sábado, 29 de agosto de 2026

Franz Schubert (1797-1828) - Fierrabras

Franz Schubert iniciou a composição de pelo menos 16 óperas, mas concluiu apenas metade delas. Dessas, somente uma chegou a ser apresentada durante sua vida — e tudo indica que o próprio compositor sequer chegou a assistir à montagem. É uma história extraordinária e, ao mesmo tempo, melancólica. Schubert insistiu durante anos em conquistar reconhecimento no teatro musical, gênero no qual acreditava estar o verdadeiro caminho para a fama de um compositor.

As tentativas posteriores de recuperar suas óperas foram numerosas, mas quase sempre esbarraram em uma constatação incômoda: os maiores dons musicais não são suficientes para produzir uma grande ópera quando falta um genuíno instinto dramático. Schubert jamais teve a oportunidade de descobrir, diante de um palco, o que funcionava ou não em suas criações teatrais. E mesmo seus admiradores mais fervorosos precisam reconhecer que algumas características de sua linguagem — entre elas a extraordinária capacidade de sustentar uma figura musical simples por longos períodos, recurso central tanto em suas canções quanto em seus movimentos sinfônicos — podem acabar dominando o drama, em vez de serem conduzidas por ele.

Fierrabras, sua última ópera concluída, não está inteiramente livre desse problema. Ainda assim, a magnificência de sua música estimulou sucessivas tentativas de ressurreição. Composta em 1823, a obra só chegou ao palco em 1897, e mesmo assim em uma versão bastante mutilada. O interesse aumentou durante a década de 1970, levando à estreia americana em 1980 e à estreia britânica em Oxford, em 1986 — uma escolha curiosamente apropriada para aquilo que parecia ser uma causa praticamente perdida.

Então surgiu Claudio Abbado. Suas apresentações de Fierrabras em Viena, em maio de 1988, revelaram a verdadeira força da obra. Uma transmissão pela BBC ampliou seu alcance e, posteriormente, essas apresentações ao vivo deram origem ao registro em questão. A qualidade técnica da gravação está longe do ideal, com alguns problemas de equilíbrio nos conjuntos e certos ruídos pouco agradáveis. São, porém, limitações secundárias diante da importância do documento artístico.

A trama de Fierrabras é complexa demais para uma síntese completa, mas gira em torno dos amores e lealdades entre cinco personagens envolvidos nas guerras de Carlos Magno contra os mouros. A obra apresenta algumas dificuldades dramáticas, em parte porque Schubert também estava sujeito às convenções da moda cavalheiresca de seu tempo, assim como Carl Maria von Weber em Euryanthe. A estreia vienense malsucedida da ópera de Weber, ocorrida justamente quando Schubert acabava de concluir sua própria obra, provavelmente contribuiu para impedir que Fierrabras chegasse ao palco naquele momento.

Apesar da opinião pouco favorável que Schubert tinha de Euryanthe, os dois compositores encontram soluções semelhantes em determinados momentos. A aproximação talvez seja ainda mais natural porque Fierrabras revela clara admiração por Der Freischütz, de Weber. A obra conserva a estrutura do Singspiel, incluindo o emprego do melodrama, e apresenta uma linguagem melódica que parece reconhecer tanto a influência de Weber quanto o prestígio vienense de Cherubini.

Ainda assim, o estilo permanece inequivocamente schubertiano. As árias, inclusive aquelas de caráter mais próximo da canção, possuem características diferentes das encontradas em seus Lieder, mesmo quando estes assumem formas próximas de uma scena. Os coros, por sua vez, revelam a experiência que Schubert adquiriu ainda jovem no canto coletivo. Entre eles está o belo “O teures Vaterland”, apresentado a cappella, que ganha nesta interpretação tratamento particularmente refinado.

É justamente nas cenas corais em que os grupos se dividem em forças antagônicas que Abbado demonstra uma de suas maiores virtudes. No segundo ato, sobretudo, o maestro transforma esses confrontos em alguns dos momentos mais eletrizantes da ópera, explorando com precisão o contraste dramático entre as diferentes formações.

A escrita orquestral também se mostra extraordinariamente eficaz. Schubert utiliza suas qualidades de compositor sinfônico para construir tensão dramática, mas também produz momentos de grande delicadeza e personalidade. Um exemplo particularmente belo aparece no dueto “Der Abend sinkt”, do primeiro ato. A serenata de Eginhard, em Lá menor e acompanhada pelo clarinete, expressa sua tristeza; a resposta de Emma conduz a música consoladoramente para o modo maior, transferindo o acompanhamento para a flauta. É um pequeno exemplo da capacidade de Schubert de transformar recursos puramente musicais em expressão dramática.

O elenco vocal é sólido e bem integrado. Robert Gambill canta com força, embora pudesse imprimir maior ternura ao personagem. Karita Mattila oferece uma Emma particularmente comovente, enquanto Josef Protschka interpreta com competência o próprio Fierrabras, o jovem herói mouro. O rei mouro e seu principal adversário cristão — personagens infelizmente chamados Boland e Roland — recebem de László Polgár e Thomas Hampson interpretações vigorosas e sustentadas.

A filha de Boland, Florinda, e sua companheira Maragond protagonizam um dos números mais belos da partitura, o dueto “Weit über Glanz”, do segundo ato, realizado com charme por Cheryl Studer e Brigitte Balleys. Robert Holl, por sua vez, assume o papel de Carlos Magno com a autoridade necessária.

Não se trata, portanto, de um elenco formado exclusivamente por estrelas. Sua maior qualidade está na unidade do conjunto, reforçada pela direção firme de Abbado e, sobretudo, pela convicção com que o maestro defende a obra. Sua crença em Fierrabras torna-se perceptível em praticamente todos os momentos da execução.

Também merece elogios o livreto que acompanha a gravação. Elizabeth Norman McKay oferece uma excelente introdução destinada ao leitor de língua inglesa, enquanto aqueles que dominam o alemão encontrarão informações ainda mais abrangentes no estudo de Sigrid Neef, longo, minucioso e perspicaz, dedicado à gênese e à natureza da obra.

No conjunto, esta gravação faz plena justiça à última ópera concluída por Schubert. Com todas as suas fragilidades dramáticas, Fierrabras representa provavelmente o ponto mais próximo a que o compositor chegou de realizar uma verdadeira obra-prima para o palco. Graças à visão de Abbado, à coesão do elenco e à extraordinária riqueza musical da partitura, a obra deixa de parecer uma simples curiosidade histórica e revela, finalmente, boa parte do potencial teatral que Schubert jamais teve a oportunidade de testemunhar em vida.

Uma boa apreciação! 

Franz Schubert (1797-1828) - 

DISCO 01


01 Ouverture
02 ERSTER AKT- Nr.1 Introduktion
03 Nr.2 Duett
04 Nr.3 Marsch und Chor
05 Nr.4 Ensemble- a) Rezitativ und Chor
06 b) Arioso und Chor
07 c) Rezitativ und Erzählung
08 d) Ensemble und Chor
09 e) Quartett mit Chor
10 f) Marsch und Chor
11 Nr.5 Duett
12 Nr.6 Finale I- a) Romanze (Duett)
13 b) Rezitativ und Arie
14 c) Ensemble
15 d) Szene und Terzett
16 e) Rezitativ
17 f) Rezitativ, terzett und Ensemble- Rezitativ und Terzett
18 f) Rezitativ, terzett und Ensemble- Ensemble
19 g) Quartett mit Chor

DISCO 02

01 ZWEITER AKT- Nr.7 Lied mit Chor
02 Nr.8a) Rezitativ, Marsch (Mit Melodram) und Ensemble
03 b) Duett mit Chor
04 Nr.9 Duett
05 Nr.10 Quintett
06 Nr.11 Chor
07 Nr.12 Terzett mit Chor
08 Nr.12 Terzett mit Chor
09 Nr.13 Arie
10 Nr.14 Chor a cappella
11 Nr.15 Melodram- a) Melodram, Rezitativ und Ensemble
12 b) Duett mit Chor
13 Nr.16 Chor und Melodram
14 Nr.17 Finale II- a) Terzett und Chor
15 b) Melodram
16 DRITTER AKT- Nr.18 Chor
17 Nr.19 Quartett und Szene
18 Nr.19 Quartett und Szene
19 Nr.20 Terzett
20 Nr.21a) Arie mit Chor
21 b) Marcia funebre (mit Melodram) und Ensemble
22 Nr.22 Chor und Ensemble- Chor
23 Nr.22 Chor und Ensemble- Ensemble
24 Nr.23 Finale- a) Rezitativ
25 b) Ensemble - c) Rezitativ und Schlußgesang- Rezitativ
26 c) Rezitativ und Schlußgesang- Schlußgesang

Arnold Schoenberg Chor
The Chamber Orchestra of Europe

Claudio Abbado, regente 

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