quinta-feira, 9 de julho de 2026

César Guerra-Peixe (1914-1993) - A retirada da laguna, Violin Concertino e Museu da inconfidência

O compositor César Guerra-Peixe, cuja família possuía ascendência portuguesa, nascido em Petrópolis, no Rio de Janeiro, é um dos nomes mais importantes nomes da música brasileira do século XX. Guerra-Peixe foi um compositor que se debruçou sobre a identidade brasileira. O compositor mergulhou na história, nas danças, nas festas, nas tradições; na história por trás de certos eventos.

Por exemplo, no período em que esteve em Pernambuco, fez pesquisa de campo, viajando pelo interior do estado – e por outras regiões do Nordeste – a fim de compreender as manifestações musicais populares. Estudou os ritmos como o maracatu, o côco, o xangô e o frevo. Sobre o frevo, descobriu que foi trazido para o Brasil por ciganos eslavos e espanhóis, e não por negros africanos, como se intuía até aquele momento.

Neste disco, encontramos três de suas principais composições. A primeira delas é “A Retirada da Laguna”, uma suíte sinfônica, baseada no clássico literário de Visconde de Taunay, que narra um dos episódios mais graves e trágicos da Guerra do Paraguai. O compositor constrói uma obra programática; a música procura narrar uma história literal. Guerra-Peixe se apropria da influência impressionismo de Debussy e Ravel para estruturar cada movimento da obra. O trabalho com as cores orquestrais é belíssimo. Há uma enorme preocupação em descrever a natureza e o clima. A obra foi escrita em 1971.

Em seguida, encontramos o “Violin Concertino”, escrito em 1972. O compositor era violinista de formação. Seu domínio do instrumento era íntimo. Há obra é um casamento entre o erudito e o popular. A maior influência nesta obra é a rabeca do Nordeste brasileiro. Guerra-Peixe transpõe os modos melódicos (escalas nordestinas), os ritmos, as duplas cordas e os timbres rústicos da rabeca para o violino de concerto europeu. A influência neoclássica de Bartók e Stravinsky é perceptível.

E, por último, encontramos a suíte orquestral “Museu da Inconfidência”, cuja preocupação é realizar uma visita sonora ao museu localizado em Ouro Preto, uma das mais importantes cidades históricas do Brasil. O compositor é fortemente influenciado pela música colonial mineira e, por consequência, pelo Barroco mineiro. A atmosfera procura dialogar com a herança afro-brasileira e as tradições dos reisados. É uma das obras mais admiradas e executadas do compositor. Ela funciona como um mosaico de evocações – dos fantasmas do passado, do heroísmo, da opressão, da religiosidade.

Não deixe de ouvir este importante disco. Uma boa apreciação! 

César Guerra-Peixe (1914-1993) - 

01 - A retirada da laguna_ I. Partida para os campos
02 - A retirada da laguna_ II. Pantanais
03 - A retirada da laguna_ III. Alegria em Nioaque
04 - A retirada da laguna_ IV. Laguna
05 - A retirada da laguna_ V. Uma noite calma
06 - A retirada da laguna_ VI. Incêndio, depois o temporal
07 - A retirada da laguna_ VII. Esperança no campo das cruzes
08 - A retirada da laguna_ VIII. A morte do guia Lopes
09 - A retirada da laguna_ IX. Regresso pacífico
10 - A retirada da laguna_ X. Canção à fraternidade universal
11 - Violin Concertino_ I. Allegro comodo
12 - Violin Concertino_ II. Andantino
13 - Violin Concertino_ III. Allegro un poco vivo
14 - Museu da inconfidência_ I. Entrada
15 - Museu da inconfidência_ II. Cadeira de arruar
16 - Museu da inconfidência_ III. Panteão dos inconfidentes
17 - Museu da inconfidência_ IV. Restos de um reinado negro

Goiás Philharmonic Orchestra
Neil Thomson, regente 

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