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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Gustav Mahler (1860-1911) - Symphony no. 4 in G

A relação artística entre o maestro holandês Bernard Haitink e a Bavarian Radio Symphony Orchestra estendeu-se por mais de seis décadas e constituiu uma das colaborações mais duradouras da trajetória do regente. Encerrada abruptamente com a morte de Haitink, em outubro de 2021, essa parceria deixou um importante legado de apresentações. A BR-KLASSIK recupera agora algumas dessas interpretações em uma série de gravações ao vivo inéditas, entre elas este registro da Quarta Sinfonia de Gustav Mahler, realizado durante concertos em novembro de 2005, na Philharmonie im Gasteig, em Munique.

A história da colaboração entre Haitink e a orquestra remonta a 1958, quando o maestro dirigiu pela primeira vez um concerto da temporada de assinaturas em Munique. A partir de então, tornou-se presença regular diante da Bavarian Radio Symphony Orchestra, atuando tanto na Herkulessaal da Residenz quanto na Philharmonie im Gasteig. A afinidade entre regente e músicos consolidou-se ao longo das décadas, estendendo-se também aos cantores que participaram de seus projetos e aos próprios engenheiros de som da emissora.

Haitink desfrutou de enorme prestígio internacional como intérprete do repertório sinfônico e, de maneira especial, da tradição romântico-tardia germano-austríaca. Sua abordagem caracterizava-se pela preocupação em tornar audível, com clareza, a arquitetura sonora das partituras e a complexa interação entre suas diferentes camadas. A extrema sensibilidade para o timbre e para o equilíbrio orquestral não significava, em sua concepção, perda de estrutura: ao contrário, o refinamento sonoro estava associado a uma interpretação cuidadosamente organizada.

Essa característica também se aplicava às obras de Dmitri Shostakovich, cuja produção sinfônica esteve entre os repertórios em que Haitink alcançou particular reconhecimento. Seu princípio interpretativo consistia em permitir que a complexidade de uma partitura pudesse ser percebida pelo ouvinte sem que a unidade da obra se perdesse. O resultado era uma combinação entre transparência sonora, sensibilidade tímbrica e clareza estrutural.

É nesse contexto que se insere sua leitura da Quarta Sinfonia de Mahler. Composta entre 1899 e 1901, a obra ocupa uma posição singular na produção sinfônica do compositor e representa um momento importante de sua relação com a poesia de Des Knaben Wunderhorn (A Trompa Mágica do Menino).

A coletânea de poemas havia sido publicada entre 1805 e 1808 por Clemens Brentano e Achim von Arnim e exerceu influência significativa sobre a imaginação musical de Mahler. Os textos já haviam sido incorporados às Sinfonias nº 2 e nº 3, frequentemente associadas ao chamado ciclo das “Sinfonias Wunderhorn”. Na Quarta, porém, Mahler leva essa preocupação a um estágio particularmente concentrado.

O último movimento da obra utiliza o poema “Das himmlische Leben” (A Vida Celestial), que Mahler já havia transformado em música em 1892. O texto apresenta uma visão do paraíso após a morte a partir da perspectiva de uma criança. Em vez de descrever esse mundo celestial segundo uma concepção adulta e teológica, o poema constrói uma imagem aparentemente simples e ingênua da vida no além.

Essa atmosfera paradisíaca, contudo, não deve ser entendida isoladamente. A visão de Mahler sobre o mundo de seu tempo, marcada pelo ceticismo, estabelece um contraste importante com o universo idealizado apresentado no poema. A “vida celestial” assume, assim, uma dimensão utópica: constitui uma espécie de contraponto imaginário às inquietações e contradições da realidade.

A Quarta Sinfonia distingue-se ainda pela relativa economia de seus recursos em comparação com outras obras sinfônicas de Mahler. O caráter aparentemente sereno e transparente da composição não significa simplicidade. Sob sua superfície delicada, encontram-se ambiguidades, contrastes e uma reflexão particularmente sutil sobre a inocência, a morte e a possibilidade de transcendência.

O registro de 2005, com Bernard Haitink à frente da Bavarian Radio Symphony Orchestra, ganha interesse adicional justamente pela afinidade entre a concepção interpretativa do maestro e a natureza da partitura. A atenção de Haitink à arquitetura da obra e à transparência das linhas instrumentais favorece uma leitura na qual os diferentes planos sonoros de Mahler podem ser percebidos com clareza.

A gravação recuperada pela BR-KLASSIK oferece, portanto, não apenas um documento histórico de uma parceria artística excepcionalmente longa, mas também o testemunho de uma interpretação de Mahler conduzida por um dos grandes especialistas do repertório sinfônico germano-austríaco. Na Quarta Sinfonia, a visão aparentemente luminosa de Das himmlische Leben convive com a dimensão mais inquietante do pensamento mahleriano, enquanto Haitink procura revelar, com precisão e sensibilidade, a complexa arquitetura que sustenta essa obra singular.

Uma boa apreciação! 

Gustav Mahler (1860-1911) - 

01. Mahler- Symphony No. 4- Bedächtig. Nicht eilen
02. Mahler- Symphony No. 4- In gemächlicher Bewegung. Ohne Hast
03. Mahler- Symphony No. 4- Ruhevoll
04. Mahler- Symphony No. 4- Sehr behaglich (Wir geniessen die himmlischen Freuden)

Bavarian Radio Symphony Orchestra

Bernard Haitink, regente 

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sábado, 3 de outubro de 2026

Ludwig van Beethoven (1770-1827) - Ouverture 'Leonore' No. 3, Op. 72b e Symphony No. 5 in C minor, Op. 67 e Dmitri Shostakovich (1906-1975) - Symphony No. 1 in F minor, Op. 10

A passagem de Constantin Silvestri (1913–1969) pelo Japão ocupa um lugar singular na história da NHK Symphony Orchestra. Nascido na Romênia, o maestro deixou seu país em 1959, transferiu-se para Paris e, dois anos depois, assumiu a direção da Bournemouth Symphony Orchestra, na Inglaterra. Em 1967, obteve a cidadania britânica. Morreu em Londres, aos 55 anos, vítima de câncer. Sua trajetória internacional, contudo, inclui uma relação particularmente significativa com o Japão, onde suas apresentações à frente da NHK Symphony Orchestra contribuíram para consolidar sua reputação entre os músicos e o público locais.

O material dedicado a essas gravações recupera especialmente sua temporada de 1964, quando Silvestri esteve à frente da NHK entre março e maio. Naquele período, a orquestra não mantinha um regente titular permanente e costumava convidar maestros para períodos de um a dois meses. Silvestri realizou seis gravações públicas e concertos extraordinários, além de duas apresentações regulares, conduzindo ao todo oito programas. Entre as obras registradas estavam a Sinfonia nº 9, “Do Novo Mundo”, de Dvořák, e a Sinfonia nº 4, de Tchaikovsky, que posteriormente chegaram ao catálogo fonográfico.

O conjunto de registros associado a essa passagem revela um maestro cuja abordagem estava longe da mera reprodução literal da partitura. Segundo os depoimentos reunidos no encarte, Silvestri era conhecido por introduzir mudanças espontâneas durante os ensaios e por buscar, nos concertos, uma dose calculada de imprevisibilidade. O produtor da NHK responsável pelo registro, Tatsuya Hosono, descreve um profissional cuja maneira de trabalhar podia surpreender os músicos: alterações na condução dos ensaios, mudanças repentinas em determinados aspectos da interpretação e uma preparação que nem sempre obedecia aos procedimentos convencionais.

Essa liberdade, entretanto, não significava falta de preparação. Pelo contrário: os relatos destacam que Silvestri recorria a ensaios minuciosos para alcançar a espontaneidade desejada no momento da apresentação. Seu objetivo parecia ser fazer com que a estrutura construída durante a preparação servisse de suporte para uma interpretação capaz de reagir às circunstâncias do concerto. A tensão entre planejamento e improvisação torna-se, assim, um dos elementos centrais de sua imagem artística.

O encarte também registra a percepção de que Silvestri possuía especial interesse pelo repertório da Europa Central e Oriental. Seu trabalho com a NHK incluiu obras de Dvořák, Tchaikovsky, Schubert, Bruckner, Beethoven, Mozart, Brahms, Haydn, entre outros compositores. A programação de seus concertos revela, portanto, um repertório amplo, no qual a tradição sinfônica germânica convivia com compositores eslavos e com obras do século XX.

Um dos pontos de destaque é a gravação da Sinfonia nº 8 em Sol maior, Op. 88, de Antonín Dvořák. A obra foi registrada em 1973, já depois da morte de Silvestri, em uma gravação da NHK, mas o repertório de Dvořák ocupa posição importante entre as obras que o maestro apresentou no Japão. 

A relação de Silvestri com a NHK não se limitou, contudo, às apresentações. O maestro também deixou uma impressão marcante entre os músicos. Depoimentos citados no material ressaltam sua capacidade de produzir, no concerto, efeitos que não eram necessariamente previsíveis a partir dos ensaios. Essa característica aparece associada à sua maneira de construir tensão e expectativa: o trabalho preparatório podia parecer excessivamente rigoroso ou peculiar, mas adquiria outra dimensão quando a música finalmente chegava ao palco.

Sua carreira ajuda a compreender essa personalidade artística. Antes de estabelecer-se no Ocidente, Silvestri havia desenvolvido uma importante trajetória na Romênia. Em 1935, passou a trabalhar na Ópera de Bucareste como pianista e maestro e, posteriormente, ocupou posições de destaque na vida musical romena. Depois da Segunda Guerra Mundial, dirigiu a Filarmônica Nacional e acumulou funções de direção e ensino. A partir dos anos 1950, sua carreira internacional ganhou impulso, incluindo os três Grand Prix du Disque consecutivos recebidos em 1957, 1958 e 1959 por gravações de obras de Dvořák e Khachaturian.

Em 1956, Silvestri iniciou sua presença mais constante no Ocidente, estabelecendo-se em Paris e ampliando progressivamente suas atividades internacionais. Em 1961, tornou-se regente titular da Bournemouth Symphony Orchestra, instituição com a qual permaneceria até sua morte. Sua agenda também o levou a Londres e a outros importantes centros musicais europeus, enquanto suas gravações passaram a circular internacionalmente.

O próprio maestro, em entrevista reproduzida no material, apresenta uma visão bastante ampla da atividade musical. Para ele, a existência de uma grande orquestra podia transformar uma cidade em referência cultural, como ocorria com localidades que se tornaram conhecidas justamente por suas instituições musicais. Nesse sentido, sua passagem pelo Japão também pode ser compreendida como parte de uma circulação internacional de músicos, repertórios e modelos de vida orquestral que ajudou a aproximar diferentes tradições musicais.

Os registros da NHK associados a Silvestri preservam, assim, mais do que interpretações de um determinado repertório. Eles documentam o encontro entre um dos maestros mais singulares de sua geração e uma orquestra que, naquele período, consolidava sua presença no cenário internacional. A combinação entre disciplina de ensaio, liberdade no palco e forte personalidade interpretativa explica por que sua passagem pelo Japão permaneceu como uma referência na memória da NHK Symphony Orchestra.

No caso de Silvestri, o registro fonográfico assume valor particularmente importante: sua morte prematura, em 1969, interrompeu uma carreira que ainda se encontrava em plena atividade. As gravações e os testemunhos reunidos no material permitem, portanto, acompanhar não apenas o repertório que ele conduziu, mas também uma concepção de interpretação em que a fidelidade à obra convivia com o risco calculado de cada apresentação.

Uma boa apreciação! 

01 - Ouvertüre 'Leonore' No. 3, Op. 72b
02 - Symphony No. 5 in C minor, Op. 67 - I. Allegro con brio
03 - II. Andante con moto
04 - III. Scherzo Allegro
05 - IV. Allegro
06 - Symphony No. 1 in F minor, Op. 10 - I. Allegretto
07 - II. Allegro
08 - III. Lento
09 - IV. Lento - Allegro molto

NHK Symphony Orchestra, Tokyo
Constantin Silvestri, regente 

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domingo, 27 de setembro de 2026

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - Chamber Music

Dmitri Shostakovich é, sem dúvida, um dos compositores mais importantes do século XX. Sua produção alcançou praticamente todos os grandes gêneros musicais, das sinfonias à ópera, passando pelas trilhas para cinema, pela música ligeira, pelos concertos e, naturalmente, pela música de câmara. É justamente a contribuição do compositor a esse último universo que esta coleção procura apresentar em uma abrangente seleção de obras.

Entre os destaques estão alguns dos títulos mais conhecidos de seu repertório camerístico, como a Sinfonia de Câmara de Rudolf Barshai, adaptação do Quarteto de Cordas nº 8 de Shostakovich, o Quarteto de Cordas nº 1 e o Quinteto com Piano. Reunidas no mesmo conjunto, essas obras permitem acompanhar diferentes aspectos da linguagem do compositor e de sua extraordinária capacidade de transitar entre forma, intensidade dramática e expressão pessoal.

O álbum também reserva espaço para obras menos conhecidas e verdadeiras joias do catálogo de Shostakovich. Entre elas estão peças raramente ouvidas para dois pianos, como a breve e espirituosa Tarantella, que explora um lado mais leve e incisivo de sua escrita, e o Concertino, op. 94, obra de caráter dramático e quase cinematográfico.

A seleção é completada por uma homenagem particularmente significativa: o Prelúdio em memória de Dmitri Shostakovich, de Alfred Schnittke. A peça funciona como uma espécie de epílogo ao percurso apresentado pela coleção e evidencia a influência que Shostakovich exerceu sobre compositores de gerações posteriores.

Ao reunir obras célebres e páginas menos familiares, o álbum oferece, assim, um panorama amplo da produção camerística de Shostakovich. Mais do que uma simples coletânea de favoritos, trata-se de um percurso que evidencia a diversidade de sua escrita e a dimensão expressiva de um compositor cuja produção se estendeu por praticamente todos os territórios da música de concerto do século XX.

Uma boa apreciação! 

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - 

DISCO 01

01 - String Quartet No. 8 in C Minor Op. 110 (Arr. for String Orchestra by Rudolf Barshai) _ I. Largo
01 - String Quartet No. 8 in C Minor Op. 110 (Arr. for String Orchestra by Rudolf Barshai) _ I. Largo
03 - String Quartet No. 8 in C Minor Op. 110 (Arr. for String Orchestra by Rudolf Barshai)_ III. Allegretto
04 - String Quartet No. 8 in C Minor Op. 110 (Arr. for String Orchestra by Rudolf Barshai)_ IV. Largo
05 - String Quartet No. 8 in C Minor Op. 110 (Arr. for String Orchestra by Rudolf Barshai)_ V. Largo
06 - 6 Verses, Op. 143 (Arr. for Voice & String Quartet by Lera Auerbach)_ No. 1, My Poetry
07 - 6 Verses, Op. 143 (Arr. for Voice & String Quartet by Lera Auerbach)_ No. 2, Whence Comes This Tenderness_
08 - 6 Verses, Op. 143 (Arr. for Voice & String Quartet by Lera Auerbach)_ No. 3, Hamlet's Dialogue with His Conscience
09 - 6 Verses, Op. 143 (Arr. for Voice & String Quartet by Lera Auerbach)_ No. 4, The Poet and the Tsar
10 - 6 Verses, Op. 143 (Arr. for Voice & String Quartet by Lera Auerbach)_ No. 5, No, a Drum Was Heard
11 - 6 Verses, Op. 143 (Arr. for Voice & String Quartet by Lera Auerbach)_ No. 6, To Anna Akhmatova
12 - 2 Pieces for String Octet, Op. 11_ No. 1, Prelude
13 - 2 Pieces for String Octet, Op. 11_ No. 2, Scherzo
14 - Prelude in Memoriam Dmitri Shostakovich

DISCO 02

01 - Piano Quintet in G Minor, Op. 57_ I. Prelude. Lento - Poco più mosso
02 - Piano Quintet in G Minor, Op. 57_ II. Fugue. Adagio
03 - Piano Quintet in G Minor, Op. 57_ III. Scherzo. Allegretto
04 - Piano Quintet in G Minor, Op. 57_ IV. Intermezzo. Lento
05 - Piano Quintet in G Minor, Op. 57_ V. Finale. Allegretto
06 - String Quartet No. 4 in D Major, Op. 83_ I. Allegretto
07 - String Quartet No. 4 in D Major, Op. 83_ II. Andantino
08 - String Quartet No. 4 in D Major, Op. 83_ III. Allegretto
09 - String Quartet No. 4 in D Major, Op. 83_ IV. Allegretto
10 - String Quartet No. 1 in C Major, Op. 49_ I. Moderato
11 - String Quartet No. 1 in C Major, Op. 49_ II. Moderato
12 - String Quartet No. 1 in C Major, Op. 49_ III. Allegro molto
13 - String Quartet No. 1 in C Major, Op. 49_ IV. Allegro

DISCO 03

01 - Suite for 2 Pianos in F-Sharp Minor, Op. 6_ I. Prelude. Andantino
02 - Suite for 2 Pianos in F-Sharp Minor, Op. 6_ II. Danse fantastique
03 - Suite for 2 Pianos in F-Sharp Minor, Op. 6_ III. Nocturne. Andante
04 - Suite for 2 Pianos in F-Sharp Minor, Op. 6_ IV. Finale. Allegro
05 - Piano Sonata No. 1 in C Major, Op. 12_ Allegro (1)
06 - Piano Sonata No. 1 in C Major, Op. 12_ Meno mosso (1)
07 - Piano Sonata No. 1 in C Major, Op. 12_ Adagio (1)
08 - Piano Sonata No. 1 in C Major, Op. 12_ Allegro (2)
09 - Piano Sonata No. 1 in C Major, Op. 12_ Poco meno mosso
10 - Piano Sonata No. 1 in C Major, Op. 12_ Adagio (2)
11 - Piano Sonata No. 1 in C Major, Op. 12_ Lento
12 - Piano Sonata No. 1 in C Major, Op. 12_ Allegro (3)
13 - Piano Sonata No. 1 in C Major, Op. 12_ Meno mosso (2)
14 - Piano Sonata No. 1 in C Major, Op. 12_ Moderato
15 - Piano Sonata No. 1 in C Major, Op. 12_ Allegro (4)
16 - Piano Sonata No. 2 in B Minor, Op. 61_ I. Allegretto
17 - Piano Sonata No. 2 in B Minor, Op. 61_ II. Largo
18 - Piano Sonata No. 2 in B Minor, Op. 61_ III. Moderato

DISCO 04

01 - Concertino for 2 Pianos in A Minor, Op. 94
02 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 1 in C Major
03 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 2 in A Minor
04 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 3 in G Major
05 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 4 in E Minor
06 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 5 in D Major
07 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 6 in B Minor
08 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 7 in A Major
09 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 8 in F-Sharp Minor
10 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 9 in E Major
11 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 10 in C-Sharp Minor
12 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 11 in B Major
13 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 12 in G-Sharp Minor
14 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 13 in F-Sharp Major
15 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 14 in E-Flat Minor
16 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 15 in D-Flat Major
17 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 16 in B-Flat Minor
18 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 17 in A-Flat Major
19 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 18 in F Minor
20 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 19 in E-Flat Major
21 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 20 in C Minor
22 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 21 in B-Flat Major
23 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 22 in G Minor
24 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 23 in F Major
25 - 24 Preludes, Op. 34_ No. 24 in D Minor
26 - Song of the Great Rivers, Op. 95_ Waltz (Version for Piano 4 Hands)
27 - Ballet Suite No. 2_ III. Polka (Version for 2 Pianos)
28 - Merry March for 2 Pianos
29 - Tarantella for 2 Pianos

Petersen Quartet
Moscow Virtuosi

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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - Three Chamber Symphonies

 

Há algo de particularmente revelador no projeto que reúne três “sinfonias de câmara” de Dmitri Shostakovich (1906–1975) em arranjos de Rudolf Barshai (1924–2010). Em vez de simplesmente ampliar a sonoridade dos quartetos de cordas, Barshai transforma obras concebidas para quatro instrumentistas em peças para conjuntos mais numerosos, revelando dimensões orquestrais que permaneciam implícitas no original. O álbum, lançado pela Naxos, apresenta os arranjos do Primeiro, Oitavo e Quarto Quartetos de Cordas, interpretados pelos Kiev Soloists sob a direção de Dmitry Yablonsky.

A ideia de transcrever os quartetos de Shostakovich para forças maiores não é um episódio isolado. O compositor escreveu ao longo da vida 15 quartetos de cordas, conjunto que se tornou uma das realizações fundamentais da música de câmara do século XX. Quase todos eles acabaram recebendo algum tipo de transcrição para formações ampliadas, e Barshai foi o principal responsável por esse movimento. Violista, integrante do Borodin Quartet entre 1945 e 1953 e fundador da Moscow Chamber Orchestra em 1955, ele manteve uma relação profissional estreita com Shostakovich até a morte do compositor.

O Primeiro Quarteto, escrito entre maio e julho de 1938 e originalmente associado ao subtítulo Spring-time, representa o lado mais luminoso e despretensioso do programa. A transcrição de Barshai, realizada em 1995 para a Orchestra Sinfonica di Milano Giuseppe Verdi e estreada no ano seguinte, preserva a ingenuidade e a economia expressiva da obra, mas permite que elas sejam percebidas em uma superfície sonora mais ampla. O primeiro movimento alterna uma melodia melancólica com um segundo tema de caráter igualmente plaintivo; o segundo assume a forma de uma série de variações sobre uma melodia de sabor folclórico; e o terceiro introduz um scherzo cuja elegância é reforçada por um movimento de barcarola. O finale, mais energético, conduz a obra a uma conclusão decidida.

Se o Primeiro Quarteto revela um Shostakovich mais espontâneo, o Oitavo Quarteto, de 1960, conduz o ouvinte para uma atmosfera completamente diferente. Composto em apenas três dias, enquanto o músico trabalhava em uma trilha para cinema em Dresden, o quarteto nasceu em um período de profundas transformações pessoais e assumiu um caráter marcadamente autobiográfico. Shostakovich introduz na partitura citações de obras anteriores e, sobretudo, o célebre motivo DSCH, construído a partir das letras musicais correspondentes ao seu próprio nome.

Na transcrição, esse caráter confessional ganha uma dimensão quase sinfônica. O primeiro movimento começa com o motivo DSCH em tom sombrio, seguido por uma linha meditativa da viola e uma cantilena dos violinos. A aparente consolação é interrompida pelo retorno do motivo inicial. O segundo movimento irrompe violentamente, com um tema pulsante lançado de um grupo de cordas a outro, enquanto o terceiro transforma o material anterior em um intermezzo inquieto. Depois de uma passagem marcada por dissonâncias, o quarto movimento retorna às sombras iniciais e encaminha a obra para uma conclusão contida, suspensa entre desespero e resignação.

O Quarto Quarteto, composto entre abril e dezembro de 1949, ocupa uma posição particularmente importante no álbum. Escrito em uma época em que grande parte da produção de Shostakovich estava proibida de ser apresentada publicamente, o quarteto só teve sua estreia oficial em Moscou, em dezembro de 1953, pelo Beethoven Quartet. Barshai produziu a transcrição décadas mais tarde, apresentada pela primeira vez em 1990, em uma transmissão radiofônica de Cardiff. Diferentemente dos arranjos do Primeiro e do Oitavo Quartetos, sua versão incorpora, além das cordas, madeiras, corne inglês, duas trompas, trompete, percussão e tímpano.

Essa ampliação altera significativamente a perspectiva da obra. As inflexões judaicas presentes na música do final dos anos 1940 tornam-se particularmente perceptíveis, enquanto o conjunto instrumental ressalta a dimensão sinfônica de uma partitura que, em sua versão original, pode parecer menos monumental que os quartetos que a cercam. O primeiro movimento parte de uma ampla melodia sustentada pelas cordas graves; o segundo apresenta uma das páginas mais comoventes de Shostakovich, inicialmente confiada ao oboé; o terceiro assume a forma de um scherzo discreto, enquanto o finale acumula tensão até uma transformação vigorosa do material temático.

A proposta de Barshai, portanto, não deve ser entendida apenas como uma tentativa de produzir versões “maiores” dos quartetos. Seu trabalho funciona como uma espécie de lente de aumento: a ampliação da formação permite ouvir de outra maneira os contrastes de timbre, as linhas secundárias e os conflitos internos da escrita de Shostakovich. O arranjador conhecia profundamente essa linguagem e sua relação com o compositor ajudou a conferir legitimidade artística a essas novas versões.

A interpretação cabe aos Kiev Soloists, conjunto de câmara sediado na capital ucraniana, formado majoritariamente por jovens músicos e reconhecido por sua atuação tanto na música ocidental quanto no repertório contemporâneo. O grupo mantém vínculos especialmente estreitos com compositores como Krzysztof Penderecki, Valentin Silvestrov e Myroslav Skoryk. À frente do ensemble está Dmitry Yablonsky, violoncelista e regente nascido em Moscou, cuja carreira inclui apresentações em importantes salas internacionais e colaborações com diversas orquestras. Ele é o regente principal dos Kiev Soloists desde 2014.

O resultado é um álbum que propõe uma escuta particularmente interessante de Shostakovich. Entre a delicadeza do Primeiro Quarteto, a dimensão autobiográfica e sombria do Oitavo e a densidade histórica do Quarto, as três obras mostram como a música de câmara do compositor pode assumir novas proporções sem perder sua identidade. Barshai não transforma simplesmente quartetos em pequenas sinfonias: ele revela a dimensão sinfônica que já estava latente dentro deles.

Uma boa apreciação! 

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - 

01 - I. Moderato
02 - II. Moderato
03 - III. Allegro molto
04 - IV. Allegro
05 - I. Largo
06 - II. Allegro molto
07 - III. Allegretto
08 - IV. Largo
09 - V. Largo
10 - I. Allegretto
11 - II. Andantino
12 - III. Allegretto
13 - IV. Allegretto

Kiev Soloists
Dmitry Yablonsky 

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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Kara Karayev (1918-1982) - Symphony No.3 e Don Quixote

Kara Karayev, formado na tradição russa, discípulo de Dmitri Shostakovich e profundamente ligado à cultura do Azerbaijão, Karayev desenvolveu uma linguagem própria na qual convivem procedimentos composicionais modernos, referências à música folclórica de sua terra natal e uma expressividade fortemente marcada pelo teatro, pela literatura e pelo cinema. O álbum da Naxos reúne três obras representativas dessa trajetória: a Sinfonia nº 3 (1964), Leyla e Mejnun (1947) e Dom Quixote — Gravuras Sinfônicas (1960).

Nascido em Baku, Karayev iniciou sua formação musical na cidade em 1930 e, oito anos depois, ingressou no Conservatório de Moscou, onde estudou composição com Shostakovich. A influência do mestre foi importante sobretudo no tratamento da instrumentação e da linguagem harmônica, mas Karayev não se limitou a reproduzi-la. Sua personalidade artística foi construída a partir do diálogo entre referências muito diversas: admirava Bach, Beethoven, Tchaikovsky, Prokofiev e Shostakovich, ao mesmo tempo em que demonstrava interesse pela música albanesa, vietnamita, turca, búlgara, espanhola, africana e árabe. Para ele, Oriente e Ocidente coexistiam naturalmente em sua identidade artística.

Essa síntese encontra uma de suas manifestações mais ousadas na Sinfonia nº 3, composta em 1964 para orquestra de câmara. A obra foi uma das primeiras grandes composições soviéticas a empregar o serialismo, procedimento que Karayev combinou, de maneira deliberada, com elementos da tradição musical azerbaijana, particularmente a tradição ashug, e com a estrutura convencional de quatro movimentos. Seu propósito era encontrar novos princípios de forma e novos meios de expressão musical, além de aprofundar aquilo que chamava de “mundo interior” do ser humano contemporâneo.

O primeiro movimento, Allegro moderato, apresenta dois temas construídos sobre a mesma série de doze sons. Ritmos incisivos, caráter motor e harmonias ásperas aproximam a obra, em determinados momentos, do universo de Shostakovich e Prokofiev, embora a linguagem permaneça essencialmente karayeviana. O segundo movimento, Allegro vivace, é um Scherzo de grande energia rítmica, com ritmos de dança e um trio de caráter próximo da valsa. A referência à tradição ashug é especialmente importante: Karayev procurava demonstrar que uma técnica composicional rigorosamente dodecafônica poderia conviver com uma expressão autenticamente nacional. O Andante funciona como centro lírico e meditativo, enquanto o movimento final retoma a energia rítmica inicial, introduz uma fuga e termina com uma inesperada coda lenta, de caráter reflexivo.

Em Leyla e Mejnun, de 1947, Karayev volta-se para uma das histórias de amor mais conhecidas da tradição oriental. O poema do grande poeta azerbaijano Nizami, do século XII, retoma a antiga lenda dos amantes Qays e Leyla: separados pelo casamento de Leyla com outro homem, Qays enlouquece e passa a ser chamado Mejnun — “louco” ou “possuído”. Isolado no deserto, transforma seu sofrimento em poesia; como ocorre em Tristão e Isolda e Romeu e Julieta, os amantes encontram a união apenas na morte.

A obra, entretanto, não pretende simplesmente narrar musicalmente a história. O próprio Karayev afirmou que não desejava seguir o caminho da ilustração musical, mas expressar o tema universal do amor heroico capaz de superar todos os obstáculos, inclusive a morte. A estrutura organiza-se em torno de três ideias fundamentais: o destino que impede a união dos amantes; a luta contra esse destino; e o amor. Ao final, o tema amoroso retorna transformado pela tristeza, antes que a percussão e os registros graves das cordas produzam a impressão de que o destino desfere seu golpe definitivo.

Já Dom Quixote — Gravuras Sinfônicas, de 1960, nasce de outro universo artístico: o cinema. Karayev utilizou material musical escrito para o filme homônimo dirigido por Grigori Kozintsev e organizou-o em oito quadros. Embora o título, os episódios e a origem cinematográfica façam da obra uma composição programática, o compositor novamente evita a simples reprodução dos acontecimentos. O interesse está menos nas aventuras exteriores do cavaleiro de Cervantes do que em seu mundo interior.

Os oito episódios — Travels, Sancho, the Governor, Travels, Aldonse, Travels, Pavan, Cavalcade e Don Quixote’s Death — constroem um retrato musical progressivo do personagem. Os três episódios de viagem funcionam como uma espécie de fio condutor, enquanto Sancho traz uma atmosfera festiva; Aldonse apresenta lirismo e delicadeza; Pavan antecipa, sem caráter fúnebre, o fim do protagonista; e Cavalcade explora uma escrita orquestral vigorosa, marcada por harmonias ásperas de caráter próximo ao de Prokofiev. Na conclusão, o tema lírico de Aldonse retorna: a luz se extingue, mas permanecem as lembranças e a imagem simpática do herói.

A gravação apresentada pela Naxos foi realizada em Moscou, entre 2 e 6 de março de 2008, no Studio 5 da Companhia Estatal Russa de Rádio e Televisão Kultura, com a Russian Philharmonic Orchestra, dirigida por Dmitry Yablonsky. O álbum tem duração total de 58min10s e reúne a Sinfonia nº 3, Leyla e Mejnun e Dom Quixote. Segundo o próprio encarte, trata-se da primeira edição em CD dessas obras.

O resultado é um retrato particularmente expressivo de um compositor que fez da conciliação entre mundos aparentemente distantes o centro de sua estética. Em Karayev, o serialismo não elimina a tradição nacional; a herança de Shostakovich não apaga sua individualidade; e a literatura e o cinema não conduzem necessariamente à música descritiva. Sua modernidade nasce justamente da capacidade de transformar diferentes tradições em uma linguagem pessoal, na qual a identidade cultural do Azerbaijão permanece presente mesmo quando o compositor emprega algumas das técnicas mais avançadas de seu tempo.

Uma boa apreciação! 

Kara Karayev (1918-1982) - 

01 - Karayev - Symphony No.3 (1964) - I - Allegro moderato
02 - Karayev - Symphony No.3 (1964) - II - Allegro vivace
03 - Karayev - Symphony No.3 (1964) - III - Andante
04 - Karayev - Symphony No.3 (1964) - IV - Allegro
05 - Karayev - Leyla and Mejnun (1947)
06 - Karayev - Don Quixote (1960) - I - Travels
07 - Karayev - Don Quixote (1960) - II - Sancho, the Governor
08 - Karayev - Don Quixote (1960) - III - Travels
09 - Karayev - Don Quixote (1960) - IV - Aldonse
10 - Karayev - Don Quixote (1960) - V - Travels
11 - Karayev - Don Quixote (1960) - VI - Pavan
12 - Karayev - Don Quixote (1960) - VII - Cavalcade
13 - Karayev - Don Quixote (1960) - VIII - Don Quixote's Death

Russian Philharmonic Orchestra
Dmitry Yablonsky, regente 

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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - Symphony no.13 in B flat minor, Op.113, ‘Babi Yar’ e Sergei Prokofiev (1891-1953) October, Cantata Op.74 (excerpts)

"Uma gravação de extraordinário valor histórico reúne duas obras profundamente marcadas pela realidade política da antiga União Soviética: a Cantata para o 20º Aniversário da Revolução de Outubro, de Sergei Prokofiev, e a Sinfonia nº 13 – Babi Yar, de Dmitri Shostakovich. Mais do que um simples registro fonográfico, o álbum preserva momentos decisivos da vida musical soviética e revela como dois dos maiores compositores russos do século XX enfrentaram, cada um à sua maneira, as complexas relações entre arte, poder e memória histórica.

O grande destaque da gravação é a preservação da segunda apresentação pública da Sinfonia nº 13, realizada em 20 de dezembro de 1962, utilizando o texto original do poeta Yevgeny Yevtushenko. O poema Babi Yar, que denuncia o massacre de milhares de judeus executados pelos nazistas na ravina ucraniana de mesmo nome e critica o antissemitismo persistente na sociedade soviética, provocou intensa controvérsia política. Apesar das pressões exercidas por Nikita Khrushchov para que o texto fosse alterado, esta interpretação mantém integralmente a versão concebida pelo poeta, conferindo à obra toda a força de sua denúncia e de sua dimensão humanitária.

Assim como na estreia, a sinfonia emerge como uma poderosa balada heroica e fúnebre. Sua atmosfera combina indignação, luto e espírito de resistência, transformando a homenagem às vítimas de Babi Yar em uma reflexão universal sobre a violência, a intolerância e a memória coletiva.

O álbum inclui ainda a monumental Cantata para o 20º Aniversário da Revolução de Outubro, uma das obras mais ambiciosas de Sergei Prokofiev. Escrita para celebrar as duas décadas da Revolução Bolchevique, a partitura percorre, ao longo de dez movimentos contrastantes, os principais episódios da formação da União Soviética. Utilizando textos de Karl Marx, Vladimir Lênin e Josef Stalin, a cantata narra acontecimentos que vão da tomada do Palácio de Inverno, em 1917, passando pelas dificuldades enfrentadas durante a guerra civil, pelo funeral de Lênin em 1924, pelo processo de industrialização e coletivização agrícola da década de 1930, até a consolidação do regime stalinista com a Constituição de 1936.

A obra começou a ser composta em 1936, por encomenda do Comitê de Rádio de Toda a União e de Boris Gusman, amigo de Prokofiev. Concluída no verão do ano seguinte, deveria integrar as celebrações oficiais do vigésimo aniversário da Revolução. Entretanto, o agravamento da repressão política contra artistas durante o período dos Grandes Expurgos levou o compositor a retirar a obra de circulação antes mesmo de sua estreia.

A Cantata permaneceu inédita durante quase três décadas. Sua primeira apresentação só ocorreria em maio de 1966, treze anos após a morte de Prokofiev. Nesse intervalo, o cenário político havia mudado profundamente: Stalin já havia falecido e sua figura passara a ser oficialmente condenada durante o processo de desestalinização promovido pelo governo soviético.

Reunindo essas duas obras emblemáticas, o álbum ultrapassa o interesse estritamente musical e assume o caráter de documento histórico. Ao mesmo tempo em que evidencia o extraordinário talento criativo de Prokofiev e Shostakovich, permite compreender como ambos dialogaram, de formas distintas, com as tensões ideológicas de seu tempo. O resultado é um registro de enorme relevância artística e documental, indispensável para compreender as complexas relações entre música, política e história no século XX".

Uma boa apreciação! 

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - 

Symphony no.13 in B flat minor, Op.113, ‘Babi Yar’

01. I. Adagio – Babi Yar
02. II. Allegretto – Humour
03. III. Adagio – In the store
04. IV. Largo – Fears (Terror)
05. V. Allegretto – A career

Sergei Prokofiev (1891-1953)

October, Cantata Op.74 (excerpts)

06. I. Prelude – Moderato. Allegro
07. II. The Philosophers – Andante assai
08. VI. Revolution – Andante non troppo-Più mosso-Allegro moderato-Precipitato-Adagio molto
09. VII. Victory – Andante
10. IX. Symphony – Allegro energico – Meno mosso

Moscow Philharmonic Orchestra
RSFSR Academic Choir
Yurlov State Choir

Kirill Kondrashin, regente
Vitaly Gromadsky, baixo 

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sábado, 1 de agosto de 2026

Piotr I. Tchaikovsky (1840-1893) - Orchestral Works

"Esta coletânea reúne algumas das mais célebres páginas orquestrais e trechos de balé de Piotr Ilitch Tchaikovsky, oferecendo um panorama representativo da extraordinária capacidade do compositor russo de unir lirismo, brilho orquestral e intenso poder dramático. O álbum reafirma a força de uma parceria artística amplamente reconhecida pela crítica internacional: o maestro Dmitrij Kitajenko e a Orquestra Gürzenich de Colônia.

Desde que foi nomeado maestro honorário da tradicional formação alemã, em 2009, Kitajenko consolidou uma das mais importantes colaborações discográficas dedicadas ao repertório russo. Juntos, maestro e orquestra registraram as integrais das sinfonias de Dmitri Shostakovich, Sergei Prokofiev, Piotr Ilitch Tchaikovsky e Sergei Rachmaninoff, interpretações que receberam inúmeros prêmios internacionais e hoje figuram entre as principais referências da discografia contemporânea.

Essa afinidade com a música russa também se manifestou de forma marcante na gravação da ópera Iolanta, de Tchaikovsky, lançada em 2015. Reunindo Olesya Golovneva, Alexander Vinogradov e Andrei Bondarenko nos papéis principais, a produção foi amplamente elogiada pela crítica especializada e conquistou o prêmio de Ópera do Ano concedido pelo International Classical Music Awards (ICMA), consolidando ainda mais o prestígio da parceria entre Kitajenko e a Gürzenich.

Nesta nova coletânea, a experiência acumulada ao longo de anos de dedicação ao repertório do compositor traduz-se em interpretações de grande naturalidade e refinamento. As páginas orquestrais revelam toda a riqueza melódica e a sofisticada paleta de cores que caracterizam a escrita de Tchaikovsky, enquanto as seleções extraídas de seus balés evidenciam o vigor rítmico, a elegância da dança e a inesgotável capacidade narrativa que fizeram dessas partituras um patrimônio permanente da música ocidental.

Mais do que uma simples reunião de obras célebres, o álbum sintetiza uma trajetória artística marcada pela excelência interpretativa e pelo profundo conhecimento da tradição sinfônica russa. É uma gravação que confirma Dmitrij Kitajenko e a Orquestra Gürzenich de Colônia entre os mais importantes intérpretes contemporâneos da obra de Tchaikovsky, oferecendo ao público uma leitura ao mesmo tempo vibrante, elegante e fiel ao espírito do compositor".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Piotr I. Tchaikovsky (1840-1893) -

DISCO 01


01. The Queen of Spades, Op. 68, TH 10: Overture (03:56)
02. Capriccio italien, Op. 45, TH 47 (16:42)
03. The Snow Maiden, Op. 12, TH 19 (Excerpts): No. 1, Introduction (05:54)
04. The Snow Maiden, Op. 12, TH 19 (Excerpts): No. 10, Melodrama (04:47)
05. The Snow Maiden, Op. 12, TH 19 (Excerpts): No. 13, Dance of the Tumblers (04:49)
06. The Sleeping Beauty Suite, Op. 66a, TH 234: I. Introduction (05:03)
07. The Sleeping Beauty Suite, Op. 66a, TH 234: II. Adagio - III. Pas de caractère (06:39)
08. The Sleeping Beauty Suite, Op. 66a, TH 234: IV. Panorama (03:06)
09. The Sleeping Beauty Suite, Op. 66a, TH 234: V. Waltz (04:58)
10. Variations on a Rococo Theme, Op. 33, TH 57 (Ed. W. Fitzenhagen): Theme (02:37)
11. Variations on a Rococo Theme, Op. 33, TH 57 (Ed. W. Fitzenhagen): Var. 1 (00:51)
12. Variations on a Rococo Theme, Op. 33, TH 57 (Ed. W. Fitzenhagen): Var. 2 (01:19)
13. Variations on a Rococo Theme, Op. 33, TH 57 (Ed. W. Fitzenhagen): Var. 3 (03:52)
14. Variations on a Rococo Theme, Op. 33, TH 57 (Ed. W. Fitzenhagen): Var. 4 (02:00)
15. Variations on a Rococo Theme, Op. 33, TH 57 (Ed. W. Fitzenhagen): Var. 5 (03:43)
16. Variations on a Rococo Theme, Op. 33, TH 57 (Ed. W. Fitzenhagen): Var. 6 (02:35)
17. Variations on a Rococo Theme, Op. 33, TH 57 (Ed. W. Fitzenhagen): Var. 7 (02:10)

DISCO 02

01. String Quartet No. 1 in D Major, Op. 11: II. Andante cantabile, TH 63 (Version for Cello & String Orchestra) (07:10)
02. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): Overture (03:28)
03. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 1, Decoration of the Christmas Tree (04:21)
04. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 2, March (02:59)
05. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 3, Children's Galop and Entry of the Parents (02:40)
06. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 9, Waltz of the Snowflakes (07:23)
07. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 12a, Divertissement. Chocolate [Spanish Dance] (01:20)
08. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 12b, Divertissement. Coffee [Arabian Dance] (03:11)
09. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 12c, Divertissement. Tea [Chinese Dance] (01:10)
10. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 12d, Divertissement. Trépak [Russian Dance] (01:15)
11. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 12e, Divertissement. Dance of the Reed Flutes (02:32)
12. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 12f, Divertissement. Mother Gigogne and the Clowns (02:56)
13. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 13, Waltz of the Flowers (07:36)
14. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 14a, Pas de deux. Andante maestoso (05:25)
15. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 14b, Pas de deux. Tarantella (00:43)
16. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 14c, Pas de deux. Dance of the Sugarplum Fairy (02:32)
17. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 14d, Pas de deux. Coda (01:34)
18. The Nutcracker, Op. 71, TH 14 (Excerpts): No. 15, Final Waltz and Apotheosis (05:45)

Gürzenich-Orchester Köln
Dmitri Kitayenko, regente 

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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47 e Symphony No. 12 - "The Year 1917"

A relação entre Shostakovich e Mravinsky começou em 1937, ano decisivo tanto para o compositor quanto para a cultura soviética. Após a violenta condenação da ópera Lady Macbeth de Mtsensk pelo jornal Pravda, o compositor viu sua carreira ameaçada e tornou-se alvo da vigilância ideológica do regime stalinista. Nesse contexto, a estreia da Sinfonia nº 5 representou muito mais que o lançamento de uma nova obra: foi uma espécie de reabilitação pública de seu autor. A recepção calorosa da estreia, em novembro daquele ano, devolveu a Shostakovich um espaço que parecia definitivamente perdido.

Durante décadas, a Quinta Sinfonia foi oficialmente apresentada como uma demonstração da reconciliação do compositor com os ideais do realismo socialista. O próprio Shostakovich declarou que o final oferecia uma resposta otimista aos conflitos apresentados nos movimentos iniciais. Entretanto, essa interpretação nunca deixou de provocar controvérsias. Muitos ouvintes passaram a perceber naquele triunfo final uma vitória imposta, quase forçada, cuja grandiosidade esconde um sofrimento que jamais desaparece completamente.

É justamente nesse ponto que a leitura de Yevgeny Mravinsky adquire importância histórica. O maestro recusava qualquer interpretação simplista do último movimento como celebração triunfal. Em vez disso, conduzia a música como uma marcha inexorável rumo ao desconhecido, preservando a ambiguidade emocional da partitura. Sob sua batuta, a monumental coda deixa de soar como uma apoteose inequívoca para transformar-se em um desfecho inquietante, quase um julgamento inevitável, onde a tensão nunca é totalmente resolvida.

Do ponto de vista musical, a Quinta Sinfonia representa uma impressionante síntese da tradição russa e centro-europeia. Ecos de Tchaikovsky aparecem na dimensão lírica e no tema do homem diante do destino. A grandiosidade épica aproxima a obra de Borodin, enquanto a influência de Gustav Mahler manifesta-se tanto na riqueza da orquestração quanto na ironia amarga do Allegretto. Há ainda reminiscências de Wagner no Largo e passagens cuja linguagem harmônica evoca Sibelius. Essa extraordinária rede de referências nunca compromete a personalidade do compositor; pelo contrário, revela um Shostakovich plenamente consciente da tradição que herdou e disposto a reinventá-la sob circunstâncias políticas dramáticas.

Se a Quinta tornou-se símbolo da sobrevivência artística, a Sinfonia nº 12, composta em 1961 e intitulada O Ano de 1917, ocupa uma posição bem mais controversa dentro do catálogo do compositor. Oficialmente dedicada à memória de Lenin, ela foi durante muito tempo interpretada como uma obra de propaganda soviética. Contudo, uma observação mais cuidadosa revela uma realidade muito mais complexa.

Segundo o texto do encarte, Shostakovich associava essa sinfonia a lembranças pessoais da Revolução Russa. Ainda criança, testemunhara a chegada de Lenin à Estação Finlândia, em Petrogrado, mas sua memória mais vívida era a morte brutal de um garoto atingido pelo sabre de um cavaleiro cossaco durante a confusão popular. Ao mesmo tempo, a obra pode ser entendida como uma homenagem velada a amigos vítimas dos expurgos stalinistas, entre eles o diretor teatral Vsevolod Meyerhold e o marechal Mikhail Tukhachevsky, ambos executados pelo regime.

Musicalmente, a Décima Segunda mantém a estrutura contínua da Sinfonia nº 11, ligando seus quatro movimentos sem interrupção. O primeiro, Petrogrado Revolucionária, apresenta um discurso marcial que evolui a partir de um material temático bastante concentrado. Já Razliv surpreende pelo caráter contemplativo, construído sobre amplas frases dos sopros que criam uma atmosfera quase pastoral. O breve movimento Aurora utiliza a percussão para evocar o famoso cruzador cuja salva simbolizou o início da Revolução de Outubro, preparando a chegada do grandioso final, O Amanhecer da Humanidade. Embora carregado de solenidade, esse encerramento também revela a extraordinária habilidade orquestral de Shostakovich, cuja escrita supera o simples caráter narrativo para alcançar verdadeira arquitetura sinfônica.

Nenhum outro maestro parecia mais apto a defender esse repertório do que Yevgeny Mravinsky. Nascido em São Petersburgo em 1903, assumiu a direção da Filarmônica de Leningrado em 1938, permanecendo à frente da orquestra durante mais de quatro décadas. Seu nome tornou-se inseparável do conjunto e da música soviética. Foi responsável pela estreia de diversas obras fundamentais de Prokofiev, Miaskovsky e Kabalevsky, além de manter uma relação artística privilegiada com Shostakovich, que lhe dedicou a Sinfonia nº 8, composta em 1943.

Mravinsky era conhecido pelo rigor quase absoluto de seus ensaios e pela extraordinária precisão sonora que extraía da Filarmônica de Leningrado. Seu repertório era relativamente restrito, mas profundamente amadurecido ao longo dos anos, o que explica por que tantas de suas gravações continuam sendo consideradas referências interpretativas. Após a morte de Stalin, as turnês internacionais da orquestra revelaram ao Ocidente uma escola de execução caracterizada pela disciplina, pela intensidade dramática e por um refinamento tímbrico incomum.

As gravações reunidas nesta edição preservam esse legado em momentos distintos da parceria entre maestro e compositor. A Sinfonia nº 5 foi registrada ao vivo em Moscou, em 24 de outubro de 1965, enquanto a Sinfonia nº 12 corresponde à histórica primeira execução pública da obra, realizada em Leningrado em 1º de outubro de 1961, posteriormente transmitida pela Rádio de Praga. Mais do que documentos históricos, são interpretações capazes de revelar a complexidade emocional dessas partituras e a profunda compreensão que Mravinsky possuía da linguagem de Shostakovich.

Mais de meio século depois, essas leituras continuam impressionando não apenas pela excelência técnica da orquestra, mas pela capacidade de transformar cada compasso em narrativa histórica. Sob a batuta de Mravinsky, Shostakovich deixa de ser apenas o compositor da União Soviética para tornar-se um cronista da condição humana, alguém que encontrou na linguagem sinfônica uma maneira de registrar medo, esperança, resignação e resistência. Poucas parcerias entre compositor e intérprete alcançaram tamanho grau de identificação. Escutá-las hoje é ouvir não apenas duas grandes sinfonias, mas uma época inteira traduzida em música.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - 

01 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47_
02 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47_
03 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47_
04 - Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47_
05 - I. Revolutionnary Petrograd
06 - II. Razliv
07 - III. Aurora
08 - IV. The Dawn of Humanity

Leningrad Philharmonic Orchestra
Evgeny Mravinsky, regente 

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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - The Cello Concertos


Após uma década de trabalho contínuo, Andris Nelsons e a Orquestra Sinfônica de Boston encerram seu premiado projeto dedicado a Dmitri Shostakovich com a apresentação da aclamada integral das sinfonias do compositor. Gravado na excepcional acústica da Symphony Hall de Boston, o ciclo beneficia-se de uma qualidade sonora de altíssimo nível, capaz de revelar com extraordinária nitidez a riqueza orquestral e a complexidade expressiva da escrita shostakovichiana.

O álbum traz ainda a participação especial de Yo-Yo Ma, que oferece interpretações inspiradas dos dois Concertos para Violoncelo, obras que figuram entre as mais importantes do repertório do instrumento. O Primeiro Concerto, de notável inventividade, foi composto para Mstislav Rostropovich, amigo próximo do compositor e destinatário de uma partitura célebre por suas enormes exigências técnicas e expressivas. A obra também ocupa um lugar especial na trajetória artística de Yo-Yo Ma, tendo representado um dos primeiros marcos de sua carreira internacional.

Em contraste, o Segundo Concerto para Violoncelo revela um Shostakovich muito mais introspectivo e contemplativo. Escrito como uma espécie de presente que o compositor ofereceu a si próprio por ocasião de seu sexagésimo aniversário, a partitura abandona o ímpeto virtuosístico do concerto anterior para mergulhar em uma atmosfera de reflexão, melancolia e profunda humanidade.

Combinando a visão interpretativa de Andris Nelsons, a excelência da Sinfônica de Boston e a extraordinária musicalidade de Yo-Yo Ma, este lançamento constitui o ponto culminante de um dos mais importantes projetos discográficos dedicados à obra de Shostakovich nas últimas décadas. O resultado é um registro que alia rigor artístico, intensidade emocional e excelência técnica, reafirmando a permanente atualidade da música de um dos grandes sinfonistas do século XX.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - 

01 I. Allegretto
02 II. Moderato
03 III. Cadenza
04 IV. Allegro Con Moto
05 I. Largo
06 II. Scherzo. Allegretto
07 III. Finale. Allegretto

Boston Symphony Orchestra
Andris Nelsons, regente
Yo-Yo Ma, violoncelo 

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