A Sexta de Beethoven, composta em cinco movimentos, é a célebre Pastoral, uma sinfonia em que a relação com a natureza não se limita à representação de sons ou acontecimentos exteriores. Já a Quinta de Schubert, em quatro movimentos, pertence a uma fase de extraordinária espontaneidade melódica do compositor. A gravação de Beethoven data de 1971, enquanto o registro de Schubert foi realizado posteriormente, quando Böhm já estava em idade avançada.
No centro do projeto está a figura de Karl Böhm (1894–1981), nascido em Graz e apresentado no livreto como um dos grandes regentes europeus de meados do século XX. Sua trajetória esteve fortemente ligada à ópera — com especial destaque para Mozart, Richard Strauss e Wagner —, mas também ao repertório sinfônico clássico vienense. O texto enfatiza uma característica recorrente de sua abordagem: a combinação entre precisão, clareza de articulação e fidelidade ao texto musical, sem recorrer a efeitos interpretativos ostensivos.
Essa concepção é sintetizada pelo termo alemão werktreu, empregado para designar uma interpretação fiel à obra. O ensaio lembra uma observação de Ingmar Bergman sobre uma apresentação de Fidelio dirigida por Böhm: embora tudo parecesse simples — notas no lugar, ausência de truques e tempos sem excentricidades —, havia, ainda assim, algo extraordinário acontecendo. O comentário serve ao autor Richard Osborne para caracterizar uma qualidade que reconhece também nas interpretações sinfônicas de Böhm: uma maneira de fazer a música falar com nitidez sem impor à partitura uma personalidade interpretativa ostensiva.
Na “Pastoral”, essa postura encontra um repertório particularmente adequado. Beethoven era profundamente ligado à natureza, e os esboços da sinfonia surgiram durante suas caminhadas pelos arredores de Viena. Entretanto, a obra não pretende funcionar como uma pintura sonora literal, à maneira de uma sucessão de imagens naturais. O próprio primeiro movimento traz como indicação “Despertar de sentimentos alegres ao chegar ao campo”. A natureza, portanto, aparece sobretudo como experiência interior, como estado de espírito.
É justamente essa dimensão que Böhm parece compreender com especial atenção. Richard Osborne destaca os tempos relativamente distendidos adotados na Pastoral, interrompidos pela maior agitação do movimento da tempestade, antes que o hino final de agradecimento conduza a sinfonia serenamente ao encerramento. O interesse do regente está menos em enfatizar os grandes contrastes do que em revelar pequenos acontecimentos dentro da textura orquestral. Um exemplo citado no livreto é a breve transformação das notas sustentadas dos segundos violinos em pizzicatos, um detalhe que Beethoven utiliza próximo ao final da recapitulação do primeiro movimento.
A Filarmônica de Viena desempenha papel fundamental nessa leitura. Textos críticos reproduzidos no encarte ressaltam a homogeneidade característica do conjunto e a relação histórica entre a orquestra e Böhm, austríaco como ela. A sonoridade dos trompas vienenses e a particularidade dos oboés são mencionadas como elementos que emergem com especial nitidez na gravação. O equilíbrio da tomada sonora procura preservar a naturalidade do conjunto, evitando uma excessiva ênfase no brilho das frequências agudas.
Se Beethoven transforma a experiência da natureza em uma sucessão de estados de espírito, Schubert, na Quinta Sinfonia, apresenta uma música de caráter mais leve, íntimo e espontâneo. O primeiro movimento se inicia com uma frase descendente dos sopros, seguida pela resposta das cordas e pelo ritmo particularmente vivo do tema principal. Para Osborne, a interpretação de Böhm encontra nessa escrita uma combinação de graça e bom humor. A música parece mover-se com naturalidade, sem que o regente precise sublinhar artificialmente seus efeitos.
Essa afinidade entre as duas obras é uma das forças do registro. Embora Beethoven e Schubert pertençam a momentos diferentes da história do classicismo vienense, ambos encontram em Böhm um intérprete interessado em clareza, proporção e naturalidade. O contraste entre a contemplação da Pastoral e a luminosidade da Quinta de Schubert não é apagado; ao contrário, ganha relevo justamente porque a direção evita exageros e permite que cada partitura manifeste suas próprias características.
A gravação de Beethoven, de 1971, ocupa posição central na documentação fonográfica de Böhm, enquanto o registro de Schubert mostra o regente retornando à obra com a mesma orquestra em idade avançada. O livreto reproduz avaliações da imprensa que chamam atenção para a vitalidade e a concentração presentes nessa interpretação tardia.
Assim, esta edição da Deutsche Grammophon oferece mais do que duas sinfonias famosas: apresenta um retrato da estética interpretativa de Karl Böhm. Em Beethoven, a natureza aparece como sentimento, respiração e contemplação; em Schubert, como espontaneidade melódica e movimento. Em ambos os casos, a batuta do regente procura uma fidelidade que não significa ausência de expressão, mas a convicção de que a expressividade pode nascer da própria partitura. É nessa aparente simplicidade — notas claras, tempos cuidadosamente medidos, equilíbrio orquestral e atenção aos detalhes — que o registro encontra sua identidade.
Uma boa apreciação!
01. Symphony No.6 In F, Op.68 -_Pastoral__1. Erwachen heiterer Empfindungen bei der
02. Symphony No.6 In F, Op.68 -_Pastoral__2. Szene am Bach_ (Andante molto mosso)
03. Symphony No.6 In F, Op.68 -_Pastoral__3. Lustiges Zusammensein der Landleute (Allegro)
04. Symphony No.6 In F, Op.68 -_Pastoral__4. Gewitter, Sturm (Allegro)
05. Symphony No.6 In F, Op.68 -_Pastoral__5. Hirtengesang. Frohe und dankbare Gefühle nach dem Sturm_ Allegretto
06. Symphony No.5 In B Flat, D.485_1. Allegro
07. Symphony No.5 In B Flat, D.485_2. Andante con moto
08. Symphony No.5 In B Flat, D.485_3. Menuetto (Allegro molto)
09. Symphony No.5 In B Flat, D.485_4. Allegro vivace
Wiener Philharmoniker
Karl Böhm, regente
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