quarta-feira, 11 de março de 2026

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - Symphony No. 10

A Sinfonia No. 10, de Shostakovich, é um documento político e histórico de uma época. É a análise psicológica de um pedaço do século XX. Sua estreia se deu, em 1953, meses após a morte de Stálin naquele mesmo ano. É interessante observar que entre a Sinfonia No. 9 e a Décima Sinfonia, houve o intervalo de quase uma década, algo verdadeiramente incomum para um compositor que fez da escrita sinfônica o seu campo de atuação, de expressão. Esse fato pode ser interpretado pelo endurecimento a partir de 1948, sobretudo após o Zhdanov Decree, que acusou vários compositores de “formalismo” e os colocou sob vigilância ideológica. O Regime exigia que os artistas produzissem um material voltado para uma pedagogia que “educasse” o povo e, assim, criasse um material com objetivos de propaganda política.

Mesmo após a morte de Stálin, havia uma névoa de hesitação no ar. Mesmo assim, o compositor escreve um dos trabalhos mais ousados da sua extraordinária trajetória. Para quem anda por aqui, já deve ter percebido a minha admiração pelo compositor soviético.

O primeiro movimento é um dos mais geniais. As cordas vagueiam pelas sombras, como se procurassem algo para se sustentar. Há uma atmosfera de tensão subterrânea. Transmite-se uma ideia de introspecção, como se a música procurasse uma planície para pousar. A condução é tímida e pesada. Há perigo por todos os lados.

Aos poucos, a música vai se insinuando. Há receios. Shosta desejou denunciar por meio desses lances como foi a vida sob Stálin - vigilância constante, medo silencioso, explosões ocasionais de desespero.

Os movimentos restantes transmitem a ideia de fúria brutal e de reflexão ambígua. É a psicologia do compositor funcionando com máximo primor. A arquitetura da Décima Sinfonia é a descrição por meio de sons de uma era. Impossível ouvi-la e não sentir o medo cinzento, o ar de desconfiança, de hesitação que povoava a mente e a alma dos intelectuais soviéticos que buscaram, minimamente, uma vida de independência a serviço da arte.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - 

01. Symphony No. 10: I. Moderato
02. Symphony No. 10: II: Allegro
03. Symphony No. 10: III. Allegretto – Largo
04. Symphony No. 10: IV. Andante – Allegro

Philharmonia Orchestra
Santtu-matias Rouvali, regente 

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