sábado, 10 de outubro de 2026

Luís de Freitas Branco (1890-1955) - Symphony No. 4 e Vathek

A música de Luís de Freitas Branco (1890–1955), uma das figuras centrais da composição portuguesa na primeira metade do século XX, ocupa um lugar singular na história musical de seu país. Compositor e professor de grande influência, ele soube combinar a tradição sinfônica europeia com uma linguagem moderna, marcada pela exploração harmônica e pela busca de novas possibilidades expressivas. O álbum Orchestral Works • 4, lançado pelo selo Naxos, aproxima dois momentos distintos de sua trajetória: a Sinfonia n.º 4, escrita entre 1944 e 1952, e o poema sinfônico Vathek, composto em 1913. À frente da RTÉ National Symphony Orchestra, o maestro português Álvaro Cassuto conduz as duas obras, revelando a amplitude da imaginação orquestral do compositor.

Com duração aproximada de 42 minutos, a Sinfonia n.º 4 representa, segundo as notas do encarte, a culminação da concepção de monumentalidade sinfônica de Freitas Branco. Organizada em quatro movimentos, a obra combina características neoclássicas com a riqueza expressiva do romantismo tardio. Dedicada ao compositor português Joly Braga Santos, seu discípulo, a sinfonia retoma um procedimento empregado anteriormente na Segunda Sinfonia: o uso do canto gregoriano como elemento unificador do material temático. Essa referência religiosa estabelece desde o início uma atmosfera solene, que reaparece nos grandes episódios corais confiados aos sopros e metais.

O primeiro movimento começa com um Kyrie apresentado pelas madeiras, acompanhado por quintas abertas nas cordas. Em seguida, o Allegro desenvolve-se a partir dos registros graves, conduzindo a música a clímaxes nos quais os temas das cordas são atravessados por acordes incisivos dos metais, das madeiras e da percussão. A alternância entre passagens de caráter contemplativo e explosões orquestrais confere à obra uma dimensão dramática que ultrapassa qualquer descrição puramente formal. O retorno da introdução lenta e a conclusão em estilo coral reforçam a sensação de unidade e solenidade.

O segundo movimento, Adagio, explora um contraste rítmico entre o movimento contínuo das cordas graves e a organização métrica da música. Uma frase aparentemente simples, confiada a um fagote solista, torna-se o núcleo de um percurso que atravessa diferentes regiões sonoras até alcançar o clímax. No terceiro movimento, mais breve, uma explosão orquestral abre caminho para um Scherzo de andamento mais rápido, cujo trio evoca o fandango e a música rural portuguesa. Essa referência à tradição popular aproxima a sinfonia de outras obras do compositor inspiradas no folclore do Alentejo. O Finale, por sua vez, parte de uma introdução majestosa e avança para um episódio lírico no qual violoncelos e flauta dialogam sobre o tremular das cordas agudas.

Em contraste com a maturidade estrutural da Quarta Sinfonia, Vathek revela o espírito experimental de um Freitas Branco ainda jovem. Composto em 1913, o poema sinfônico tem como subtítulo Poema sinfônico em forma de variações sobre um tema oriental e inspira-se no romance homônimo de William Beckford (1760–1844), escrito originalmente em francês. A narrativa acompanha um califa insatisfeito com o palácio herdado do pai, que decide construir outros cinco palácios, cada qual dedicado a um dos sentidos humanos. A obra traduz musicalmente esse universo de luxo, sensualidade e extravagância, estruturando-se em introdução, tema, prólogo, cinco variações e epílogo.

A linguagem de Vathek ajuda a explicar por que a composição foi considerada revolucionária no contexto português de sua época. A fanfarra inicial dos metais explora a politonalidade, enquanto determinados acordes das cordas se organizam em estruturas dissonantes construídas pela sobreposição de quartas. O aspecto mais extraordinário, porém, está na terceira variação, concebida como um fugato de 59 vozes: a textura começa com oito violoncelos solistas, incorpora oito violas, dezesseis segundos violinos e dezesseis primeiros violinos, e se amplia com intervenções de instrumentos de sopro. O efeito é uma construção sonora de grande densidade, que culmina em uma passagem majestosa interrompida por dois compassos de silêncio, seguidos por uma explosão de toda a orquestra.

A história da obra também chama a atenção: embora tenha sido escrita em 1913, Vathek só foi executada em 1950, ainda sem a terceira variação. Esta seria apresentada pela primeira vez em Lisboa, em 1961, sob a direção de Álvaro Cassuto. O longo intervalo entre composição e execução evidencia o caráter avançado da partitura em relação ao ambiente musical português das primeiras décadas do século XX.

A gravação, realizada no National Concert Hall, em Dublin, nos dias 12 e 13 de abril de 2010, reúne a RTÉ National Symphony Orchestra e Álvaro Cassuto, reconhecido por seu trabalho de divulgação do repertório português. O registro coloca lado a lado duas faces complementares de Freitas Branco: a ousadia modernista de Vathek e a síntese expressiva da Quarta Sinfonia. Mais do que uma simples retrospectiva, o álbum oferece um panorama de como o compositor explorou, ao longo de sua carreira, a relação entre tradição e inovação, disciplina formal e imaginação sonora.

Ao reunir essas duas partituras, a Naxos contribui para ampliar a presença internacional de um repertório ainda pouco conhecido fora de Portugal. A interpretação de Cassuto torna especialmente perceptível a continuidade entre a experimentação de juventude e a arquitetura sinfônica da maturidade: em ambas, Freitas Branco procura expandir as possibilidades da orquestra e construir narrativas musicais de forte impacto. O resultado é um retrato expressivo de um compositor que, sem abandonar as grandes formas da tradição europeia, encontrou nelas espaço para uma voz própria.

 Uma boa apreciação! 

Luís de Freitas Branco (1890-1955) - 

01. Symphony No. 4_ I. Andante
02. Symphony No. 4_ II. Adagio
03. Symphony No. 4_ III. Allegro vivace
04. Symphony No. 4_ IV. Allegro
05. Vathek_ I. Introduction
06. Vathek_ II. Theme
07. Vathek_ III. Prologue
08. Vathek_ IV. Variation I_ Festin Eternal
09. Vathek_ V. Variation II_ Temple de la Melodie
10. Vathek_ VI. Variation III_ Delices des Yeux
11. Vathek_ VII. Variation IV_ Palais des Parfums
12. Vathek_ VIII. Variation V_ Reduit de la Joie
13. Vathek_ IX. Epilogue

RTÉ National Symphony Orchestra
Álvaro Cassuto, regente 

Você pode comprar este disco na Amazon

*Para acessar o link, por favor, clicar na imagem.

 

Nenhum comentário: