Sergei Prokofiev, um dos
maiores compositores do século passado, escreveu apenas dois quartetos de
cordas. São obras pouco conhecidas. O próprio Prokofiev não é um compositor identificado
com essa forma. Geralmente, associamos o seu nome às sinfonias, aos concertos
para piano, às sonatas para piano ou aos poemas sinfônicos. Todavia, mesmo
tendo escrito apenas dois quartetos – separados por onze anos – há uma
linguagem e uma arquitetura inconfundíveis, ou seja, tipicamente
prokofievianas.
O Quarteto de Cordas N.º 1
em Si Menor, Op. 50, foi composto em 1930,
durante um período em que Prokofiev ainda vivia no Ocidente. A obra surgiu por
encomenda da Biblioteca do Congresso, em Washington, e foi estreada naquele
mesmo ano pelo Quarteto Brosa. Naquele momento, o compositor encontrava-se
dividido entre a carreira internacional e a crescente possibilidade de retornar
definitivamente à União Soviética, mudança que se concretizaria poucos anos
depois.
Desde os primeiros compassos,
o Primeiro Quarteto surpreende pela economia de meios. Ao contrário do
virtuosismo quase teatral presente em muitas obras do compositor, aqui tudo
parece submetido a um rigor arquitetônico impressionante. As melodias possuem
clareza quase clássica, enquanto as harmonias, discretamente modernas, evitam
qualquer excesso de experimentalismo.
O primeiro movimento alterna
tensão e serenidade com uma naturalidade admirável. O segundo, um delicado Andante
molto, talvez represente uma das páginas mais líricas escritas por
Prokofiev. Já o movimento final recupera a energia rítmica tão característica do
compositor, sem jamais abandonar a elegância formal que domina toda a obra.
Pouco mais de uma década
depois, o cenário era completamente diferente. A Europa encontrava-se devastada
pela Segunda Guerra Mundial, e Prokofiev vivia na União Soviética, submetido às
exigências do regime e às dificuldades impostas pelo conflito.
Foi nesse contexto que nasceu
o Quarteto
de Cordas n.º 2 em Fá Maior, Op. 92, composto em 1941.
Durante a evacuação de diversos artistas soviéticos para o Cáucaso, Prokofiev
estabeleceu-se temporariamente na cidade de Nalchik, onde teve contato direto
com a rica tradição musical do povo cabardino. As autoridades culturais
incentivaram os compositores a utilizar elementos do folclore local, mas, no
caso de Prokofiev, a iniciativa resultou em algo muito mais profundo do que
simples propaganda cultural.
As melodias populares
aparecem organicamente integradas à estrutura da obra. Em nenhum momento soam
como citações artificiais. Pelo contrário, tornam-se matéria-prima para um
discurso musical de enorme vitalidade.
O primeiro movimento
apresenta uma energia quase selvagem, impulsionada por ritmos assimétricos e
motivos que evocam danças tradicionais do Cáucaso. O segundo movimento mergulha
num lirismo contemplativo, enquanto o terceiro explode numa celebração rítmica
de extraordinária força. É impossível ouvir seu final sem imaginar músicos
populares transformando tradições ancestrais em linguagem de concerto.
O Segundo Quarteto talvez seja a obra camerística
mais calorosa de Prokofiev. Ao contrário da frieza frequentemente atribuída ao
compositor por alguns críticos, aqui encontramos uma escrita profundamente
humana, repleta de humor, nostalgia e vitalidade.
Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!
Serguei Prokofiev (1891-1953) -
01. Endres Quartet - String Quartet No. 1 in B Minor, Op. 50_ I. Allegro
02. Endres Quartet - String Quartet No. 1 in B Minor, Op. 50_ II. Andante molto - Vivace
03. Endres Quartet - String Quartet No. 1 in B Minor, Op. 50_ III. Andante
04. Endres Quartet - String Quartet No. 2 in F Major, Op. 92 _Kabardinian__ I. Allegro sostenuto
05. Endres Quartet - String Quartet No. 2 in F Major, Op. 92 _Kabardinian__ II. Adagio - Poco più animato
06. Endres Quartet - String Quartet No. 2 in F Major, Op. 92 _Kabardinian__ III. Allegro - Pochissimo meno
Endres Quartet
Você pode comprar este disco na Amazon
*Para acessar o link, por favor, clicar na imagem.
*Se possível, deixe um comentário. Sua participação é importante. Ela ajuda a manter o nosso blog!

Nenhum comentário:
Postar um comentário