O Prélude à l’après-midi d’un faune, concluído em 1894, foi a primeira grande obra orquestral de Debussy. Inspirado no poema homônimo de Stéphane Mallarmé, tornou-se posteriormente a base para o célebre balé de Vaslav Nijinsky, apresentado em Paris em 1912.
Musicalmente, a obra nasce quase do silêncio. O motivo inicial, confiado à flauta solo, parece emergir da ausência de som e permanece envolto em uma atmosfera de suspensão. O encarte chama atenção para a recorrência desse motivo e para o predomínio de uma dinâmica extremamente contida, frequentemente situada entre piano e pianissimo. O silêncio, portanto, não é simples ausência: transforma-se em elemento estrutural da música.
A dimensão sensual da obra tornou-se particularmente evidente na coreografia de Nijinsky. A estreia do balé, em 29 de maio de 1912, provocou controvérsia justamente pela maneira como o coreógrafo traduziu em movimentos a atmosfera erótica do poema de Mallarmé.
Le Martyre de Saint Sébastien, criado em 1911 a partir do mistério teatral de Gabriele D’Annunzio, apresenta uma concepção muito mais ampla de espetáculo. A obra combinava teatro, dança, canto e música, tendo Ida Rubinstein no papel de São Sebastião. O texto do encarte destaca a peculiar fusão realizada por D’Annunzio entre elementos do culto cristão a São Sebastião, a tradição grega ligada a Adônis e uma concepção estética na qual a beleza adquire dimensão quase religiosa.
Debussy trabalhou rapidamente na partitura, contando com a colaboração de André Caplet, responsável pela instrumentação e posteriormente pela preparação dos fragmentos sinfônicos para apresentação em concerto. O disco oferece justamente cinco desses fragmentos, totalizando 23min46s.
Se Debussy encontra no silêncio e na sugestão uma forma de expressão, Ravel frequentemente procura produzir o efeito oposto: uma aparência de simplicidade que encobre uma construção extremamente sofisticada. É essa característica que o compositor e contemporâneo Reynaldo Hahn reconhecia em Ma mère l’oye: a capacidade de criar, de maneira complexa, a impressão de uma simplicidade quase infantil.
A suíte nasceu originalmente para piano a quatro mãos, entre 1908 e 1910, e foi posteriormente orquestrada por Ravel. Inspirada nos contos de Charles Perrault, reúne cinco peças deliberadamente simples em sua superfície, mas cuidadosamente trabalhadas. A versão orquestral data de 1911 e recebeu posteriormente uma ampliação destinada ao balé.
Em La Valse, entretanto, Ravel abandona qualquer aparência de inocência. A obra, concebida entre 1919 e 1920, procura evocar a atmosfera da Viena do século XIX e de Johann Strauss. O compositor descreveu uma cena na qual nuvens giratórias revelam gradualmente casais dançando, até que a visão se transforma em um grande salão povoado por uma multidão de dançarinos.
Embora concebida inicialmente com possibilidades coreográficas, La Valse não foi incorporada ao repertório dos Ballets Russes de Sergei Diaghilev. O próprio Diaghilev teria reconhecido a qualidade da obra, mas recusado sua utilização como balé, observando que se tratava antes de uma espécie de “pintura de um balé”. A primeira apresentação como balé somente ocorreria em 1929, com coreografia de Bronislava Nijinska.
É justamente nessa obra que o encarte identifica uma diferença essencial entre Ravel e Debussy. Ravel frequentemente compõe “música sobre música”: parte de formas, estilos e materiais preexistentes para reconstruí-los sob uma nova perspectiva. Em La Valse, a lembrança da valsa vienense converte-se progressivamente em algo inquietante, como se a própria tradição estivesse sendo vista através de um espelho deformador.
O mérito maior deste programa está, portanto, em evitar uma leitura superficial de Debussy e Ravel como representantes de uma mesma escola. O encarte insiste na diferença fundamental entre ambos: Debussy busca a originalidade musical consciente de que ela é, em última instância, inalcançável; Ravel tende a refletir sobre a própria música, reelaborando materiais e contextos culturais já existentes.
No Prélude, Debussy aproxima-se do vazio por meio do silêncio; em La Valse, Ravel chega a ele pela saturação e pela dissolução da dança. Entre esses extremos estão a sensualidade de Saint Sébastien e a aparente ingenuidade de Ma mère l’oye. O resultado é um programa que apresenta quatro obras muito diferentes, mas unidas por uma mesma questão: como transformar movimento, corpo, memória e imaginação em matéria puramente sonora?
Uma boa apreciação!
01 - Prelude a l'apres-midi d'un faune
02 - Le Martyre de Saint Sebastien- 1.Le Cour de Lys. Prelude
03 - Le Martyre de Saint Sebastien- Dansse extatique et Final du 1er Acte
04 - Le Martyre de Saint Sebastien- La Passion
05 - Le Martyre de Saint Sebastien- 4. Le Bon Pasteur
06 - Ma Mere l'Oye- Pavane de la Belle au bois dormant
07 - Ma Mere l'Oye- Petit Poucet
08 - Ma Mere l'Oye- Laideronette, Imperatrice des Pagodes
09 - Ma Mere l'Oye- Les entretiens de la Belle et de la Bete
10 - Ma Mere l'Oye- Le jardin feerique
11 - La Valse
Orchester der Beethovenhalle Bonn
Marc Soustrot, regente
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