O Concerto nº 1 em dó maior provavelmente foi composto entre 1761 e 1768, certamente antes de 1780. A principal evidência de sua autoria está no próprio catálogo manuscrito de Haydn, o chamado Entwurf-Katalog, no qual aparece registrado como concerto para violoncelo, juntamente com o início do tema. A obra também consta do catálogo organizado por seu copista e colaborador Johann Elbler.
Apesar dessas indicações, o concerto foi considerado perdido durante longo período. A situação mudou radicalmente em 1961, quando o arquivista Oldřich Pulkert encontrou, na coleção Radenín do Museu Nacional de Praga, uma cópia que até então era tida como a única fonte conhecida da obra. Mais importante ainda: a cópia trazia a assinatura do violoncelista de Haydn Joseph Weigl, o Velho, o que lhe conferia extraordinária credibilidade.
A descoberta não apenas resolveu o problema da autenticidade como também permitiu estabelecer uma provável datação. Weigl esteve a serviço do príncipe Esterházy entre 1761 e 1768; assim, tudo indica que o concerto foi escrito nesse período. A obra permaneceu adormecida até 19 de maio de 1962, quando foi apresentada novamente no Festival da Primavera de Praga pelo violoncelista Miloš Sádlo, acompanhado pela Orquestra Sinfônica da Rádio de Praga sob a direção de Sir Charles Mackerras.
A redescoberta teve importância considerável para o repertório do violoncelo, que não dispunha de uma literatura concertante tão ampla quanto a de outros instrumentos. O concerto passou gradualmente a ser reconhecido como uma contribuição significativa para o gênero e como mais uma evidência da riqueza da produção instrumental de Haydn.
O caso do Concerto nº 2 em ré maior, Hob. VIIb:2, é ainda mais curioso. A obra data de 1783, mas durante muito tempo foi considerada uma composição do violoncelista Anton Kraft, membro da orquestra de Esterházy entre 1778 e 1790. Essa atribuição equivocada foi alimentada, desde 1837, por comentários reproduzidos em diferentes fontes e pelo fato de o concerto não aparecer no catálogo de obras autógrafas de Haydn.
A descoberta e a análise das fontes modificaram definitivamente essa situação. Embora o concerto não esteja registrado no inventário manuscrito do próprio Haydn, ele aparece no catálogo elaborado por Johann Elßler. Além disso, o manuscrito autógrafo encontra-se na Biblioteca Nacional Austríaca, em Viena, enquanto numerosas cópias sobreviveram em diferentes centros europeus. A primeira edição foi publicada em Paris, em 1803, pela editora Vernay.
O episódio revela como a história da música pode depender de uma investigação quase detectivesca. A ausência de uma obra em um catálogo, quando confrontada com outras fontes documentais, não é suficiente para determinar sua autoria. No caso do Segundo Concerto, a descoberta do autógrafo em Viena, em 1954, encerrou definitivamente a discussão. O próprio manuscrito, que havia permanecido ignorado durante mais de quatro décadas, forneceu a prova decisiva.
Mais do que uma curiosidade musicológica, a recuperação dessas obras modificou a percepção sobre a produção concertante de Haydn. Os dois concertos pertencem a momentos distintos de sua carreira: o primeiro remete aos anos iniciais de seu longo vínculo com a família Esterházy; o segundo, de 1783, pertence a uma fase mais madura. Entre eles, pode-se perceber a evolução de uma escrita instrumental cada vez mais desenvolvida e idiomaticamente ajustada ao violoncelo.
O encarte chama atenção também para a dimensão humana da música de Haydn. Ao comentar o Segundo Concerto, recupera uma antiga apreciação segundo a qual a obra transmite “inocência, graça, serenidade, humor, bom gosto, inteligência, coração e vivacidade”. A observação ajuda a compreender por que essas partituras sobreviveram não apenas como objetos de interesse musicológico, mas como obras capazes de conquistar o público.
A história dos dois concertos é, portanto, também a história de uma redescoberta. O Primeiro precisou ser localizado em uma coleção de arquivos para voltar às salas de concerto; o Segundo teve sua autoria restaurada depois de décadas de atribuição equivocada. Em ambos os casos, a pesquisa documental demonstrou que a tradição musical não é algo estático: manuscritos esquecidos, cópias antigas e catálogos podem modificar profundamente aquilo que se acreditava conhecer.
Hoje, os dois concertos ocupam lugar importante no repertório de violoncelo de Haydn. Sua trajetória — marcada por desaparecimentos, falsas atribuições, descobertas e autenticações — acrescenta à experiência musical uma dimensão fascinante: antes de serem novamente ouvidas, essas obras precisaram primeiro ser encontradas.
Uma boa apreciação!
Joseph Haydn (1732-1809) -
01. Cello Concerto in C major, Hob. VIIb:1: I. Moderato [0:11:21.47]
02. Cello Concerto in C major, Hob. VIIb:1: II. Adagio [0:08:36.28]
03. Cello Concerto in C major, Hob. VIIb:1: III. Allegro molto [0:07:04.72]
04. Cello Concerto in D major, Hob. VIIb:2: I. Allegro moderato [0:15:16.60]
05. Cello Concerto in D major, Hob. VIIb:2: II. Adagio [0:05:47.18]
06. Cello Concerto in D major, Hob. VIIb:2: III. Allegro [0:05:51.37]
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