Kara Karayev, formado na tradição russa, discípulo de Dmitri Shostakovich e profundamente ligado à cultura do Azerbaijão, Karayev desenvolveu uma linguagem própria na qual convivem procedimentos composicionais modernos, referências à música folclórica de sua terra natal e uma expressividade fortemente marcada pelo teatro, pela literatura e pelo cinema. O álbum da Naxos reúne três obras representativas dessa trajetória: a Sinfonia nº 3 (1964), Leyla e Mejnun (1947) e Dom Quixote — Gravuras Sinfônicas (1960).
Nascido em Baku, Karayev iniciou sua formação musical na cidade em 1930 e, oito anos depois, ingressou no Conservatório de Moscou, onde estudou composição com Shostakovich. A influência do mestre foi importante sobretudo no tratamento da instrumentação e da linguagem harmônica, mas Karayev não se limitou a reproduzi-la. Sua personalidade artística foi construída a partir do diálogo entre referências muito diversas: admirava Bach, Beethoven, Tchaikovsky, Prokofiev e Shostakovich, ao mesmo tempo em que demonstrava interesse pela música albanesa, vietnamita, turca, búlgara, espanhola, africana e árabe. Para ele, Oriente e Ocidente coexistiam naturalmente em sua identidade artística.
Essa síntese encontra uma de suas manifestações mais ousadas na Sinfonia nº 3, composta em 1964 para orquestra de câmara. A obra foi uma das primeiras grandes composições soviéticas a empregar o serialismo, procedimento que Karayev combinou, de maneira deliberada, com elementos da tradição musical azerbaijana, particularmente a tradição ashug, e com a estrutura convencional de quatro movimentos. Seu propósito era encontrar novos princípios de forma e novos meios de expressão musical, além de aprofundar aquilo que chamava de “mundo interior” do ser humano contemporâneo.
O primeiro movimento, Allegro moderato, apresenta dois temas construídos sobre a mesma série de doze sons. Ritmos incisivos, caráter motor e harmonias ásperas aproximam a obra, em determinados momentos, do universo de Shostakovich e Prokofiev, embora a linguagem permaneça essencialmente karayeviana. O segundo movimento, Allegro vivace, é um Scherzo de grande energia rítmica, com ritmos de dança e um trio de caráter próximo da valsa. A referência à tradição ashug é especialmente importante: Karayev procurava demonstrar que uma técnica composicional rigorosamente dodecafônica poderia conviver com uma expressão autenticamente nacional. O Andante funciona como centro lírico e meditativo, enquanto o movimento final retoma a energia rítmica inicial, introduz uma fuga e termina com uma inesperada coda lenta, de caráter reflexivo.
Em Leyla e Mejnun, de 1947, Karayev volta-se para uma das histórias de amor mais conhecidas da tradição oriental. O poema do grande poeta azerbaijano Nizami, do século XII, retoma a antiga lenda dos amantes Qays e Leyla: separados pelo casamento de Leyla com outro homem, Qays enlouquece e passa a ser chamado Mejnun — “louco” ou “possuído”. Isolado no deserto, transforma seu sofrimento em poesia; como ocorre em Tristão e Isolda e Romeu e Julieta, os amantes encontram a união apenas na morte.
A obra, entretanto, não pretende simplesmente narrar musicalmente a história. O próprio Karayev afirmou que não desejava seguir o caminho da ilustração musical, mas expressar o tema universal do amor heroico capaz de superar todos os obstáculos, inclusive a morte. A estrutura organiza-se em torno de três ideias fundamentais: o destino que impede a união dos amantes; a luta contra esse destino; e o amor. Ao final, o tema amoroso retorna transformado pela tristeza, antes que a percussão e os registros graves das cordas produzam a impressão de que o destino desfere seu golpe definitivo.
Já Dom Quixote — Gravuras Sinfônicas, de 1960, nasce de outro universo artístico: o cinema. Karayev utilizou material musical escrito para o filme homônimo dirigido por Grigori Kozintsev e organizou-o em oito quadros. Embora o título, os episódios e a origem cinematográfica façam da obra uma composição programática, o compositor novamente evita a simples reprodução dos acontecimentos. O interesse está menos nas aventuras exteriores do cavaleiro de Cervantes do que em seu mundo interior.
Os oito episódios — Travels, Sancho, the Governor, Travels, Aldonse, Travels, Pavan, Cavalcade e Don Quixote’s Death — constroem um retrato musical progressivo do personagem. Os três episódios de viagem funcionam como uma espécie de fio condutor, enquanto Sancho traz uma atmosfera festiva; Aldonse apresenta lirismo e delicadeza; Pavan antecipa, sem caráter fúnebre, o fim do protagonista; e Cavalcade explora uma escrita orquestral vigorosa, marcada por harmonias ásperas de caráter próximo ao de Prokofiev. Na conclusão, o tema lírico de Aldonse retorna: a luz se extingue, mas permanecem as lembranças e a imagem simpática do herói.
A gravação apresentada pela Naxos foi realizada em Moscou, entre 2 e 6 de março de 2008, no Studio 5 da Companhia Estatal Russa de Rádio e Televisão Kultura, com a Russian Philharmonic Orchestra, dirigida por Dmitry Yablonsky. O álbum tem duração total de 58min10s e reúne a Sinfonia nº 3, Leyla e Mejnun e Dom Quixote. Segundo o próprio encarte, trata-se da primeira edição em CD dessas obras.
O resultado é um retrato particularmente expressivo de um compositor que fez da conciliação entre mundos aparentemente distantes o centro de sua estética. Em Karayev, o serialismo não elimina a tradição nacional; a herança de Shostakovich não apaga sua individualidade; e a literatura e o cinema não conduzem necessariamente à música descritiva. Sua modernidade nasce justamente da capacidade de transformar diferentes tradições em uma linguagem pessoal, na qual a identidade cultural do Azerbaijão permanece presente mesmo quando o compositor emprega algumas das técnicas mais avançadas de seu tempo.
Uma boa apreciação!
Kara Karayev (1918-1982) -
01 - Karayev - Symphony No.3 (1964) - I - Allegro moderato
02 - Karayev - Symphony No.3 (1964) - II - Allegro vivace
03 - Karayev - Symphony No.3 (1964) - III - Andante
04 - Karayev - Symphony No.3 (1964) - IV - Allegro
05 - Karayev - Leyla and Mejnun (1947)
06 - Karayev - Don Quixote (1960) - I - Travels
07 - Karayev - Don Quixote (1960) - II - Sancho, the Governor
08 - Karayev - Don Quixote (1960) - III - Travels
09 - Karayev - Don Quixote (1960) - IV - Aldonse
10 - Karayev - Don Quixote (1960) - V - Travels
11 - Karayev - Don Quixote (1960) - VI - Pavan
12 - Karayev - Don Quixote (1960) - VII - Cavalcade
13 - Karayev - Don Quixote (1960) - VIII - Don Quixote's Death
Russian Philharmonic Orchestra
Dmitry Yablonsky, regente
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