quarta-feira, 15 de julho de 2026

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47 e Symphony No. 12 - "The Year 1917"

A relação entre Shostakovich e Mravinsky começou em 1937, ano decisivo tanto para o compositor quanto para a cultura soviética. Após a violenta condenação da ópera Lady Macbeth de Mtsensk pelo jornal Pravda, o compositor viu sua carreira ameaçada e tornou-se alvo da vigilância ideológica do regime stalinista. Nesse contexto, a estreia da Sinfonia nº 5 representou muito mais que o lançamento de uma nova obra: foi uma espécie de reabilitação pública de seu autor. A recepção calorosa da estreia, em novembro daquele ano, devolveu a Shostakovich um espaço que parecia definitivamente perdido.

Durante décadas, a Quinta Sinfonia foi oficialmente apresentada como uma demonstração da reconciliação do compositor com os ideais do realismo socialista. O próprio Shostakovich declarou que o final oferecia uma resposta otimista aos conflitos apresentados nos movimentos iniciais. Entretanto, essa interpretação nunca deixou de provocar controvérsias. Muitos ouvintes passaram a perceber naquele triunfo final uma vitória imposta, quase forçada, cuja grandiosidade esconde um sofrimento que jamais desaparece completamente.

É justamente nesse ponto que a leitura de Yevgeny Mravinsky adquire importância histórica. O maestro recusava qualquer interpretação simplista do último movimento como celebração triunfal. Em vez disso, conduzia a música como uma marcha inexorável rumo ao desconhecido, preservando a ambiguidade emocional da partitura. Sob sua batuta, a monumental coda deixa de soar como uma apoteose inequívoca para transformar-se em um desfecho inquietante, quase um julgamento inevitável, onde a tensão nunca é totalmente resolvida.

Do ponto de vista musical, a Quinta Sinfonia representa uma impressionante síntese da tradição russa e centro-europeia. Ecos de Tchaikovsky aparecem na dimensão lírica e no tema do homem diante do destino. A grandiosidade épica aproxima a obra de Borodin, enquanto a influência de Gustav Mahler manifesta-se tanto na riqueza da orquestração quanto na ironia amarga do Allegretto. Há ainda reminiscências de Wagner no Largo e passagens cuja linguagem harmônica evoca Sibelius. Essa extraordinária rede de referências nunca compromete a personalidade do compositor; pelo contrário, revela um Shostakovich plenamente consciente da tradição que herdou e disposto a reinventá-la sob circunstâncias políticas dramáticas.

Se a Quinta tornou-se símbolo da sobrevivência artística, a Sinfonia nº 12, composta em 1961 e intitulada O Ano de 1917, ocupa uma posição bem mais controversa dentro do catálogo do compositor. Oficialmente dedicada à memória de Lenin, ela foi durante muito tempo interpretada como uma obra de propaganda soviética. Contudo, uma observação mais cuidadosa revela uma realidade muito mais complexa.

Segundo o texto do encarte, Shostakovich associava essa sinfonia a lembranças pessoais da Revolução Russa. Ainda criança, testemunhara a chegada de Lenin à Estação Finlândia, em Petrogrado, mas sua memória mais vívida era a morte brutal de um garoto atingido pelo sabre de um cavaleiro cossaco durante a confusão popular. Ao mesmo tempo, a obra pode ser entendida como uma homenagem velada a amigos vítimas dos expurgos stalinistas, entre eles o diretor teatral Vsevolod Meyerhold e o marechal Mikhail Tukhachevsky, ambos executados pelo regime.

Musicalmente, a Décima Segunda mantém a estrutura contínua da Sinfonia nº 11, ligando seus quatro movimentos sem interrupção. O primeiro, Petrogrado Revolucionária, apresenta um discurso marcial que evolui a partir de um material temático bastante concentrado. Já Razliv surpreende pelo caráter contemplativo, construído sobre amplas frases dos sopros que criam uma atmosfera quase pastoral. O breve movimento Aurora utiliza a percussão para evocar o famoso cruzador cuja salva simbolizou o início da Revolução de Outubro, preparando a chegada do grandioso final, O Amanhecer da Humanidade. Embora carregado de solenidade, esse encerramento também revela a extraordinária habilidade orquestral de Shostakovich, cuja escrita supera o simples caráter narrativo para alcançar verdadeira arquitetura sinfônica.

Nenhum outro maestro parecia mais apto a defender esse repertório do que Yevgeny Mravinsky. Nascido em São Petersburgo em 1903, assumiu a direção da Filarmônica de Leningrado em 1938, permanecendo à frente da orquestra durante mais de quatro décadas. Seu nome tornou-se inseparável do conjunto e da música soviética. Foi responsável pela estreia de diversas obras fundamentais de Prokofiev, Miaskovsky e Kabalevsky, além de manter uma relação artística privilegiada com Shostakovich, que lhe dedicou a Sinfonia nº 8, composta em 1943.

Mravinsky era conhecido pelo rigor quase absoluto de seus ensaios e pela extraordinária precisão sonora que extraía da Filarmônica de Leningrado. Seu repertório era relativamente restrito, mas profundamente amadurecido ao longo dos anos, o que explica por que tantas de suas gravações continuam sendo consideradas referências interpretativas. Após a morte de Stalin, as turnês internacionais da orquestra revelaram ao Ocidente uma escola de execução caracterizada pela disciplina, pela intensidade dramática e por um refinamento tímbrico incomum.

As gravações reunidas nesta edição preservam esse legado em momentos distintos da parceria entre maestro e compositor. A Sinfonia nº 5 foi registrada ao vivo em Moscou, em 24 de outubro de 1965, enquanto a Sinfonia nº 12 corresponde à histórica primeira execução pública da obra, realizada em Leningrado em 1º de outubro de 1961, posteriormente transmitida pela Rádio de Praga. Mais do que documentos históricos, são interpretações capazes de revelar a complexidade emocional dessas partituras e a profunda compreensão que Mravinsky possuía da linguagem de Shostakovich.

Mais de meio século depois, essas leituras continuam impressionando não apenas pela excelência técnica da orquestra, mas pela capacidade de transformar cada compasso em narrativa histórica. Sob a batuta de Mravinsky, Shostakovich deixa de ser apenas o compositor da União Soviética para tornar-se um cronista da condição humana, alguém que encontrou na linguagem sinfônica uma maneira de registrar medo, esperança, resignação e resistência. Poucas parcerias entre compositor e intérprete alcançaram tamanho grau de identificação. Escutá-las hoje é ouvir não apenas duas grandes sinfonias, mas uma época inteira traduzida em música.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - 

01 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47_
02 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47_
03 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47_
04 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47_
05 - I. Revolutionnary Petrograd
06 - II. Razliv
07 - III. Aurora
08 - IV. The Dawn of Humanity

Leningrad Philharmonic Orchestra
Evgeny Mravinsky, regente 

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terça-feira, 14 de julho de 2026

Edvard Grieg (1843-1907) - Four Norwegian Dances, Op. 35, In Autumn, Op. 11, Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51 e Lyric Pieces, Op. 43 e Johan Svendsen (1840-1911) - Two Icelandic Melodies, Op. 30

Embora o nome de Grieg seja imediatamente associado ao célebre “Concerto para Piano em Lá menor”, às suítes de Peer Gynt ou à Suíte Holberg, sua produção vai muito além dessas páginas consagradas. O álbum da Chandos interpretado pela Orquestra Sinfônica da Islândia sob a direção de Petri Sakari propõe justamente esse olhar ampliado sobre o compositor norueguês, reunindo obras que revelam diferentes momentos de sua trajetória criativa e sua estreita ligação com a música popular escandinava. O programa é complementado por duas delicadas Melodias Islandesas, de Johan Svendsen, figura fundamental da música norueguesa do século XIX.

O século XIX assistiu ao despertar das identidades nacionais em toda a Europa, mas a Escandinávia demorou mais do que outras regiões a produzir compositores capazes de conquistar projeção internacional. Muitos músicos formavam-se na tradição alemã, especialmente no Conservatório de Leipzig, e traziam consigo uma linguagem profundamente influenciada por Mendelssohn e Schumann. Grieg também estudou em Leipzig, mas sua personalidade artística encontrou um caminho próprio quando entrou em contato com o folclore norueguês por intermédio do compositor Richard Nordraak, fervoroso defensor da cultura nacional. A partir desse momento, a música popular da Noruega deixaria de ser apenas uma referência para tornar-se o alicerce de sua produção madura.

Essa transformação aparece de forma cristalina nas Danças Norueguesas, Op. 35, compostas originalmente para piano a quatro mãos em 1881 e posteriormente orquestradas por Hans Sitt. As quatro danças utilizam melodias recolhidas por Ludvig Mathias Lindeman, responsável por uma das mais importantes coletâneas de música folclórica norueguesa. Grieg não se limita, porém, a harmonizar melodias tradicionais. Ele lhes confere sofisticação harmônica, alternando passagens dançantes com episódios líricos de grande delicadeza. A primeira dança incorpora a célebre Marcha de Sinclair; a segunda apresenta uma das melodias mais conhecidas do compositor; a terceira trabalha habilmente o contraste entre versões em modos maior e menor do mesmo material temático; e a quarta encerra o ciclo com vigor sinfônico e impressionante senso arquitetônico. Trata-se de uma obra injustamente menos conhecida que suas páginas mais populares, mas que sintetiza de maneira exemplar a fusão entre tradição popular e refinamento romântico.

Muito diferente é a atmosfera da Abertura "No Outono", Op. 11, composta em 1866, quando Grieg tinha apenas vinte e três anos. Baseada na canção Tempestades de Outono, ela pertence ao período em que o compositor ainda buscava consolidar sua linguagem. Ao contrário das Danças Norueguesas, a obra possui caráter decididamente romântico, com forte influência da tradição germânica e relativamente pouca presença do nacionalismo que marcaria suas composições posteriores. O próprio Grieg reconheceu as limitações de sua orquestração inicial e revisou profundamente a partitura duas décadas depois. A versão definitiva, apresentada pela primeira vez em Birmingham, em 1888, revela um compositor muito mais seguro no tratamento da massa orquestral, capaz de equilibrar energia dramática e elegância formal.

A maturidade artística de Grieg manifesta-se plenamente  no seu Op. 51. Escrita inicialmente para dois pianos em 1891 e orquestrada em 1900, a obra nasceu de outra incursão do compositor pela coletânea de Lindeman, desta vez inspirada na melodia Sigurd e a Noiva Troll. O tema simples serve de ponto de partida para uma série de variações que exploram diferentes cores orquestrais, transformando um canto popular em uma ampla construção sinfônica. O resultado evidencia a extraordinária habilidade de Grieg em desenvolver material aparentemente modesto sem jamais perder sua espontaneidade melódica.

O programa também presta homenagem a Johan Svendsen, contemporâneo e grande amigo de Grieg. Embora hoje seja muito menos lembrado, Svendsen exerceu papel decisivo no desenvolvimento da vida musical da Noruega. Ao contrário de Grieg, cuja genialidade floresceu sobretudo nas formas breves, Svendsen inclinava-se para estruturas sinfônicas mais amplas e demonstrava domínio excepcional da orquestração. Ambos defenderam mutuamente suas obras e trabalharam juntos para elevar o nível da música de concerto em seu país.

As Duas Melodias Islandesas, compostas em 1877, ilustram perfeitamente essa estética. Escritas para orquestra de cordas, baseiam-se em melodias tradicionais apresentadas quase integralmente em uníssono, recebendo apenas discretas variações. A economia dos meios expressivos impressiona: Svendsen demonstra que riqueza musical nem sempre depende de complexidade. Divisões refinadas entre os naipes das cordas e sutis cromatismos conferem profundidade emocional a um material melódico de extrema simplicidade. É uma obra que traduz, com rara elegância, a paisagem austera e contemplativa do universo nórdico.

Mais do que um simples recital de peças pouco conhecidas, este álbum oferece um panorama da evolução artística de Grieg. Nele convivem o jovem compositor ainda influenciado pelo romantismo alemão, o nacionalista que descobre a força da tradição popular e o mestre maduro das pequenas formas poéticas. A presença de Svendsen amplia essa perspectiva ao recordar que a chamada "escola nacional norueguesa" foi construída por uma geração inteira de músicos empenhados em dar voz própria à cultura escandinava.

Num repertório frequentemente dominado pelas obras mais famosas de Grieg, este disco representa um convite para descobrir um compositor de horizontes muito mais amplos. Suas páginas revelam que a verdadeira grandeza de Grieg talvez não esteja apenas nas obras que o tornaram célebre, mas na capacidade de transformar melodias populares, paisagens e tradições locais em música de alcance universal. É precisamente essa universalidade, construída a partir do profundamente regional, que continua fazendo de Grieg uma das vozes mais originais do romantismo europeu.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

01 - Four Norwegian Dances, Op. 35_ I. Allegro marcato - Animato
02 - Four Norwegian Dances, Op. 35_ II. Allegretto tranquillo e grazioso - Allegro
03 - Four Norwegian Dances, Op. 35_ III. Allegro moderato alla Marcia - Tranquillo
04 - Four Norwegian Dances, Op. 35_ IV. Allegro molto
05 - In Autumn, Op. 11
06 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Romanze. Poco tranquillo
07 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation I. Poco Allegro, ma tranquillo
08 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation II. Energico
09 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation III. Allegro leggiero
10 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation IV. Poco andante
11 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation V. Maestoso
12 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation VI. Allegro scherzando e leggiero
13 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation VII. Andante
14 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation VIII. Andante molto tranquillo
15 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation IX. Presto
16 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation X. Tempo di Menuetto
17 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation XI. Allegro marcato
18 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation XII. Tempo di Valse
19 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation XIII. Adagio molto espressivo
20 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Finale. Allegro molto marcato
21 - Lyric Pieces, Op. 43_ V. Erotik
22 - Two Icelandic Melodies, Op. 30_ I. Maestoso
23 - Two Icelandic Melodies, Op. 30_ II. Moderato

Iceland Symphony Orquestra
Petri Sakari, regente 

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Sergei Rachmaninov (1873-1943) - The Bells & Symphonic Dances

A Orquestra Filarmônica da Rádio dos Países Baixos e o Coro da Rádio dos Países Baixos, sob a direção de sua maestrina titular, Karina Canellakis, apresentam um novo registro dedicado a duas das últimas e mais extraordinárias criações de Sergei Rachmaninoff: a cantata sinfônica Os Sinos (The Bells) e as célebres Danças Sinfônicas. O álbum revela toda a maturidade criativa do compositor russo, reunindo duas obras que sintetizam sua linguagem tardia em interpretações de grande intensidade emocional e refinamento sonoro.

Em Os Sinos, Rachmaninoff transforma o poema de Edgar Allan Poe, na tradução russa de Konstantin Balmont, em uma impressionante jornada musical que acompanha as diferentes etapas da existência humana. A escrita coral luminosa e a orquestração de riqueza extraordinária conduzem o ouvinte desde o brilho juvenil e a serenidade lírica dos primeiros movimentos até o peso ameaçador dos sinos fúnebres, culminando em uma visão de transcendência marcada por profunda serenidade espiritual.

O elenco vocal reúne três destacados intérpretes da atualidade: o tenor Dmytro Popov, a soprano Kristina Mkhitaryan e o baixo Alexander Vinogradov, cujas performances combinam segurança técnica e expressividade. Ao lado deles, o Coro da Rádio dos Países Baixos destaca-se pela clareza da dicção e pela sonoridade ampla e luminosa, conferindo especial eloquência ao texto e reforçando o caráter dramático da obra.

As Danças Sinfônicas, última composição orquestral de Rachmaninoff, revelam outro aspecto de seu universo criativo. O vigor rítmico e a energia quase visceral dos movimentos iniciais convivem com momentos de profunda nostalgia e introspecção, até desembocar em um final de extraordinário impacto. Nessa obra de despedida, o compositor reúne memórias de sua produção anterior, ecos da tradição russa e uma escrita orquestral de notável sofisticação, encerrando sua carreira com uma afirmação artística de impressionante vitalidade.

À frente dessas interpretações está Karina Canellakis, reconhecida internacionalmente como uma das mais importantes regentes de sua geração. Admirada pela intensidade emocional de suas leituras, pelo rigor técnico e pela profundidade de suas interpretações, a maestrina consolida neste lançamento sua parceria com o selo PENTATONE e com a Orquestra Filarmônica da Rádio dos Países Baixos. A colaboração sucede os elogiados registros Bartók: Concerto para Orquestra (2023), indicado ao GRAMMY, e Bartók: O Castelo do Barba Azul (2025), reafirmando uma trajetória discográfica marcada pela excelência artística e pelo compromisso com interpretações de grande personalidade.

Mais do que reunir duas obras-primas do repertório russo, este álbum oferece um retrato comovente do último Rachmaninoff: um compositor que, entre a memória e a modernidade, encontrou na música uma linguagem capaz de transformar nostalgia, dor e esperança em uma experiência sonora de rara beleza.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Sergei Rachmaninov (1873-1943) - 

01. Rachmaninoff- The Bells, Op. 35- I. Allegro, ma non tanto
02. Rachmaninoff- The Bells, Op. 35- II. Lento
03. Rachmaninoff- The Bells, Op. 35- III. Presto
04. Rachmaninoff- The Bells, Op. 35- IV. Lento lugubre
05. Rachmaninoff- Symphonic Dances, Op. 45- I. Non Allegro
06. Rachmaninoff- Symphonic Dances, Op. 45- II. Andante con moto (tempo di Valse)
07. Rachmaninoff- Symphonic Dances, Op. 45- III. Lento assai - Allegro vivace

Netherlands Radio Philharmonic Orchestra & Choir
Karina Canellakis, regente 

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segunda-feira, 13 de julho de 2026

Francis Poulenc (1899-1963) - Stabat Mater, Karol Szymanowski (1882-1937) - Stabat Mater, Op. 53, Krzysztof Penderecki (1933-2020) - Stabat Mater (Lukas-Passion) etc


"Lançado em 2004, este álbum oferece um instigante panorama de interpretações modernas do Stabat Mater Dolorosa, a célebre sequência litúrgica medieval que, ao longo dos séculos, inspirou alguns dos mais profundos testemunhos musicais da tradição cristã. A gravação integra um ambicioso projeto do maestro Marcello Viotti dedicado à redescoberta de obras sacras do século XX que, embora pouco frequentes nas salas de concerto, ocupam lugar de destaque pela qualidade artística e pela força espiritual.

Realizado em parceria com a Orquestra da Rádio de Munique e o Coro da Rádio da Baviera, no âmbito da série de concertos Paradisi gloria, o álbum reúne quatro abordagens profundamente distintas do mesmo texto litúrgico, assinadas por Francis Poulenc, Karol Szymanowski, Krzysztof Penderecki e Wolfgang Rihm. Mais do que composições destinadas ao uso litúrgico, essas obras podem ser entendidas como manifestações pessoais de fé, nas quais cada compositor projeta sua própria visão da dor, da esperança e da transcendência.

A versão de Francis Poulenc apresenta-se como uma cantata sinfônica de atmosfera austera e profundamente contemplativa. Sua linguagem aproxima-se da densidade dramática de Dialogues des Carmélites, revelando um compositor que alia espiritualidade intensa a uma escrita de notável sobriedade.

Em sentido oposto, Karol Szymanowski oferece uma leitura exuberante do texto, traduzido para o polonês sob o título Stała Matka. Sua escrita, impregnada de lirismo pós-romântico, combina riqueza harmônica e intensa carga emocional, transformando o sofrimento da Virgem em uma experiência sonora de extraordinária intensidade.

A contribuição de Krzysztof Penderecki é mais concisa, mas não menos impactante. Extraído de sua monumental Paixão segundo São Lucas, o trecho preserva a linguagem de vanguarda que tornou essa obra um marco da música sacra do século XX. As texturas corais a cappella, de rigor quase ascético, e a expressividade contida conferem à peça uma força espiritual singular.

Já Wolfgang Rihm apresenta a interpretação mais sintética e concentrada do conjunto. Seu Stabat Mater, retirado da obra Deus Passus, revela uma escrita cromática densa e altamente condensada que, embora pareça à primeira vista a mais distante da tradição, estabelece um diálogo evidente com o universo das Paixões de Johann Sebastian Bach. É uma leitura moderna, mas profundamente enraizada na herança espiritual da música sacra ocidental.

A qualidade da reprodução sonora é satisfatória, preservando a atmosfera das apresentações ao vivo que deram origem à gravação. Ainda assim, a captação poderia oferecer maior nitidez e presença acústica em determinados momentos. Trata-se, contudo, de uma limitação que pouco compromete o valor artístico de um álbum raro e revelador, capaz de demonstrar como um mesmo texto medieval continua a inspirar, séculos depois, algumas das mais profundas reflexões musicais sobre o sofrimento, a fé e a condição humana".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Francis Poulenc (1899-1963) - 

Stabat Mater
01. I. Stabat mater dolorosa. Tres calme (3:48)
02. II. Cujus aninmam gementem. Allegro molto, tres violent (1:05)
03. III. O quam tristis. Tres lent (2:39)
04. IV. Quae moerebat. Andantino (1:28)
05. V. Quis est homo. Allegro molto (1:28)
06. VI. Vidit suum. Andante (3:13)
07. VII. Eja mater. Allegro (1:08)
08. VIII. Fac, ut ardeat. Maestoso (2:22)
09. IX. Santa mater. Moderato (3:24)
10. X. Fac, ut portem. Tempo de Sarabande (3:23)
11. XI. Inflammatus et accensus. Anime et tres rythme (1:52)
12. XII. Quando corpus. Tres calme (4:22)

Karol Szymanowski (1882-1937) - 

 Stabat Mater, Op. 53
13. I. Stabat mater dolorosa. Andante, mesto (6:32)
14. II. Quis es homo. Moderato (2:38)
15. III. O eia mater. Lento, dolcissimo (3:57)
16. IV. Fac me tecum pie fiere. Moderato (2:53)
17. V. Virgo virginum praeclara. Allegro moderato (3:18)
18. VI. Christe, cum sit hinc exire. Andante tranquillissimo (4:19)

Krzysztof Penderecki (b.1933-2020) - 

19. Stabat Mater (Lukas-Passion) (7:36)

Wolfgang Rihm (b.1952-2002)
20. Rihm - Stabat Mater (Deus Passus) (4:35)

Chor des Bayerisvchen Rundfunks
Munchner Rundfunkorchester
Marcello Viotti, regente
Krzysztof Penderecki, regente
Helmuth Rilling, regente
Georgina von Benza, soprano
Violeta Urmana, mezzo-soprano
Iris Vermillion, mezzo-soprano
Birgit Remmert, alto
Fabio Previati, barítono 

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