sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77 e Paul Hindemith (1895-1963) - Violin Concerto

A experiência da guerra, a perseguição política e a necessidade de afirmação artística aproximam dois compositores de trajetórias distintas: Dmitri Shostakovich (1906–1975) e Paul Hindemith (1895–1963). Embora tenham desenvolvido linguagens musicais próprias, ambos enfrentaram regimes autoritários que tentaram impor limites à criação artística. Essa aproximação histórica e estética está no centro do álbum que reúne o Concerto para violino nº 1, em lá menor, Op. 77, de Shostakovich, e o Concerto para violino, de Hindemith, interpretados pela violinista Alexandra Tirsu, acompanhada pela Royal Philharmonic Orchestra, sob a regência de Vasily Petrenko. O disco, lançado pelo selo Fuga Libera, foi gravado em agosto de 2024, no Henry Wood Hall, em Londres.

O registro representa um marco na trajetória de Alexandra Tirsu, pois constitui seu primeiro álbum dedicado a concertos. Nascida na Moldávia e radicada em Viena, a violinista ganhou projeção internacional ao conquistar um importante prêmio no Concurso Internacional da Rádio da Baviera (ARD), em Munique, em 2021. Naquela edição, o Concerto para violino de Hindemith foi a obra obrigatória da etapa final. A formação musical de Tirsu também foi marcada pela convivência com o pai, um reconhecido trompetista, de quem afirma ter herdado a flexibilidade rítmica e a influência da música folclórica. Sua carreira, interrompida temporariamente pela pandemia de Covid-19, ganhou novo impulso após a premiação, levando-a a se apresentar como solista e camerista em diferentes países.

Composto entre 1947 e 1948, o Primeiro Concerto para violino de Shostakovich nasceu em um dos períodos mais difíceis da vida do compositor. Naquele momento, ele ainda sofria as consequências da campanha de condenação promovida pelo regime soviético, sob a influência do dirigente cultural Andrei Jdanov. Sua música era acusada de não corresponder às diretrizes estéticas oficiais, e o compositor, que já havia enfrentado críticas severas por sua ópera Lady Macbeth do distrito de Mtsensk, vivia sob constante ameaça. O medo de uma prisão era tão intenso que, durante algumas noites, Shostakovich chegou a dormir no corredor de seu apartamento para evitar que a mulher e os filhos presenciassem uma eventual detenção.

Por essa razão, o concerto permaneceu sem execução pública durante vários anos. Sua estreia ocorreu somente em 29 de outubro de 1955, depois da morte de Stalin e do início de um período de relativa abertura política, tendo como solista o violinista David Oistrakh. A obra apresenta uma estrutura incomum de quatro movimentos, aproximando-se, em determinados aspectos, de uma sinfonia com violino solista. O primeiro movimento, Nocturne, estabelece uma atmosfera sombria e introspectiva; o segundo, Scherzo, combina energia e inquietação; o terceiro, Passacaglia, constitui o núcleo dramático da composição e culmina em uma extensa cadência do violino. O movimento final, Burlesque, encerra a obra com uma combinação de grotesco, ironia e intensidade rítmica.

Um elemento particularmente significativo é a utilização da sequência de notas DSCH — ré, mi bemol, dó e si natural, conforme a notação musical alemã —, formada a partir das iniciais do nome do compositor. Esse motivo, empregado por Shostakovich como uma espécie de assinatura musical, reforça a dimensão pessoal da obra. O concerto, contudo, não se limita a expressar o sofrimento individual: sua linguagem permite diferentes interpretações dos movimentos mais rápidos, que podem soar tanto como manifestações de resistência quanto como representações de um indivíduo perseguido por forças hostis.

O Concerto para violino de Hindemith também está profundamente relacionado ao contexto político europeu. Durante a Primeira Guerra Mundial, o compositor foi obrigado a servir no Exército alemão. Mais tarde, em 1936, sua música foi proibida pelo regime nazista, que a classificou como degenerada. Diante das dificuldades, Hindemith deixou Berlim e se estabeleceu temporariamente em Ancara, na Turquia, onde participou da estruturação do ensino de música clássica. Em 1938, mudou-se para a Suíça com a esposa, cuja ascendência judaica tornava ainda mais delicada a permanência do casal na Alemanha. No ano seguinte, ambos partiram para os Estados Unidos, onde o compositor lecionou na Universidade Yale durante treze anos.

Escrito em 1939, o concerto foi encomendado por Wilhelm Mengelberg para a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã. Hindemith deveria conduzir a estreia, mas as circunstâncias políticas e o risco de atravessar a Alemanha impediram sua viagem. A primeira apresentação aconteceu em março de 1940, sob a direção de Ferdinand Helmann, músico da própria orquestra. Poucas semanas depois, em 19 de abril, a obra foi apresentada nos Estados Unidos pela Orquestra Sinfônica de Boston, sob a regência de Serge Koussevitzky, tendo Richard Burgin como solista. Apesar de sua construção musical refinada, o concerto não alcançou a mesma popularidade de outras obras do repertório violinístico. O encarte sugere que a linguagem de Hindemith talvez tenha sido considerada excessivamente intelectual para determinados públicos e períodos históricos.

Em três movimentos, a composição revela uma abordagem diferente daquela encontrada em Shostakovich. O primeiro apresenta uma abertura de caráter pastoral, na qual o violino estabelece um diálogo com uma orquestra mais vigorosa. O segundo, Langsam, assume uma atmosfera contemplativa, com lirismo melancólico, embora menos marcado pela angústia do que o movimento lento do concerto de Shostakovich. No último movimento, melodias de caráter despreocupado alternam-se com passagens de energia rítmica e influências do jazz. Um coral orquestral conduz a uma cadência reflexiva do solista, antes de a música alcançar uma conclusão otimista. A obra parece, assim, afirmar a possibilidade de preservar a liberdade criativa e a serenidade mesmo em meio à turbulência histórica.

A escolha dessas duas partituras tem também uma dimensão afetiva para Alexandra Tirsu. Em seu depoimento, a violinista conta que o concerto de Shostakovich a acompanha desde os anos de formação. As histórias de guerra transmitidas por seu avô, que serviu no Exército soviético, contribuíram para sua identificação com a música do compositor. Mais recentemente, a morte do pai aprofundou sua compreensão da perda e da ausência, fortalecendo sua ligação com a obra. Já o concerto de Hindemith tornou-se especialmente importante durante o Concurso ARD, quando Tirsu descobriu sua clareza estrutural, energia e sutileza emocional.

Uma boa apreciação! 

01 - Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77_ Nocturne. Moderato
02 - Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77_ Scherzo. Allegro
03 - Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77_ Passacaglia. Andante - Cadenza
04 - Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77_ Burlesque. Allegro con brio - Presto
05 - Violin Concerto_ I. Mäßig bewegte Halbe
06 - Violin Concerto_ II. Langsam
07 - Violin Concerto_ III. Lebhaft

Royal Philharmonic Orchestra
Vasily Petrenko, regente
Alexandra Tirsu, violino 

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quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Anton Bruckner (1824-1896) - Symphony No. 4 in E-Flat Major, WB 104 "Romantic"

 

A Sinfonia nº 4 em mi bemol maior, WAB 104, conhecida como Romântica, de Anton Bruckner, é uma das obras mais celebradas e frequentemente executadas do repertório orquestral do Romantismo tardio. Composta em um período de intensa transformação da linguagem sinfônica europeia, a obra ocupa lugar de destaque na produção do compositor austríaco, especialmente por sua amplitude sonora e riqueza de construção musical.

Bruckner revisou a sinfonia diversas vezes ao longo de sua trajetória, produzindo diferentes versões da partitura. Entre elas, destaca-se a edição organizada pelo musicólogo Robert Haas, em 1936, baseada na ampla revisão realizada pelo compositor entre 1878 e 1880. Essa versão, frequentemente identificada como a versão Haas de 1881, é considerada uma representação de referência das modificações introduzidas por Bruckner naquele período.

A edição de Haas tornou-se particularmente importante para a compreensão da concepção musical amadurecida pelo compositor. Ao reunir os resultados de sua revisão, oferece aos intérpretes e ouvintes uma perspectiva sobre a arquitetura sinfônica e as escolhas artísticas que marcaram uma das etapas fundamentais da evolução da Sinfonia Romântica.

Uma boa apreciação!

Anton Bruckner (1824-1896) - 

01. Symphony No. 4 in E-Flat Major, WB 104 "Romantic": I. Bewegt, nicht zu schnell (1881 Haas Version) (20:49)
02. Symphony No. 4 in E-Flat Major, WB 104 "Romantic": II. Andante, quasi allegretto (1881 Haas Version) (15:35)
03. Symphony No. 4 in E-Flat Major, WB 104 "Romantic": III. Scherzo. Bewegt - Trio. Nicht zu schnell (1881 Haas Version) (10:41)
04. Symphony No. 4 in E-Flat Major, WB 104 "Romantic": IV. Finale. Bewegt, doch nicht zu schnell (1881 Haas Version) (23:08)

Berliner Philharmoniker
Herbert von Karajan, regente 

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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Joseph Haydn (1732-1809) - Piano Concerto Nº 11 in D major e Piano Concerto Nº 04 in G major

Embora Joseph Haydn seja reconhecido sobretudo por sua contribuição à música de câmara e ao gênero sinfônico, sua produção para piano e orquestra também revela aspectos importantes de sua personalidade artística. Os concertos para esse instrumento, menos numerosos e conhecidos do que suas sinfonias e quartetos de cordas, apresentam uma combinação característica de inventividade, domínio formal e expressividade. O repertório abordado neste registro reúne duas obras de particular interesse: os Concertos em sol maior e em ré maior, que permitem observar diferentes momentos e possibilidades da escrita concertante do compositor.

A atribuição de algumas obras para piano a Haydn nem sempre foi inteiramente segura. No catálogo temático elaborado por Anthony van Hoboken, pelo menos 14 composições desse gênero foram consideradas autênticas. Muitas delas, porém, são peças breves, de instrumentação simples e conteúdo musical relativamente leve. Entre as exceções estão os concertos em fá maior, Hob. XVIII:3, e em sol maior, além do conhecido Concerto em ré maior, registrado neste álbum. Embora não tenham sobrevivido partituras autógrafas dessas obras, sua autenticidade deixou de ser motivo de dúvida.

O Concerto em sol maior é considerado o mais antigo e também o mais próximo de uma concepção tradicional do gênero. Sua composição provavelmente remonta a aproximadamente 1770. A obra está associada à pianista, cantora e compositora austríaca Maria Theresia von Paradis, que, apesar de cega, desenvolveu uma carreira musical expressiva. Haydn teria cedido a ela determinados direitos de execução da composição. Em 1784, Paradis apresentou o concerto em Paris, durante uma série de apresentações públicas, e a obra foi publicada posteriormente naquela cidade.

Musicalmente, o Concerto em sol maior apresenta uma estrutura em três movimentos. O primeiro, um Allegro de caráter moderado, segue a forma de ritornelo, alternando intervenções orquestrais e passagens do instrumento solista. O movimento seguinte, um Adagio em dó maior, destaca-se pelo caráter grave e dramático, com violinos em surdina e uma parte solista ornamentada. O Finale, por sua vez, assume a forma de um rondó exuberante, cujo tema apresenta características da música folclórica húngara. O encarte observa que sua inspiração pode estar relacionada à dança croata conhecida como Siri Kolo, embora a origem exata do tema seja objeto de discussão.

O Concerto em ré maior, composto provavelmente por volta de 1780, apresenta uma concepção mais elaborada. Sua estrutura também compreende três movimentos, mas a organização do primeiro se aproxima mais claramente da forma sonata, com dois grupos temáticos distintos e uma seção de desenvolvimento. O movimento inicial, bastante vivo, combina a elegância melódica característica de Haydn com uma escrita instrumental que exige agilidade e precisão do solista.

O segundo movimento, em dó maior, é um Un poco Adagio de atmosfera expressiva. A ausência de oboés e trompas contribui para a delicadeza da textura orquestral, enquanto o instrumento solista recebe uma parte ornamentada e de grande refinamento. O encerramento, um rondó, recupera o vigor e a vivacidade do primeiro movimento. Seu tema, de inspiração dançante, remete novamente à música húngara e à dança Siri Kolo, estabelecendo um vínculo entre os dois concertos apresentados no disco.

Diferentemente de compositores como Bach, Mozart e Beethoven, o austríaco não se projetou como pianista virtuose. Embora soubesse tocar teclado, sua atuação estava mais associada às funções de mestre de capela do que à exibição pública de habilidades instrumentais. Essa circunstância ajuda a compreender por que sua produção concertante para teclado não ocupa o mesmo lugar de destaque que suas obras sinfônicas e camerísticas.

Isso não significa, contudo, que os concertos sejam obras de importância secundária. Ao contrário, revelam a capacidade de Haydn de explorar as possibilidades do instrumento solista sem submetê-lo a demonstrações gratuitas de virtuosismo. A escrita para teclado é marcada por equilíbrio, clareza e inventividade, enquanto a orquestra participa ativamente do desenvolvimento musical. Solista e conjunto não se apresentam apenas como protagonistas em oposição, mas como elementos complementares de uma construção compartilhada.

Os dois concertos permitem, portanto, reconhecer a riqueza de uma parcela menos conhecida da produção de Haydn. Entre a elegância do Concerto em sol maior e a elaboração formal do Concerto em ré maior, encontram-se a inteligência construtiva, o humor e a imaginação musical de um compositor que soube transformar recursos aparentemente simples em experiências expressivas de grande qualidade.

Uma boa apreciação! 

Joseph Haydn (1732-1809) - 

01 - Keyboard Concerto in D major, H. 18-11 1. Vivace
02 - Keyboard Concerto in D major, H. 18-11 2.Un Poco Adagio
03 - Keyboard Concerto in D major, H. 18-11 3. Rondo all’Ungarese (Allegro assai)
04 - Keyboard Concerto in G major, H. 18-4 1. Allegro Moderato - Cadenza - Tempo I
05 - Keyboard Concerto in G major, H. 18-4 2. Adagio Cantabile - Cadenza - Tempo I
06 - Keyboard Concerto in G major, H. 18-4 3. Rondo (Presto)

Züricher Kammerorchester
Edmond de Stoutz, regente
Arturo Michelangeli Benedetti, piano

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terça-feira, 3 de novembro de 2026

Gustav Mahler (1860-1911) - Symphony No. 5 in C-sharp minor

Em outubro de 2026, a Orquestra Sinfônica da NHK celebra seu centenário com uma interpretação da Sinfonia nº 5, de Gustav Mahler, sob a regência de seu maestro titular, Fabio Luisi. A apresentação representa mais um capítulo de uma trajetória recente de aproximação entre a orquestra japonesa e a obra sinfônica do compositor austríaco.

Nos últimos anos, a NHK Symphony Orchestra recebeu elogios por suas interpretações de Mahler, incluindo a Sinfonia nº 8, em 2023, e as Sinfonias nº 3 e nº 4, apresentadas durante o Festival Mahler de 2025. Nesse contexto, a Quinta Sinfonia surge como um aguardado desafio artístico, dando continuidade ao trabalho desenvolvido pelo conjunto em torno da produção sinfônica mahleriana.

A interpretação percorre os cinco movimentos da obra, explorando a diversidade de atmosferas e a intensidade dramática que caracterizam sua construção. No primeiro movimento, a Marcha Fúnebre, as sombras e a solenidade se impõem por meio de um ritmo sombrio, que estabelece o clima inicial da composição. O segundo movimento apresenta um desenvolvimento dramático marcado pelo encontro entre paixão e silêncio, em uma sucessão de contrastes e momentos de grande tensão expressiva.

No terceiro movimento, um Scherzo dinâmico, os instrumentos de metal, especialmente as trompas, assumem papel de destaque. A escrita vigorosa e o caráter dançante da música evocam a tradição vienense, conferindo ao movimento uma combinação de energia, elegância e complexidade rítmica.

O quarto movimento, o célebre Adagietto, apresenta uma atmosfera inteiramente distinta. Conhecido também por sua utilização no filme Morte em Veneza, de Luchino Visconti, o movimento se caracteriza por sua sonoridade contemplativa e pela intensa carga poética. Cordas e harpa conduzem uma das passagens mais emblemáticas de toda a produção de Mahler, em uma expressão musical de delicadeza e profunda ressonância emocional.

No movimento final, a música se transforma em uma torrente sonora de grande intensidade, conduzindo a sinfonia a uma conclusão triunfante. A combinação entre a concepção estética de Fabio Luisi e a expressividade da Orquestra Sinfônica da NHK dá origem, segundo a apresentação do lançamento, a uma interpretação de grande maturidade artística.

Uma boa apreciação! 

Gustav Mahler (1860-1911) - 

01. Symphony No. 5 in C-sharp minor: I. Trauermarsch. In gemessenem Schritt. Streng. Wie ein Kondukt
02. Symphony No. 5 in C-sharp minor: II. Sturmisch bewegt. Mit grosster Vehemenz.
03. Symphony No. 5 in C-sharp minor: III. Scherzo. Kraftig, nicht zu schnell
04. Symphony No. 5 in C-sharp minor: IV. Adagietto. Sehr langsam
05. Symphony No. 5 in C-sharp minor: V. Rondo-Finale. Allegro 

NHK Symphony Orchestra, Tokyo
Fabio Luisi, regente 

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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Félix Mendelssohn (1809-1847) - Symphony No. 3 in A Minor, Op. 56, MWV N18 Scottish, Symphony No. 4 in A Major, Op. 90, MWV N16 Italian e A Midsummer Night's Dream, Op. 61, MWV M13

Mendelssohn escreveu, ao todo, cinco sinfonias. As sinfonias de número 3 e número 4 são dois dos trabalhos mais expressivos do compositor. As duas são resultado de impressões de viagens. De família rica e influente, aos vinte anos, o compositor resolveu fazer uma viagem pelo continente europeu. Sua intenção era se enriquecer e absorver impressões culturais dos vários países do continente. Essas viagens alimentaram a imaginação romântica do compositor. É o que podemos observar nos dois trabalhos encontrados neste disco. A Escócia lhe trouxe o fascínio pela névoa, pelas ruínas medievais e pela mitologia celta; a Itália lhe deu a luz do sol, o calor humano e as cores vibrantes do Mediterrâneo.

A Sinfonia número 3, também conhecida como "Escocesa". O compositor visitou a Escócia em 1829 e ficou impressionado. Após os primeiros contatos, Mendelssohn rascunhou o tema de abertura imediatamente. Poucos dias depois, visitou a ilha de Staffa e a famosa Gruta de Fingal, experiência que consolidou a atmosfera sombria e marinha que permeia tanto esta sinfonia quanto sua famosa abertura As Hébridas.

Já no caso da Sinfonia número 4, Mendelssohn constrói a antítese da número 3. Enquanto a Escocesa é sombria, repleta de insinuações graves. A "Italiana", por sua vez, é ensolarada, festiva, repleta de danças. A viagem à Itália aconteceu em 1830; o rascunho para a Sinfonia Nº 4, começou em 1831. A conclusão se deu em 1833. É uma das minhas sinfonias favoritas. 

Uma boa apreciação! 

Félix Mendelssohn (1809-1847) - 

01. Symphony No. 3 in A Minor, Op. 56, MWV N18 Scottish -  I. Andante con moto - Allegro un poco agitato
02. Symphony No. 3 in A Minor, Op. 56, MWV N18 Scottish -  II. Scherzo. Vivace non troppo
03. Symphony No. 3 in A Minor, Op. 56, MWV N18 Scottish -  III. Adagio
04. Symphony No. 3 in A Minor, Op. 56, MWV N18 Scottish -  IV. Allegro vivacissimo - Allegro maestoso assai
05. Symphony No. 4 in A Major, Op. 90, MWV N16 Italian -  I. Allegro vivace
06. Symphony No. 4 in A Major, Op. 90, MWV N16 Italian -  II. Andante con moto
07. Symphony No. 4 in A Major, Op. 90, MWV N16 Italian -  III. Con modo moderato
08. Symphony No. 4 in A Major, Op. 90, MWV N16 Italian -  IV. Saltarello. Presto
09. A Midsummer Night's Dream, Op. 61, MWV M13 -  Overture
10. A Midsummer Night's Dream, Op. 61, MWV M13 -  No. 1, Scherzo
11. A Midsummer Night's Dream, Op. 61, MWV M13 -  No. 2, Fairies' March
12. A Midsummer Night's Dream, Op. 61, MWV M13 -  No. 5, Intermezzo
13. A Midsummer Night's Dream, Op. 61, MWV M13 -  No. 7, Nocturne
14. A Midsummer Night's Dream, Op. 61, MWV M13 -  No. 11, Dance of the Clowns
15. A Midsummer Night's Dream, Op. 61, MWV M13 -  No. 9, Wedding March

London Philharmonic Orchestra
Sir Adrian Boult, regente 

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domingo, 1 de novembro de 2026

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) - Complete Violin Concertos

O violinista Ning Feng apresenta a integral dos concertos para violino de Wolfgang Amadeus Mozart ao lado da Kammerakademie Potsdam, em lançamento pelo selo Channel Classics Records. O álbum reúne os cinco concertos compostos pelo músico austríaco para o instrumento, obras que revelam tanto seu domínio da escrita violinística quanto sua crescente capacidade de explorar os recursos dramáticos da linguagem musical.

A criação desses concertos esteve relacionada também às preocupações de Leopold Mozart, pai do compositor. Ele se mostrava frustrado com a possibilidade de que Wolfgang, durante suas viagens, negligenciasse o violino como uma potencial fonte de renda. Afinal, Mozart era um violinista habilidoso, capaz de executar o instrumento com grande beleza, além de possuir notável talento para escrever música destinada a ele.

Compostos principalmente em 1775, quando Mozart tinha apenas 19 anos, os cinco concertos apresentam características que já se tornariam marcas de sua personalidade artística. As obras são permeadas por reviravoltas teatrais, contrastes e mudanças de atmosfera que demonstram a familiaridade cada vez maior do jovem compositor com os recursos da expressão dramática.

Naquele período, seus pensamentos e aspirações estavam constantemente voltados para a ópera e para o universo teatral. Essa inclinação aparece também nos concertos para violino, nos quais o diálogo entre solista e orquestra ganha frequentemente um caráter cênico, com alternância de tensão, lirismo e vivacidade. A interpretação de Ning Feng, acompanhado pela Kammerakademie Potsdam, oferece ao ouvinte a oportunidade de percorrer esse conjunto de obras fundamentais da produção instrumental de Mozart.

Uma boa apreciação! 

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) - 

01. Mozart: Violin Concerto No. 1 in B-Flat Major, K. 207: I. Allegro moderato (7:45)
02. Mozart: Violin Concerto No. 1 in B-Flat Major, K. 207: II. Adagio (8:24)
03. Mozart: Violin Concerto No. 1 in B-Flat Major, K. 207: III. Presto (5:55)
04. Mozart: Violin Concerto No. 2 in D Major, K. 211: I. Allegro moderato (9:14)
05. Mozart: Violin Concerto No. 2 in D Major, K. 211: II. Andante (7:46)
06. Mozart: Violin Concerto No. 2 in D Major, K. 211: III. Rondeau. Allegro (4:47)
07. Mozart: Violin Concerto No. 5 in A Major, K. 219: I. Allegro aperto (9:42)
08. Mozart: Violin Concerto No. 5 in A Major, K. 219: II. Adagio (10:55)
09. Mozart: Violin Concerto No. 5 in A Major, K. 219: III. Rondeau. Tempo di menuetto (8:33)
10. Mozart: Violin Concerto No. 3 in G Major, K. 216: I. Allegro (9:53)
11. Mozart: Violin Concerto No. 3 in G Major, K. 216: II. Adagio (8:08)
12. Mozart: Violin Concerto No. 3 in G Major, K. 216: III. Rondeau. Allegro (6:23)
13. Mozart: Rondo in B-Flat Major, K. 269/261A (7:07)
14. Mozart: Adagio in E Major, K. 261 (8:08)
15. Mozart: Rondo in C Major, K. 373 (6:03)
16. Mozart: Violin Concerto No. 4 in D Major, K. 218: I. Allegro (9:30)
17. Mozart: Violin Concerto No. 4 in D Major, K. 218: II. Andante cantabile (6:57)
18. Mozart: Violin Concerto No. 4 in D Major, K. 218: III. Rondeau. Andante grazioso (7:15)

Kammerakademie Potsdam
Suyeon Kang, regente
Ning Feng, violino 

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sábado, 31 de outubro de 2026

Jazz - Alice Coltrane (1937-2007) - Universal Consciousness (1971)

Lançado em 1971 pelo selo Impulse!, Universal Consciousness ocupa um lugar singular na trajetória de Alice Coltrane (1937–2007). Pianista, harpista, organista e compositora, a artista construiu nesse álbum uma linguagem musical na qual o jazz se aproxima de tradições espirituais indianas, da música de concerto e de experiências sonoras profundamente ligadas à improvisação. O resultado é uma obra de caráter contemplativo e, ao mesmo tempo, intenso, na qual a busca pela transcendência se manifesta tanto na composição quanto na sonoridade dos instrumentos.

O disco reúne seis faixas: “Universal Consciousness”, “Battle at Armageddon”, “Oh Allah”, “Hare Krishna”, “Sita Ram” e “The Ankh of Amen-Ra”. A diversidade dos títulos já anuncia o horizonte espiritual que orienta o trabalho. Referências ao hinduísmo, ao islamismo e à tradição egípcia convivem em um repertório que procura expressar diferentes caminhos de elevação e consciência. Não se trata, porém, de uma simples justaposição de referências religiosas: Alice Coltrane transforma essas influências em matéria musical, articulando-as por meio de uma escrita própria, marcada pela repetição, pela exploração tímbrica e pela liberdade dos músicos.

A faixa de abertura, “Universal Consciousness”, apresenta de imediato a atmosfera característica do álbum. O órgão e a harpa de Alice Coltrane estabelecem um ambiente sonoro de grande densidade, enquanto as cordas, organizadas em arranjos da própria compositora, ampliam o alcance expressivo da música. O encarte destaca a participação dos violinistas John Blair, Leroy Jenkins, Julius Brand e Joan Kalisch, além de Jimmy Garrison no contrabaixo e Jack DeJohnette na bateria. A combinação desses instrumentos produz uma sonoridade que ultrapassa as convenções mais habituais do jazz, aproximando o conjunto de uma experiência orquestral e meditativa.

Em “Battle at Armageddon”, a música assume um caráter mais dramático. A presença da bateria de Rashied Ali, ao lado de DeJohnette, intensifica a pulsação e confere à faixa uma energia quase ritualística. O texto do encarte associa a composição à ideia de um conflito espiritual permanente, no qual forças opostas disputam o destino da humanidade. A batalha, nesse contexto, não deve ser entendida apenas como confronto exterior, mas também como representação das tensões interiores que acompanham a busca por purificação e iluminação.

Em contraste, “Oh Allah” apresenta uma atmosfera de recolhimento e devoção. A composição expressa a procura por harmonia e pela união com o divino, enquanto “Hare Krishna” e “Sita Ram” aproximam o álbum de cânticos tradicionais indianos. Alice Coltrane adaptou essas melodias para o conjunto instrumental, preservando sua dimensão religiosa e, simultaneamente, incorporando-as à linguagem musical do jazz. O uso de fórmulas repetitivas e de estruturas de caráter contemplativo favorece a construção de uma experiência de escuta que se aproxima da oração e da meditação.

O encerramento, com “The Ankh of Amen-Ra”, retoma o universo simbólico da espiritualidade e da tradição egípcia. O título faz referência ao ankh, símbolo associado à vida, e a Amen-Ra, divindade relacionada ao antigo Egito. A peça integra o percurso espiritual proposto pelo álbum, no qual diferentes tradições são aproximadas pela busca de uma dimensão universal da existência.

A gravação contou com a produção de Alice Coltrane e Ed Michel e foi realizada em Nova York, em abril de 1971. Além de tocar órgão e harpa, a artista assumiu a responsabilidade pelos arranjos de cordas, demonstrando o controle que exercia sobre os diferentes elementos da concepção musical. A participação de Ornette Coleman na transcrição do arranjo de cordas também merece destaque, assim como a presença de músicos associados a diferentes vertentes do jazz de vanguarda.

Mais do que um registro de jazz experimental, Universal Consciousness representa uma etapa importante da pesquisa artística e espiritual de Alice Coltrane. A compositora amplia as fronteiras do gênero ao incorporar elementos de tradições religiosas e explorar uma sonoridade que valoriza tanto a liberdade improvisatória quanto a organização cuidadosa dos timbres. Em suas seis faixas, o álbum propõe uma experiência musical que não se limita ao entretenimento: convida à contemplação, à reflexão e à percepção da música como caminho de busca interior.

Uma boa apreciação!

01. Universal Consciousness (05:06)
02. Battle at Armageddon (07:20)
03. Oh Allah (05:00)
04. Hare Krishna (08:14)
05. Sita Ram (04:47)
06. The Ankh of Amen-Ra (06:09) 

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Sergei Prokofiev (1891-1953) - Romeo and Juliet, Op. 64

No contexto das celebrações pelos 17 anos de Gustavo Dudamel à frente da Filarmônica de Los Angeles (LA Phil), como diretor musical e artístico, o selo Deutsche Grammophon anuncia o lançamento de uma edição que reúne a música orquestral completa de Romeu e Julieta, de Sergei Prokofiev.

A partitura, concebida originalmente para o balé inspirado na tragédia de William Shakespeare, destaca-se pela escrita ousada e evocativa do compositor russo. Com sua riqueza de atmosferas e força dramática, a música de Prokofiev oferece uma leitura sonora intensa da história dos jovens amantes de Verona.

O lançamento também se insere no percurso artístico de Dudamel à frente da orquestra norte-americana, celebrando uma parceria de 17 anos marcada pela presença do maestro no cenário musical internacional.

Uma boa apreciação!  

Sergei Prokofiev (1891-1953) - 

01 No. 1, Introduction
02 No. 2, Romeo
03 No. 3, The Street Awakens
04 No. 4, Morning Dance
05 No. 5, The Quarrel
06 No. 6, The Fight
07 No. 7, The Duke's Command
08 No. 8, Interlude
09 No. 9, At the Capulets' (Preparations for the Ball)
10 No. 10, The Young Juliet
11 No. 11, Arrival of the Guests (Minuet)
12 No. 12, Masks
13 No. 13, Dance of the Knights
14 No. 14, Juliet's Variation
15 No. 15, Mercutio
16 No. 16, Madrigal
17 No. 17, Tybalt Recognizes Romeo
18 No. 18, Gavotte. Departure of the Guests
19 No. 19, Balcony Scene
20 No. 20, Romeo's Variation
21 No. 21, Love Dance
22 No. 22, Folk Dance
23 No. 23, Romeo and Mercutio
24 No. 24, Dance of the Five Couples
25 No. 25, Dance with Mandolins
26 No. 26, Nurse
27 No. 27, The Nurse and Romeo
28 No. 28, Romeo at Friar Laurence's
29 No. 29, Juliet at Friar Laurence's
30 No. 30, Public Merrymaking
31 No. 31, Further Public Festivities
32 No. 32, Meeting of Tybalt and Mercutio
33 No. 33, The Duel
34 No. 34, Death of Mercutio
35 No. 35, Romeo Decides to Avenge Mercutio
36 No. 36, Finale
37 No. 37, Introduction
38 No. 38, Romeo and Juliet (Juliet's Bedroom)
39 No. 39, Romeo Bids Juliet Farewell
40 No. 40, Nurse
41 No. 41, Juliet Refuses to Marry Paris
42 No. 42, Juliet Alone. Adagio
43 No. 43, Interlude. Adagio
44 No. 44, At Friar Laurence's Cell
45 No. 45, Interlude. L'istesso tempo
46 No. 46, Juliet's Room
47 No. 47, Juliet Alone. Andante
48 No. 48, Aubade (Morning Serenade)
49 No. 49, Dance of the Girls with Lilies
50 No. 50, At Juliet's Bedside
51 No. 51, Juliet's Funeral
52 No. 52, Death of Juliet

Los Angeles Philharmonic

Gustavo Dudamel, regente 

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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Anton Bruckner (1824-1896) - Symphony No. 3 in D Minor e Adagio 1876

Apesar dos inúmeros obstáculos enfrentados ao longo de sua trajetória, a música de Anton Bruckner prevaleceu. Sua busca incessante pela forma e pela perfeição não era apenas uma preocupação estética, mas a expressão de uma convicção artística profunda, quase um chamado interior. Para o compositor austríaco, a criação musical representava uma missão à qual se dedicou com perseverança.

Assim como Ludwig van Beethoven, Bruckner aspirava ao ideal de uma música absoluta: uma linguagem sonora que ultrapassasse a simples expressão de sentimentos e emoções e fosse capaz de afirmar sua própria existência por meio de sua estrutura e de sua força intrínseca. Nesse universo, a música não precisa recorrer a elementos externos para justificar seu significado; ela encontra em si mesma os fundamentos de sua expressão.

A Sinfonia nº 3, em particular, constitui um testemunho impressionante dessa busca. Conhecida pela marcante entrada do tema apresentado pelo trompete — referência à célebre indicação de que “o trompete introduz o tema” —, a obra sintetiza a dimensão monumental e a aspiração artística de Bruckner.

Ainda hoje, a Terceira Sinfonia conserva sua capacidade de comover o ouvinte. Sua força, sua dimensão atemporal e sua sinceridade artística revelam a permanência de uma concepção musical que encontrou na busca pela perfeição formal não apenas um ideal estético, mas uma verdadeira razão de existir.

Uma boa apreciação! 

Anton Bruckner (1824-1896) - 

01. Bruckner: Symphony No. 3 in D Minor: I. Gemäßigt, mehr bewegt, misterioso
02. Bruckner: Symphony No. 3 in D Minor: II. Andante. Bewegt, feierlich, quasi Adagio
03. Bruckner: Symphony No. 3 in D Minor: III. Scherzo. Ziemlich scnell - Trio.
04. Bruckner: Symphony No. 3 in D Minor: IV. Finale. Allegro
05. Bruckner: Adagio 1876

Philharmonie Festiva
Gerd Schaller, regente 

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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Sergei Rachmaninov (1873-1943) - The Transcriptions

 

As transcrições para piano ocupam um lugar importante na trajetória de Sergei Rachmaninov (1873–1943), pianista virtuoso e compositor cuja escrita se distingue pela riqueza melódica, pela amplitude expressiva e pelo domínio das possibilidades do instrumento. No álbum Rachmaninov: The Transcriptions, lançado pelo selo Hyperion, o pianista britânico Howard Shelley reúne quinze peças que revelam diferentes aspectos dessa atividade criativa. Gravado em fevereiro de 1991, o disco percorre obras de compositores como Rimsky-Korsakov, Kreisler, Bizet, Schubert, Mussorgsky, Bach, Mendelssohn, Tchaikovsky e Behr, além de composições do próprio Rachmaninov. O resultado é um panorama da transcrição como forma de interpretação, recriação e homenagem musical.

A relação de Rachmaninov com esse gênero remonta à sua formação musical. Quando criança, ele tocava transcrições a quatro mãos com o avô e, posteriormente, executava arranjos para dois pianos como parte de seus estudos no Conservatório de Moscou. Essas experiências contribuíram para que considerasse a transcrição uma prática legítima da atividade musical, e não apenas um exercício de adaptação. Ao transferir para o piano obras originalmente concebidas para orquestra, voz ou outros instrumentos, o compositor explorava novas possibilidades sonoras e ampliava o acesso a repertórios que, naquela época, nem sempre estavam disponíveis por meio de gravações.

O encarte também mostra que a fronteira entre transcrição e composição nem sempre é nítida na produção de Rachmaninov. Em alguns casos, ele trabalhava diretamente sobre obras de outros autores; em outros, suas versões apresentavam modificações harmônicas, melódicas e estruturais que conferiam ao material original uma identidade própria. O exemplo do Minueto, da Suíte nº 1 de L’Arlésienne, de Georges Bizet, é particularmente ilustrativo: a transcrição de Rachmaninov, publicada em 1923, difere de uma versão anterior, elaborada em 1900. As alterações mostram como o compositor revisava suas próprias soluções e transformava o processo de adaptação em uma oportunidade de experimentação artística.

O repertório selecionado oferece uma amostra expressiva dessa diversidade. A abertura com O voo do besouro, de Nikolai Rimsky-Korsakov, coloca em evidência a agilidade e a precisão exigidas do pianista para reproduzir a velocidade e a movimentação contínua associadas à peça original. Já Liebesleid, de Fritz Kreisler, conduz a escuta a uma atmosfera mais intimista, na qual o lirismo e a sutileza expressiva ocupam o primeiro plano. A seleção inclui ainda o Minueto de Bizet, Wohin?, de Schubert, o Hopak, de Mussorgsky, e três peças de Bach extraídas da Partita para violino em mi maior: Prelúdio, Gavota e Giga. Ao reunir estilos e períodos tão diferentes, o programa evidencia a capacidade do piano de assumir funções variadas, da exibição virtuosística à expressão delicada.

As transcrições de obras do próprio Rachmaninov acrescentam outra dimensão ao álbum. Daisies, Op. 38 nº 3, e Lilacs, Op. 21 nº 5, nasceram no universo de suas canções e miniaturas vocais, cuja força reside em melodias de grande apelo expressivo. Ao transferi-las para o piano, o compositor preserva o caráter cantabile, mas explora os recursos do instrumento para ampliar a ressonância e a riqueza harmônica. A versão de Vocalise, Op. 34 nº 14, encerra o programa com uma das melodias mais conhecidas de sua produção. A obra, originalmente escrita sem palavras para voz, adquire no piano uma nova dimensão, sustentada pela continuidade da linha melódica e pela expressividade da escrita.

A trajetória dessas peças também acompanha momentos decisivos da vida do compositor. Depois da Revolução Russa de 1917, Rachmaninov deixou seu país e se estabeleceu nos Estados Unidos, onde retomou a carreira como pianista e passou a gravar para a Victor. O encarte destaca que, ao longo dos anos, suas transcrições continuaram a fazer parte de seu repertório público, ao lado de obras originais. Algumas versões foram registradas em disco apenas décadas depois, enquanto outras permaneceram menos conhecidas. Esse conjunto documenta, portanto, não apenas a habilidade de Rachmaninov como arranjador, mas também sua relação pessoal com obras que admirava e que incorporava à própria linguagem pianística.

Howard Shelley, responsável pela interpretação, construiu uma carreira que combina a atuação como pianista e maestro. Neste registro, sua tarefa é evidenciar a variedade de estilos sem perder a unidade do programa: a clareza necessária às passagens rápidas, o controle das vozes internas e a sensibilidade para sustentar as linhas melódicas são aspectos fundamentais desse repertório. A gravação, realizada em Londres em 1991, integra um projeto mais amplo de Shelley dedicado à música para piano de Rachmaninov, cujo objetivo é apresentar uma visão abrangente da produção do compositor para o instrumento.

Mais do que uma coleção de arranjos, The Transcriptions revela uma faceta essencial de Rachmaninov: a de um músico capaz de reconhecer o potencial de uma obra e reinventá-la a partir das possibilidades do piano. Entre o virtuosismo de Rimsky-Korsakov, a elegância de Kreisler, a expressividade de Schubert e a intensidade melódica de suas próprias composições, o álbum mostra que transcrever não significa simplesmente reproduzir uma música em outro instrumento. Nas mãos de Rachmaninov, a transcrição torna-se um ato de interpretação criativa, no qual a obra de partida é preservada e, ao mesmo tempo, iluminada por uma nova perspectiva sonora.

Uma boa apreciação! 

Sergei Rachmaninov (1873-1943) - 

01 The Flight Of The Bumblebee
02 Liebesleid
03 Minuet, From 'L' Arlesienne' Suite No. 1
04 Wohin
05 Hopak
06 Prelude, From Violin Partita In E Major
07 Gavotte, From Violin Partita In E Major
08 Gigue, From Violin Partita In E Major
09 Daisies, Op. 38 No. 3
10 Scherzo, From 'A Midsummer Nights'S Dream'
11 Lilacs, Op. 21 No. 5
12 Polka De V R
13 Lullaby, Op. 16 No. 1
14 Liebesfreud
15 Vocalise, Op. 34 No. 14

Howard Shelley, piano 

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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Frédéric Chopin (1810-1849) - Piano Concerto No. 1 in E Minor, Op. 11 e Piano Concerto No. 2 in F Minor, Op. 21

Os concertos para piano de Frédéric Chopin representam uma combinação singular de virtuosismo e expressividade emocional. Nesta gravação, o pianista Christian Zacharias confere vida aos momentos mais íntimos e exuberantes das obras, com uma interpretação marcada pela sensibilidade e pelo refinamento. A profundidade lírica e as nuances poéticas de cada movimento constituem os principais atrativos deste registro.

Gravada na histórica Salle Métropole, a edição se beneficia da reconhecida atenção da MDG à qualidade sonora. Remasterizado e remixado para o formato Super Audio, o material apresenta clareza, profundidade e precisão espacial, proporcionando uma experiência auditiva envolvente e natural. O resultado procura preservar tanto a riqueza dos detalhes instrumentais quanto a sensação de proximidade com a execução, conciliando a excelência técnica com a permanência artística da música.

A parceria de longa data entre Zacharias e a Orchestre de Chambre de Lausanne é outro elemento de destaque. A orquestra oferece acompanhamento atento e equilibrado, sem ofuscar o protagonismo do piano. Essa sintonia entre solista e conjunto favorece o desenvolvimento das ideias musicais e transforma as passagens mais virtuosísticas e líricas em um diálogo expressivo, no qual os contrastes e as sutilezas da escrita de Chopin encontram espaço para florescer.

Registrada originalmente em 2003, a gravação preserva o frescor e o brilho das sessões originais. A nova edição integra a série Preziosa, da MDG, e reúne qualidade interpretativa, interesse histórico e apuro técnico. Trata-se de um lançamento especialmente atraente para colecionadores, audiófilos e apreciadores da música clássica, interessados em redescobrir os concertos de Chopin por meio de uma interpretação sensível e de uma apresentação sonora cuidadosamente trabalhada.

Uma boa apreciação! 

Frédéric Chopin (1810-1849) - 

01. Piano Concerto No. 1 in E Minor, Op. 11: I. Allegro maestoso
02. Piano Concerto No. 1 in E Minor, Op. 11: II. Romanze. Larghetto
03. Piano Concerto No. 1 in E Minor, Op. 11: III. Rondo. Vivace
04. Piano Concerto No. 2 in F Minor, Op. 21: I. Maestoso
05. Piano Concerto No. 2 in F Minor, Op. 21: II. Larghetto
06. Piano Concerto No. 2 in F Minor, Op. 21: III. Allegro vivace

Orchestre De Chambre De Lausanne
Christian Zacharias, regência e piano 

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