A Sinfonia No. 10, de
Shostakovich, é um documento político e histórico de uma época. É a análise
psicológica de um pedaço do século XX. Sua estreia se deu, em 1953, meses após
a morte de Stálin naquele mesmo ano. É interessante observar que entre a
Sinfonia No. 9 e a Décima Sinfonia, houve o intervalo de quase uma década, algo
verdadeiramente incomum para um compositor que fez da escrita sinfônica o seu
campo de atuação, de expressão. Esse fato pode ser interpretado pelo
endurecimento a partir de 1948, sobretudo após o Zhdanov Decree, que acusou vários compositores de “formalismo” e os
colocou sob vigilância ideológica. O Regime exigia que os artistas produzissem
um material voltado para uma pedagogia que “educasse” o povo e, assim, criasse
um material com objetivos de propaganda política.
Mesmo após a morte de Stálin, havia
uma névoa de hesitação no ar. Mesmo assim, o compositor escreve um dos
trabalhos mais ousados da sua extraordinária trajetória. Para quem anda por
aqui, já deve ter percebido a minha admiração pelo compositor soviético.
O primeiro movimento é um dos
mais geniais. As cordas vagueiam pelas sombras, como se procurassem algo para
se sustentar. Há uma atmosfera de tensão subterrânea. Transmite-se uma ideia de
introspecção, como se a música procurasse uma planície para pousar. A condução
é tímida e pesada. Há perigo por todos os lados.
Aos poucos, a música vai se
insinuando. Há receios. Shosta desejou denunciar por meio desses lances como
foi a vida sob Stálin - vigilância constante, medo silencioso, explosões
ocasionais de desespero.
Os movimentos restantes
transmitem a ideia de fúria brutal e de reflexão ambígua. É a psicologia do
compositor funcionando com máximo primor. A arquitetura da Décima Sinfonia é a descrição
por meio de sons de uma era. Impossível ouvi-la e não sentir o medo cinzento, o
ar de desconfiança, de hesitação que povoava a mente e a alma dos intelectuais
soviéticos que buscaram, minimamente, uma vida de independência a serviço da
arte.
Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!
Dmitri Shostakovich (1906-1975) -
01. Symphony No. 10: I. Moderato
02. Symphony No. 10: II: Allegro
03. Symphony No. 10: III. Allegretto – Largo
04. Symphony No. 10: IV. Andante – Allegro
Philharmonia Orchestra
Santtu-matias Rouvali, regente
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