segunda-feira, 2 de março de 2026

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - Symphony No. 4 in C Minor, Op. 43


Cada trabalho sinfônico de Dmitri Shostakovich está permeado pela história. Isso se explica por dois motivos: (1) ele era um compositor genial, sarcástico, irônico, construtor de metáforas sonoras; (2) o período histórico em que viveu, repleto de tensões políticas. Certamente, se tivesse vivido em outro momento, sua obra não teria o mesmo sabor, a mesma força simbólica.

Um exemplo disso é a sua Quarta Sinfonia.  À época da escrita, na década de 30 do século passado, ou seja, há quase cem anos, Shostakovich era um jovem compositor em ascensão.  Sua obra ganhava cada vez mais visibilidade. Certamente, o Partido sob a liderança do camarada Stálin passou a colocar os olhos sobre o compositor. Para piorar as coisas, a ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk foi tirada de cartaz a mando do próprio Stálin. O líder supremo da União Soviético enxergou “libertinagens” excessivas no trabalho baseado em uma novela de Nikolai Leskov. Em artigo no Pravda, o jornal do Partido, o líder soviético fez críticas explícitas ao trabalho.

Shostakovich sabia que aquilo não era um bom sinal. A Sinfonia No. 4 estava pronta para ser estreada; o ensaio já havia acontecido. Todavia, consciente das dificuldades que poderiam advir da apresentação, por causa da atmosfera carregada, crítica e irônica do trabalho, o compositor resolveu tirá-la de cartaz, convicto de que haveria represálias mais graves. Resultado: a obra foi colocada no ostracismo e só veio ao mundo no início dos anos 60, mais de trinta após a sua composição.

A pergunta que fica é: o que havia de tão sério nela? A Quarta pode ser considerada como um dos trabalhos mais ousados e visionários do compositor. Não é uma música de conforto – aliás, a obra de Shostakovich pode ser colocada nessa categoria. Ela exige atenção, entrega. Sua força está justamente na recusa de soluções simples - no modo como transforma angústia histórica em arquitetura sonora. Ela possui uma linguagem densa, cáustica, ambígua, inquieta, repleta de nuances psicológicas.

O certo é que o compositor teria dificuldades, caso ela fosse apresentada ainda na década de 30. A coerção stalinista de que a arte deveria ser uma depositária da exaltação do realismo e de que deveria estar a serviço do Estado manietou diversos artistas. Shostakovich sentiu isso, mas soube como ninguém escrever obras evocavam nuvens sutis; metáforas que apontavam, denunciavam, o espírito de uma época.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Dmitri Shostakovich (1906-1975) - 

01 - Symphony No. 4 in C Minor, Op. 43_ I. Allegretto, poco moderato - Presto (Live)
02 - Symphony No. 4 in C Minor, Op. 43_ II. Moderato con moto (Live)
03 - Symphony No. 4 in C Minor, Op. 43_ III. Largo - Allegro (Live)

Münchner Philharmoniker
Valery Gergiev, regente 

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