críticas explícitas ao trabalho.
Shostakovich sabia que aquilo não
era um bom sinal. A Sinfonia No. 4 estava pronta para ser estreada; o ensaio já
havia acontecido. Todavia, consciente das dificuldades que poderiam advir da apresentação,
por causa da atmosfera carregada, crítica e irônica do trabalho, o compositor
resolveu tirá-la de cartaz, convicto de que haveria represálias mais graves.
Resultado: a obra foi colocada no ostracismo e só veio ao mundo no início dos
anos 60, mais de trinta após a sua composição.
A pergunta que fica é: o que
havia de tão sério nela? A Quarta pode ser considerada como um dos trabalhos
mais ousados e visionários do compositor. Não é uma música de conforto – aliás,
a obra de Shostakovich pode ser colocada nessa categoria. Ela exige atenção, entrega.
Sua força está justamente na recusa de soluções simples - no modo como
transforma angústia histórica em arquitetura sonora. Ela possui uma linguagem
densa, cáustica, ambígua, inquieta, repleta de nuances psicológicas.
O certo é que o compositor teria
dificuldades, caso ela fosse apresentada ainda na década de 30. A coerção
stalinista de que a arte deveria ser uma depositária da exaltação do realismo e
de que deveria estar a serviço do Estado manietou diversos artistas.
Shostakovich sentiu isso, mas soube como ninguém escrever obras evocavam nuvens
sutis; metáforas que apontavam, denunciavam, o espírito de uma época.
Não deixe de ouvir. Uma boa
apreciação!
Dmitri Shostakovich (1906-1975) -
01 - Symphony No. 4 in C Minor, Op. 43_ I. Allegretto, poco moderato - Presto (Live)
02 - Symphony No. 4 in C Minor, Op. 43_ II. Moderato con moto (Live)
03 - Symphony No. 4 in C Minor, Op. 43_ III. Largo - Allegro (Live)
Münchner Philharmoniker
Valery Gergiev, regente
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