sábado, 31 de outubro de 2026

Jazz - Alice Coltrane (1937-2007) - Universal Consciousness (1971)

Lançado em 1971 pelo selo Impulse!, Universal Consciousness ocupa um lugar singular na trajetória de Alice Coltrane (1937–2007). Pianista, harpista, organista e compositora, a artista construiu nesse álbum uma linguagem musical na qual o jazz se aproxima de tradições espirituais indianas, da música de concerto e de experiências sonoras profundamente ligadas à improvisação. O resultado é uma obra de caráter contemplativo e, ao mesmo tempo, intenso, na qual a busca pela transcendência se manifesta tanto na composição quanto na sonoridade dos instrumentos.

O disco reúne seis faixas: “Universal Consciousness”, “Battle at Armageddon”, “Oh Allah”, “Hare Krishna”, “Sita Ram” e “The Ankh of Amen-Ra”. A diversidade dos títulos já anuncia o horizonte espiritual que orienta o trabalho. Referências ao hinduísmo, ao islamismo e à tradição egípcia convivem em um repertório que procura expressar diferentes caminhos de elevação e consciência. Não se trata, porém, de uma simples justaposição de referências religiosas: Alice Coltrane transforma essas influências em matéria musical, articulando-as por meio de uma escrita própria, marcada pela repetição, pela exploração tímbrica e pela liberdade dos músicos.

A faixa de abertura, “Universal Consciousness”, apresenta de imediato a atmosfera característica do álbum. O órgão e a harpa de Alice Coltrane estabelecem um ambiente sonoro de grande densidade, enquanto as cordas, organizadas em arranjos da própria compositora, ampliam o alcance expressivo da música. O encarte destaca a participação dos violinistas John Blair, Leroy Jenkins, Julius Brand e Joan Kalisch, além de Jimmy Garrison no contrabaixo e Jack DeJohnette na bateria. A combinação desses instrumentos produz uma sonoridade que ultrapassa as convenções mais habituais do jazz, aproximando o conjunto de uma experiência orquestral e meditativa.

Em “Battle at Armageddon”, a música assume um caráter mais dramático. A presença da bateria de Rashied Ali, ao lado de DeJohnette, intensifica a pulsação e confere à faixa uma energia quase ritualística. O texto do encarte associa a composição à ideia de um conflito espiritual permanente, no qual forças opostas disputam o destino da humanidade. A batalha, nesse contexto, não deve ser entendida apenas como confronto exterior, mas também como representação das tensões interiores que acompanham a busca por purificação e iluminação.

Em contraste, “Oh Allah” apresenta uma atmosfera de recolhimento e devoção. A composição expressa a procura por harmonia e pela união com o divino, enquanto “Hare Krishna” e “Sita Ram” aproximam o álbum de cânticos tradicionais indianos. Alice Coltrane adaptou essas melodias para o conjunto instrumental, preservando sua dimensão religiosa e, simultaneamente, incorporando-as à linguagem musical do jazz. O uso de fórmulas repetitivas e de estruturas de caráter contemplativo favorece a construção de uma experiência de escuta que se aproxima da oração e da meditação.

O encerramento, com “The Ankh of Amen-Ra”, retoma o universo simbólico da espiritualidade e da tradição egípcia. O título faz referência ao ankh, símbolo associado à vida, e a Amen-Ra, divindade relacionada ao antigo Egito. A peça integra o percurso espiritual proposto pelo álbum, no qual diferentes tradições são aproximadas pela busca de uma dimensão universal da existência.

A gravação contou com a produção de Alice Coltrane e Ed Michel e foi realizada em Nova York, em abril de 1971. Além de tocar órgão e harpa, a artista assumiu a responsabilidade pelos arranjos de cordas, demonstrando o controle que exercia sobre os diferentes elementos da concepção musical. A participação de Ornette Coleman na transcrição do arranjo de cordas também merece destaque, assim como a presença de músicos associados a diferentes vertentes do jazz de vanguarda.

Mais do que um registro de jazz experimental, Universal Consciousness representa uma etapa importante da pesquisa artística e espiritual de Alice Coltrane. A compositora amplia as fronteiras do gênero ao incorporar elementos de tradições religiosas e explorar uma sonoridade que valoriza tanto a liberdade improvisatória quanto a organização cuidadosa dos timbres. Em suas seis faixas, o álbum propõe uma experiência musical que não se limita ao entretenimento: convida à contemplação, à reflexão e à percepção da música como caminho de busca interior.

Uma boa apreciação!

01. Universal Consciousness (05:06)
02. Battle at Armageddon (07:20)
03. Oh Allah (05:00)
04. Hare Krishna (08:14)
05. Sita Ram (04:47)
06. The Ankh of Amen-Ra (06:09) 

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Sergei Prokofiev (1891-1953) - Romeo and Juliet, Op. 64

No contexto das celebrações pelos 17 anos de Gustavo Dudamel à frente da Filarmônica de Los Angeles (LA Phil), como diretor musical e artístico, o selo Deutsche Grammophon anuncia o lançamento de uma edição que reúne a música orquestral completa de Romeu e Julieta, de Sergei Prokofiev.

A partitura, concebida originalmente para o balé inspirado na tragédia de William Shakespeare, destaca-se pela escrita ousada e evocativa do compositor russo. Com sua riqueza de atmosferas e força dramática, a música de Prokofiev oferece uma leitura sonora intensa da história dos jovens amantes de Verona.

O lançamento também se insere no percurso artístico de Dudamel à frente da orquestra norte-americana, celebrando uma parceria de 17 anos marcada pela presença do maestro no cenário musical internacional.

Uma boa apreciação!  

Sergei Prokofiev (1891-1953) - 

01 No. 1, Introduction
02 No. 2, Romeo
03 No. 3, The Street Awakens
04 No. 4, Morning Dance
05 No. 5, The Quarrel
06 No. 6, The Fight
07 No. 7, The Duke's Command
08 No. 8, Interlude
09 No. 9, At the Capulets' (Preparations for the Ball)
10 No. 10, The Young Juliet
11 No. 11, Arrival of the Guests (Minuet)
12 No. 12, Masks
13 No. 13, Dance of the Knights
14 No. 14, Juliet's Variation
15 No. 15, Mercutio
16 No. 16, Madrigal
17 No. 17, Tybalt Recognizes Romeo
18 No. 18, Gavotte. Departure of the Guests
19 No. 19, Balcony Scene
20 No. 20, Romeo's Variation
21 No. 21, Love Dance
22 No. 22, Folk Dance
23 No. 23, Romeo and Mercutio
24 No. 24, Dance of the Five Couples
25 No. 25, Dance with Mandolins
26 No. 26, Nurse
27 No. 27, The Nurse and Romeo
28 No. 28, Romeo at Friar Laurence's
29 No. 29, Juliet at Friar Laurence's
30 No. 30, Public Merrymaking
31 No. 31, Further Public Festivities
32 No. 32, Meeting of Tybalt and Mercutio
33 No. 33, The Duel
34 No. 34, Death of Mercutio
35 No. 35, Romeo Decides to Avenge Mercutio
36 No. 36, Finale
37 No. 37, Introduction
38 No. 38, Romeo and Juliet (Juliet's Bedroom)
39 No. 39, Romeo Bids Juliet Farewell
40 No. 40, Nurse
41 No. 41, Juliet Refuses to Marry Paris
42 No. 42, Juliet Alone. Adagio
43 No. 43, Interlude. Adagio
44 No. 44, At Friar Laurence's Cell
45 No. 45, Interlude. L'istesso tempo
46 No. 46, Juliet's Room
47 No. 47, Juliet Alone. Andante
48 No. 48, Aubade (Morning Serenade)
49 No. 49, Dance of the Girls with Lilies
50 No. 50, At Juliet's Bedside
51 No. 51, Juliet's Funeral
52 No. 52, Death of Juliet

Los Angeles Philharmonic

Gustavo Dudamel, regente 

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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Anton Bruckner (1824-1896) - Symphony No. 3 in D Minor e Adagio 1876

Apesar dos inúmeros obstáculos enfrentados ao longo de sua trajetória, a música de Anton Bruckner prevaleceu. Sua busca incessante pela forma e pela perfeição não era apenas uma preocupação estética, mas a expressão de uma convicção artística profunda, quase um chamado interior. Para o compositor austríaco, a criação musical representava uma missão à qual se dedicou com perseverança.

Assim como Ludwig van Beethoven, Bruckner aspirava ao ideal de uma música absoluta: uma linguagem sonora que ultrapassasse a simples expressão de sentimentos e emoções e fosse capaz de afirmar sua própria existência por meio de sua estrutura e de sua força intrínseca. Nesse universo, a música não precisa recorrer a elementos externos para justificar seu significado; ela encontra em si mesma os fundamentos de sua expressão.

A Sinfonia nº 3, em particular, constitui um testemunho impressionante dessa busca. Conhecida pela marcante entrada do tema apresentado pelo trompete — referência à célebre indicação de que “o trompete introduz o tema” —, a obra sintetiza a dimensão monumental e a aspiração artística de Bruckner.

Ainda hoje, a Terceira Sinfonia conserva sua capacidade de comover o ouvinte. Sua força, sua dimensão atemporal e sua sinceridade artística revelam a permanência de uma concepção musical que encontrou na busca pela perfeição formal não apenas um ideal estético, mas uma verdadeira razão de existir.

Uma boa apreciação! 

Anton Bruckner (1824-1896) - 

01. Bruckner: Symphony No. 3 in D Minor: I. Gemäßigt, mehr bewegt, misterioso
02. Bruckner: Symphony No. 3 in D Minor: II. Andante. Bewegt, feierlich, quasi Adagio
03. Bruckner: Symphony No. 3 in D Minor: III. Scherzo. Ziemlich scnell - Trio.
04. Bruckner: Symphony No. 3 in D Minor: IV. Finale. Allegro
05. Bruckner: Adagio 1876

Philharmonie Festiva
Gerd Schaller, regente 

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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Sergei Rachmaninov (1873-1943) - The Transcriptions

 

As transcrições para piano ocupam um lugar importante na trajetória de Sergei Rachmaninov (1873–1943), pianista virtuoso e compositor cuja escrita se distingue pela riqueza melódica, pela amplitude expressiva e pelo domínio das possibilidades do instrumento. No álbum Rachmaninov: The Transcriptions, lançado pelo selo Hyperion, o pianista britânico Howard Shelley reúne quinze peças que revelam diferentes aspectos dessa atividade criativa. Gravado em fevereiro de 1991, o disco percorre obras de compositores como Rimsky-Korsakov, Kreisler, Bizet, Schubert, Mussorgsky, Bach, Mendelssohn, Tchaikovsky e Behr, além de composições do próprio Rachmaninov. O resultado é um panorama da transcrição como forma de interpretação, recriação e homenagem musical.

A relação de Rachmaninov com esse gênero remonta à sua formação musical. Quando criança, ele tocava transcrições a quatro mãos com o avô e, posteriormente, executava arranjos para dois pianos como parte de seus estudos no Conservatório de Moscou. Essas experiências contribuíram para que considerasse a transcrição uma prática legítima da atividade musical, e não apenas um exercício de adaptação. Ao transferir para o piano obras originalmente concebidas para orquestra, voz ou outros instrumentos, o compositor explorava novas possibilidades sonoras e ampliava o acesso a repertórios que, naquela época, nem sempre estavam disponíveis por meio de gravações.

O encarte também mostra que a fronteira entre transcrição e composição nem sempre é nítida na produção de Rachmaninov. Em alguns casos, ele trabalhava diretamente sobre obras de outros autores; em outros, suas versões apresentavam modificações harmônicas, melódicas e estruturais que conferiam ao material original uma identidade própria. O exemplo do Minueto, da Suíte nº 1 de L’Arlésienne, de Georges Bizet, é particularmente ilustrativo: a transcrição de Rachmaninov, publicada em 1923, difere de uma versão anterior, elaborada em 1900. As alterações mostram como o compositor revisava suas próprias soluções e transformava o processo de adaptação em uma oportunidade de experimentação artística.

O repertório selecionado oferece uma amostra expressiva dessa diversidade. A abertura com O voo do besouro, de Nikolai Rimsky-Korsakov, coloca em evidência a agilidade e a precisão exigidas do pianista para reproduzir a velocidade e a movimentação contínua associadas à peça original. Já Liebesleid, de Fritz Kreisler, conduz a escuta a uma atmosfera mais intimista, na qual o lirismo e a sutileza expressiva ocupam o primeiro plano. A seleção inclui ainda o Minueto de Bizet, Wohin?, de Schubert, o Hopak, de Mussorgsky, e três peças de Bach extraídas da Partita para violino em mi maior: Prelúdio, Gavota e Giga. Ao reunir estilos e períodos tão diferentes, o programa evidencia a capacidade do piano de assumir funções variadas, da exibição virtuosística à expressão delicada.

As transcrições de obras do próprio Rachmaninov acrescentam outra dimensão ao álbum. Daisies, Op. 38 nº 3, e Lilacs, Op. 21 nº 5, nasceram no universo de suas canções e miniaturas vocais, cuja força reside em melodias de grande apelo expressivo. Ao transferi-las para o piano, o compositor preserva o caráter cantabile, mas explora os recursos do instrumento para ampliar a ressonância e a riqueza harmônica. A versão de Vocalise, Op. 34 nº 14, encerra o programa com uma das melodias mais conhecidas de sua produção. A obra, originalmente escrita sem palavras para voz, adquire no piano uma nova dimensão, sustentada pela continuidade da linha melódica e pela expressividade da escrita.

A trajetória dessas peças também acompanha momentos decisivos da vida do compositor. Depois da Revolução Russa de 1917, Rachmaninov deixou seu país e se estabeleceu nos Estados Unidos, onde retomou a carreira como pianista e passou a gravar para a Victor. O encarte destaca que, ao longo dos anos, suas transcrições continuaram a fazer parte de seu repertório público, ao lado de obras originais. Algumas versões foram registradas em disco apenas décadas depois, enquanto outras permaneceram menos conhecidas. Esse conjunto documenta, portanto, não apenas a habilidade de Rachmaninov como arranjador, mas também sua relação pessoal com obras que admirava e que incorporava à própria linguagem pianística.

Howard Shelley, responsável pela interpretação, construiu uma carreira que combina a atuação como pianista e maestro. Neste registro, sua tarefa é evidenciar a variedade de estilos sem perder a unidade do programa: a clareza necessária às passagens rápidas, o controle das vozes internas e a sensibilidade para sustentar as linhas melódicas são aspectos fundamentais desse repertório. A gravação, realizada em Londres em 1991, integra um projeto mais amplo de Shelley dedicado à música para piano de Rachmaninov, cujo objetivo é apresentar uma visão abrangente da produção do compositor para o instrumento.

Mais do que uma coleção de arranjos, The Transcriptions revela uma faceta essencial de Rachmaninov: a de um músico capaz de reconhecer o potencial de uma obra e reinventá-la a partir das possibilidades do piano. Entre o virtuosismo de Rimsky-Korsakov, a elegância de Kreisler, a expressividade de Schubert e a intensidade melódica de suas próprias composições, o álbum mostra que transcrever não significa simplesmente reproduzir uma música em outro instrumento. Nas mãos de Rachmaninov, a transcrição torna-se um ato de interpretação criativa, no qual a obra de partida é preservada e, ao mesmo tempo, iluminada por uma nova perspectiva sonora.

Uma boa apreciação! 

Sergei Rachmaninov (1873-1943) - 

01 The Flight Of The Bumblebee
02 Liebesleid
03 Minuet, From 'L' Arlesienne' Suite No. 1
04 Wohin
05 Hopak
06 Prelude, From Violin Partita In E Major
07 Gavotte, From Violin Partita In E Major
08 Gigue, From Violin Partita In E Major
09 Daisies, Op. 38 No. 3
10 Scherzo, From 'A Midsummer Nights'S Dream'
11 Lilacs, Op. 21 No. 5
12 Polka De V R
13 Lullaby, Op. 16 No. 1
14 Liebesfreud
15 Vocalise, Op. 34 No. 14

Howard Shelley, piano 

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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Frédéric Chopin (1810-1849) - Piano Concerto No. 1 in E Minor, Op. 11 e Piano Concerto No. 2 in F Minor, Op. 21

Os concertos para piano de Frédéric Chopin representam uma combinação singular de virtuosismo e expressividade emocional. Nesta gravação, o pianista Christian Zacharias confere vida aos momentos mais íntimos e exuberantes das obras, com uma interpretação marcada pela sensibilidade e pelo refinamento. A profundidade lírica e as nuances poéticas de cada movimento constituem os principais atrativos deste registro.

Gravada na histórica Salle Métropole, a edição se beneficia da reconhecida atenção da MDG à qualidade sonora. Remasterizado e remixado para o formato Super Audio, o material apresenta clareza, profundidade e precisão espacial, proporcionando uma experiência auditiva envolvente e natural. O resultado procura preservar tanto a riqueza dos detalhes instrumentais quanto a sensação de proximidade com a execução, conciliando a excelência técnica com a permanência artística da música.

A parceria de longa data entre Zacharias e a Orchestre de Chambre de Lausanne é outro elemento de destaque. A orquestra oferece acompanhamento atento e equilibrado, sem ofuscar o protagonismo do piano. Essa sintonia entre solista e conjunto favorece o desenvolvimento das ideias musicais e transforma as passagens mais virtuosísticas e líricas em um diálogo expressivo, no qual os contrastes e as sutilezas da escrita de Chopin encontram espaço para florescer.

Registrada originalmente em 2003, a gravação preserva o frescor e o brilho das sessões originais. A nova edição integra a série Preziosa, da MDG, e reúne qualidade interpretativa, interesse histórico e apuro técnico. Trata-se de um lançamento especialmente atraente para colecionadores, audiófilos e apreciadores da música clássica, interessados em redescobrir os concertos de Chopin por meio de uma interpretação sensível e de uma apresentação sonora cuidadosamente trabalhada.

Uma boa apreciação! 

Frédéric Chopin (1810-1849) - 

01. Piano Concerto No. 1 in E Minor, Op. 11: I. Allegro maestoso
02. Piano Concerto No. 1 in E Minor, Op. 11: II. Romanze. Larghetto
03. Piano Concerto No. 1 in E Minor, Op. 11: III. Rondo. Vivace
04. Piano Concerto No. 2 in F Minor, Op. 21: I. Maestoso
05. Piano Concerto No. 2 in F Minor, Op. 21: II. Larghetto
06. Piano Concerto No. 2 in F Minor, Op. 21: III. Allegro vivace

Orchestre De Chambre De Lausanne
Christian Zacharias, regência e piano 

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terça-feira, 27 de outubro de 2026

Max Bruch (1838-1920) - Violin Concerto No. 2 in D Minor, Op. 44 e Violin Concerto No. 3 in D Minor, Op. 58

Este álbum lançado pelo selo Naxos reúne os Concertos para Violino nº 2, em ré menor, Op. 44, e nº 3, também em ré menor, Op. 58, interpretados pelo violinista russo Maxim Fedotov, acompanhado pela Russian Philharmonic Orchestra, sob a regência de Dmitry Yablonsky. Gravadas em Moscou, em maio de 2005, as obras permitem conhecer duas abordagens distintas do gênero concertante, ambas marcadas pelo lirismo melódico e pela escrita virtuosística característica de Bruch.

Nascido em Colônia, na Alemanha, Bruch estudou com Ferdinand Hiller e Carl Reinecke e construiu uma carreira que, durante parte do século XIX, esteve associada não apenas à música instrumental, mas também a grandes obras corais. Entre 1870 e 1900, composições como Odysseus, Frithjof e Das Lied von der Glocke contribuíram para sua reputação. Com o passar do tempo, porém, o sucesso do primeiro concerto para violino acabou ofuscando boa parte dessa produção. O segundo concerto, dedicado ao virtuose espanhol Pablo de Sarasate, foi apresentado pela primeira vez em Londres, em 1877, com o próprio violinista como solista e Bruch na regência.

O Concerto para Violino nº 2 em ré menor, Op. 44, distingue-se pela estrutura pouco convencional. Em vez de começar com um movimento rápido, abre com um Adagio ma non troppo de caráter rapsódico, no qual o violino desenvolve melodias expressivas e de grande intensidade lírica. A obra teria sido concebida a partir de uma ideia dramática associada às guerras carlistas na Espanha: um campo de batalha após o combate, uma mulher à procura do amado e, por fim, uma marcha fúnebre. Essa leitura ajuda a compreender a atmosfera sombria e narrativa do primeiro movimento, no qual sentimentos de perda e sofrimento convivem com momentos de serenidade.

O segundo movimento, um Recitativo: Allegro moderato, estabelece uma passagem dramática entre a introdução e o final. A linha do violino solo assume um caráter quase declamatório, enquanto a orquestra amplia a tensão e impulsiona a música para o movimento conclusivo. No Finale: Allegro molto, a escrita ganha velocidade e energia rítmica, oferecendo ao solista oportunidades para demonstrar agilidade técnica e domínio expressivo. A conclusão brilhante contrasta com o caráter introspectivo da abertura e confirma a habilidade de Bruch para articular lirismo e virtuosismo em uma estrutura de forte unidade dramática.

Concluído em 1891, o Concerto para Violino nº 3 em ré menor, Op. 58, apresenta uma organização mais próxima do modelo tradicional do gênero. Dedicada a Joseph Joachim, a obra contou com a orientação desse importante violinista na elaboração da parte solista. O primeiro movimento, Allegro energico, começa com uma exposição orquestral que estabelece os temas principais antes da entrada do violino, cuja participação combina vigor, amplitude melódica e exigências técnicas. Em comparação com o segundo concerto, a construção é mais convencional, mas não menos exigente para o intérprete.

O movimento central, Adagio, coloca em evidência a dimensão lírica da obra. Depois da energia do primeiro movimento, o violino assume o protagonismo com uma melodia ampla e expressiva, acompanhada pela orquestra em uma atmosfera de maior tranquilidade. O final, Allegro molto, é um rondó impulsionado por um tema em tercinas e por ritmos orquestrais acentuados. Episódios contrastantes, passagens de grande virtuosismo e o retorno do tema principal conduzem a música a uma conclusão triunfante. Apesar de suas exigências técnicas e de sua riqueza musical, o terceiro concerto permanece menos conhecido do que o primeiro, como observa o texto do encarte.

A interpretação de Maxim Fedotov encontra respaldo em uma trajetória dedicada ao repertório violinístico. Reconhecido em concursos internacionais, entre eles o Concurso Internacional Tchaikovsky, Fedotov apresentou-se em importantes salas de concerto na Rússia, na Europa e no Japão. A Russian Philharmonic Orchestra, por sua vez, reúne músicos provenientes de importantes conjuntos russos e desenvolveu atividades tanto em estúdio quanto em apresentações públicas. A regência está a cargo de Dmitry Yablonsky, músico formado inicialmente como violoncelista, que também construiu uma carreira internacional como maestro e gravou numerosas obras para diferentes selos.

Ao colocar lado a lado os dois concertos, o álbum oferece mais do que uma oportunidade de revisitar o universo romântico de Bruch: permite perceber como o compositor explora diferentes possibilidades expressivas dentro de um mesmo gênero. O segundo concerto privilegia a continuidade dramática e a liberdade rapsódica; o terceiro se apoia em uma arquitetura mais convencional, sem abrir mão da intensidade melódica e do brilho instrumental. Juntas, as obras ajudam a ampliar a compreensão de um compositor cuja produção foi reduzida, no imaginário do público, à popularidade de uma única partitura.

Uma boa apreciação! 

Max Bruch (1838-1920) - 

01. Violin Concerto No. 2 in D Minor, Op. 44 - I. Adagio ma non troppo
02. Violin Concerto No. 2 in D Minor, Op. 44 - II. Recitativo. Allegro moderato
03. Violin Concerto No. 2 in D Minor, Op. 44 - III. Finale. Allegro molto
04. Violin Concerto No. 3 in D Minor, Op. 58 - I. Allegro energico
05. Violin Concerto No. 3 in D Minor, Op. 58 - II. Adagio
06. Violin Concerto No. 3 in D Minor, Op. 58 - III. Finale. Allegro molto

Russia Philharmonic Orchestra
Dmitry Yablonsky, regente
Maxim Fedotov, violino 

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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Jazz - Alice Coltrane (1937-2007) - Ptah, The El Daoud (1970)

Lançado em 1970 pelo selo Impulse!, Ptah, the El Daoud, de Alice Coltrane (1937–2007), é um álbum que evidencia a busca da pianista, harpista e compositora por uma linguagem musical em que o jazz se aproxima da espiritualidade, da contemplação e da experimentação sonora. Gravado em Nova York, o disco reúne quatro composições de sua autoria e conta com um grupo de músicos de destaque, entre eles Pharoah Sanders e Joe Henderson, nos saxofones, Ron Carter, no contrabaixo, e Ben Riley, na bateria. A própria Alice Coltrane assume o piano e a harpa, além de tocar sinos. O resultado é uma música que combina improvisação, rigor na organização dos materiais e uma atmosfera de intensa concentração.

A trajetória artística de Alice esteve profundamente ligada à de seu marido, o saxofonista John Coltrane, uma das figuras centrais da renovação do jazz na década de 1960. Após a morte dele, em 1967, Alice aprofundou uma pesquisa musical marcada pela espiritualidade e pelo interesse por tradições filosóficas e religiosas orientais. Em Ptah, the El Daoud, essa orientação não aparece como mero elemento decorativo ou conceitual: ela se manifesta na própria construção da música, na repetição de motivos, no desenvolvimento dos improvisos e na maneira como os instrumentos se relacionam. O álbum sugere um universo em que a experiência sonora se transforma em caminho de introspecção e busca de transcendência.

A faixa que dá título ao disco abre o programa com uma interação expressiva entre o contrabaixo de Ron Carter, a bateria de Ben Riley e as linhas dos saxofones. O encadeamento dos motivos e a presença marcante da seção rítmica criam uma base sobre a qual os solistas desenvolvem suas ideias. Pharoah Sanders e Joe Henderson apresentam abordagens contrastantes: o primeiro explora uma expressividade mais visceral, enquanto o segundo privilegia uma construção intelectual e abstrata. Essa oposição não fragmenta a composição; ao contrário, amplia suas possibilidades e confere profundidade ao diálogo musical.

Em Turiya & Ramakrishna, Alice Coltrane conduz a música para uma atmosfera contemplativa. O título faz referência a conceitos e figuras associados à espiritualidade hindu: turiya designa um estado de consciência que ultrapassa as condições ordinárias da experiência, enquanto Ramakrishna foi um mestre religioso indiano do século XIX. A composição apresenta uma sonoridade delicada, organizada em torno de uma linha melódica simples, cujas notas adquirem significados expressivos por meio das variações e dos ornamentos. O resultado é uma música de caráter meditativo, na qual a simplicidade aparente convive com uma elaborada construção instrumental.

Blue Nile mantém o caráter introspectivo, mas evidencia outras possibilidades de combinação entre os instrumentos. O contrabaixo e a bateria sustentam o fluxo musical sem restringir a liberdade dos solistas, enquanto os saxofones exploram diferentes intensidades e direções melódicas. A participação de Alice Coltrane amplia a paleta sonora do conjunto, aproximando o piano e a harpa de uma concepção musical que não depende exclusivamente do virtuosismo individual. O efeito é o de uma textura em permanente transformação, na qual cada instrumento contribui para a construção de um ambiente comum.

O álbum chega ao seu ponto mais extenso com Mantra, composição de 16 minutos que retoma a dimensão espiritual sugerida pelo título. A palavra remete a uma fórmula ou oração repetida como parte de uma prática meditativa. Na interpretação, a repetição e a expansão dos materiais musicais favorecem a concentração, enquanto os improvisos prolongam a experiência sonora sem a necessidade de uma narrativa convencional. A música parece avançar por estados sucessivos de intensidade e repouso, valorizando tanto o que é explicitamente executado quanto aquilo que surge das relações entre os instrumentos.

Em Ptah, the El Daoud, Alice Coltrane demonstra que o jazz pode ser, simultaneamente, espaço de liberdade improvisatória, investigação tímbrica e expressão de uma visão espiritual do mundo. A personalidade dos solistas permanece evidente, mas a música não se reduz a uma sucessão de demonstrações individuais: o sentido do álbum emerge da interação entre os músicos e da coerência que une suas quatro faixas. Mais do que um registro de jazz de vanguarda, a gravação constitui um testemunho da busca artística de Alice Coltrane por uma sonoridade capaz de aproximar criação musical, contemplação e experiência interior.

Uma boa apreciação! 

Alice Coltrane (1937-2007) - 

01. Ptah, The El Daoud
02. Turiya & Ramakrishna
03. Blue Nile
04. Mantra

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Brazilian Music for Chamber Orchestra - Carlos Gomes, Francisco Braga, Alberto Nepomuceno e Leopoldo Miguéz

O álbum Serenata – Brazilian Music for Chamber Orchestra, lançado pelo selo Naxos, apresenta um panorama da música orquestral brasileira do século XIX e do início do século XX por meio de obras de Antônio Carlos Gomes (1836–1896), Alberto Nepomuceno (1864–1920), Francisco Braga (1868–1945) e Leopoldo Miguéz (1850–1902). Interpretado pela English Chamber Orchestra sob a regência de Neil Thomson, o disco integra a série The Music of Brazil, iniciativa vinculada ao projeto Brasil em Concerto, promovido pelo Ministério das Relações Exteriores. A proposta é ampliar o conhecimento internacional sobre a produção musical brasileira, recuperando partituras historicamente relevantes, algumas das quais tiveram circulação restrita ou receberam suas primeiras gravações.

O repertório reúne composições que revelam diferentes maneiras de dialogar com as correntes estéticas europeias. Durante o século XIX, a criação de conservatórios, academias e sociedades musicais contribuiu para o desenvolvimento da vida concertística no Brasil. As bolsas de estudo concedidas pelo Estado também possibilitaram que compositores brasileiros aperfeiçoassem sua formação na Europa, onde entraram em contato com tendências que influenciariam suas obras. Entretanto, a produção desse período não se limita à imitação de modelos estrangeiros: a variedade de linguagens presente no álbum evidencia escolhas individuais e diferentes formas de apropriação da tradição musical europeia.

A participação de Antônio Carlos Gomes é representada pela Sonata para cordas, composta em Milão, em 1894. Conhecido internacionalmente por sua produção operística, sobretudo por Il Guarany, o compositor demonstra aqui sua capacidade de trabalhar com a música instrumental sem recorrer diretamente ao universo dramático da ópera. A obra possui quatro movimentos e apresenta uma organização pouco convencional: o Allegro scherzoso antecede o movimento lento, enquanto o finale recebe o subtítulo O burrico de pau, referência a uma brincadeira infantil em que as crianças simulam cavalgar. Gomes traduz essa imagem por meio de ostinatos rítmicos, pizzicatos e do recurso col legno, no qual os instrumentistas utilizam a madeira do arco para produzir o som. O resultado combina domínio técnico, imaginação e elementos de caráter descritivo.

Alberto Nepomuceno aparece com duas composições distintas: a Suíte Antiga, op. 11, originalmente escrita para piano em 1893, e a Serenata, de 1902. A primeira revela o interesse do compositor pelas danças de períodos anteriores, reinterpretadas segundo a sensibilidade romântica. Sua amizade com o norueguês Edvard Grieg ajuda a compreender o ambiente artístico em que a obra foi concebida. Escrita em Bergen, a suíte estreou em um encontro musical na residência de Grieg; no ano seguinte, Nepomuceno transpôs três de seus quatro movimentos para cordas, versão apresentada pela Filarmônica de Berlim. A composição aproxima formas antigas de uma linguagem expressiva mais moderna, mostrando como o passado podia servir de matéria para novas experiências musicais.

A Serenata, por sua vez, é uma obra em movimento único, composta em Petrópolis. Sua primeira seção apresenta uma melodia leve e graciosa nos violinos, sustentada pelo acompanhamento em pizzicato. Em seguida, o caráter se torna mais dramático, antes que uma breve transição conduza ao retorno do material inicial. Essa estrutura cria um contraste expressivo sem abandonar a unidade da composição. A escrita de Nepomuceno evidencia sua afinidade com formas líricas e sua habilidade para construir uma narrativa musical concisa, na qual a transformação do ambiente sonoro é tão importante quanto o retorno ao ponto de partida.

Francisco Braga está representado pelo Madrigal-Pavana, de 1901, peça cujo título combina duas tradições: o madrigal, forma de origem vocal marcada pelo lirismo, e a pavana, dança de andamento moderado e passos pausados. A junção dessas referências evoca o ambiente dos salões de dança do Rio de Janeiro durante a Belle Époque. A obra também ilustra a influência francesa na formação estética de Braga, que estudou composição com Jules Massenet no Conservatório de Paris. Sua trajetória, assim como a de outros compositores brasileiros do período, demonstra a importância dos intercâmbios internacionais para a consolidação da música de concerto no país.

Leopoldo Miguéz completa o programa com a Suíte à Antiga, op. 25, de 1893. Embora utilize uma orquestra de dimensões consideráveis, com madeiras, metais, tímpanos e cordas, a obra evita a retórica grandiosa de alguns de seus poemas sinfônicos. No Prelúdio, predominam as texturas polifônicas e os procedimentos imitativos. A Sarabanda restringe a participação às cordas, criando uma atmosfera austera; a Gavota recupera o conjunto orquestral e introduz maior fluidez rítmica. Na Ária, um solo melancólico de oboé ganha destaque, enquanto o Double apresenta uma versão variada da mesma música, agora com a flauta em evidência. A Giga encerra a suíte com o tratamento fugado de seu tema. O percurso revela a habilidade de Miguéz para reinterpretar danças antigas com recursos de composição e orquestração próprios do romantismo.

A reunião dessas obras permite compreender o romantismo brasileiro como um campo de experiências mais diversificado do que sugerem as classificações estéticas tradicionais. Carlos Gomes, Nepomuceno, Braga e Miguéz estabeleceram relações distintas com as tradições italiana, alemã e francesa, adaptando-as às próprias concepções artísticas. Ao recuperar esse repertório, Serenata também desempenha uma função histórica: amplia a presença internacional de compositores brasileiros e contribui para que obras menos conhecidas voltem a integrar a vida musical. Sob a direção de Neil Thomson, a English Chamber Orchestra oferece ao público a oportunidade de descobrir uma produção que ultrapassa os nomes e gêneros mais consagrados, revelando a riqueza da criação instrumental brasileira na passagem do século XIX para o XX.

Uma boa apreciação!

01 - I. Allegro animato
02 - II. Allegro scherzoso
03 - III. Largo
04 - IV. Vivace
05 - Madrigal-pavana
06 - I. Minuet
07 - II. Air
08 - III. Rigaudon
09 - Serenata, SN6.13
10 - I. Prelúdio
11 - II. Sarabanda
12 - III. Gavota
13 - IV. Ária e double
14 - V. Giga

English Chamber Orchestra
Neil Thomson, regente 

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