A música de Gustav Holst (1874–1934) revela um compositor cuja imaginação ultrapassou as fronteiras da tradição musical inglesa. Embora seja amplamente lembrado por Os Planetas, sua produção inclui obras orquestrais que exploram diferentes universos culturais, interesses filosóficos e possibilidades de expressão sinfônica. O álbum Holst: Cotswolds Symphony, lançado pelo selo Naxos, reúne cinco composições que permitem acompanhar aspectos importantes de sua formação e de seu desenvolvimento artístico: a abertura Walt Whitman, a Sinfonia The Cotswolds, A Winter Idyll, o poema sinfônico Indra e a Japanese Suite. A Orquestra Ulster interpreta o repertório sob a regência de JoAnn Falletta, em gravações realizadas em outubro de 2011, no Ulster Hall, em Belfast.
Nascido em uma família de músicos, Holst estudou no Royal College of Music, em Londres, onde estabeleceu uma amizade duradoura com Ralph Vaughan Williams. A relação entre os dois compositores foi marcada pela troca de ideias e pela crítica mútua de suas partituras. Antes de se dedicar prioritariamente à composição, Holst trabalhou como trombonista em companhias de ópera e orquestras, experiência que contribuiu para seu conhecimento prático dos instrumentos e das possibilidades da escrita orquestral. Mais tarde, sua atuação como professor, especialmente na St Paul’s Girls’ School e no Morley College, ajudou a conciliar a atividade criativa com as necessidades de sua vida profissional.
A abertura Walt Whitman, composta em 1899, evidencia o entusiasmo juvenil de Holst por Richard Wagner. A obra apresenta uma escrita expansiva e vigorosa, reveladora de um compositor que ainda buscava consolidar uma voz própria. Seu interesse pelo poeta norte-americano Walt Whitman relacionava-se à combinação de misticismo e realismo presente em sua literatura, características que também atraíram outros compositores britânicos da época. A abertura constitui, assim, um testemunho dos primeiros passos de Holst e de sua aproximação com ideias artísticas que ultrapassavam os limites estritos da tradição nacional.
A Sinfonia em fá maior, conhecida como The Cotswolds, foi escrita entre 1899 e 1900 e estreou em 1902. Embora seu primeiro movimento apresente referências à música folclórica britânica, o centro emocional da composição encontra-se no segundo movimento, a Elegy (In memoriam William Morris). A passagem homenageia William Morris, artista, escritor e defensor de ideias socialistas e utópicas, cuja influência intelectual também alcançou Holst. O caráter elegíaco confere à sinfonia uma profundidade particular, contrastando com o movimento de caráter mais vivo que a sucede e com o finale, que demonstra a segurança do compositor na condução dos recursos orquestrais.
Em A Winter Idyll, obra de 1897, a escrita orquestral já demonstra considerável domínio técnico, apesar de ter sido composta durante a juventude do músico. O encarte destaca a segurança com que Holst trabalha os instrumentos, resultado possivelmente de sua formação, da influência de seus professores e da experiência adquirida como instrumentista. A peça funciona, portanto, como um importante registro de seu amadurecimento artístico, anterior às composições que lhe dariam maior projeção pública.
O interesse de Holst por culturas não europeias ocupa lugar central em Indra, poema sinfônico composto em 1903. Inspirada em uma narrativa da mitologia indiana, a obra retrata o confronto entre Indra, divindade associada aos céus, à chuva e às tempestades, e o demônio Vritra. Segundo a lenda, Vritra provoca uma seca, mas acaba derrotado com a ajuda de Vishnu, permitindo o retorno das chuvas e a restauração da fertilidade da terra. Holst transforma essa narrativa em matéria musical, explorando o potencial dramático da luta entre as forças que ameaçam a vida e aquelas que restabelecem o equilíbrio natural. Seu interesse pela cultura indiana também se manifestou no estudo do sânscrito e na adaptação de textos do Rig Veda para hinos corais.
Já a Japanese Suite, op. 33, nasceu de uma encomenda ligada ao bailarino e coreógrafo japonês Michio Ito, que atuava em Londres e precisava de música com características japonesas para uma apresentação. Holst respondeu com uma sequência de peças que incorpora elementos de inspiração oriental. Entre elas, destacam-se a Dance of the Marionette, cuja linguagem pode evocar o universo de Petrushka, de Stravinsky, e a Dance of the Wolves, que encerra a suíte com energia e intensidade. A obra evidencia a curiosidade do compositor por diferentes tradições culturais e sua disposição para incorporar referências externas à música ocidental sem abandonar os recursos da orquestra sinfônica.
A seleção também permite compreender o contraste entre a trajetória relativamente discreta de muitas obras de Holst e o sucesso extraordinário de Os Planetas, cuja primeira execução pública integral ocorreu em 1920. A popularidade dessa composição acabou por ofuscar parte de sua produção posterior, embora trabalhos como Egdon Heath, St Paul’s Suite e Hymn of Jesus tenham conquistado reconhecimento em seus respectivos repertórios. Nesse contexto, o álbum conduz o ouvinte para além de sua obra mais célebre, revelando a variedade de interesses e a evolução da linguagem musical do compositor.
Sob a direção de JoAnn Falletta, a Ulster Orchestra apresenta um programa que aproxima diferentes momentos da carreira de Holst e diferentes fontes de inspiração. A regente norte-americana, conhecida por seu trabalho com repertórios variados e pela defesa da música de seu país, conduz a orquestra em um percurso que vai da exuberância wagneriana à evocação de mitos indianos e danças japonesas. O resultado é um retrato abrangente de Holst: um compositor que soube transformar referências literárias, folclóricas e culturais em experiências orquestrais distintas, ampliando os horizontes da música britânica do início do século XX.
Uma boa apreciação!Gustav Holst (1874-1934) -
01. Walt Whitman Overture, Op. 7, H. 42
02. Symphony in F Major, Op. 8, H. 47 _The Cotswolds__ I. Allegro con brio
03. Symphony in F Major, Op. 8, H. 47 _The Cotswolds__ II. Elegy. Molto adagio
04. Symphony in F Major, Op. 8, H. 47 _The Cotswolds__ III. Scherzo. Presto - Allegretto
05. Symphony in F Major, Op. 8, H. 47 _The Cotswolds__ IV. Finale. Allegro moderato
06. A Winter Idyll, H. 31
07. Japanese Suite, Op. 33, H. 126_ I. Prelude. Song of the Fisherman
08. Japanese Suite, Op. 33, H. 126_ II. Ceremonial Dance
09. Japanese Suite, Op. 33, H. 126_ III. Dance of the Marionette
10. Japanese Suite, Op. 33, H. 126_ IV. Interlude. Song of the Fisherman
11. Japanese Suite, Op. 33, H. 126_ V. Dance Under the Cherry Tree
12. Japanese Suite, Op. 33, H. 126_ VI. Finale. Dance of the Wolves
13. Indra, Op. 13, H. 66
Ulster Orchestra
JoAnn Falletta, regente
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