sábado, 17 de outubro de 2026

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) - Requiem in D Minor, K. 626

A última grande obra sacra de Wolfgang Amadeus Mozart (1756–1791), o Réquiem em ré menor, K. 626, permanece como uma das composições mais comoventes e enigmáticas da história da música. Iniciada em 1791, nos meses finais da vida do compositor, a obra combina a dramaticidade do texto litúrgico com uma escrita musical de extraordinária força expressiva. Nesta gravação, publicada pelo selo Alia Vox, o maestro Jordi Savall conduz o conjunto Le Concert des Nations e a Capella Nacional de Catalunya, acompanhado por quatro solistas vocais: Rachel Redmond, soprano; Marianne Beate Kielland, mezzo-soprano; Mingjie Lei, tenor; e Manuel Walser, barítono.

A história do Réquiem é inseparável das circunstâncias misteriosas de sua encomenda. Em julho de 1791, Mozart recebeu, por intermédio de um emissário anônimo, uma solicitação do conde Franz von Walsegg para compor uma missa em memória de sua esposa, falecida naquele ano. O anonimato do contratante, somado à morte prematura do compositor, alimentou lendas que associavam a obra a uma espécie de pressentimento do próprio fim. A pesquisa histórica, contudo, esclareceu boa parte desse episódio: Mozart trabalhava no Réquiem por encomenda e não há documentação confiável que sustente a célebre narrativa de que teria recebido a visita de um mensageiro sobrenatural.

Mozart morreu em dezembro de 1791 sem concluir a partitura. O manuscrito revela diferentes estágios de composição: o Introitus foi inteiramente escrito por ele, assim como o Kyrie, enquanto diversas seções seguintes chegaram a um estágio avançado, mas incompleto. O Lacrimosa, um dos momentos mais intensos da obra, interrompe-se no manuscrito autógrafo após os primeiros oito compassos. Coube inicialmente a Joseph Eybler tentar concluir a composição, mas foi sobretudo Franz Xaver Süßmayr, discípulo de Mozart, quem realizou o trabalho que deu origem à versão tradicionalmente executada. A partitura, portanto, é resultado de uma colaboração póstuma, embora a concepção musical de Mozart permaneça reconhecível em sua arquitetura e em sua expressividade.

O percurso musical começa com o Introitus, cuja atmosfera solene prepara o ouvinte para a alternância entre súplica, temor e esperança que atravessa a obra. No Dies irae, a energia rítmica e a força do coro evocam o Juízo Final; em contraste, o Recordare oferece um espaço de recolhimento, com a participação dos quatro solistas. Já o Confutatis opõe a intensidade do coro masculino à suavidade das vozes femininas, enquanto o Lacrimosa transforma o lamento em uma expressão de profunda humanidade. No Offertorium, no Sanctus, no Benedictus e no Agnus Dei, a obra prossegue explorando diferentes dimensões da oração, até chegar ao Lux æterna, que retoma materiais do início e encerra o percurso com uma evocação da luz eterna.

A interpretação de Savall busca aproximar a execução das condições musicais do final do século XVIII. O maestro emprega instrumentos de época, com uma orquestra de cordas e sopros de dimensões reduzidas, além de órgão e tímpanos. O coro foi organizado com vinte integrantes, e os cantores interpretam o texto latino procurando recuperar a pronúncia utilizada na Viena daquele período. Essa opção favorece a transparência das texturas, a clareza do contraponto e a percepção dos contrastes entre a declamação dramática e os momentos de oração. A intenção, segundo Savall, é conciliar a força rítmica do texto litúrgico com a dimensão espiritual da música, sem perder a intensidade emocional que caracteriza a composição.

A gravação foi realizada entre 11 e 13 de maio de 2022, na Igreja Colegiada do Castelo de Cardona, na Catalunha. O projeto também se relaciona às academias profissionais promovidas por Savall desde 2019, que reúnem jovens cantores e instrumentistas a músicos experientes. Mais do que revisitar uma obra cercada de lendas, o registro propõe uma escuta atenta ao equilíbrio entre rigor histórico e expressão artística. Para Savall, o contato com o Réquiem, ainda na adolescência, foi decisivo para sua vocação musical: a obra lhe revelou a capacidade da música de tocar profundamente a alma humana e oferecer consolo diante do mistério da morte. Essa experiência pessoal ilumina a concepção desta gravação, na qual o lamento fúnebre de Mozart também se torna uma meditação sobre a vida, a misericórdia e a esperança.

Uma boa apreciação! 

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) - 

01. Requiem in D Minor, K. 626 -  I. Introitus -  Requiem aeternam
02. Requiem in D Minor, K. 626 -  II. Kyrie eleison
03. Requiem in D Minor, K. 626 -  III. Sequentia -  No. 1, Dies irae
04. Requiem in D Minor, K. 626 -  III. Sequentia -  No. 2, Tuba mirum
05. Requiem in D Minor, K. 626 -  III. Sequentia -  No. 3, Rex tremendae
06. Requiem in D Minor, K. 626 -  III. Sequentia -  No. 4, Recordare
07. Requiem in D Minor, K. 626 -  III. Sequentia -  No. 5, Confutatis
08. Requiem in D Minor, K. 626 -  III. Sequentia -  No. 6, Lacrymosa
09. Requiem in D Minor, K. 626 -  IV. Offertorium -  No. 1, Domine Jesu
10. Requiem in D Minor, K. 626 -  IV. Offertorium -  No. 2, Hostias
11. Requiem in D Minor, K. 626 -  V. Sanctus
12. Requiem in D Minor, K. 626 -  VI. Benedictus
13. Requiem in D Minor, K. 626 -  VII. Agnus Dei
14. Requiem in D Minor, K. 626 -  VIII. Communio -  Lux aeterna

La Capella Nacional de Catalunya
Le Concert des Nations

Jordi Savall, regente 

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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Leopold Godowsky (1870-1938) - Piano Music

A relação entre tradição e virtuosismo ganha destaque em Chopin Waltz Transcriptions, álbum dedicado a obras de Frédéric Chopin reelaboradas por Leopold Godowsky (1870–1938), pianista e compositor polonês-americano. Interpretado por Konstantin Scherbakov, o repertório integra o nono volume da coleção dedicada à música para piano de Godowsky, publicada pelo selo Marco Polo. O disco reúne transcrições de valsas de Chopin e peças como a Arabesque e a Barcarolle-Valse, revelando a habilidade do compositor para transformar materiais conhecidos em elaboradas criações pianísticas.

Godowsky foi reconhecido em sua época como um dos grandes virtuoses do piano. Nascido em 1870, nas proximidades de Vilnius, demonstrou talento musical desde a infância e começou a se apresentar publicamente ainda muito jovem. Depois de estudar brevemente em Berlim, construiu uma carreira internacional, atuando tanto como concertista quanto como professor. Viveu nos Estados Unidos e em diferentes centros europeus, incluindo Berlim e Viena, e desenvolveu estudos e publicações dedicados à técnica pianística. Um acidente vascular cerebral, em 1930, interrompeu sua carreira de intérprete, levando-o a concentrar seus últimos anos sobretudo na composição e nas transcrições para piano.

As reelaborações de Chopin constituem o eixo central deste álbum. Godowsky não se limita a reproduzir as melodias originais: amplia as texturas, enriquece as harmonias e reorganiza os efeitos de cada peça, sem abandonar o caráter essencial da música. O resultado é uma escrita que exige do pianista grande controle técnico, precisão e independência dos dedos. Em algumas passagens, o compositor confere às valsas dimensões próximas das grandes paráfrases virtuosísticas de Franz Liszt, fazendo com que peças originalmente breves adquiram maior densidade sonora e complexidade.

Entre os destaques está a Paraphrase de concert: Grande Valse Brillante, Op. 18, de Chopin, que encerra o disco. Nessa versão, Godowsky transforma a conhecida valsa em uma peça de maior complexidade, com mudanças de tonalidade e uma elaboração pianística que ultrapassa consideravelmente as exigências do original. Outras transcrições também demonstram sua liberdade criativa: o célebre Minuto, Op. 64, n.º 1, por exemplo, recebe a indicação Allegretto grazioso, em lugar do Molto vivace de Chopin, enquanto a ampliação harmônica se torna particularmente perceptível na seção central.

O álbum não se limita, contudo, às transcrições. A Arabesque em fá maior, Op. 16, n.º 2, publicada em 1899, evidencia a delicadeza cromática da escrita original de Godowsky. Já a Barcarolle-Valse, Op. 16, n.º 4, combina o balanço sereno de uma barcarola, marcada Allegretto grazioso, com uma valsa em lá maior de caráter mais enérgico. O contraste entre essas duas seções demonstra como o compositor explora diferentes atmosferas sem abandonar a fluência característica da escrita pianística.

A interpretação de Konstantin Scherbakov é central para a realização desse repertório. O pianista russo, radicado na Suíça desde 1992, construiu uma carreira internacional marcada pela atuação em recitais, concertos com orquestras e festivais. Segundo o encarte, sua execução foi elogiada pela clareza da articulação, pela segurança rítmica e pela capacidade de combinar as diferentes vozes e camadas da escrita musical. Essas qualidades são particularmente importantes diante de partituras que exigem não apenas virtuosismo, mas também atenção às sutilezas harmônicas e à preservação do caráter das obras de Chopin.

Gravado em Potton Hall, Suffolk, na Inglaterra, em dezembro de 2000 e outubro de 2004, o disco apresenta um panorama da criatividade de Godowsky como compositor e transcritor. Ao recriar as valsas de Chopin, ele não pretende simplesmente ornamentar o repertório, mas investigar suas possibilidades expressivas e técnicas. O resultado é um encontro entre a elegância melódica de Chopin e a inventividade de um pianista-compositor que fez do próprio instrumento o centro de sua imaginação artística.

Uma boa apreciação!  

Leopold Godowsky (1870-1938) - 

01. Arabesque, Op. 16, No. 2
02. Barcarolle-Valse, Op. 16, No. 4
03. Valse-scherzo
04. Grande valse romantique
05. Waltz Poem No. 4
06. Chopin - Waltz No. 12 in F Minor, Op. 70, No. 2
07. Chopin - Waltz No. 13 in D-Flat Major, Op. 70, No. 3
08. Chopin - Waltz No. 9 in A-Flat Major, Op. 69, No. 1
09. Chopin - Waltz No. 8 in A-Flat Major, Op. 64, No. 3
10. Chopin - Waltz in D-Flat Major, Op. 64 No. 1
11. Chopin - Waltz No. 1 in E-Flat Major, Op. 18, ''Grande valse brillante''

Konstantin Scherbakov, piano 

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Ludwig van Beethoven (1770-1827) - Consecration Of The House Overture, Op. 124, Leonore Overture #3, Op. 72A e Violin Concerto In D, Op. 61

Este registro apresenta o Concerto para violino e orquestra em ré maior, Op. 61, além das aberturas A Consagração da Casa, Op. 124, e Leonore III, Op. 72a. As gravações foram realizadas entre 1959 e 1962, em Nova York, e documentam diferentes aspectos da escrita beethoveniana: a exploração das possibilidades do instrumento solista, a energia teatral e a expressão de ideais humanos por meio da música.

Composto em 1806 para o violinista Franz Clement, o Concerto para violino ocupa um lugar singular no repertório do gênero. Sua estreia, em 23 de dezembro daquele ano, não parece ter provocado o reconhecimento imediato que a obra alcançaria posteriormente. Foi sobretudo a interpretação de Joseph Joachim, décadas mais tarde, que contribuiu para consolidá-la entre as grandes páginas do repertório violinístico. A obra exige do solista não apenas domínio técnico, mas também capacidade de sustentar longas linhas melódicas e integrar sua voz à arquitetura orquestral.

O primeiro movimento, Allegro ma non troppo, distingue-se pela originalidade de sua abertura: cinco pulsações do tímpano estabelecem um ritmo que atravessa o movimento e serve de base para o desenvolvimento das ideias musicais. Em vez de apresentar o violino como protagonista isolado, Beethoven o insere gradualmente no discurso da orquestra, construindo uma progressão que combina lirismo, ornamentação e expansões dramáticas. O Larghetto, segundo movimento, oferece um contraste expressivo, com uma melodia principal inicialmente confiada à orquestra e posteriormente elaborada pelo solista. Já o Rondo: Allegro encerra o concerto com caráter dançante e luminoso, alternando o tema recorrente com episódios de virtuosismo. As cadências de Fritz Kreisler presentes nesta gravação acrescentam uma dimensão histórica à interpretação.

O programa inclui também duas aberturas que revelam facetas distintas da escrita teatral de Beethoven. A Consagração da Casa, composta em 1822 para a inauguração do teatro de Josefstadt, em Viena, possui caráter festivo e exuberante. Sua construção combina energia rítmica, escrita polifônica e brilho orquestral. Leonore III, por sua vez, está ligada à história de Fidelio, a única ópera de Beethoven, cuja trajetória envolveu sucessivas revisões. A abertura condensa elementos dramáticos fundamentais da narrativa, articulando tensão, expectativa e a ideia de libertação que atravessa a obra.

Mais do que um conjunto de registros históricos, o álbum evidencia a amplitude da linguagem de Beethoven. No concerto, a invenção musical se manifesta no diálogo entre solista e orquestra; nas aberturas, a música assume uma dimensão dramática e simbólica, associada à esperança e à superação. A presença de Bernstein à frente da Filarmônica de Nova York e de Stern como solista reúne intérpretes capazes de explorar tanto a força estrutural quanto a expressividade dessas partituras. O resultado é um retrato de Beethoven em que o virtuosismo nunca se separa da construção musical e em que a energia dramática se associa a uma visão profundamente humanista.

Uma boa apreciação! 

Ludwig van Beethoven (1770-1827) - 

01. Beethoven_ Consecration Of The House Overture, Op. 124
02. Beethoven_ Leonore Overture #3, Op. 72A
03. Beethoven_ Violin Concerto In D, Op. 61 - 1. Allegro Ma Mon Troppo
04. Beethoven_ Violin Concerto In D, Op. 61 - 2. Larghetto
05. Beethoven_ Violin Concerto In D, Op. 61 - 3. Rondo

Filarmônica de Nova York
Leonard Bernstein, regente
Isaac Stern, violino 

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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Ludwig van Beethoven (1770-1827) - Works for Flute

O último lançamento da Warner Classics dedicado ao ano comemorativo dos 250 anos de nascimento de Beethoven apresenta um encantador programa de música de câmara com flauta. As quatro obras reunidas no álbum foram compostas nos primeiros anos da carreira do compositor e gravadas em junho de 2020, na Pierre Boulez Saal, em Berlim, por um grupo de músicos ilustres liderado por Daniel Barenboim, aqui em sua atuação como pianista, e pelo flautista Emmanuel Pahud.

Participam também dois colegas de Pahud na Filarmônica de Berlim: Daishin Kashimoto, primeiro spalla da orquestra, e Amihai Grosz, seu principal violista. Completam o grupo dois músicos ligados à Filarmônica de Viena: Sophie Dervaux, principal fagotista da instituição, e Silvia Careddu, ex-primeira flautista da mesma orquestra.

Uma boa apreciação! 

Ludwig van Beethoven (1770-1827) - 

Sonata No.8 in G, Op.30 No.3 arr. Emmanuel Pahud for flute & piano
01. I. Allegro assai
02. II. Tempo di Minuetto ma molto moderato e grazioso
03. III. Allegro vivace

Serenade in D Op.25 for flute, violin & viola
04. I. Entrata. Allegro
05. II. Tempo ordinario d'un Menuetto
06. III. Allegro molto
07. IV. Andante con variazione
08. V. Allegro scherzando e vivace
09. VI. Adagio
10. VII. Allegro vivace disinvolto

Allegro and Minuet in G, WoO 26 for 2 flutes
11. I. Allegro con brio
12. II. Minuetto quasi allegretto

Trio Concertante in G, WoO 37 for piano, flute & bassoon
13. I. Allegro
14. II. Adagio
15. III. Thema andante con variazioni

Emmanuel Pahud, flauta
Daniel Barenboim, piano
Daishin Kashimoto, violino
Amihai Grosz, viola
Silvia Careddu, flauta
Sophie Dervaux, fagote

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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Guillaume Dufay (1397-1474) - Le Prince d'amours

Nas cortes do século XV, a música era uma presença constante. A chanson constituía um prazer cotidiano, um veículo para a poesia e a paixão, um remédio para a dor e uma forma de sublimar a riqueza das relações amorosas. Talvez tenha sido nesse gênero musical que Guillaume Dufay, apesar de ser um homem da Igreja, melhor expressou seu imenso talento.

Considerado um mestre absoluto por seus contemporâneos, graças à perfeição de sua escrita e à intensa expressividade de suas composições, Dufay enriqueceu a história da música com uma obra magistral que ultrapassou amplamente os limites estilísticos de sua época. Suas cerca de 80 chansons revelam uma grande diversidade e permitem acompanhar a constante evolução estética desse gênero.

O Ensemble Gilles Binchois apresenta um programa com duas seleções de obras nas quais o amor cortês encontra algumas de suas mais belas expressões, marcadas pela elegância e pelo refinamento.

Uma boa apreciação! 

01. Par droit je puis bien complaindre et gemir
02. Dona gentile, bella come l'oro
03. Belle, que vous ay je mesfait
04. Les douleurs dont me prends tel somme
05. L'alta belleza
06. Je ne suy plus tel que souloye
07. Adieu m'amour, adieu ma joye
08. He compaignons, resvelons
09. Ce moy de may soyons lies et joyeux
10. Estrinez moy, je vous estrineray
11. Ce jour le doibt, aussi fait la saison
12. Ne je ne dors, ne je ne veille
13. Resvelons nous, resvelons amoureux / Alons ent bien tos au may
14. Pour l'amour de ma doulce amye
15. Mille bonjours je vous presente
16. En triumphant de Cruel Dueil
17. Adyeu, quitte le demeurant
18. Je me complains piteusement
19. Franc cuer gentil
20. Mon chier amy, qu'avés vous empensé

Ensemble Gilles Binchois 

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Johann Joachim Quantz (1697–1773) - Flute Sonatas

Filho de um ferreiro, Johann Joachim Quantz (1697–1773) teve uma infância difícil: ambos os pais haviam morrido quando ele tinha apenas dez anos. Após estudar diversos instrumentos, acabou se dedicando à flauta, uma escolha oportuna, já que, naquela época, havia poucos flautistas de alto nível na Europa.

Quantz deixou a Alemanha natal para estudar e viajar pela Itália, França, Inglaterra e pelos Países Baixos. Durante suas andanças, chamou a atenção do príncipe herdeiro da Prússia. Contratado como professor particular do jovem nobre, teve uma oportunidade extraordinária quando seu aluno se tornou Frederico, o Grande. Entre suas atribuições junto ao monarca estava a composição musical — tarefa à qual se dedicou intensamente. Seus concertos para flauta ultrapassam trezentos, enquanto suas sonatas para o instrumento somam pelo menos duzentas. As obras reunidas neste disco abrangem diferentes fases de sua carreira e, em sua maioria, seguem a conhecida estrutura em três movimentos.

Como compositor que estabeleceu uma ponte entre o Barroco tardio e a primeira metade do período Clássico, Quantz apresenta em sua escrita elementos característicos de ambas as épocas. O Concerto nº 275, em si bemol maior, conserva a tradicional estrutura italiana de movimentos rápido, lento e rápido. No Allegro inicial, o cravo realiza o baixo contínuo, enquanto o violoncelo, vigoroso, sustenta a flauta em suas passagens animadas. Em alguns momentos, surgem notas repetidas em staccato, típicas da Escola de Berlim; em outros, o violoncelo desenvolve uma animada contramelodia.

No contemplativo Affettuoso que se segue, o fraseado em legato revela uma flexibilidade temporal maior do que a habitualmente encontrada entre compositores barrocos. O violoncelo recua para o segundo plano, enquanto o instrumento de teclado assume maior protagonismo neste segundo movimento, escrito na inesperada tonalidade de fá menor. De volta à tonalidade mais luminosa de si bemol maior, a obra termina com um Vivace em compasso ternário, marcado por uma atraente hesitação rítmica.

Apesar de sua numeração elevada, a Sonata nº 348, em mi bemol maior, provavelmente foi composta antes da nomeação de Quantz para a corte de Berlim. O cravo obbligato abre o Allegro e assume uma responsabilidade quase equivalente à do instrumento de sopro solista na apresentação e no desenvolvimento do material melódico. Não há participação do violoncelo. Após um sombrio Larghetto, que conduz a música para o modo menor e apresenta uma melodia frequentemente dobrada entre os instrumentos, segue-se um vigoroso Vivace.

Na Sonata nº XIV, em sol menor, estruturada em quatro movimentos, a flauta permanece em silêncio no início. Quando finalmente entra no Grave de abertura, muitas vezes limita-se a acompanhar a linha conduzida pelo violoncelo. Rara na produção de Quantz, a fuga a três vozes do segundo movimento, Allegro, constitui um dos destaques da composição. Depois de um Lento breve, mas solene, um Minuetto deliberado encerra a peça, com uma diferenciação de andamento pouco acentuada para estabelecer um contraste expressivo. É a intervenção urgente do violoncelo que acaba por conferir maior distinção ao movimento final.

Na Sonata nº 348, em mi bemol maior, a flauta cantante brilha no delicado Arioso inicial, sustentada pela linha do violoncelo. A extraordinária linha do baixo, que avança e recua como as ondas na praia, oferece uma base perfeita para o instrumento de sopro. Embora a sonata mantenha a estrutura tripartida esperada, adota uma dinâmica incomum de andamento lento, rápido e ainda mais rápido. No Allegro assai, as notas repetidas do baixo impulsionam a música com insistência e energia. Já o Presto conclusivo explora de maneira eficaz as interrupções abruptas do baixo contínuo, tanto no cravo quanto no violoncelo, realçando a agilidade da flauta.

Em si menor, a Sonata nº 231 começa com um melancólico Larghetto. Sobre linhas de baixo que avançam como uma marcha, o vivaz Allegretto evidencia o virtuosismo da voz solista de soprano. No Presto seguinte, em compasso ternário, longas pausas pontuam a seção final, criando um contraste acentuado com o andamento acelerado e colocando em evidência os frequentes deslocamentos rítmicos.

Com base em indícios presentes na própria composição e em sua estrutura de quatro seções, é provável que a sonata sem numeração, em mi menor, também pertença à fase inicial da carreira de Quantz. Sem a participação do violoncelo, o primeiro movimento, Adagio, apresenta numerosos trechos em que as linhas melódicas são dobradas. O Allegro seguinte contém passagens fugadas executadas pelo cravo obbligato, que frequentemente conferem à música o caráter de uma sonata para teclado acompanhada pela flauta. Um sereno Grazioso antecede o movimento final, um luminoso Vivace.

Inserido antes da última obra do disco, um meditativo Minuetto oferece um belo momento de destaque para a flauta d'amore, instrumento afinado uma terça menor abaixo da flauta habitual.

Característico das obras do período Sturm und Drang — movimento de forte expressividade que marcou a fase inicial do Classicismo —, o impetuoso Presto apresenta linhas melódicas angulosas e intervalos amplos, em meio à exibição virtuosística da flauta. No segundo movimento, Grave, o instrumento solista alterna notas longamente sustentadas com ornamentações virtuosísticas, posteriormente ecoadas pelo violoncelo em tom elegíaco. Um Presto final em compasso ternário encerra o disco de maneira brilhante.

A gravação da Chandos é excelente, e o trabalho da flautista Rachel Brown merece todos os elogios. Para quem já se perguntou o que aconteceu entre Bach e Haydn, vale a pena ouvir Quantz.

Uma boa apreciação! 

Johann Joachim Quantz (1697–1773)

Sonata No.275 in B flat major for flute and continuo
01. I. Allegro di molto
02. II. Affettuoso
03. III. Vivace

Sonata in E flat major for flute and obbligato harpsichord

04. I. Allegro
05. II. Larghetto
06. III. Vivace

Sonata XIV in G minor for flute and continuo
07. I. Grave
08. II. Allegro
09. III. Lento
10. IV. Tempo di Menuetto

Sonata No.348 in E flat major for flute and continuo
11. I. Arioso -
12. II. Allegro assai
13. III. Presto

Sonata No.231 in B minor for flute and continuo

14. I. Larghetto
15. II. Allegretto
16. III. Presto

Sonata in E minor for flute and obbligato harpsichord

17. I. Adagio
18. II. Allegro
19. III. Grazioso
20. IV. Vivace
21. Minuetto for flute d'amour and continuo

Sonata No.273 in G major for flute and continuo
22. I. Presto ma fiero
23. II. Grave -
24. III. Vivace

Rachel Brown, flute, flauta d’amour
Mark Caudle, violoncelo
James Johnstone, cravo 

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terça-feira, 13 de outubro de 2026

George Gershwin (1898-1937) - Porgy & Bess e Ferde Grofé (1892-1972) - Grand Canyon Suite

O repertório sinfônico norte-americano do século XX encontrou em George Gershwin (1898–1937) e Ferde Grofé (1892–1972) dois compositores capazes de aproximar a música de concerto da linguagem popular. Essa afinidade está no centro do álbum que reúne Porgy and Bess — A Symphonic Picture, de Gershwin, na orquestração de Robert Russell Bennett, e a Grand Canyon Suite, de Grofé. Interpretadas pela Detroit Symphony Orchestra sob a regência de Antal Doráti, as obras revelam diferentes maneiras de incorporar elementos do jazz, do teatro musical e da cultura americana à escrita orquestral.

A relação entre os dois compositores remonta a 1920, quando Grofé, então pianista e arranjador, ingressou na orquestra de Paul Whiteman. O conjunto teve papel pioneiro na divulgação do chamado jazz orquestrado, cuja realização mais célebre seria a Rhapsody in Blue, de Gershwin, estreada em 1924. A orquestração dessa obra, contudo, foi realizada por Grofé, e não pelo próprio Gershwin. Whiteman incentivou Grofé a desenvolver também suas composições, e foi com a versão inicial da Grand Canyon Suite, apresentada em Chicago em 1931, que o arranjador começou a consolidar sua presença no repertório sinfônico americano. Fonte: encarte do álbum, pp. 3–4.

A trajetória de Grofé ajuda a compreender a natureza da Grand Canyon Suite. Inicialmente escrita para uma pequena formação, a obra foi posteriormente ampliada para uma orquestra sinfônica convencional. Essa versão consolidou-se rapidamente no repertório americano de música orquestral ligeira, combinando melodias líricas, cores instrumentais vivas e imagens sonoras de apelo imediato. Para o compositor, a intenção não era reproduzir a natureza de maneira estritamente documental, mas apresentar uma visão romantizada e idealizada do Oeste americano, com recursos que também evocam a linguagem cinematográfica.

Dividida em cinco movimentos, a suíte conduz o ouvinte por diferentes impressões da paisagem do Grand Canyon. Sunrise retrata o nascer do sol; Painted Desert sugere as cores e a amplitude do deserto; On the Trail acompanha uma jornada pela região; Sunset apresenta uma atmosfera mais contemplativa; e Cloudburst encerra a obra com uma tempestade de grande intensidade orquestral. A variedade de timbres desempenha papel central nessa narrativa: em On the Trail, a celesta evoca o som de sinos, enquanto os chamados de trompa em Sunset parecem ecoar à distância. No movimento final, o tema amplo das cordas se combina com a melodia de caráter cowboy apresentada pelos metais, sob a presença insistente dos instrumentos de madeira, que sugerem os ruídos da tempestade. O resultado é um clímax espetacular, que alia força dramática e imaginação descritiva.

A segunda obra do programa, Porgy and Bess — A Symphonic Picture, estabelece uma ligação direta com o teatro musical. A ópera de Gershwin, que retrata a vida de uma comunidade negra fictícia em Charleston, na Carolina do Sul, tornou-se uma de suas criações mais conhecidas. Para a versão sinfônica apresentada no álbum, a música foi organizada e orquestrada por Robert Russell Bennett (1894–1981), compositor e arranjador que teve carreira destacada na Broadway e em Hollywood. Bennett já havia colaborado com Gershwin e conhecia profundamente sua linguagem musical, o que contribuiu para que a seleção de episódios da ópera adquirisse unidade e equilíbrio em uma formação orquestral ampliada.

A versão de Bennett foi preparada em 1941–1942 para a Orquestra Sinfônica de Pittsburgh, a pedido de seu regente, Fritz Reiner. Embora outras sínteses sinfônicas da ópera tenham sido realizadas, inclusive pelo próprio Gershwin, a de Bennett tornou-se a mais frequentemente executada. Seu trabalho não se limitou a transferir para a orquestra os números da ópera: ele reorganizou a sucessão de episódios musicais, procurando produzir uma audição equilibrada e uma trajetória coerente.

A presença conjunta dessas duas partituras evidencia a diversidade da música orquestral americana. Gershwin transforma elementos do jazz e do teatro musical em linguagem sinfônica, enquanto Grofé desenvolve uma escrita voltada à evocação de paisagens, atmosferas e acontecimentos. Em ambos, a orquestra funciona como espaço de síntese entre diferentes tradições musicais, sem abandonar o apelo melódico e a comunicação direta com o público.

Sob a regência de Antal Doráti, a Detroit Symphony Orchestra reúne essas perspectivas em um programa que percorre tanto o universo dramático de Porgy and Bess quanto as imagens sonoras da Grand Canyon Suite. O álbum oferece, assim, um retrato expressivo de uma vertente da música americana do século XX: aquela que aproxima o concerto sinfônico do jazz, do teatro e da narrativa musical, revelando como a linguagem orquestral pode traduzir a identidade cultural de um país em plena transformação.

Uma boa apreciação!

01. 01 Gershwin_ Porgy & Bess
02. Grofé_ Grand Canyon Suite - 1. Sunrise
03. Grofé_ Grand Canyon Suite - 2. Painted Desert
04. Grofé_ Grand Canyon Suite - 3. On The Trail
05. Grofé_ Grand Canyon Suite - 4. Sunset
06. Grofé_ Grand Canyon Suite - 5. Cloudburst

Detroit Symphony Orchestra
Antal Dorati, regente 

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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Jazz - Alice Coltrane (1937-2007) - Lord of Lords (1972)

O álbum Lord of Lords, lançado em 1972, revela uma das dimensões mais pessoais da trajetória de Alice Coltrane: a busca por uma linguagem musical capaz de unir improvisação, contemplação espiritual e reflexão sobre a existência. Pianista, harpista, compositora e arranjadora, Alice construiu uma obra que ultrapassa as fronteiras convencionais do jazz, aproximando-se de tradições religiosas e de sonoridades que evocam a meditação. Neste disco, essa pesquisa se manifesta em cinco faixas que combinam composições próprias, uma releitura de Igor Stravinsky e uma interpretação de um espiritual tradicional.

A gravação reúne Andromeda’s Suffering, Sri Rama Ohnedathur, trechos de The Firebird, de Stravinsky, Lord of Lords e Going Home. O programa evidencia a amplitude dos interesses da artista: de um universo sonoro de inspiração cósmica à música de caráter devocional, passando pela aproximação entre o repertório sinfônico e a estética do jazz. A instrumentação inclui piano, harpa, órgão e percussão, acompanhados por baixo, bateria, saxofone e cordas, formando uma paleta tímbrica que alterna densidade orquestral e momentos de recolhimento.

A faixa-título, Lord of Lords, ocupa uma posição central nesse percurso. O encarte relaciona a composição à reflexão de Alice sobre a presença divina e a busca de uma experiência espiritual que ultrapasse as limitações da existência material. A música não se apresenta apenas como manifestação de virtuosismo instrumental: sua construção procura traduzir, por meio da repetição, da expansão sonora e do diálogo entre os instrumentos, uma experiência de contemplação. A dimensão religiosa, nesse sentido, não é um elemento periférico, mas o princípio organizador da obra.

Outro destaque é Excerpts from The Firebird, de Igor Stravinsky. A presença do compositor russo estabelece uma ponte entre o universo do jazz e a tradição orquestral europeia. A escolha é especialmente significativa porque Alice Coltrane não se limita a reproduzir um repertório alheio à sua linguagem: incorpora-o a uma pesquisa sonora própria, na qual a liberdade de interpretação e a busca espiritual ocupam lugar central. O diálogo com Stravinsky amplia, assim, o horizonte estético do disco e reforça o interesse da artista por diferentes tradições musicais.

O álbum se encerra com Going Home, adaptação de um espiritual tradicional, cuja mensagem de retorno e acolhimento adquire especial significado no contexto do disco. A peça sintetiza a dimensão devocional que atravessa o repertório e oferece um contraponto à intensidade das faixas anteriores. A música religiosa afro-americana, aqui, não aparece apenas como referência histórica ou cultural, mas como expressão viva de uma experiência coletiva de fé, esperança e transcendência.

Lord of Lords integra uma fase decisiva da carreira de Alice Coltrane, marcada pelo aprofundamento de sua investigação espiritual e pela ampliação dos limites do jazz. Em vez de tratar a improvisação como um fim em si mesma, a artista a transforma em instrumento de busca interior. O resultado é um trabalho que articula jazz, música orquestral e espiritualidade sem reduzir essas tradições a uma fórmula única. Mais do que uma coleção de peças, o álbum propõe uma experiência musical contínua, na qual timbre, silêncio, repetição e intensidade sonora convergem para expressar uma visão de mundo profundamente pessoal.

Uma boa apreciação!  

01. Andromeda's Suffering
02. Sri Rama Ohnedaruth
03. Excerpts from the Firebird
04. Lord of Lords
05. Going Home 

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Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788) - Magnificat. Die Himmel erzählen die Ehre Gottes

Há muito tempo fora de catálogo, estão finalmente disponíveis novamente as gravações em estreia mundial do Magnificat (versão inicial de Leipzig), de C. P. E. Bach, bem como da obra festiva Die Himmel erzählen die Ehre Gottes (Os céus proclamam a glória de Deus). Os Basel Madrigalists, o conjunto L'arpa festante e renomados solistas apresentam uma interpretação vibrante e convincente, sob a direção de Fritz Näf.

Ao longo de toda a sua vida, C. P. E. Bach considerou seu Magnificat uma de suas obras mais importantes. Nesta gravação, a composição é apresentada em sua versão inicial de Leipzig, raramente ouvida, datada de 1749. Com ela, o filho pretendia se apresentar como um possível sucessor do pai no cargo de Kantor — responsável pela música sacra — da Igreja de São Tomás, em Leipzig.

A obra atende a todos os requisitos que a estética da época exigia de uma composição sacra de grandes proporções: grandiosidade, dignidade, movimentos corais polifônicos e concertantes, árias de caráter sensível e patético e uma imponente fuga dupla conclusiva.

A música festiva Die Himmel erzählen die Ehre Gottes, por sua vez, foi composta durante o período posterior da carreira de Bach, quando ele exercia a função de diretor musical em Hamburgo.

Uma boa apreciação!

Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788) - 

01. C.P.E. Bach: Die Himmel erzählen die Ehre Gottes, H. 815-I. Die Himmel erzählen die Ehre Gottes
02. C.P.E. Bach: Die Himmel erzählen die Ehre Gottes, H. 815-II. Groß ist der Herr
03. C.P.E. Bach: Die Himmel erzählen die Ehre Gottes, H. 815-III. Wohin mein Auge blickt
04. C.P.E. Bach: Die Himmel erzählen die Ehre Gottes, H. 815-IV. Groß ist der Herr
05. C.P.E. Bach: Die Himmel erzählen die Ehre Gottes, H. 815-V. Welch ein Gesang
06. C.P.E. Bach: Die Himmel erzählen die Ehre Gottes, H. 815-VI. Also hat Gott die Welt geliebt
07. C.P.E. Bach: Die Himmel erzählen die Ehre Gottes, H. 815-VII. Du bist gekommen
08. C.P.E. Bach: Die Himmel erzählen die Ehre Gottes, H. 815-VIII. Seid mir gesegnet
09. C.P.E. Bach: Magnificat, H. 772-I. Magnificat
10. C.P.E. Bach: Magnificat, H. 772-II. Quia respexit
11. C.P.E. Bach: Magnificat, H. 772-III. Quia fecit mihi magna
12. C.P.E. Bach: Magnificat, H. 772-IV. Et misericordia
13. C.P.E. Bach: Magnificat, H. 772-V. Fecit potentiam
14. C.P.E. Bach: Magnificat, H. 772-VI. Deposuit potentes
15. C.P.E. Bach: Magnificat, H. 772-VII. Suscepit Israel
16. C.P.E. Bach: Magnificat, H. 772-VIII. Gloria
17. C.P.E. Bach: Magnificat, H. 772-IX. Sicut erat in principio

Basler Madrigalisten L'Arpa Festante
Fritz Näf, regente

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domingo, 11 de outubro de 2026

Ludwig van Beethoven (1770-1827) - Symphonies 6, 7, 8 e 9


Concluir a gravação das nove sinfonias de Ludwig van Beethoven (1770–1827) é, por si só, um empreendimento de grande dimensão artística. Fazê-lo em meio às dificuldades impostas pela pandemia de covid-19 tornou o projeto ainda mais desafiador. O álbum Beethoven Révolution – Symphonies 6 à 9, lançado pelo selo Alia Vox em 2021, reúne as quatro últimas sinfonias do compositor em interpretações de Jordi Savall à frente do conjunto Le Concert des Nations. O registro completa o ciclo iniciado em 2019, dedicado à integral sinfônica beethoveniana, e propõe uma leitura que procura se aproximar das condições musicais da época do compositor.

A proposta interpretativa de Savall parte de uma investigação das fontes originais e da utilização de instrumentos históricos, incluindo cordas de tripa e arcos de época, além de instrumentos de sopro e tímpanos compatíveis com os utilizados no início do século XIX. Em vez de recorrer a uma orquestra de grandes proporções, o maestro opta por um conjunto de aproximadamente 55 a 66 músicos, conforme a sinfonia, buscando recuperar o equilíbrio entre cordas e sopros. A intenção é evidenciar a articulação, as diferenças de timbre e as dinâmicas das partituras, sem sobrecarregar a textura sonora. Savall também atribui especial importância às indicações metronômicas deixadas por Beethoven, entendendo que os andamentos fazem parte essencial da concepção musical do compositor.

A Sinfonia n.º 6 em fá maior, op. 68, Pastoral, composta entre 1806 e 1808, abre o primeiro disco. Seus cinco movimentos descrevem uma experiência de contato com a natureza, desde a chegada ao campo e a contemplação de um riacho até a reunião festiva de camponeses, a tempestade e o canto pastoral que encerra a obra. Beethoven, entretanto, esclarece no subtítulo que se trata mais da expressão dos sentimentos despertados pela vida campestre do que de uma pintura descritiva. Essa distinção é fundamental: a natureza não aparece apenas como cenário, mas como experiência emocional. A sequência musical conduz o ouvinte da tranquilidade inicial à força dramática da tempestade e, por fim, a uma atmosfera de gratidão e serenidade.

A Sinfonia n.º 7 em lá maior, op. 92, de 1811–1812, desloca o foco para o movimento e a energia rítmica. Seus quatro movimentos se articulam por meio de contrastes de andamento, impulso e intensidade, com destaque para o Allegretto, cujo caráter sombrio e insistente se contrapõe à vivacidade dos demais episódios. A obra foi apresentada publicamente em Viena, em dezembro de 1813, sob a direção do próprio Beethoven. Na interpretação de Savall, a abordagem com instrumentos de época integra o esforço de recuperar a clareza dos planos sonoros e o equilíbrio entre as famílias instrumentais, permitindo que a arquitetura rítmica da sinfonia se revele sem depender de uma massa orquestral excessiva.

Mais breve e concentrada, a Sinfonia n.º 8 em fá maior, op. 93, concluída em 1812, apresenta outra faceta da personalidade de Beethoven. Seus quatro movimentos combinam vigor, concisão e humor, em uma construção que dialoga com a tradição clássica sem simplesmente reproduzi-la. A presença de um movimento denominado Allegretto scherzando, em lugar do movimento lento convencional, é um dos elementos que conferem à obra seu caráter particular. A Oitava também demonstra que a inovação beethoveniana não depende exclusivamente da monumentalidade: a inventividade pode surgir da surpresa, da economia dos meios e da maneira como o compositor subverte expectativas formais.

O percurso culmina na Sinfonia n.º 9 em ré menor, op. 125, composta entre 1822 e 1824. Com duração aproximada de 64 minutos nesta gravação, a obra amplia radicalmente o horizonte da sinfonia ao incorporar, no movimento final, solistas vocais e coro para interpretar a Ode à Alegria, texto de Friedrich Schiller. O conjunto vocal reúne a soprano Sara Gouzy, a mezzo-soprano Laila Salome Fischer, o tenor Mingjie Lei e o barítono Manuel Walser, acompanhados pela Capella Nacional de Catalunya. A introdução das vozes não é um simples acréscimo à forma sinfônica: transforma o desfecho da obra em uma afirmação coletiva de fraternidade e humanidade.

A realização desse último registro foi particularmente atribulada. Em outubro de 2020, quando o conjunto se preparava para gravar o movimento coral da Nona, integrantes do coro adoeceram de covid-19. A apresentação prevista precisou ser adaptada, e a gravação integral só foi concluída em 30 de setembro e 1.º de outubro de 2021, em Cardona, na Catalunha. O projeto envolveu quatro Academias Beethoven 250, nas quais músicos profissionais e jovens instrumentistas selecionados internacionalmente estudaram e aperfeiçoaram as obras antes das apresentações e gravações. A preparação prolongada permitiu trabalhar minuciosamente os detalhes instrumentais, as articulações e a concepção de cada sinfonia.

Mais do que completar um catálogo, Beethoven Révolution propõe uma reflexão sobre a própria tradição interpretativa. Para Savall, a popularidade das sinfonias de Beethoven nem sempre foi acompanhada por uma compreensão fiel de suas características originais: determinadas práticas modernas teriam favorecido sonoridades excessivamente volumosas, capazes de obscurecer o equilíbrio entre os instrumentos. Seu projeto busca devolver a essas partituras a energia e a clareza que considera essenciais à linguagem do compositor.

Ao reunir a contemplação da Pastoral, o impulso rítmico da Sétima, a concisão da Oitava e a dimensão universal da Nona, o álbum apresenta um retrato abrangente da imaginação sinfônica de Beethoven. A direção de Jordi Savall articula pesquisa histórica e reflexão musical, convidando o ouvinte a redescobrir obras conhecidas por meio de uma perspectiva que privilegia a transparência sonora, a força dos contrastes e a vitalidade da escrita. O resultado é também um testemunho da persistência de um projeto artístico que, mesmo diante de circunstâncias adversas, conseguiu levar a termo uma das grandes jornadas do repertório orquestral.

Uma boa apreciação! 

Ludwig van Beethoven (1770-1827) - 

01. Symphony No. 6 in F Major, Op. 68 Pastoral I. Angenehme, heitere Empfindungen,
02. Symphony No. 6 in F Major, Op. 68 Pastoral II. Szene am Bach. Andante molto moto
03. Symphony No. 6 in F Major, Op. 68 Pastoral III. Lustiges Zusammensein der Landleute. Allegro
04. Symphony No. 6 in F Major, Op. 68 Pastoral IV. Donner, Sturm. Allegro
05. Symphony No. 6 in F Major, Op. 68 Pastoral V. Hirtengesang. Wohltätige,
06. Symphony No. 7 in A Major, Op. 92 I. Poco sostenuto - Vivace
07. Symphony No. 7 in A Major, Op. 92 II. Allegretto
08. Symphony No. 7 in A Major, Op. 92 III. Presto - Assai meno presto
09. Symphony No. 7 in A Major, Op. 92 IV. Allegro con brio
10. Symphony No. 8 in F Major, Op. 93 I. Allegro vivace e con brio
11. Symphony No. 8 in F Major, Op. 93 II. Allegretto scherzando
12. Symphony No. 8 in F Major, Op. 93 III. Tempo di menuetto
13. Symphony No. 8 in F Major, Op. 93 IV. Allegro vivace
14. Symphony No. 9 in D Minor, Op. 125 Choral I. Allegro ma non troppo e un poco maestoso
15. Symphony No. 9 in D Minor, Op. 125 Choral II. Molto vivace
16. Symphony No. 9 in D Minor, Op. 125 Choral III. Adagio molto e cantabile
17. Symphony No. 9 in D Minor, Op. 125 Choral IV. Presto - Allegro Assai
18. Symphony No. 9 in D Minor, Op. 125 Choral V. Presto - Recitativo
19. Symphony No. 9 in D Minor, Op. 125 Choral V. Allegro assai vivace alla marcia
20. Symphony No. 9 in D Minor, Op. 125 Choral V. Allegro ma non tanto

Le Concert Des Nations
La Capella Nacional de Catalunya

Jordi Savall, regente 

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