A música de Johan Severin Svendsen (1840–1911) ocupa um lugar importante na construção de uma identidade musical norueguesa no século XIX. Contemporâneo de Edvard Grieg e profundamente ligado às tradições culturais de seu país, o compositor desenvolveu uma linguagem que combina o domínio das formas orquestrais europeias com elementos melódicos e rítmicos do folclore escandinavo. Essa combinação, longe de representar uma simples reprodução de melodias populares, revela um compositor capaz de transformar materiais tradicionais em obras de elaboração sinfônica consistente.
O encarte dedicado às obras orquestrais de Svendsen apresenta uma trajetória artística marcada por episódios de superação, reconhecimento e também por uma perda particularmente dolorosa. Um dos relatos mais impressionantes diz respeito à destruição de sua Terceira Sinfonia, concluída no inverno de 1882–1883. Segundo o testemunho de seu amigo John Paulsen, a esposa do compositor, Sarah, tomada por ciúmes após receber equivocadamente um buquê de flores acompanhado de uma declaração amorosa destinada a Svendsen, retirou da escrivaninha o manuscrito da sinfonia e o lançou ao fogo. A obra, na qual o compositor havia trabalhado durante longo período, desapareceu sem que pudesse ser recuperada. O episódio ajuda a compreender a dimensão pessoal da relação entre o artista e sua produção: a perda não representou apenas a destruição de uma partitura, mas o desaparecimento de um trabalho intelectual e criativo singular.
Nascido em 20 de setembro de 1840, em Oslo — então conhecida como Christiania —, Svendsen cresceu em condições econômicas modestas. Seu pai, Gulbrand, era músico e tocava violino, instrumento que despertou precocemente o interesse do filho. Aos seis anos, Johan Severin começou a receber aulas paternas e, posteriormente, também estudou clarinete. Ainda jovem, integrou conjuntos orquestrais, experiência que lhe proporcionou familiaridade com os instrumentos e com as possibilidades da escrita para grandes formações. As primeiras composições surgiram cedo: entre elas, marchas, danças e um ciclo de valsas intitulado Til Sæters, no qual já demonstrava interesse pelas melodias populares norueguesas.
A formação profissional levou Svendsen a viajar pela Europa. Em 1862, uma excursão pela Suécia, Dinamarca e norte da Alemanha abriu-lhe novas perspectivas, embora a tentativa de construir uma carreira internacional como violinista não tenha alcançado o resultado esperado. Em Lübeck, recebeu apoio do cônsul norueguês-sueco para estudar no Conservatório de Leipzig, onde teve contato com professores importantes, entre eles Carl Reinecke. Foi nesse ambiente que sua vocação composicional se consolidou. Apesar de uma dificuldade física no dedo mínimo da mão esquerda, que prejudicava sua atuação como violinista, Svendsen encontrou na composição o caminho para desenvolver plenamente suas capacidades artísticas.
Sua primeira sinfonia, em ré maior, Op. 4, concluída em 1867, já apresenta sinais de independência criativa. Embora organizada segundo convenções formais tradicionais, a obra demonstra uma preocupação particular com a sonoridade orquestral e com a integração de elementos nacionais. O terceiro movimento, Allegretto scherzando, merece atenção especial: nele, Svendsen introduz características da música popular de sua terra natal, fazendo do folclore uma parte orgânica da construção sinfônica. O procedimento seria retomado por outros compositores europeus, mas, no caso do norueguês, tornou-se um dos caminhos fundamentais para a afirmação de uma linguagem musical própria.
A aproximação entre música de concerto e tradição popular ganha ainda mais destaque nas quatro Rapsódias Norueguesas. Nelas, Svendsen utiliza melodias recolhidas principalmente da coletânea Melodias antigas e novas das montanhas norueguesas, organizada por Ludvig Mathias Lindeman. Das dezessete melodias identificadas nas quatro rapsódias, quinze provêm dessa publicação. O compositor, contudo, não se limita a transcrever o material recolhido: modifica ritmos, acrescenta elementos melódicos, altera acentuações e reorganiza os temas de acordo com suas necessidades expressivas. O resultado é uma síntese entre a música popular e os recursos da composição sinfônica europeia.
Entre as obras orquestrais destacadas no encarte estão também Zorahayda, Op. 11, e Carnaval dos Artistas do Norte, Op. 14, ambas de 1874. A primeira inspira-se em uma narrativa de Washington Irving sobre uma princesa mourisca que, após uma experiência amorosa e religiosa frustrada, permanece prisioneira na Alhambra. A música acompanha a dimensão dramática da história, explorando contrastes de caráter e momentos de intensidade emocional. Já Carnaval dos Artistas do Norte apresenta uma concepção mais festiva: concebida para um evento da associação de artistas noruegueses, a obra representa musicalmente o encontro entre o universo lendário do norte europeu e personagens associados ao carnaval do sul. Ritmos vigorosos, danças e transformações temáticas contribuem para o caráter teatral da composição.
Outro exemplo da capacidade narrativa de Svendsen é a fantasia Romeu e Julieta, Op. 18, concluída em 1876. A obra estabelece um diálogo com a tragédia de Shakespeare, embora o compositor desenvolva a narrativa por meio de contrastes musicais, sem depender exclusivamente de uma descrição literal dos acontecimentos. O encarte observa que a partitura apresenta uma abordagem distinta daquela encontrada na versão de Tchaikovsky: enquanto o compositor russo se identifica profundamente com o sofrimento de seus personagens, Svendsen adota uma perspectiva mais objetiva, construindo musicalmente os diferentes ambientes e conflitos da história.
A interpretação dessas obras está associada à Orquestra Sinfônica Nacional da Letônia (LNSO), conjunto fundado em 1926 como Orquestra Sinfônica da Rádio Letã. Ao longo de sua história, a formação trabalhou com importantes regentes e solistas internacionais e passou a utilizar seu nome atual em 1990, após a restauração da independência da Letônia. O maestro norueguês Terje Mikkelsen, nascido em 1957, manteve uma relação significativa com a orquestra: foi seu regente titular entre 1997 e 2001 e, posteriormente, seu principal regente convidado. Sua trajetória inclui colaborações com importantes orquestras europeias e asiáticas, além de um trabalho dedicado à divulgação da música de compositores noruegueses e letões.
O legado de Svendsen reside, sobretudo, em sua capacidade de conciliar tradição e invenção. Sua música não se limita a reproduzir o folclore norueguês como elemento decorativo: transforma-o em matéria de elaboração artística, integrando-o a estruturas sinfônicas de amplo alcance. Ao lado de Grieg, contribuiu decisivamente para que a produção musical da Noruega conquistasse reconhecimento internacional no século XIX. O encarte também evidencia uma personalidade artística disciplinada, cuja produção revela equilíbrio entre rigor formal, imaginação narrativa e sensibilidade para as tradições de seu país.
Observação sobre o material enviado: as imagens correspondem às páginas 6 a 35 do encarte e trazem um extenso ensaio biográfico e analítico sobre Svendsen, além de informações sobre a Orquestra Sinfônica Nacional da Letônia e o maestro Terje Mikkelsen. Como não foram enviadas as páginas iniciais com a relação das faixas, não é possível confirmar quais obras integram efetivamente a gravação. Por isso, o texto apresenta as composições discutidas no encarte, sem afirmar que todas estejam incluídas no álbum.
Johan Svendsen (1840-1911) -
DISCO 01
01 - Symphony No. 1 in D major, Op. 4 Molto Allegro
02 - Symphony No. 1 in D major, Op. 4 Andante
03 - Symphony No. 1 in D major, Op. 4 Allegretto scherzando
04 - Symphony No. 1 in D major, Op. 4 Finale. Maestoso - Allegro assai con fuoco
05 - Symphony No. 2 in B flat major, Op. 15 Allegro
06 - Symphony No. 2 in B flat major, Op. 15 Andante sostenuto
07 - Symphony No. 2 in B flat major, Op. 15 Intermezzo. Allegro giusto
08 - Symphony No. 2 in B flat major, Op. 15 Finale. Andante - Allegro con fuoco
DISCO 02
01 - Norwegian Artists' Carnival, for orchestra, Op. 14
02 - Romeo & Juliet, fantasy for orchestra, Op. 18
03 - Carnival in Paris, episode for orchestra, Op. 9
04 - Zorahayd's Legend, for orchestra, Op. 11
05 - Festival Polonaise, for orchestra, Op. 12
06 - Andante funèbre, for orchestra
DISCO 03
01 - Sigurd Slembe, Op.8
02 - Ifjol gjætt' e gjeitinn (Last year I was tending the goats), variations for o...
03 - Norwegian Rhapsodies (4) for orchestra-1, Op 17
04 - Norwegian Rhapsodies (4) for orchestra-1, Op 17
05 - Norwegian Rhapsodies (4) for orchestra-1, Op 17
06 - Norwegian Rhapsodies (4) for orchestra-1, Op 17
Latvian National Symphony Orchestra
Terje Mikkelsen, regente
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