As composições de Arvo Pärt, amplamente executadas em instrumentos modernos, são reconhecidas por sua simplicidade meditativa, pelo uso econômico dos materiais e por uma profunda dimensão espiritual. Neste novo projeto, porém, o Concerto Copenhagen parte de uma premissa pouco habitual: a de que os timbres, a afinação e a ressonância natural dos instrumentos barrocos possuem uma afinidade quase instintiva com a linguagem musical do compositor estoniano.
A proposta modifica sensivelmente a experiência sonora de suas obras. A utilização de cordas de tripa, arcos barrocos, afinação mais baixa e a ausência natural de vibrato produz uma sonoridade mais orgânica e despojada. Nas palavras de Nikolaj de Fine Licht, diretor-geral do Concerto Copenhagen, o resultado aproxima-se da própria voz humana, como se instrumentos e cantores compartilhassem uma mesma respiração.
É justamente nessa convergência entre silêncio, repetição e pureza sonora que a gravação encontra seu principal interesse. Elementos fundamentais da estética de Pärt estabelecem um diálogo inesperado com os princípios do movimento de interpretação historicamente informada, tradição à qual o Concerto Copenhagen está profundamente ligado.
O centro do álbum é uma nova versão de Stabat Mater, apresentada em afinação barroca e submetida a uma concepção orquestral renovada. A intenção foi explorar a obra não como uma partitura rigidamente estabelecida, mas como um espaço capaz de comportar diferentes configurações sonoras e expressivas.
Segundo Tõnu Kaljuste, diretor artístico e regente principal do conjunto, a proposta consistiu em combinar momentos executados por solistas com outros confiados ao coro e à orquestra completos. A experiência de interpretar Pärt com uma orquestra barroca é assumida como um verdadeiro experimento, mas justamente dessa experiência nasce uma sonoridade que procura ser simultaneamente nova e profundamente enraizada na própria música.
O resultado coloca em perspectiva uma questão fascinante: até que ponto uma obra contemporânea pode revelar aspectos inesperados quando submetida a instrumentos, técnicas e princípios interpretativos associados a uma tradição musical de séculos anteriores? No caso de Pärt, a resposta parece particularmente promissora.
Ao aproximar dois universos aparentemente distantes — a espiritualidade minimalista do compositor estoniano e a sonoridade da música antiga —, o Concerto Copenhagen propõe uma escuta renovada. O silêncio ganha maior presença, a repetição adquire uma dimensão quase ritualística e os timbres naturais dos instrumentos contribuem para uma experiência de grande intimidade.
Assim, esta nova leitura de Stabat Mater não pretende simplesmente transportar Pärt para o universo barroco. Seu objetivo é investigar uma possível afinidade estética entre duas linguagens separadas pelo tempo, mas unidas pela busca de essencialidade, equilíbrio e profundidade espiritual. O resultado é uma experiência sonora que convida o ouvinte a escutar a música de Pärt sob uma luz inteiramente nova.
Uma boa apreciação!
Arvo Pärt (1937 - ) -
01. Pärt: Stabat Mater (Version for Mixed Choir and String Orchestra)
02. Pärt: Festina Lente (Version for String Orchestra)
03. Pärt: Trisagion (Version for String Orchestra)
04. Pärt: Silouan's Song (Version for String Orchestra)
05. Pärt: Berliner Messe (Version for Mixed Choir and String Orchestra): Kyrie
06. Pärt: Berliner Messe (Version for Mixed Choir and String Orchestra): Gloria
07. Pärt: Berliner Messe (Version for Mixed Choir and String Orchestra): Erster und Zweiter Alleluiavers zum Weihnachtsfest
08. Pärt: Berliner Messe (Version for Mixed Choir and String Orchestra): Veni Sancte Spiritus
09. Pärt: Berliner Messe (Version for Mixed Choir and String Orchestra): Credo
10. Pärt: Berliner Messe (Version for Mixed Choir and String Orchestra): Sanctus
11. Pärt: Berliner Messe (Version for Mixed Choir and String Orchestra): Agnus Dei
Estonian Philharmonic Chamber Choir
Concerto Copenhagen
Tönu Kaljuste, regente
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