Entre todas as obras que Wolfgang Amadeus Mozart escreveu para instrumentos de sopro, nenhuma ocupa lugar tão privilegiado quanto a Serenata em Si bemol maior, K. 361, conhecida desde o século XIX como Gran Partita. Longe de ser apenas uma serenata destinada ao entretenimento aristocrático, trata-se de uma composição monumental que amplia os limites do gênero e demonstra que Mozart era capaz de conferir profundidade artística até mesmo à música escrita para ocasiões festivas. A gravação realizada por integrantes da Royal Concertgebouw Orchestra, sob a direção do oboísta Alexei Ogrintchouk, evidencia toda a riqueza dessa obra-prima e acrescenta, como complemento, as Oito Variações sobre "Là ci darem la mano", de Beethoven.
A Gran Partita nasceu em um momento em que a chamada Harmoniemusik vivia seu auge na Viena imperial. O imperador José II havia institucionalizado conjuntos de sopros destinados a acompanhar banquetes, celebrações e eventos públicos, estimulando uma intensa produção de arranjos operísticos e obras originais. Mozart, entretanto, foi muito além do que o gênero normalmente exigia. Em vez do habitual octeto de sopros, escreveu para treze instrumentos, distribuídos em sete movimentos que totalizam quase cinquenta minutos de música, conferindo à serenata dimensões praticamente sinfônicas e uma sofisticada unidade estrutural.
A data exata da composição permanece incerta, mas sabe-se que a obra já estava concluída em março de 1784, quando foi anunciada em um concerto beneficente do clarinetista Anton Stadler, grande amigo de Mozart e futuro destinatário do célebre Concerto para Clarinete. Um relato da época descreve o impacto causado pela execução da obra, elogiando tanto a qualidade da escrita quanto o virtuosismo dos treze instrumentistas. A grandiosidade da serenata era tamanha que provavelmente apenas parte dela foi apresentada naquela ocasião, a única execução documentada durante a vida do compositor.
Cada um dos sete movimentos revela um aspecto distinto da genialidade mozartiana. O amplo movimento inicial alterna momentos de delicada conversa entre os instrumentos e passagens de grande força coletiva, explorando sobretudo a sonoridade calorosa dos clarinetes e dos cornos di bassetto. O célebre Adagio, imortalizado também pelo filme Amadeus, permanece como um dos momentos mais sublimes já escritos para sopros: oboé, clarinete e corno di bassetto parecem dialogar como personagens de uma ópera, sustentados por uma textura orquestral de extraordinária serenidade. Os dois minuetos, a Romanze, o conjunto de variações e o vibrante rondó final demonstram a inesgotável capacidade de Mozart de combinar elegância formal, imaginação tímbrica e espontaneidade melódica.
O disco encerra-se com uma curiosidade histórica igualmente fascinante: as Oito Variações sobre "Là ci darem la mano", compostas por Beethoven a partir do famoso dueto de Don Giovanni. Na década de 1790, quando os arranjos de óperas constituíam parte importante do repertório para conjuntos de sopros, Beethoven escolheu transformar apenas esse trecho da ópera em uma refinada série de variações para dois oboés e corne inglês. Embora publicadas apenas após sua morte, elas revelam a profunda admiração do jovem Beethoven por Mozart e estabelecem um elo direto entre dois dos maiores compositores da história.
A interpretação dos músicos da Royal Concertgebouw Orchestra faz plena justiça a essa música. Sob a liderança de Alexei Ogrintchouk, o conjunto evita qualquer excesso de solenidade e privilegia a fluidez da conversação musical, característica essencial da escrita de Mozart. Cada instrumento possui personalidade própria, mas jamais perde de vista o equilíbrio coletivo, elemento que faz da Gran Partita um verdadeiro laboratório da música de câmara.
Mais de dois séculos após sua criação, a serenata continua impressionando pela modernidade de sua concepção. Ela demonstra que Mozart transformou uma forma originalmente destinada ao entretenimento em uma das maiores realizações da literatura para sopros. A Gran Partita não é apenas uma obra-prima do repertório camerístico: é uma demonstração definitiva de que, nas mãos de Mozart, até a música concebida para divertir podia alcançar a mais alta expressão artística".
Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) -
Serenade in B flat major, ’Gran Partita’, K 361/370a
01. I. Largo - Molto allegro
02. II. Menuetto - Trio I & II
03. III. Adagio
04. IV. Menuetto. Allegretto - Trio I & II
05. V. Romanze. Adagio - Allegretto - Adagio & VI. Tema con variazioni
06. Tema. Andante
07. Variation 1
08. Variation 2
09. Variation 3
10. Variation 4
11. Variation 5
12. Variation 6
13. Variation 7
Ludwig van Beethoven (1770-1827) -
Eight Variations on ‘Là ci darem la mano’
14. Thema. Andante
15. Variation I
16. Variation II
17. Variation III
18. Variation IV
19. Variation V
20. Variation VI
21. Variation VII
22. Variation VIII
Members of Concertgebouworkest
Alexei Ogrintchouk, oboé e direção
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