Concluir a gravação das nove sinfonias de Ludwig van Beethoven (1770–1827) é, por si só, um empreendimento de grande dimensão artística. Fazê-lo em meio às dificuldades impostas pela pandemia de covid-19 tornou o projeto ainda mais desafiador. O álbum Beethoven Révolution – Symphonies 6 à 9, lançado pelo selo Alia Vox em 2021, reúne as quatro últimas sinfonias do compositor em interpretações de Jordi Savall à frente do conjunto Le Concert des Nations. O registro completa o ciclo iniciado em 2019, dedicado à integral sinfônica beethoveniana, e propõe uma leitura que procura se aproximar das condições musicais da época do compositor.
A proposta interpretativa de Savall parte de uma investigação das fontes originais e da utilização de instrumentos históricos, incluindo cordas de tripa e arcos de época, além de instrumentos de sopro e tímpanos compatíveis com os utilizados no início do século XIX. Em vez de recorrer a uma orquestra de grandes proporções, o maestro opta por um conjunto de aproximadamente 55 a 66 músicos, conforme a sinfonia, buscando recuperar o equilíbrio entre cordas e sopros. A intenção é evidenciar a articulação, as diferenças de timbre e as dinâmicas das partituras, sem sobrecarregar a textura sonora. Savall também atribui especial importância às indicações metronômicas deixadas por Beethoven, entendendo que os andamentos fazem parte essencial da concepção musical do compositor.
A Sinfonia n.º 6 em fá maior, op. 68, Pastoral, composta entre 1806 e 1808, abre o primeiro disco. Seus cinco movimentos descrevem uma experiência de contato com a natureza, desde a chegada ao campo e a contemplação de um riacho até a reunião festiva de camponeses, a tempestade e o canto pastoral que encerra a obra. Beethoven, entretanto, esclarece no subtítulo que se trata mais da expressão dos sentimentos despertados pela vida campestre do que de uma pintura descritiva. Essa distinção é fundamental: a natureza não aparece apenas como cenário, mas como experiência emocional. A sequência musical conduz o ouvinte da tranquilidade inicial à força dramática da tempestade e, por fim, a uma atmosfera de gratidão e serenidade.
A Sinfonia n.º 7 em lá maior, op. 92, de 1811–1812, desloca o foco para o movimento e a energia rítmica. Seus quatro movimentos se articulam por meio de contrastes de andamento, impulso e intensidade, com destaque para o Allegretto, cujo caráter sombrio e insistente se contrapõe à vivacidade dos demais episódios. A obra foi apresentada publicamente em Viena, em dezembro de 1813, sob a direção do próprio Beethoven. Na interpretação de Savall, a abordagem com instrumentos de época integra o esforço de recuperar a clareza dos planos sonoros e o equilíbrio entre as famílias instrumentais, permitindo que a arquitetura rítmica da sinfonia se revele sem depender de uma massa orquestral excessiva.
Mais breve e concentrada, a Sinfonia n.º 8 em fá maior, op. 93, concluída em 1812, apresenta outra faceta da personalidade de Beethoven. Seus quatro movimentos combinam vigor, concisão e humor, em uma construção que dialoga com a tradição clássica sem simplesmente reproduzi-la. A presença de um movimento denominado Allegretto scherzando, em lugar do movimento lento convencional, é um dos elementos que conferem à obra seu caráter particular. A Oitava também demonstra que a inovação beethoveniana não depende exclusivamente da monumentalidade: a inventividade pode surgir da surpresa, da economia dos meios e da maneira como o compositor subverte expectativas formais.
O percurso culmina na Sinfonia n.º 9 em ré menor, op. 125, composta entre 1822 e 1824. Com duração aproximada de 64 minutos nesta gravação, a obra amplia radicalmente o horizonte da sinfonia ao incorporar, no movimento final, solistas vocais e coro para interpretar a Ode à Alegria, texto de Friedrich Schiller. O conjunto vocal reúne a soprano Sara Gouzy, a mezzo-soprano Laila Salome Fischer, o tenor Mingjie Lei e o barítono Manuel Walser, acompanhados pela Capella Nacional de Catalunya. A introdução das vozes não é um simples acréscimo à forma sinfônica: transforma o desfecho da obra em uma afirmação coletiva de fraternidade e humanidade.
A realização desse último registro foi particularmente atribulada. Em outubro de 2020, quando o conjunto se preparava para gravar o movimento coral da Nona, integrantes do coro adoeceram de covid-19. A apresentação prevista precisou ser adaptada, e a gravação integral só foi concluída em 30 de setembro e 1.º de outubro de 2021, em Cardona, na Catalunha. O projeto envolveu quatro Academias Beethoven 250, nas quais músicos profissionais e jovens instrumentistas selecionados internacionalmente estudaram e aperfeiçoaram as obras antes das apresentações e gravações. A preparação prolongada permitiu trabalhar minuciosamente os detalhes instrumentais, as articulações e a concepção de cada sinfonia.
Mais do que completar um catálogo, Beethoven Révolution propõe uma reflexão sobre a própria tradição interpretativa. Para Savall, a popularidade das sinfonias de Beethoven nem sempre foi acompanhada por uma compreensão fiel de suas características originais: determinadas práticas modernas teriam favorecido sonoridades excessivamente volumosas, capazes de obscurecer o equilíbrio entre os instrumentos. Seu projeto busca devolver a essas partituras a energia e a clareza que considera essenciais à linguagem do compositor.
Ao reunir a contemplação da Pastoral, o impulso rítmico da Sétima, a concisão da Oitava e a dimensão universal da Nona, o álbum apresenta um retrato abrangente da imaginação sinfônica de Beethoven. A direção de Jordi Savall articula pesquisa histórica e reflexão musical, convidando o ouvinte a redescobrir obras conhecidas por meio de uma perspectiva que privilegia a transparência sonora, a força dos contrastes e a vitalidade da escrita. O resultado é também um testemunho da persistência de um projeto artístico que, mesmo diante de circunstâncias adversas, conseguiu levar a termo uma das grandes jornadas do repertório orquestral.
Uma boa apreciação!
Ludwig van Beethoven (1770-1827) -
01. Symphony No. 6 in F Major, Op. 68 Pastoral I. Angenehme, heitere Empfindungen,
02. Symphony No. 6 in F Major, Op. 68 Pastoral II. Szene am Bach. Andante molto moto
03. Symphony No. 6 in F Major, Op. 68 Pastoral III. Lustiges Zusammensein der Landleute. Allegro
04. Symphony No. 6 in F Major, Op. 68 Pastoral IV. Donner, Sturm. Allegro
05. Symphony No. 6 in F Major, Op. 68 Pastoral V. Hirtengesang. Wohltätige,
06. Symphony No. 7 in A Major, Op. 92 I. Poco sostenuto - Vivace
07. Symphony No. 7 in A Major, Op. 92 II. Allegretto
08. Symphony No. 7 in A Major, Op. 92 III. Presto - Assai meno presto
09. Symphony No. 7 in A Major, Op. 92 IV. Allegro con brio
10. Symphony No. 8 in F Major, Op. 93 I. Allegro vivace e con brio
11. Symphony No. 8 in F Major, Op. 93 II. Allegretto scherzando
12. Symphony No. 8 in F Major, Op. 93 III. Tempo di menuetto
13. Symphony No. 8 in F Major, Op. 93 IV. Allegro vivace
14. Symphony No. 9 in D Minor, Op. 125 Choral I. Allegro ma non troppo e un poco maestoso
15. Symphony No. 9 in D Minor, Op. 125 Choral II. Molto vivace
16. Symphony No. 9 in D Minor, Op. 125 Choral III. Adagio molto e cantabile
17. Symphony No. 9 in D Minor, Op. 125 Choral IV. Presto - Allegro Assai
18. Symphony No. 9 in D Minor, Op. 125 Choral V. Presto - Recitativo
19. Symphony No. 9 in D Minor, Op. 125 Choral V. Allegro assai vivace alla marcia
20. Symphony No. 9 in D Minor, Op. 125 Choral V. Allegro ma non tanto
Le Concert Des Nations
La Capella Nacional de Catalunya
Jordi Savall, regente
Você pode comprar este disco na Amazon
*Para acessar o link, por favor, clicar na imagem.

Nenhum comentário:
Postar um comentário