quarta-feira, 22 de abril de 2026

Alfred Schnittke (1934-1998) - Psalms Repentance


Os Psalms Repentance foram compostos em 1988, ou seja, nos anos finais da União Soviética. Foram escritos pela ocasião dos mil anos de cristianismo na Rússia. Em 988, houve o batismo da antiga Rus de Kiev. O dado histórico é decisivo: durante décadas, a política soviética reprimiu instituições religiosas e restringiu manifestações litúrgicas públicas. Quando o compositor recebe a oportunidade de escrever uma grande obra espiritual, o gesto adquire peso simbólico. Não se tratava apenas de retomar uma tradição sagrada, mas de recolocar a espiritualidade no centro da vida cultural russa depois de um longo silêncio imposto.

Os textos utilizados por Schnittke baseiam-se em poemas penitenciais antigos, associados à tradição devocional eslava. A escolha da penitência é reveladora. Em vez de um repertório triunfal ou celebratório, o compositor prefere o arrependimento, a culpa, a fragilidade humana e o desejo de redenção. Num país marcado por perseguições, guerras, expurgos e trauma coletivo, o tema soa quase como comentário histórico indireto. A penitência, aqui, não é apenas individual: parece também nacional e civilizacional.

Do ponto de vista estético, a obra representa de maneira exemplar a linguagem tardia de Schnittke. Conhecido nas décadas anteriores por seu “poliestilismo” - técnica que justapunha referências barrocas, clássicas, modernas e populares - o compositor adota em Psalms of Repentance uma escrita mais austera. Em vez de colagens irônicas ou contrastes abruptos, ouvimos uma arquitetura sonora severa, dominada pelo coro à capela. A renúncia à orquestra amplia a sensação de nudez espiritual: resta apenas a voz humana, exposta, vulnerável.

A escrita coral é extraordinariamente sofisticada. Schnittke alterna blocos maciços de som com linhas quase sussurradas, explora registros extremos, tensões harmônicas densas e momentos de suspensão modal que evocam tanto o canto ortodoxo quanto a modernidade ocidental. Há passagens de violência sonora, nas quais o coro parece clamar em massa, e outras de recolhimento quase imóvel. O silêncio, os ataques bruscos e a ressonância das vozes tornam-se elementos dramáticos tão importantes quanto a melodia. É uma música que precisa ser absorvida com bastante atenção. Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Alfred Schnittke (1934-1998) - 

01 - I. Adam sat weeping at the gates of paradise
02 - II. O wilderness, gather me
03 - III. That is why I live in poverty
04 - IV. My soul, my soul
05 - V. O Man, doomed and wretched
06 - VI. When they beheld the ship that suddenly came
07 - VII. Oh my soul, why are you not afraid
08 - VIII. If you wish to overcome
09 - IX. I have reflected on my life as a monk
10 - X. Christian people, gather together!
11 - XI. I entered this life of tears a naked infant
12 - XII. (wordless)

Cappella Amsterdam
Daniel Reuss, regente 

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