A abertura Ruy Blas, em dó menor, op. 95, foi escrita por Mendelssohn entre 5 e 8 de março de 1839, em Leipzig. O episódio que deu origem à obra é quase anedótico. O fundo de pensão teatral de Leipzig pretendia apresentar Ruy Blas, de Victor Hugo, em uma récita beneficente e solicitou ao compositor uma abertura e uma romança. Mendelssohn recusou inicialmente a encomenda, pois considerava o texto de Hugo particularmente ruim. Os organizadores, entretanto, apelaram ao seu orgulho profissional e conseguiram que ele escrevesse a abertura em apenas quatro dias.
O compositor não mudou de opinião sobre a peça de Hugo. Tanto que, em carta à mãe, afirmou que preferiria chamar a obra de “Abertura para o Fundo de Pensão Teatral”, e não de Ruy Blas. Paradoxalmente, apreciava muito a música que havia escrito. Robert Schumann, seu amigo e colega, também reconheceu imediatamente suas qualidades, qualificando-a como uma obra orquestral vigorosa e admirando sobretudo a aparente facilidade da escrita sinfônica de Mendelssohn. A partitura somente recebeu sua elevada numeração de opus e foi publicada após a morte do compositor, em versão ligeiramente modificada. A gravação deste álbum apresenta a primeira versão.
A Sinfonia nº 4 em ré menor, op. 120, de Schumann, ocupa posição central no projeto. Composta em 1841, a obra nasceu poucos meses depois da Primeira Sinfonia e foi concluída em setembro daquele ano, como presente de aniversário para Clara Schumann. Seu caráter, contudo, contrasta fortemente com o entusiasmo luminoso da Primeira: é uma música mais intensa, reflexiva e marcada por momentos sombrios. A recepção inicial foi pouco favorável, tanto por parte do público quanto dos editores.
A particularidade mais importante da gravação está na escolha da versão original de 1841. Em 1851, Schumann voltou à partitura e modificou profundamente sua orquestração, tornando-a mais densa e, segundo suas próprias palavras, “melhor e mais eficaz”. Essa segunda versão tornou-se a tradicionalmente executada e fez com que a obra passasse a ocupar o quarto lugar na numeração das sinfonias. A primeira versão, entretanto, possui características muito próprias: é mais transparente, camerística, incisiva e marcada pela presença dos sopros.
Mais do que uma sinfonia convencional, a obra de 1841 aproxima-se daquilo que Schumann posteriormente chamou de “Fantasia sinfônica para grande orquestra”. Os quatro movimentos são fortemente interligados, e grande parte do material temático deriva de dois motivos apresentados na introdução lenta. As transições entre os movimentos são igualmente importantes: em vez de constituírem blocos independentes, eles parecem formar um único organismo musical.
A Sinfonia nº 5 em ré maior/ré menor, op. 107, “Reforma”, de Mendelssohn, apresenta outro caso de uma obra cuja primeira versão merece atenção especial. Composta por volta de 1830, ela nasceu da intenção de celebrar o tricentenário da Confissão de Augsburgo, marco fundamental da Reforma Protestante. Mendelssohn não conseguiu concluí-la a tempo da comemoração e a obra somente foi apresentada em 1832. Insatisfeito com o resultado, o compositor não a publicou em vida.
A estrutura da Reforma é bastante peculiar. O peso dramático concentra-se no movimento final, enquanto os três primeiros funcionam quase como grandes prelúdios para ele. No primeiro movimento, Mendelssohn emprega o “Amém de Dresden”, fórmula melódica ascendente associada à tradição litúrgica luterana da Saxônia. No finale, por sua vez, surge de maneira ampla o célebre coral “Ein feste Burg ist unser Gott”, de Martinho Lutero. A combinação entre escrita sinfônica, contraponto e material coral produz um final de caráter deliberadamente arcaizante e sacro.
A relação de Mendelssohn com a tradição religiosa torna a obra ainda mais complexa. Proveniente de uma família judaica, neto do filósofo Moses Mendelssohn, Felix foi educado como cristão e batizado como protestante em 1816. A Sinfonia da Reforma pode, por isso, ser compreendida também como uma obra profundamente relacionada à sua própria trajetória espiritual e cultural — embora o encarte ressalte que alguns intérpretes chegam a enxergá-la como uma espécie de profissão de fé.
A gravação não apresenta simplesmente as versões mais conhecidas dessas partituras: ela aposta justamente na recuperação das primeiras concepções dos compositores. No caso da Reforma, Ben Palmer dirige a versão original reconstruída pelo musicólogo e maestro Christopher Hogwood, a partir das fontes para a edição da Bärenreiter. Entre as diferenças mais significativas está um recitativo de três páginas que constituía, na primeira versão, um quarto movimento e que Mendelssohn posteriormente eliminou.
A proposta ganha coerência pela presença de Ben Palmer, que dirigiu a Deutsche Philharmonie Merck entre 2017 e 2024 e dedicou esta gravação a Sir Roger Norrington, de quem foi assistente entre 2011 e 2016. O maestro possui ampla experiência tanto no repertório sinfônico quanto na música historicamente informada e nos concertos de trilhas cinematográficas.
Gravado na Alemanha em março e abril de 2022, o álbum foi lançado pela Coviello Classics em 2024. O resultado é um programa que vale menos pela simples reunião de três obras célebres do que pela oportunidade de confrontar Mendelssohn e Schumann em suas próprias primeiras soluções. A transparência da Quarta Sinfonia de Schumann e a dimensão experimental da Reforma de Mendelssohn revelam, assim, um romantismo menos acomodado do que aquele transmitido pelas versões tradicionalmente conhecidas.
Uma boa apreciação!
01 - Ruy Blas, Op. 95 (First Version)
02 - Symphony No. 4 in D Minor, Op. 120_ I. Andante con moto - Allegro di molto (Version from 1841)
03 - Symphony No. 4 in D Minor, Op. 120_ II. Romanza_ Andante (Version from 1841)
04 - Symphony No. 4 in D Minor, Op. 120_ III. Scherzo_ Presto (Version from 1841)
05 - Symphony No. 4 in D Minor, Op. 120_ IV. Largo – Finale. Allegro vivace (Version from 1841)
06 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 107 _Reformation Symphony__ I. Andante – Allegro con fuoco (First Version)
07 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 107 _Reformation Symphony__ II. Allegro vivace (First Version)
08 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 107 _Reformation Symphony__ III. Andante (First Version)
09 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 107 _Reformation Symphony__ IV. Choral_ Ein feste Burg ist
Deutsche Philharmonie Merck
Ben Palmer, regente
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