segunda-feira, 27 de julho de 2026

George Bizet (1838-1875) - Symphony in C Major, GB 115, Charles Gounod (1818-1893) - Symphony No. 1 in D Major, CG 527 e Camille Saint-Säens (1835--1921) - Symphony in A Major, R. 159

Há uma ironia curiosa na história da música francesa do século XIX. Enquanto Paris se rendia à ópera italiana e aos grandes espetáculos líricos, alguns jovens compositores insistiam em cultivar um gênero que parecia deslocado naquele ambiente: a sinfonia. O álbum Premières Symphonies, gravado pela Orquestra Filarmônica de Monte Carlo sob a regência de Kazuki Yamada, reúne justamente três dessas obras inaugurais - de Georges Bizet, Charles Gounod e Camille Saint-Saëns - e revela um momento decisivo da formação da escola sinfônica francesa.

O caso de Georges Bizet talvez seja o mais surpreendente. Conhecido mundialmente por Carmen, ele escreveu sua Sinfonia em Dó maior aos dezessete anos, em 1855, inspirado pela Primeira Sinfonia de Gounod, da qual havia preparado uma redução para piano a quatro mãos. O próprio compositor nunca autorizou sua publicação, e a partitura permaneceu esquecida até ser redescoberta em 1932. Hoje, porém, ela é reconhecida como uma das mais brilhantes obras juvenis de toda a literatura orquestral. Sua escrita alia a clareza clássica herdada de Haydn e Beethoven ao lirismo que mais tarde marcaria suas óperas, deixando entrever também influências de Mendelssohn e Rossini. Partes da sinfonia seriam reaproveitadas posteriormente em Don Procopio e Les Pêcheurs de Perles, prova de que Bizet jamais abandonou completamente essa inspiração juvenil.

A Primeira Sinfonia de Charles Gounod nasceu em circunstâncias bem diferentes. Após o fracasso da ópera La Nonne sanglante, retirada de cartaz poucas apresentações depois da estreia, o compositor encontrou na escrita sinfônica uma forma de recomeçar. O resultado foi uma obra de extraordinária leveza e elegância, recebida calorosamente pelo público em 1855. Embora alguns contemporâneos a vissem como uma alternativa "francesa" ao sinfonismo germânico, a verdade é que Gounod dialoga abertamente com Haydn, Beethoven e Schubert. A partitura combina frescor melódico, equilíbrio formal e uma escrita orquestral transparente, revelando um compositor que compreendia profundamente a tradição vienense sem perder sua personalidade.

Ainda mais precoce foi Camille Saint-Saëns, que escreveu sua chamada Sinfonia nº 0 aos quinze anos, três anos antes de sua Primeira Sinfonia oficial. Em uma França dominada pela ópera, a escolha do gênero sinfônico já representava, por si só, uma declaração estética. Admirador apaixonado de Mozart e Beethoven, Saint-Saëns construiu uma obra marcada pelo rigor clássico, pela elegância formal e por uma surpreendente maturidade técnica. Embora ainda revele ecos do romantismo nascente, sua arquitetura musical antecipa a clareza que se tornaria uma das marcas de sua produção posterior. O jovem compositor demonstra, desde cedo, uma rara capacidade de equilibrar tradição e originalidade.

O grande mérito deste lançamento está justamente em mostrar que essas partituras não são meras curiosidades biográficas. Elas documentam o nascimento de uma tradição sinfônica francesa que, décadas depois, alcançaria pleno amadurecimento com Franck, d'Indy, Chausson, Dukas, Roussel e Debussy. Ouvindo essas primeiras experiências, percebe-se que a identidade musical francesa não surgiu de forma abrupta, mas foi construída gradualmente, a partir do diálogo entre o legado clássico germânico e uma sensibilidade melódica tipicamente francesa.

Sob a direção de Kazuki Yamada, a Orquestra Filarmônica de Monte Carlo enfatiza justamente essa continuidade histórica. As interpretações privilegiam transparência, leveza e refinamento tímbrico, evitando excessos românticos e permitindo que o frescor dessas obras juvenis apareça com naturalidade. O resultado é um registro que interessa não apenas aos admiradores de Bizet, Gounod e Saint-Saëns, mas a qualquer ouvinte disposto a descobrir como três jovens compositores ajudaram a lançar as bases de uma das mais ricas tradições orquestrais da Europa.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

DISCO 01

01 - Symphony in C Major, GB 115_ I. Allegro vivo
02 - Symphony in C Major, GB 115_ II. Adagio
03 - Symphony in C Major, GB 115_ III. Allegro vivace - Trio
04 - Symphony in C Major, GB 115_ IV. Allegro vivace
05 - Symphony No. 1 in D Major, CG 527_ I. Allegro molto
06 - Symphony No. 1 in D Major, CG 527_ II. Allegro moderato
07 - Symphony No. 1 in D Major, CG 527_ III. Scherzo. Non troppo presto - Trio
08 - Symphony No. 1 in D Major, CG 527_ IV. Finale. Adagio - Allegro vivace

DISCO 02

01 - Symphony in A Major, R. 159_ I. Poco Adagio - Allegro vivace
02 - Symphony in A Major, R. 159_ II. Larghetto
03 - Symphony in A Major, R. 159_ III. Scherzo. Allegro vivace - Trio
04 - Symphony in A Major, R. 159_ IV. Finale. Allegro molto - Presto

Orchestre Philharmonique de Monte-Carlo
Kazuki Yamada, regente 

Você pode comprar este disco na Amazon

*Para acessar o link, por favor, clicar na imagem.

 

Nenhum comentário: