terça-feira, 15 de setembro de 2026

Dimitri Ashkenazy - Father & Son - Gade, Eschmann, Reinecke, Nielsen e Schumann

Father & Son, álbum da gravadora Paladino Music que reúne o pianista Vladimir Ashkenazy e seu filho, o clarinetista Dimitri Ashkenazy, pertence a essa categoria. O disco apresenta um repertório dedicado às chamadas Fantasy Pieces, ou peças de fantasia, aproximando compositores ligados à tradição romântica germânica e nórdica e, ao mesmo tempo, registrando a colaboração entre dois músicos de gerações diferentes. O programa inclui obras de Niels Wilhelm Gade, Johann Carl Eschmann, Carl Reinecke, Carl Nielsen e Robert Schumann, em uma seleção que totaliza pouco menos de 54 minutos.

A ideia do projeto partiu de Dimitri Ashkenazy. Depois de interpretar, ao longo dos anos, as célebres Fantasiestücke de Schumann e outras obras do mesmo gênero, o clarinetista concebeu a reunião de diferentes compositores em um único CD. A oportunidade surgiu quando a Paladino ofereceu as condições para a gravação, e Dimitri conseguiu convencer o pai a participar. O resultado é, portanto, mais do que uma coleção de peças para clarinete e piano: é também o registro de uma parceria familiar construída sobre afinidades musicais.

O centro do repertório é Robert Schumann, cuja Fantasiestücke, Op. 73, ocupa a posição mais conhecida do programa. Escritas em 1849, as três peças originalmente receberam o título de Soiréestücke e foram concebidas dentro de uma tradição de música de câmara doméstica, característica do século XIX. A obra rapidamente alcançou popularidade e ganhou edições individuais e arranjos para piano a quatro mãos. A versão gravada pelos Ashkenazy, porém, não reproduz exatamente o manuscrito: entre as diferenças está a supressão dos dois acordes finais da segunda peça, fazendo com que o movimento ascendente de semitom conduza diretamente à terceira.

Essa centralidade de Schumann ajuda a compreender a presença dos demais compositores. Niels Wilhelm Gade, figura fundamental do romantismo dinamarquês, manteve estreita relação artística e pessoal com Schumann e Felix Mendelssohn. Seu grande reconhecimento começou em Leipzig, onde Mendelssohn regeu sua Primeira Sinfonia; posteriormente, Gade sucederia Mendelssohn como regente da Gewandhaus e participaria da fundação do Conservatório de Copenhague. Suas Fantasy Pieces, de 1864, revelam justamente essa combinação entre a linguagem romântica de Mendelssohn e Schumann e uma coloração nórdica própria.

Mais rara é a oportunidade de ouvir Johann Carl Eschmann, compositor suíço hoje pouco conhecido. O próprio livreto observa que seu nome chegou a ser registrado incorretamente em importantes obras de referência e que, inicialmente, sequer figurou no Musik in Geschichte und Gegenwart. Aluno de Mendelssohn, Moscheles e Gade em Leipzig, Eschmann retornou posteriormente à Suíça como professor de piano e compositor. Suas Fantasiestücke, compostas em 1850/51, dialogam diretamente com Schumann — tanto na concepção formal quanto em determinadas soluções musicais. O livreto chama atenção ainda para possíveis relações com Wagner, já que temas da obra apresentam semelhanças muito próximas de passagens de Die Walküre.

Carl Reinecke representa outra vertente dessa genealogia musical. Nascido em Altona, estudou em Leipzig com Mendelssohn e Schumann e chegou a reconhecer a influência de seus mestres sobre sua própria formação. Sua longa carreira em Leipzig, onde foi regente da Gewandhaus e posteriormente professor e diretor do Conservatório, fez dele uma figura central na transmissão da tradição musical oitocentista. Entre seus alunos estiveram compositores tão diferentes quanto Bruch, Delius, Janáček, Albéniz e Weingartner. As Fantasiestücke, publicadas em 1851, pertencem à juventude do compositor.

O percurso cronológico chega a Carl Nielsen, cuja Fantasy Piece para clarinete e piano, de 1881, situa-se justamente na fronteira entre o romantismo e a modernidade. O compositor dinamarquês, posteriormente transformado em uma espécie de herói nacional, foi inicialmente violinista de orquestra teatral em Copenhague, antes de desenvolver carreira como regente e compositor. Sua presença no álbum amplia o horizonte estilístico do conjunto: a tradição da fantasia romântica começa a apontar para uma linguagem musical mais próxima do século XX.

No centro de tudo está o próprio diálogo entre os intérpretes. Dimitri Ashkenazy, nascido em Nova York em 1969 e criado entre a Islândia e a Suíça, é apresentado no livreto como um músico de atuação internacional, dedicado tanto à carreira solo quanto à música de câmara e ao repertório sinfônico. Sua maneira de tocar é descrita como particularmente humana, autêntica e desprovida de afetação. Vladimir Ashkenazy, por sua vez, dispensa apresentações: o livreto o situa entre os músicos mais importantes do século XX e do início do XXI e enfatiza sua extraordinária relação com o piano.

A fotografia da capa já sintetiza visualmente a proposta: pai e filho aparecem lado a lado, sorridentes, em uma imagem que privilegia a proximidade humana em vez da solenidade habitual dos retratos de grandes intérpretes. Nas páginas internas, outras fotografias mostram os dois durante as sessões, com Dimitri ao clarinete e Vladimir ao piano. O resultado é coerente com o próprio repertório: música de câmara entendida não como demonstração de virtuosismo, mas como conversa, escuta e cumplicidade.

As gravações foram realizadas em 1º e 2 de setembro de 2012 e 5 de setembro de 2013, no Franz-Liszt-Zentrum, em Raiding, com Martin Klebahn como engenheiro e produtor. O piano utilizado foi um Steinway. O álbum foi lançado pela Paladino em 2014.

Mais do que reunir cinco compositores em torno de um gênero, Father & Son recupera uma tradição de intimidade própria da música de câmara oitocentista e a transforma em encontro familiar. Schumann permanece como eixo, Gade, Eschmann e Reinecke revelam a rede de influências que se formou ao seu redor, e Nielsen mostra como essa tradição pôde atravessar as fronteiras do século XIX. Entre clarinete e piano, pai e filho dão a esse repertório uma dimensão adicional: a continuidade de uma tradição musical não apenas entre compositores e estilos, mas também entre gerações.

Uma boa apreciação! 

01. Fantasiestücke, Op. 43_ I. Andantino con moto
02. Fantasiestücke, Op. 43_ II. Allegro vivace
03. Fantasiestücke, Op. 43_ III. Ballade. Moderato
04. Fantasiestücke, Op. 43_ IV. Allegro molto vivace
05. Fantasy Pieces, Op. 9_ Langsam
06. Fantasy Pieces, Op. 9_ Romanze. Nicht zu langsam
07. Fantasiestücke, Op. 22_ I. Allegretto. Mit Anmuth
08. Fantasiestücke, Op. 22_ II. Presto. Flüchtig und leicht
09. Fantasiestücke, Op. 22_ III. Deutscher Walzer. Molto moderato, sehr mäßig
10. Fantasiestücke, Op. 22_ IV. Canon. Lento ma non troppo
11. Fantasy Piece in G Minor, FS 3h
12. Fantasiestücke, Op. 73_ No. 1, Zart und mit Ausdruck
13. Fantasiestücke, Op. 73_ No. 2, Lebhaft, leicht
14. Fantasiestücke, Op. 73_ No. 3, Rasch und mit Feuer

Dimitri Ashkenazy, clarinete
Vladimir Ashkenazy, piano 

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