Neste notável álbum de estreia da Orfeus Barock Stockholm, conjunto sueco especializado em instrumentos de época, pai e filho dividem o programa em uma seleção que permite acompanhar uma das transformações mais fascinantes da linguagem musical ocidental: a passagem do barroco maduro para a estética sensível que abriria caminho ao classicismo. O resultado é um percurso que une tradição e inovação, tendo como protagonistas Johann Sebastian Bach e seu segundo filho, Carl Philipp Emanuel Bach.
A gravação abre com a Sinfonia em Mi menor, Wq 178, de Carl Philipp Emanuel, uma obra que sintetiza como poucas o chamado Empfindsamer Stil ("estilo sensível"). Publicada originalmente em 1759, a sinfonia impressionou seus contemporâneos pela intensidade dramática, pelas mudanças repentinas de caráter e pela ousadia harmônica. Diferentemente de muitos compositores de sua geração, C. P. E. Bach elimina interrupções entre os dois primeiros movimentos e constrói uma narrativa contínua, culminando em um final de extraordinária energia que antecipa procedimentos formais explorados apenas décadas depois.
Embora ainda conserve elementos herdados do barroco, a escrita orquestral já aponta para um novo horizonte. A expressividade ocupa o lugar da ornamentação, enquanto o contraste emocional passa a orientar o discurso musical. Não por acaso, o libreto destaca a influência que essas sinfonias exerceram sobre compositores como Haydn, Mozart e até o jovem Mendelssohn.
No centro do programa está o Concerto para Cravo em Ré menor, BWV 1052, uma das obras mais célebres de Johann Sebastian Bach. Longe de ser um concerto concebido de uma só vez, trata-se do resultado de um longo processo de reelaboração. Bach adaptou movimentos provenientes de cantatas compostas por volta de 1728, transformando introduções instrumentais e um coro em um concerto para teclado de impressionante unidade artística. Durante essa reconstrução, reescreveu profundamente a parte do solista, enriquecendo-a com novos ornamentos, contrapontos e uma escrita muito mais elaborada para a mão esquerda.
A interpretação de Luca Guglielmi, que também dirige o conjunto, recupera o espírito dessa obra sem tratá-la como um monumento intocável. O músico utiliza uma versão adaptada da célebre cadência escrita por Johannes Brahms para o último movimento, demonstrando como diferentes gerações continuaram dialogando criativamente com a música de Bach.
A segunda contribuição de Carl Philipp Emanuel é o Concerto para Violoncelo em Lá menor, Wq 170, composto em 1750, justamente o ano da morte de Johann Sebastian. O próprio libreto o descreve como uma obra profundamente pessoal, marcada por um caráter melancólico e por discretas referências à música do pai. Mais importante, porém, é sua impressionante modernidade. A retórica barroca ainda está presente, mas a busca por uma expressão mais intensa e dramática anuncia um novo tempo. O violoncelista Johannes Rostamo, diretor artístico da Orfeus Barock Stockholm, interpreta a obra com grande liberdade expressiva e chega a escrever sua própria cadência para o primeiro movimento, incorporando, de maneira surpreendente, referências ao grupo britânico Radiohead. O resultado não pretende ser uma provocação, mas uma demonstração de que a boa música continua capaz de dialogar com qualquer época.
Como delicado epílogo, o disco apresenta a Sinfonia da Cantata BWV 76, originalmente escrita para oboé d'amore, viola da gamba e contínuo, aqui recriada para violino, violoncelo e baixo contínuo. Segundo os intérpretes, trata-se de uma homenagem à amizade entre os músicos envolvidos na gravação, quase um bis oferecido ao ouvinte ao final do concerto.
A Orfeus Barock Stockholm nasceu em 2015 por iniciativa de integrantes da Royal Stockholm Philharmonic Orchestra apaixonados pela interpretação historicamente informada. Tocando instrumentos de época, o grupo procura equilibrar rigor musicológico e espontaneidade interpretativa, explorando tanto o grande repertório barroco quanto compositores menos conhecidos. Este primeiro registro fonográfico demonstra que a proposta foi plenamente alcançada.
Mais do que reunir obras de dois compositores da mesma família, este álbum evidencia um dos momentos decisivos da história da música europeia. Em Johann Sebastian Bach, encontramos o ápice do barroco; em Carl Philipp Emanuel, ouvimos o nascimento de uma nova sensibilidade que prepararia o caminho para o classicismo. A interpretação calorosa da Orfeus Barock Stockholm torna essa transição não apenas compreensível, mas profundamente emocionante, lembrando que a evolução da música nunca acontece por rupturas absolutas, mas por diálogos constantes entre tradição e inovação.
Uma boa apreciação!
Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788) -
Symphony in E minor, Wq 178
01. I. Allegro assai
02. II. Andante moderato
03. III. Allegro
Johann Sebastian Bach (1685-1750) -
Keyboard Concerto No.1 in D minor, BWV1052
04. I. Allegro
05. II. Adagio
06. III. Allegro
Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788) -
Cello Concerto in A minor, Wq 170
07. I. Allegro assai
08. II. Andante
09. III. Allegro assai
Johann Sebastian Bach (1685-1750) -
10. Die Himmel erzählen die Ehre Gottes, BWV76 - Sinfonia
Orfeus Barock Stockholm
Luca Guglielmi, cravo e regência
Johannes Rostamo, violoncelo
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