A relação entre Shostakovich e Mravinsky começou em 1937, ano decisivo tanto para o compositor quanto para a cultura soviética. Após a violenta condenação da ópera Lady Macbeth de Mtsensk pelo jornal Pravda, o compositor viu sua carreira ameaçada e tornou-se alvo da vigilância ideológica do regime stalinista. Nesse contexto, a estreia da Sinfonia nº 5 representou muito mais que o lançamento de uma nova obra: foi uma espécie de reabilitação pública de seu autor. A recepção calorosa da estreia, em novembro daquele ano, devolveu a Shostakovich um espaço que parecia definitivamente perdido.
Durante décadas, a Quinta Sinfonia foi oficialmente apresentada como uma demonstração da reconciliação do compositor com os ideais do realismo socialista. O próprio Shostakovich declarou que o final oferecia uma resposta otimista aos conflitos apresentados nos movimentos iniciais. Entretanto, essa interpretação nunca deixou de provocar controvérsias. Muitos ouvintes passaram a perceber naquele triunfo final uma vitória imposta, quase forçada, cuja grandiosidade esconde um sofrimento que jamais desaparece completamente.
É justamente nesse ponto que a leitura de Yevgeny Mravinsky adquire importância histórica. O maestro recusava qualquer interpretação simplista do último movimento como celebração triunfal. Em vez disso, conduzia a música como uma marcha inexorável rumo ao desconhecido, preservando a ambiguidade emocional da partitura. Sob sua batuta, a monumental coda deixa de soar como uma apoteose inequívoca para transformar-se em um desfecho inquietante, quase um julgamento inevitável, onde a tensão nunca é totalmente resolvida.
Do ponto de vista musical, a Quinta Sinfonia representa uma impressionante síntese da tradição russa e centro-europeia. Ecos de Tchaikovsky aparecem na dimensão lírica e no tema do homem diante do destino. A grandiosidade épica aproxima a obra de Borodin, enquanto a influência de Gustav Mahler manifesta-se tanto na riqueza da orquestração quanto na ironia amarga do Allegretto. Há ainda reminiscências de Wagner no Largo e passagens cuja linguagem harmônica evoca Sibelius. Essa extraordinária rede de referências nunca compromete a personalidade do compositor; pelo contrário, revela um Shostakovich plenamente consciente da tradição que herdou e disposto a reinventá-la sob circunstâncias políticas dramáticas.
Se a Quinta tornou-se símbolo da sobrevivência artística, a Sinfonia nº 12, composta em 1961 e intitulada O Ano de 1917, ocupa uma posição bem mais controversa dentro do catálogo do compositor. Oficialmente dedicada à memória de Lenin, ela foi durante muito tempo interpretada como uma obra de propaganda soviética. Contudo, uma observação mais cuidadosa revela uma realidade muito mais complexa.
Segundo o texto do encarte, Shostakovich associava essa sinfonia a lembranças pessoais da Revolução Russa. Ainda criança, testemunhara a chegada de Lenin à Estação Finlândia, em Petrogrado, mas sua memória mais vívida era a morte brutal de um garoto atingido pelo sabre de um cavaleiro cossaco durante a confusão popular. Ao mesmo tempo, a obra pode ser entendida como uma homenagem velada a amigos vítimas dos expurgos stalinistas, entre eles o diretor teatral Vsevolod Meyerhold e o marechal Mikhail Tukhachevsky, ambos executados pelo regime.
Musicalmente, a Décima Segunda mantém a estrutura contínua da Sinfonia nº 11, ligando seus quatro movimentos sem interrupção. O primeiro, Petrogrado Revolucionária, apresenta um discurso marcial que evolui a partir de um material temático bastante concentrado. Já Razliv surpreende pelo caráter contemplativo, construído sobre amplas frases dos sopros que criam uma atmosfera quase pastoral. O breve movimento Aurora utiliza a percussão para evocar o famoso cruzador cuja salva simbolizou o início da Revolução de Outubro, preparando a chegada do grandioso final, O Amanhecer da Humanidade. Embora carregado de solenidade, esse encerramento também revela a extraordinária habilidade orquestral de Shostakovich, cuja escrita supera o simples caráter narrativo para alcançar verdadeira arquitetura sinfônica.
Nenhum outro maestro parecia mais apto a defender esse repertório do que Yevgeny Mravinsky. Nascido em São Petersburgo em 1903, assumiu a direção da Filarmônica de Leningrado em 1938, permanecendo à frente da orquestra durante mais de quatro décadas. Seu nome tornou-se inseparável do conjunto e da música soviética. Foi responsável pela estreia de diversas obras fundamentais de Prokofiev, Miaskovsky e Kabalevsky, além de manter uma relação artística privilegiada com Shostakovich, que lhe dedicou a Sinfonia nº 8, composta em 1943.
Mravinsky era conhecido pelo rigor quase absoluto de seus ensaios e pela extraordinária precisão sonora que extraía da Filarmônica de Leningrado. Seu repertório era relativamente restrito, mas profundamente amadurecido ao longo dos anos, o que explica por que tantas de suas gravações continuam sendo consideradas referências interpretativas. Após a morte de Stalin, as turnês internacionais da orquestra revelaram ao Ocidente uma escola de execução caracterizada pela disciplina, pela intensidade dramática e por um refinamento tímbrico incomum.
As gravações reunidas nesta edição preservam esse legado em momentos distintos da parceria entre maestro e compositor. A Sinfonia nº 5 foi registrada ao vivo em Moscou, em 24 de outubro de 1965, enquanto a Sinfonia nº 12 corresponde à histórica primeira execução pública da obra, realizada em Leningrado em 1º de outubro de 1961, posteriormente transmitida pela Rádio de Praga. Mais do que documentos históricos, são interpretações capazes de revelar a complexidade emocional dessas partituras e a profunda compreensão que Mravinsky possuía da linguagem de Shostakovich.
Mais de meio século depois, essas leituras continuam impressionando não apenas pela excelência técnica da orquestra, mas pela capacidade de transformar cada compasso em narrativa histórica. Sob a batuta de Mravinsky, Shostakovich deixa de ser apenas o compositor da União Soviética para tornar-se um cronista da condição humana, alguém que encontrou na linguagem sinfônica uma maneira de registrar medo, esperança, resignação e resistência. Poucas parcerias entre compositor e intérprete alcançaram tamanho grau de identificação. Escutá-las hoje é ouvir não apenas duas grandes sinfonias, mas uma época inteira traduzida em música.
Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!
Dmitri Shostakovich (1906-1975) -
01 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47_
02 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47_
03 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47_
04 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47_
05 - I. Revolutionnary Petrograd
06 - II. Razliv
07 - III. Aurora
08 - IV. The Dawn of Humanity
Leningrad Philharmonic Orchestra
Evgeny Mravinsky, regente
Você pode comprar este disco na Amazon
*Para acessar o link, por favor, clicar na imagem.



