O repertório sinfônico norte-americano do século XX encontrou em George Gershwin (1898–1937) e Ferde Grofé (1892–1972) dois compositores capazes de aproximar a música de concerto da linguagem popular. Essa afinidade está no centro do álbum que reúne Porgy and Bess — A Symphonic Picture, de Gershwin, na orquestração de Robert Russell Bennett, e a Grand Canyon Suite, de Grofé. Interpretadas pela Detroit Symphony Orchestra sob a regência de Antal Doráti, as obras revelam diferentes maneiras de incorporar elementos do jazz, do teatro musical e da cultura americana à escrita orquestral.
A relação entre os dois compositores remonta a 1920, quando Grofé, então pianista e arranjador, ingressou na orquestra de Paul Whiteman. O conjunto teve papel pioneiro na divulgação do chamado jazz orquestrado, cuja realização mais célebre seria a Rhapsody in Blue, de Gershwin, estreada em 1924. A orquestração dessa obra, contudo, foi realizada por Grofé, e não pelo próprio Gershwin. Whiteman incentivou Grofé a desenvolver também suas composições, e foi com a versão inicial da Grand Canyon Suite, apresentada em Chicago em 1931, que o arranjador começou a consolidar sua presença no repertório sinfônico americano. Fonte: encarte do álbum, pp. 3–4.
A trajetória de Grofé ajuda a compreender a natureza da Grand Canyon Suite. Inicialmente escrita para uma pequena formação, a obra foi posteriormente ampliada para uma orquestra sinfônica convencional. Essa versão consolidou-se rapidamente no repertório americano de música orquestral ligeira, combinando melodias líricas, cores instrumentais vivas e imagens sonoras de apelo imediato. Para o compositor, a intenção não era reproduzir a natureza de maneira estritamente documental, mas apresentar uma visão romantizada e idealizada do Oeste americano, com recursos que também evocam a linguagem cinematográfica.
Dividida em cinco movimentos, a suíte conduz o ouvinte por diferentes impressões da paisagem do Grand Canyon. Sunrise retrata o nascer do sol; Painted Desert sugere as cores e a amplitude do deserto; On the Trail acompanha uma jornada pela região; Sunset apresenta uma atmosfera mais contemplativa; e Cloudburst encerra a obra com uma tempestade de grande intensidade orquestral. A variedade de timbres desempenha papel central nessa narrativa: em On the Trail, a celesta evoca o som de sinos, enquanto os chamados de trompa em Sunset parecem ecoar à distância. No movimento final, o tema amplo das cordas se combina com a melodia de caráter cowboy apresentada pelos metais, sob a presença insistente dos instrumentos de madeira, que sugerem os ruídos da tempestade. O resultado é um clímax espetacular, que alia força dramática e imaginação descritiva.
A segunda obra do programa, Porgy and Bess — A Symphonic Picture, estabelece uma ligação direta com o teatro musical. A ópera de Gershwin, que retrata a vida de uma comunidade negra fictícia em Charleston, na Carolina do Sul, tornou-se uma de suas criações mais conhecidas. Para a versão sinfônica apresentada no álbum, a música foi organizada e orquestrada por Robert Russell Bennett (1894–1981), compositor e arranjador que teve carreira destacada na Broadway e em Hollywood. Bennett já havia colaborado com Gershwin e conhecia profundamente sua linguagem musical, o que contribuiu para que a seleção de episódios da ópera adquirisse unidade e equilíbrio em uma formação orquestral ampliada.
A versão de Bennett foi preparada em 1941–1942 para a Orquestra Sinfônica de Pittsburgh, a pedido de seu regente, Fritz Reiner. Embora outras sínteses sinfônicas da ópera tenham sido realizadas, inclusive pelo próprio Gershwin, a de Bennett tornou-se a mais frequentemente executada. Seu trabalho não se limitou a transferir para a orquestra os números da ópera: ele reorganizou a sucessão de episódios musicais, procurando produzir uma audição equilibrada e uma trajetória coerente.
A presença conjunta dessas duas partituras evidencia a diversidade da música orquestral americana. Gershwin transforma elementos do jazz e do teatro musical em linguagem sinfônica, enquanto Grofé desenvolve uma escrita voltada à evocação de paisagens, atmosferas e acontecimentos. Em ambos, a orquestra funciona como espaço de síntese entre diferentes tradições musicais, sem abandonar o apelo melódico e a comunicação direta com o público.
Sob a regência de Antal Doráti, a Detroit Symphony Orchestra reúne essas perspectivas em um programa que percorre tanto o universo dramático de Porgy and Bess quanto as imagens sonoras da Grand Canyon Suite. O álbum oferece, assim, um retrato expressivo de uma vertente da música americana do século XX: aquela que aproxima o concerto sinfônico do jazz, do teatro e da narrativa musical, revelando como a linguagem orquestral pode traduzir a identidade cultural de um país em plena transformação.
Uma boa apreciação!
01. 01 Gershwin_ Porgy & Bess
02. Grofé_ Grand Canyon Suite - 1. Sunrise
03. Grofé_ Grand Canyon Suite - 2. Painted Desert
04. Grofé_ Grand Canyon Suite - 3. On The Trail
05. Grofé_ Grand Canyon Suite - 4. Sunset
06. Grofé_ Grand Canyon Suite - 5. Cloudburst
Detroit Symphony Orchestra
Antal Dorati, regente
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