quinta-feira, 16 de julho de 2026

Johannes Brahms (1833-1897) - Symphony No. 2 in D Major, Op. 73, Symphony No. 3 in F Major, Op. 90 e Tragic Overture, Op. 81

É curioso que Brahms tenha levado quinze anos para escrever a sua monumental Primeira Sinfonia. Ele parecia saber que, após Beethoven, escrever uma sinfonia era um gesto por demasia excessivo. Demandava uma responsabilidade incomensurável. Por sua, a escrita da Segunda para a Terceira teve um intervalo de apenas seis anos. Olhando de fora parece um tempo excessivo, todavia, quando falamos de Brahms, é tempo curto. 

Brahms era um compositor meticuloso. Revisava. Analisava. Buscava profundidade. Sua música era absoluta. Procurava fugir das grandiloquências wagnerianas tão costumeiras em seu tempo. Ele olhava para trás e só enxergava a tradição de Bach, Haydn, Mozart e Beethoven. 

A sua Segunda Sinfonia é do ano de 1877. O trabalho nasceu após o triunfo da Primeira. rahms retirou-se para Pörtschach, às margens do lago Wörthersee, na Áustria, onde encontrou um ambiente de rara tranquilidade. O resultado foi uma obra frequentemente comparada à "Pastoral" de Beethoven, embora essa analogia diga apenas parte da verdade. Sim, a Segunda Sinfonia respira ar puro, montanhas e lagos. Mas seu lirismo nunca é ingênuo. Sob a superfície luminosa existe uma melancolia discreta, quase outonal, que impede qualquer leitura excessivamente otimista.

A Terceira é do ano de 1883. Ela é menos contemplativa do que a Segunda. É possível perceber uma camada de inquietação existencial abaixo de sua superfície. Seu discurso alterna momentos de ímpeto triunfal, com reflexões que espargem uma fragrância de resignação. 

A Abertura Trágica é do ano de 1880. Nesse mesmo período, vale lembrar que Brahms escreveu a festiva Abertura para um festival acadêmico.  A Abertura Trágica é bem diversa daquela obra. Trata-se de uma das obras orquestrais mais concentradas de Brahms. Em pouco mais de quinze minutos, o compositor constrói uma atmosfera de tensão permanente, baseada em ritmos incisivos, contrastes abruptos e uma escrita orquestral de extraordinária densidade.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Johannes Brahms (1833-1897) - 

01 - Symphony No. 2 in D Major, Op. 73_ I. Allegro non troppo
02 - Symphony No. 2 in D Major, Op. 73_ II. Adagio non troppo
03 - Symphony No. 2 in D Major, Op. 73_ III. Allegretto grazioso. Quasi andantino - Presto ma non as
04 - Symphony No. 2 in D Major, Op. 73_ IV. Allegro con spirito
05 - Symphony No. 3 in F Major, Op. 90_ I. Allegro con brio
06 - Symphony No. 3 in F Major, Op. 90_ II. Andante
07 - Symphony No. 3 in F Major, Op. 90_ III. Poco allegretto
08 - Symphony No. 3 in F Major, Op. 90_ IV. Allegro - Un poco sostenuto
09 - Tragic Overture, Op. 81

Philharmonia Orchestra
Carlo Maria Giulini, regente 

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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Michel-Richard De Lalande (1657-1726) - Leçons de Ténèbres

Celebrado por grandiosos motetos para a Capela Real de Versalhes, Michel-Richard de Lalande soube revelar extraordinária sensibilidade em obras de dimensões muito mais modestas. As Leçons de Ténèbres e o Miserere, compostos para a Semana Santa, pertencem a esse universo intimista e constituem algumas das páginas mais refinadas da música sacra francesa do período barroco.

Durante os séculos XVII e XVIII, os chamados Ofícios das Trevas (Tenebrae) ocupavam lugar singular na vida religiosa e cultural francesa. Celebrados nas noites que antecediam a Páscoa, esses ofícios combinavam profunda devoção com uma impressionante teatralidade litúrgica. À medida que os salmos e as Lamentações de Jeremias eram entoados, quinze velas eram apagadas progressivamente, simbolizando o abandono de Cristo por seus discípulos e conduzindo a igreja à escuridão quase completa. O efeito dramático transformava a cerimônia em uma experiência espiritual de rara intensidade, atraindo não apenas fiéis, mas também a elite parisiense.

Foi nesse contexto que Lalande escreveu suas Três Lições das Trevas e o Miserere para voz solo e baixo contínuo. A economia dos meios contrasta com a riqueza expressiva. Em vez do brilho orquestral de seus grandes motetos, o compositor explora uma escrita de extraordinária delicadeza, na qual a voz humana assume papel central. As longas ornamentações sobre as letras do alfabeto hebraico, que introduzem cada versículo das Lamentações de Jeremias, unem a tradição do canto gregoriano ao refinamento do chamado beau chant francês, caracterizado pela elegância declamatória e pela ornamentação extremamente elaborada.

Lalande, contudo, não se limita a seguir a tradição. Sua escrita alterna passagens de caráter recitativo com momentos de intensa elaboração melódica, utiliza contrastes expressivos cuidadosamente planejados e interrompe a narrativa com breves interlúdios instrumentais que convidam à contemplação. No Miserere, chega mesmo a reorganizar alguns versículos do Salmo 50 para ampliar seu impacto emocional, demonstrando notável liberdade criativa diante da prática litúrgica.

A gravação apresentada pela soprano Sophie Karthäuser, pelo Ensemble Correspondances e dirigida por Sébastien Daucé procura recriar precisamente esse ambiente de recolhimento e solenidade. O uso criterioso do órgão, da viola da gamba, do alaúde e do teorba restitui a sonoridade transparente que caracterizava os conventos franceses do final do século XVII, enquanto a interpretação vocal alia pureza técnica, expressividade e rara sensibilidade ao texto litúrgico.

Mais de três séculos após sua composição, as Leçons de Ténèbres continuam impressionando pela capacidade de transformar penitência em beleza artística. Nelas, Lalande demonstra que a música sacra barroca francesa não se limitava ao esplendor de Versalhes: sabia também encontrar, na simplicidade de uma única voz, uma força expressiva capaz de converter a liturgia em verdadeira experiência estética e espiritual.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Michel-Richard De Lalande (1657-1726) - 

01 O mors, ero mors tua, antiphon for Tenebrae
02 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Miserere mei Deus _ Et secundum multitudinem miserationem tuarum
03 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Amplius lava me _ Tibi soli peccavi
04 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Ecce enim in iniquitatibus _ Ecce enim veritatem dilexisti
05 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Asperges me hyssopo _ Averte faciem tuam
06 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Co mundum - Ne pojicias me
07 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Redde mihi laetitiam _ Docebo iniquos vias tuas
08 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Libera me de sanguinibus _ Quoniam si voluisses sacrificium
09 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Sacrificium Deo spiritus contribulatus _ Benigne fac Domine
10 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Tunc acceptabis
11 Tristis est anima mea, responsory
12 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Jod. Manum suam misit hostis
13 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Caph. Omnis populus ejus
14 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Vide Domine
15 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Lamed
16 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ O vos omnes
17 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Mem. De excelso
18 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Nun. Vigilavit
19 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Infirmata est
20 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Jerusalem
21 Ecce vidimus, responsory  in Mode 5
22 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Aleph. Ego vir videns
23 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Aleph. Me minavit
24 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Aleph. Tantum in me vertit
25 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Beth. Vetustam fecit
26 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Beth.Aedificavit in gyro meo
27 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Beth. In tenebrosis
28 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Ghimel. Circum aedificavit
29 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Ghimel. Sed, et cum clamavero
30 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Ghimel. Conclusit vias meas
31 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Jerusalem
32 Vinea mea electa, responsory
33 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Incipit oratio
34 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Recordare
35 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Pupili facti sumus
36 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Cervicibus nostris
37 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Lassis non dabatur
38 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Recordare
39 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Ægypto dedimus manum
40 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ In animabus nostris
41 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Pellis nostra
42 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Mulieres
43 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Jerusalem
44 Plange quasi virgo, responsory

Ensemble Correspondances 
Sébastien Daucé, diretor
Sophie Karthäuser, soprano 

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Dmitri Shostakovich (1906-1975) - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47 e Symphony No. 12 - "The Year 1917"

A relação entre Shostakovich e Mravinsky começou em 1937, ano decisivo tanto para o compositor quanto para a cultura soviética. Após a violenta condenação da ópera Lady Macbeth de Mtsensk pelo jornal Pravda, o compositor viu sua carreira ameaçada e tornou-se alvo da vigilância ideológica do regime stalinista. Nesse contexto, a estreia da Sinfonia nº 5 representou muito mais que o lançamento de uma nova obra: foi uma espécie de reabilitação pública de seu autor. A recepção calorosa da estreia, em novembro daquele ano, devolveu a Shostakovich um espaço que parecia definitivamente perdido.

Durante décadas, a Quinta Sinfonia foi oficialmente apresentada como uma demonstração da reconciliação do compositor com os ideais do realismo socialista. O próprio Shostakovich declarou que o final oferecia uma resposta otimista aos conflitos apresentados nos movimentos iniciais. Entretanto, essa interpretação nunca deixou de provocar controvérsias. Muitos ouvintes passaram a perceber naquele triunfo final uma vitória imposta, quase forçada, cuja grandiosidade esconde um sofrimento que jamais desaparece completamente.

É justamente nesse ponto que a leitura de Yevgeny Mravinsky adquire importância histórica. O maestro recusava qualquer interpretação simplista do último movimento como celebração triunfal. Em vez disso, conduzia a música como uma marcha inexorável rumo ao desconhecido, preservando a ambiguidade emocional da partitura. Sob sua batuta, a monumental coda deixa de soar como uma apoteose inequívoca para transformar-se em um desfecho inquietante, quase um julgamento inevitável, onde a tensão nunca é totalmente resolvida.

Do ponto de vista musical, a Quinta Sinfonia representa uma impressionante síntese da tradição russa e centro-europeia. Ecos de Tchaikovsky aparecem na dimensão lírica e no tema do homem diante do destino. A grandiosidade épica aproxima a obra de Borodin, enquanto a influência de Gustav Mahler manifesta-se tanto na riqueza da orquestração quanto na ironia amarga do Allegretto. Há ainda reminiscências de Wagner no Largo e passagens cuja linguagem harmônica evoca Sibelius. Essa extraordinária rede de referências nunca compromete a personalidade do compositor; pelo contrário, revela um Shostakovich plenamente consciente da tradição que herdou e disposto a reinventá-la sob circunstâncias políticas dramáticas.

Se a Quinta tornou-se símbolo da sobrevivência artística, a Sinfonia nº 12, composta em 1961 e intitulada O Ano de 1917, ocupa uma posição bem mais controversa dentro do catálogo do compositor. Oficialmente dedicada à memória de Lenin, ela foi durante muito tempo interpretada como uma obra de propaganda soviética. Contudo, uma observação mais cuidadosa revela uma realidade muito mais complexa.

Segundo o texto do encarte, Shostakovich associava essa sinfonia a lembranças pessoais da Revolução Russa. Ainda criança, testemunhara a chegada de Lenin à Estação Finlândia, em Petrogrado, mas sua memória mais vívida era a morte brutal de um garoto atingido pelo sabre de um cavaleiro cossaco durante a confusão popular. Ao mesmo tempo, a obra pode ser entendida como uma homenagem velada a amigos vítimas dos expurgos stalinistas, entre eles o diretor teatral Vsevolod Meyerhold e o marechal Mikhail Tukhachevsky, ambos executados pelo regime.

Musicalmente, a Décima Segunda mantém a estrutura contínua da Sinfonia nº 11, ligando seus quatro movimentos sem interrupção. O primeiro, Petrogrado Revolucionária, apresenta um discurso marcial que evolui a partir de um material temático bastante concentrado. Já Razliv surpreende pelo caráter contemplativo, construído sobre amplas frases dos sopros que criam uma atmosfera quase pastoral. O breve movimento Aurora utiliza a percussão para evocar o famoso cruzador cuja salva simbolizou o início da Revolução de Outubro, preparando a chegada do grandioso final, O Amanhecer da Humanidade. Embora carregado de solenidade, esse encerramento também revela a extraordinária habilidade orquestral de Shostakovich, cuja escrita supera o simples caráter narrativo para alcançar verdadeira arquitetura sinfônica.

Nenhum outro maestro parecia mais apto a defender esse repertório do que Yevgeny Mravinsky. Nascido em São Petersburgo em 1903, assumiu a direção da Filarmônica de Leningrado em 1938, permanecendo à frente da orquestra durante mais de quatro décadas. Seu nome tornou-se inseparável do conjunto e da música soviética. Foi responsável pela estreia de diversas obras fundamentais de Prokofiev, Miaskovsky e Kabalevsky, além de manter uma relação artística privilegiada com Shostakovich, que lhe dedicou a Sinfonia nº 8, composta em 1943.

Mravinsky era conhecido pelo rigor quase absoluto de seus ensaios e pela extraordinária precisão sonora que extraía da Filarmônica de Leningrado. Seu repertório era relativamente restrito, mas profundamente amadurecido ao longo dos anos, o que explica por que tantas de suas gravações continuam sendo consideradas referências interpretativas. Após a morte de Stalin, as turnês internacionais da orquestra revelaram ao Ocidente uma escola de execução caracterizada pela disciplina, pela intensidade dramática e por um refinamento tímbrico incomum.

As gravações reunidas nesta edição preservam esse legado em momentos distintos da parceria entre maestro e compositor. A Sinfonia nº 5 foi registrada ao vivo em Moscou, em 24 de outubro de 1965, enquanto a Sinfonia nº 12 corresponde à histórica primeira execução pública da obra, realizada em Leningrado em 1º de outubro de 1961, posteriormente transmitida pela Rádio de Praga. Mais do que documentos históricos, são interpretações capazes de revelar a complexidade emocional dessas partituras e a profunda compreensão que Mravinsky possuía da linguagem de Shostakovich.

Mais de meio século depois, essas leituras continuam impressionando não apenas pela excelência técnica da orquestra, mas pela capacidade de transformar cada compasso em narrativa histórica. Sob a batuta de Mravinsky, Shostakovich deixa de ser apenas o compositor da União Soviética para tornar-se um cronista da condição humana, alguém que encontrou na linguagem sinfônica uma maneira de registrar medo, esperança, resignação e resistência. Poucas parcerias entre compositor e intérprete alcançaram tamanho grau de identificação. Escutá-las hoje é ouvir não apenas duas grandes sinfonias, mas uma época inteira traduzida em música.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - 

01 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47_
02 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47_
03 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47_
04 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47_
05 - I. Revolutionnary Petrograd
06 - II. Razliv
07 - III. Aurora
08 - IV. The Dawn of Humanity

Leningrad Philharmonic Orchestra
Evgeny Mravinsky, regente 

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terça-feira, 14 de julho de 2026

Edvard Grieg (1843-1907) - Four Norwegian Dances, Op. 35, In Autumn, Op. 11, Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51 e Lyric Pieces, Op. 43 e Johan Svendsen (1840-1911) - Two Icelandic Melodies, Op. 30

Embora o nome de Grieg seja imediatamente associado ao célebre “Concerto para Piano em Lá menor”, às suítes de Peer Gynt ou à Suíte Holberg, sua produção vai muito além dessas páginas consagradas. O álbum da Chandos interpretado pela Orquestra Sinfônica da Islândia sob a direção de Petri Sakari propõe justamente esse olhar ampliado sobre o compositor norueguês, reunindo obras que revelam diferentes momentos de sua trajetória criativa e sua estreita ligação com a música popular escandinava. O programa é complementado por duas delicadas Melodias Islandesas, de Johan Svendsen, figura fundamental da música norueguesa do século XIX.

O século XIX assistiu ao despertar das identidades nacionais em toda a Europa, mas a Escandinávia demorou mais do que outras regiões a produzir compositores capazes de conquistar projeção internacional. Muitos músicos formavam-se na tradição alemã, especialmente no Conservatório de Leipzig, e traziam consigo uma linguagem profundamente influenciada por Mendelssohn e Schumann. Grieg também estudou em Leipzig, mas sua personalidade artística encontrou um caminho próprio quando entrou em contato com o folclore norueguês por intermédio do compositor Richard Nordraak, fervoroso defensor da cultura nacional. A partir desse momento, a música popular da Noruega deixaria de ser apenas uma referência para tornar-se o alicerce de sua produção madura.

Essa transformação aparece de forma cristalina nas Danças Norueguesas, Op. 35, compostas originalmente para piano a quatro mãos em 1881 e posteriormente orquestradas por Hans Sitt. As quatro danças utilizam melodias recolhidas por Ludvig Mathias Lindeman, responsável por uma das mais importantes coletâneas de música folclórica norueguesa. Grieg não se limita, porém, a harmonizar melodias tradicionais. Ele lhes confere sofisticação harmônica, alternando passagens dançantes com episódios líricos de grande delicadeza. A primeira dança incorpora a célebre Marcha de Sinclair; a segunda apresenta uma das melodias mais conhecidas do compositor; a terceira trabalha habilmente o contraste entre versões em modos maior e menor do mesmo material temático; e a quarta encerra o ciclo com vigor sinfônico e impressionante senso arquitetônico. Trata-se de uma obra injustamente menos conhecida que suas páginas mais populares, mas que sintetiza de maneira exemplar a fusão entre tradição popular e refinamento romântico.

Muito diferente é a atmosfera da Abertura "No Outono", Op. 11, composta em 1866, quando Grieg tinha apenas vinte e três anos. Baseada na canção Tempestades de Outono, ela pertence ao período em que o compositor ainda buscava consolidar sua linguagem. Ao contrário das Danças Norueguesas, a obra possui caráter decididamente romântico, com forte influência da tradição germânica e relativamente pouca presença do nacionalismo que marcaria suas composições posteriores. O próprio Grieg reconheceu as limitações de sua orquestração inicial e revisou profundamente a partitura duas décadas depois. A versão definitiva, apresentada pela primeira vez em Birmingham, em 1888, revela um compositor muito mais seguro no tratamento da massa orquestral, capaz de equilibrar energia dramática e elegância formal.

A maturidade artística de Grieg manifesta-se plenamente  no seu Op. 51. Escrita inicialmente para dois pianos em 1891 e orquestrada em 1900, a obra nasceu de outra incursão do compositor pela coletânea de Lindeman, desta vez inspirada na melodia Sigurd e a Noiva Troll. O tema simples serve de ponto de partida para uma série de variações que exploram diferentes cores orquestrais, transformando um canto popular em uma ampla construção sinfônica. O resultado evidencia a extraordinária habilidade de Grieg em desenvolver material aparentemente modesto sem jamais perder sua espontaneidade melódica.

O programa também presta homenagem a Johan Svendsen, contemporâneo e grande amigo de Grieg. Embora hoje seja muito menos lembrado, Svendsen exerceu papel decisivo no desenvolvimento da vida musical da Noruega. Ao contrário de Grieg, cuja genialidade floresceu sobretudo nas formas breves, Svendsen inclinava-se para estruturas sinfônicas mais amplas e demonstrava domínio excepcional da orquestração. Ambos defenderam mutuamente suas obras e trabalharam juntos para elevar o nível da música de concerto em seu país.

As Duas Melodias Islandesas, compostas em 1877, ilustram perfeitamente essa estética. Escritas para orquestra de cordas, baseiam-se em melodias tradicionais apresentadas quase integralmente em uníssono, recebendo apenas discretas variações. A economia dos meios expressivos impressiona: Svendsen demonstra que riqueza musical nem sempre depende de complexidade. Divisões refinadas entre os naipes das cordas e sutis cromatismos conferem profundidade emocional a um material melódico de extrema simplicidade. É uma obra que traduz, com rara elegância, a paisagem austera e contemplativa do universo nórdico.

Mais do que um simples recital de peças pouco conhecidas, este álbum oferece um panorama da evolução artística de Grieg. Nele convivem o jovem compositor ainda influenciado pelo romantismo alemão, o nacionalista que descobre a força da tradição popular e o mestre maduro das pequenas formas poéticas. A presença de Svendsen amplia essa perspectiva ao recordar que a chamada "escola nacional norueguesa" foi construída por uma geração inteira de músicos empenhados em dar voz própria à cultura escandinava.

Num repertório frequentemente dominado pelas obras mais famosas de Grieg, este disco representa um convite para descobrir um compositor de horizontes muito mais amplos. Suas páginas revelam que a verdadeira grandeza de Grieg talvez não esteja apenas nas obras que o tornaram célebre, mas na capacidade de transformar melodias populares, paisagens e tradições locais em música de alcance universal. É precisamente essa universalidade, construída a partir do profundamente regional, que continua fazendo de Grieg uma das vozes mais originais do romantismo europeu.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

01 - Four Norwegian Dances, Op. 35_ I. Allegro marcato - Animato
02 - Four Norwegian Dances, Op. 35_ II. Allegretto tranquillo e grazioso - Allegro
03 - Four Norwegian Dances, Op. 35_ III. Allegro moderato alla Marcia - Tranquillo
04 - Four Norwegian Dances, Op. 35_ IV. Allegro molto
05 - In Autumn, Op. 11
06 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Romanze. Poco tranquillo
07 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation I. Poco Allegro, ma tranquillo
08 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation II. Energico
09 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation III. Allegro leggiero
10 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation IV. Poco andante
11 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation V. Maestoso
12 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation VI. Allegro scherzando e leggiero
13 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation VII. Andante
14 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation VIII. Andante molto tranquillo
15 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation IX. Presto
16 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation X. Tempo di Menuetto
17 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation XI. Allegro marcato
18 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation XII. Tempo di Valse
19 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation XIII. Adagio molto espressivo
20 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Finale. Allegro molto marcato
21 - Lyric Pieces, Op. 43_ V. Erotik
22 - Two Icelandic Melodies, Op. 30_ I. Maestoso
23 - Two Icelandic Melodies, Op. 30_ II. Moderato

Iceland Symphony Orquestra
Petri Sakari, regente 

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