A experiência da guerra, a perseguição política e a necessidade de afirmação artística aproximam dois compositores de trajetórias distintas: Dmitri Shostakovich (1906–1975) e Paul Hindemith (1895–1963). Embora tenham desenvolvido linguagens musicais próprias, ambos enfrentaram regimes autoritários que tentaram impor limites à criação artística. Essa aproximação histórica e estética está no centro do álbum que reúne o Concerto para violino nº 1, em lá menor, Op. 77, de Shostakovich, e o Concerto para violino, de Hindemith, interpretados pela violinista Alexandra Tirsu, acompanhada pela Royal Philharmonic Orchestra, sob a regência de Vasily Petrenko. O disco, lançado pelo selo Fuga Libera, foi gravado em agosto de 2024, no Henry Wood Hall, em Londres.
O registro representa um marco na trajetória de Alexandra Tirsu, pois constitui seu primeiro álbum dedicado a concertos. Nascida na Moldávia e radicada em Viena, a violinista ganhou projeção internacional ao conquistar um importante prêmio no Concurso Internacional da Rádio da Baviera (ARD), em Munique, em 2021. Naquela edição, o Concerto para violino de Hindemith foi a obra obrigatória da etapa final. A formação musical de Tirsu também foi marcada pela convivência com o pai, um reconhecido trompetista, de quem afirma ter herdado a flexibilidade rítmica e a influência da música folclórica. Sua carreira, interrompida temporariamente pela pandemia de Covid-19, ganhou novo impulso após a premiação, levando-a a se apresentar como solista e camerista em diferentes países.
Composto entre 1947 e 1948, o Primeiro Concerto para violino de Shostakovich nasceu em um dos períodos mais difíceis da vida do compositor. Naquele momento, ele ainda sofria as consequências da campanha de condenação promovida pelo regime soviético, sob a influência do dirigente cultural Andrei Jdanov. Sua música era acusada de não corresponder às diretrizes estéticas oficiais, e o compositor, que já havia enfrentado críticas severas por sua ópera Lady Macbeth do distrito de Mtsensk, vivia sob constante ameaça. O medo de uma prisão era tão intenso que, durante algumas noites, Shostakovich chegou a dormir no corredor de seu apartamento para evitar que a mulher e os filhos presenciassem uma eventual detenção.
Por essa razão, o concerto permaneceu sem execução pública durante vários anos. Sua estreia ocorreu somente em 29 de outubro de 1955, depois da morte de Stalin e do início de um período de relativa abertura política, tendo como solista o violinista David Oistrakh. A obra apresenta uma estrutura incomum de quatro movimentos, aproximando-se, em determinados aspectos, de uma sinfonia com violino solista. O primeiro movimento, Nocturne, estabelece uma atmosfera sombria e introspectiva; o segundo, Scherzo, combina energia e inquietação; o terceiro, Passacaglia, constitui o núcleo dramático da composição e culmina em uma extensa cadência do violino. O movimento final, Burlesque, encerra a obra com uma combinação de grotesco, ironia e intensidade rítmica.
Um elemento particularmente significativo é a utilização da sequência de notas DSCH — ré, mi bemol, dó e si natural, conforme a notação musical alemã —, formada a partir das iniciais do nome do compositor. Esse motivo, empregado por Shostakovich como uma espécie de assinatura musical, reforça a dimensão pessoal da obra. O concerto, contudo, não se limita a expressar o sofrimento individual: sua linguagem permite diferentes interpretações dos movimentos mais rápidos, que podem soar tanto como manifestações de resistência quanto como representações de um indivíduo perseguido por forças hostis.
O Concerto para violino de Hindemith também está profundamente relacionado ao contexto político europeu. Durante a Primeira Guerra Mundial, o compositor foi obrigado a servir no Exército alemão. Mais tarde, em 1936, sua música foi proibida pelo regime nazista, que a classificou como degenerada. Diante das dificuldades, Hindemith deixou Berlim e se estabeleceu temporariamente em Ancara, na Turquia, onde participou da estruturação do ensino de música clássica. Em 1938, mudou-se para a Suíça com a esposa, cuja ascendência judaica tornava ainda mais delicada a permanência do casal na Alemanha. No ano seguinte, ambos partiram para os Estados Unidos, onde o compositor lecionou na Universidade Yale durante treze anos.
Escrito em 1939, o concerto foi encomendado por Wilhelm Mengelberg para a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã. Hindemith deveria conduzir a estreia, mas as circunstâncias políticas e o risco de atravessar a Alemanha impediram sua viagem. A primeira apresentação aconteceu em março de 1940, sob a direção de Ferdinand Helmann, músico da própria orquestra. Poucas semanas depois, em 19 de abril, a obra foi apresentada nos Estados Unidos pela Orquestra Sinfônica de Boston, sob a regência de Serge Koussevitzky, tendo Richard Burgin como solista. Apesar de sua construção musical refinada, o concerto não alcançou a mesma popularidade de outras obras do repertório violinístico. O encarte sugere que a linguagem de Hindemith talvez tenha sido considerada excessivamente intelectual para determinados públicos e períodos históricos.
Em três movimentos, a composição revela uma abordagem diferente daquela encontrada em Shostakovich. O primeiro apresenta uma abertura de caráter pastoral, na qual o violino estabelece um diálogo com uma orquestra mais vigorosa. O segundo, Langsam, assume uma atmosfera contemplativa, com lirismo melancólico, embora menos marcado pela angústia do que o movimento lento do concerto de Shostakovich. No último movimento, melodias de caráter despreocupado alternam-se com passagens de energia rítmica e influências do jazz. Um coral orquestral conduz a uma cadência reflexiva do solista, antes de a música alcançar uma conclusão otimista. A obra parece, assim, afirmar a possibilidade de preservar a liberdade criativa e a serenidade mesmo em meio à turbulência histórica.
A escolha dessas duas partituras tem também uma dimensão afetiva para Alexandra Tirsu. Em seu depoimento, a violinista conta que o concerto de Shostakovich a acompanha desde os anos de formação. As histórias de guerra transmitidas por seu avô, que serviu no Exército soviético, contribuíram para sua identificação com a música do compositor. Mais recentemente, a morte do pai aprofundou sua compreensão da perda e da ausência, fortalecendo sua ligação com a obra. Já o concerto de Hindemith tornou-se especialmente importante durante o Concurso ARD, quando Tirsu descobriu sua clareza estrutural, energia e sutileza emocional.
01 - Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77_ Nocturne. Moderato
02 - Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77_ Scherzo. Allegro
03 - Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77_ Passacaglia. Andante - Cadenza
04 - Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77_ Burlesque. Allegro con brio - Presto
05 - Violin Concerto_ I. Mäßig bewegte Halbe
06 - Violin Concerto_ II. Langsam
07 - Violin Concerto_ III. Lebhaft
Royal Philharmonic Orchestra
Vasily Petrenko, regente
Alexandra Tirsu, violino
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