segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Jazz - Alice Coltrane (1937-2007) - Ptah, The El Daoud (1970)

Lançado em 1970 pelo selo Impulse!, Ptah, the El Daoud, de Alice Coltrane (1937–2007), é um álbum que evidencia a busca da pianista, harpista e compositora por uma linguagem musical em que o jazz se aproxima da espiritualidade, da contemplação e da experimentação sonora. Gravado em Nova York, o disco reúne quatro composições de sua autoria e conta com um grupo de músicos de destaque, entre eles Pharoah Sanders e Joe Henderson, nos saxofones, Ron Carter, no contrabaixo, e Ben Riley, na bateria. A própria Alice Coltrane assume o piano e a harpa, além de tocar sinos. O resultado é uma música que combina improvisação, rigor na organização dos materiais e uma atmosfera de intensa concentração.

A trajetória artística de Alice esteve profundamente ligada à de seu marido, o saxofonista John Coltrane, uma das figuras centrais da renovação do jazz na década de 1960. Após a morte dele, em 1967, Alice aprofundou uma pesquisa musical marcada pela espiritualidade e pelo interesse por tradições filosóficas e religiosas orientais. Em Ptah, the El Daoud, essa orientação não aparece como mero elemento decorativo ou conceitual: ela se manifesta na própria construção da música, na repetição de motivos, no desenvolvimento dos improvisos e na maneira como os instrumentos se relacionam. O álbum sugere um universo em que a experiência sonora se transforma em caminho de introspecção e busca de transcendência.

A faixa que dá título ao disco abre o programa com uma interação expressiva entre o contrabaixo de Ron Carter, a bateria de Ben Riley e as linhas dos saxofones. O encadeamento dos motivos e a presença marcante da seção rítmica criam uma base sobre a qual os solistas desenvolvem suas ideias. Pharoah Sanders e Joe Henderson apresentam abordagens contrastantes: o primeiro explora uma expressividade mais visceral, enquanto o segundo privilegia uma construção intelectual e abstrata. Essa oposição não fragmenta a composição; ao contrário, amplia suas possibilidades e confere profundidade ao diálogo musical.

Em Turiya & Ramakrishna, Alice Coltrane conduz a música para uma atmosfera contemplativa. O título faz referência a conceitos e figuras associados à espiritualidade hindu: turiya designa um estado de consciência que ultrapassa as condições ordinárias da experiência, enquanto Ramakrishna foi um mestre religioso indiano do século XIX. A composição apresenta uma sonoridade delicada, organizada em torno de uma linha melódica simples, cujas notas adquirem significados expressivos por meio das variações e dos ornamentos. O resultado é uma música de caráter meditativo, na qual a simplicidade aparente convive com uma elaborada construção instrumental.

Blue Nile mantém o caráter introspectivo, mas evidencia outras possibilidades de combinação entre os instrumentos. O contrabaixo e a bateria sustentam o fluxo musical sem restringir a liberdade dos solistas, enquanto os saxofones exploram diferentes intensidades e direções melódicas. A participação de Alice Coltrane amplia a paleta sonora do conjunto, aproximando o piano e a harpa de uma concepção musical que não depende exclusivamente do virtuosismo individual. O efeito é o de uma textura em permanente transformação, na qual cada instrumento contribui para a construção de um ambiente comum.

O álbum chega ao seu ponto mais extenso com Mantra, composição de 16 minutos que retoma a dimensão espiritual sugerida pelo título. A palavra remete a uma fórmula ou oração repetida como parte de uma prática meditativa. Na interpretação, a repetição e a expansão dos materiais musicais favorecem a concentração, enquanto os improvisos prolongam a experiência sonora sem a necessidade de uma narrativa convencional. A música parece avançar por estados sucessivos de intensidade e repouso, valorizando tanto o que é explicitamente executado quanto aquilo que surge das relações entre os instrumentos.

Em Ptah, the El Daoud, Alice Coltrane demonstra que o jazz pode ser, simultaneamente, espaço de liberdade improvisatória, investigação tímbrica e expressão de uma visão espiritual do mundo. A personalidade dos solistas permanece evidente, mas a música não se reduz a uma sucessão de demonstrações individuais: o sentido do álbum emerge da interação entre os músicos e da coerência que une suas quatro faixas. Mais do que um registro de jazz de vanguarda, a gravação constitui um testemunho da busca artística de Alice Coltrane por uma sonoridade capaz de aproximar criação musical, contemplação e experiência interior.

Uma boa apreciação! 

Alice Coltrane (1937-2007) - 

01. Ptah, The El Daoud
02. Turiya & Ramakrishna
03. Blue Nile
04. Mantra

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