sábado, 3 de outubro de 2026

Ludwig van Beethoven (1770-1827) - Ouverture 'Leonore' No. 3, Op. 72b e Symphony No. 5 in C minor, Op. 67 e Dmitri Shostakovich (1906-1975) - Symphony No. 1 in F minor, Op. 10

A passagem de Constantin Silvestri (1913–1969) pelo Japão ocupa um lugar singular na história da NHK Symphony Orchestra. Nascido na Romênia, o maestro deixou seu país em 1959, transferiu-se para Paris e, dois anos depois, assumiu a direção da Bournemouth Symphony Orchestra, na Inglaterra. Em 1967, obteve a cidadania britânica. Morreu em Londres, aos 55 anos, vítima de câncer. Sua trajetória internacional, contudo, inclui uma relação particularmente significativa com o Japão, onde suas apresentações à frente da NHK Symphony Orchestra contribuíram para consolidar sua reputação entre os músicos e o público locais.

O material dedicado a essas gravações recupera especialmente sua temporada de 1964, quando Silvestri esteve à frente da NHK entre março e maio. Naquele período, a orquestra não mantinha um regente titular permanente e costumava convidar maestros para períodos de um a dois meses. Silvestri realizou seis gravações públicas e concertos extraordinários, além de duas apresentações regulares, conduzindo ao todo oito programas. Entre as obras registradas estavam a Sinfonia nº 9, “Do Novo Mundo”, de Dvořák, e a Sinfonia nº 4, de Tchaikovsky, que posteriormente chegaram ao catálogo fonográfico.

O conjunto de registros associado a essa passagem revela um maestro cuja abordagem estava longe da mera reprodução literal da partitura. Segundo os depoimentos reunidos no encarte, Silvestri era conhecido por introduzir mudanças espontâneas durante os ensaios e por buscar, nos concertos, uma dose calculada de imprevisibilidade. O produtor da NHK responsável pelo registro, Tatsuya Hosono, descreve um profissional cuja maneira de trabalhar podia surpreender os músicos: alterações na condução dos ensaios, mudanças repentinas em determinados aspectos da interpretação e uma preparação que nem sempre obedecia aos procedimentos convencionais.

Essa liberdade, entretanto, não significava falta de preparação. Pelo contrário: os relatos destacam que Silvestri recorria a ensaios minuciosos para alcançar a espontaneidade desejada no momento da apresentação. Seu objetivo parecia ser fazer com que a estrutura construída durante a preparação servisse de suporte para uma interpretação capaz de reagir às circunstâncias do concerto. A tensão entre planejamento e improvisação torna-se, assim, um dos elementos centrais de sua imagem artística.

O encarte também registra a percepção de que Silvestri possuía especial interesse pelo repertório da Europa Central e Oriental. Seu trabalho com a NHK incluiu obras de Dvořák, Tchaikovsky, Schubert, Bruckner, Beethoven, Mozart, Brahms, Haydn, entre outros compositores. A programação de seus concertos revela, portanto, um repertório amplo, no qual a tradição sinfônica germânica convivia com compositores eslavos e com obras do século XX.

Um dos pontos de destaque é a gravação da Sinfonia nº 8 em Sol maior, Op. 88, de Antonín Dvořák. A obra foi registrada em 1973, já depois da morte de Silvestri, em uma gravação da NHK, mas o repertório de Dvořák ocupa posição importante entre as obras que o maestro apresentou no Japão. 

A relação de Silvestri com a NHK não se limitou, contudo, às apresentações. O maestro também deixou uma impressão marcante entre os músicos. Depoimentos citados no material ressaltam sua capacidade de produzir, no concerto, efeitos que não eram necessariamente previsíveis a partir dos ensaios. Essa característica aparece associada à sua maneira de construir tensão e expectativa: o trabalho preparatório podia parecer excessivamente rigoroso ou peculiar, mas adquiria outra dimensão quando a música finalmente chegava ao palco.

Sua carreira ajuda a compreender essa personalidade artística. Antes de estabelecer-se no Ocidente, Silvestri havia desenvolvido uma importante trajetória na Romênia. Em 1935, passou a trabalhar na Ópera de Bucareste como pianista e maestro e, posteriormente, ocupou posições de destaque na vida musical romena. Depois da Segunda Guerra Mundial, dirigiu a Filarmônica Nacional e acumulou funções de direção e ensino. A partir dos anos 1950, sua carreira internacional ganhou impulso, incluindo os três Grand Prix du Disque consecutivos recebidos em 1957, 1958 e 1959 por gravações de obras de Dvořák e Khachaturian.

Em 1956, Silvestri iniciou sua presença mais constante no Ocidente, estabelecendo-se em Paris e ampliando progressivamente suas atividades internacionais. Em 1961, tornou-se regente titular da Bournemouth Symphony Orchestra, instituição com a qual permaneceria até sua morte. Sua agenda também o levou a Londres e a outros importantes centros musicais europeus, enquanto suas gravações passaram a circular internacionalmente.

O próprio maestro, em entrevista reproduzida no material, apresenta uma visão bastante ampla da atividade musical. Para ele, a existência de uma grande orquestra podia transformar uma cidade em referência cultural, como ocorria com localidades que se tornaram conhecidas justamente por suas instituições musicais. Nesse sentido, sua passagem pelo Japão também pode ser compreendida como parte de uma circulação internacional de músicos, repertórios e modelos de vida orquestral que ajudou a aproximar diferentes tradições musicais.

Os registros da NHK associados a Silvestri preservam, assim, mais do que interpretações de um determinado repertório. Eles documentam o encontro entre um dos maestros mais singulares de sua geração e uma orquestra que, naquele período, consolidava sua presença no cenário internacional. A combinação entre disciplina de ensaio, liberdade no palco e forte personalidade interpretativa explica por que sua passagem pelo Japão permaneceu como uma referência na memória da NHK Symphony Orchestra.

No caso de Silvestri, o registro fonográfico assume valor particularmente importante: sua morte prematura, em 1969, interrompeu uma carreira que ainda se encontrava em plena atividade. As gravações e os testemunhos reunidos no material permitem, portanto, acompanhar não apenas o repertório que ele conduziu, mas também uma concepção de interpretação em que a fidelidade à obra convivia com o risco calculado de cada apresentação.

Uma boa apreciação! 

01 - Ouvertüre 'Leonore' No. 3, Op. 72b
02 - Symphony No. 5 in C minor, Op. 67 - I. Allegro con brio
03 - II. Andante con moto
04 - III. Scherzo Allegro
05 - IV. Allegro
06 - Symphony No. 1 in F minor, Op. 10 - I. Allegretto
07 - II. Allegro
08 - III. Lento
09 - IV. Lento - Allegro molto

NHK Symphony Orchestra, Tokyo
Constantin Silvestri, regente 

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