Ao unir o universo da música de concerto às linguagens do jazz, do blues, do ragtime e da Broadway, ele criou um estilo que parecia refletir a própria pulsação de Nova York na primeira metade do século XX. O álbum Rhapsody in Blue, gravado pela Buffalo Philharmonic Orchestra sob a regência de JoAnn Falletta, reúne quatro obras que ilustram essa extraordinária capacidade de transformar a cultura popular em arte sinfônica: Rhapsody in Blue, Strike Up the Band – Overture, Promenade e a suíte Catfish Row, extraída da ópera Porgy and Bess.
A peça central do disco, naturalmente, é Rhapsody in Blue. Sua origem tornou-se parte da própria mitologia musical americana. Em 1924, o empresário Paul Whiteman encomendou a Gershwin uma obra para um concerto que buscava demonstrar o potencial artístico do jazz. O compositor, inicialmente relutante, encontrou a inspiração durante uma viagem de trem para Boston. Mais tarde, recordaria que ouviu ali um "caleidoscópio musical da América", com sua mistura de culturas, seu dinamismo urbano e sua energia inesgotável. A orquestração foi confiada a Ferde Grofé, cuja contribuição ajudou a transformar a obra em um dos maiores ícones da música do século XX.
O sucesso de Rhapsody in Blue reside justamente em sua recusa às fronteiras. Não é um concerto tradicional, tampouco uma simples peça de jazz. Sua famosa abertura, marcada pelo célebre glissando do clarinete, inaugura uma sucessão de temas líricos, passagens virtuosísticas e ritmos sincopados que capturam o espírito cosmopolita da América moderna. Mais de um século após sua estreia, continua sendo uma obra que parece sempre nova.
A Abertura de Strike Up the Band revela outra faceta de Gershwin: o mestre da Broadway. O musical, revisado em 1929 com letras de Ira Gershwin, satiriza a política internacional ao imaginar uma guerra entre Estados Unidos e Suíça por causa da produção de chocolate. A abertura, posteriormente orquestrada por Don Rose, preserva o brilho teatral da partitura, combinando marchas, melodias irresistíveis e uma exuberância tipicamente americana.
Mais delicada é Promenade, reconstruída por Ira Gershwin após a morte do compositor a partir da trilha sonora do filme Shall We Dance (1937), estrelado por Fred Astaire e Ginger Rogers. Adaptada para clarinete e orquestra, a peça evidencia um Gershwin elegante e refinado, capaz de criar melodias de extraordinária leveza. A escrita transparente faz dela uma pequena joia, frequentemente eclipsada pelas obras mais famosas, mas igualmente reveladora de seu talento melódico.
A gravação culmina com Catfish Row, suíte sinfônica baseada em Porgy and Bess. A ópera, recebida com reservas por parte da crítica em sua estreia de 1935, foi definida por Gershwin como uma "folk opera", justamente por fundir técnicas da tradição operística europeia com elementos da música afro-americana. A suíte reúne alguns dos momentos mais memoráveis da obra - incluindo referências a Summertime, I Got Plenty o' Nuttin' e Oh Lawd, I'm on My Way - organizados em cinco movimentos que alternam lirismo, tensão dramática e exuberância orquestral. Restaurada por Steven D. Bowen a partir da versão originalmente conduzida por Gershwin, ela reafirma o extraordinário alcance dramático de sua última grande criação.
Sob a direção de JoAnn Falletta, a Buffalo Philharmonic Orchestra encontra o equilíbrio ideal entre sofisticação sinfônica e espontaneidade jazzística. O pianista Orion Weiss enfrenta as exigências virtuosísticas de Rhapsody in Blue com brilho e naturalidade, enquanto o clarinetista John Fullam confere charme especial a Promenade.
Mais do que uma coletânea de sucessos, este álbum demonstra que Gershwin foi um dos raros compositores capazes de transformar a linguagem cotidiana de seu país em patrimônio universal. Sua música continua soando moderna porque nasceu da convivência entre culturas, ritmos e tradições diversas - uma síntese sonora da própria experiência americana.
Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!
George Gershwin (1898-1937) -
01 - Overture (From _Strike Up the Band_) [Arr. D. Rose for Orchestra]
02 - Rhapsody in Blue (Arr. F. Grofé for Piano & Orchestra)
03 - Promenade (Arr. S. Berkowitz for Clarinet & Orchestra)
04 - Catfish Row (Arr. S. Bowen for Orchestra)_ I. Catfish Row
05 - Catfish Row (Arr. S. Bowen for Orchestra)_ II. Porgy Sings
06 - Catfish Row (Arr. S. Bowen for Orchestra)_ III. Fugue
07 - Catfish Row (Arr. S. Bowen for Orchestra)_ IV. Hurricane
08 - Catfish Row (Arr. S. Bowen for Orchestra)_ V. Good Mornin' Sistuh!
Buffalo Philharmonic Orchestra
Joann Falletta, regente
Orion Weiss, piano
John Fullam, clarinete
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