Depois do bem-sucedido registro do Concerto para violino de Dvořák, com a violinista francesa Isabelle Faust, acompanhada pela Prague Philharmonia sob a regência de Jiří Bělohlávek, a Harmonia Mundi retorna à República Tcheca para uma nova incursão pelo universo do compositor. Desta vez, o protagonista é o violoncelista francês Jean-Guihen Queyras, novamente ao lado de Bělohlávek e da Prague Philharmonia, em uma interpretação do célebre Concerto para violoncelo em si menor. E, segundo a avaliação do texto, os resultados são ainda mais convincentes que os do registro anterior.
Como já havia demonstrado em sua interpretação do Trio em fá menor, presente no álbum precedente, Queyras combina expressividade apaixonada, domínio técnico impecável e uma discreta reserva interpretativa. No Concerto para violoncelo, essas características reaparecem de maneira ainda mais desenvolvida. Seu desempenho não busca o efeito fácil: a intensidade parece resultar de uma construção cuidadosamente planejada, na qual cada gesto musical é calculado para produzir o máximo impacto expressivo.
O resultado é particularmente evidente no Allegro inicial. Quando a música exige lirismo e ardor, Queyras conduz cada frase com extraordinária clareza, fazendo o violoncelo cantar sem perder a precisão. No Adagio ma non troppo, de caráter mais íntimo e contemplativo, seu timbre parece recolher a música para dentro de si, criando uma atmosfera de intensa comunhão. Já nas cadências, quando Dvořák exige do solista uma dimensão heroica e virtuosística, Queyras responde com uma técnica fulgurante e uma energia que o texto compara, de maneira cinematográfica, ao ator Errol Flynn saltando de um navio para outro em Captain Blood.
O álbum também inclui os “Dumky”, de caráter alternadamente sombrio e exuberante, na versão para trio com piano, reunindo Queyras, Isabelle Faust e o pianista Alexander Melnikov. A execução é, novamente, tecnicamente impecável e marcada por grande intensidade interpretativa. Desta vez, porém, o conjunto consegue captar de maneira especialmente feliz as bruscas mudanças de caráter da obra — suas passagens do abatimento à exaltação, da languidez ao êxtase.
Jiří Bělohlávek e a Prague Philharmonia completam o projeto com uma atuação que se mostra particularmente adequada ao universo de Dvořák. O conjunto oferece uma sonoridade calorosa, um lirismo cuidadosamente trabalhado e uma compreensão idiomática do estilo do compositor tcheco. A orquestra não apenas acompanha o solista, mas participa ativamente da construção dessa atmosfera musical, preservando o equilíbrio entre a dimensão sinfônica e o caráter profundamente cantabile da escrita de Dvořák.
A gravação da Harmonia Mundi contribui decisivamente para o resultado. O som é simultaneamente claro e exuberante, próximo e encorpado, vívido e evocativo. A qualidade técnica permite acompanhar com nitidez tanto os detalhes da escrita orquestral quanto as nuances da interpretação de Queyras.
O conjunto forma, assim, um registro particularmente expressivo da música de Dvořák. Entre o lirismo do Concerto para violoncelo e as mudanças emocionais dos Dumky, Queyras, Bělohlávek e a Prague Philharmonia encontram uma linguagem que alia rigor técnico, intensidade e espontaneidade, fazendo deste álbum uma leitura de grande força musical.
Uma boa avaliação!
Antonín Dvorak (1841-1904) -
Concerto for Cello and Orchestra op. 104
01. I. Allegro 15'24
02. II. Adagio ma non troppo 12'00
03. III. Allegro moderato 12'32
The Prague Philharmonia
Jean-Guihen Queyras, violoncelo
Jiří Belohlávek, regente
Piano Trio no. 4 "Dumky" E minor op. 90
04. I. Lento maestoso 4'04
05. II. Poco Adagio - Vivace non troppo 6'00
06. III. Andante - Vivace non troppo 6'08
07. IV. Andante moderato - Allegretto scherzando 4'48
08. V. Allegro 3'58
09. VI. Lento maestoso - Vivace 4'34
Jean-Guihen Queyras, violoncelo
Isabelle Faust, violino
Alexander Melnikov, piano
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