"Lançado em 2004, este álbum oferece um instigante panorama de interpretações modernas do Stabat Mater Dolorosa, a célebre sequência litúrgica medieval que, ao longo dos séculos, inspirou alguns dos mais profundos testemunhos musicais da tradição cristã. A gravação integra um ambicioso projeto do maestro Marcello Viotti dedicado à redescoberta de obras sacras do século XX que, embora pouco frequentes nas salas de concerto, ocupam lugar de destaque pela qualidade artística e pela força espiritual.
Realizado em parceria com a Orquestra da Rádio de Munique e o Coro da Rádio da Baviera, no âmbito da série de concertos Paradisi gloria, o álbum reúne quatro abordagens profundamente distintas do mesmo texto litúrgico, assinadas por Francis Poulenc, Karol Szymanowski, Krzysztof Penderecki e Wolfgang Rihm. Mais do que composições destinadas ao uso litúrgico, essas obras podem ser entendidas como manifestações pessoais de fé, nas quais cada compositor projeta sua própria visão da dor, da esperança e da transcendência.
A versão de Francis Poulenc apresenta-se como uma cantata sinfônica de atmosfera austera e profundamente contemplativa. Sua linguagem aproxima-se da densidade dramática de Dialogues des Carmélites, revelando um compositor que alia espiritualidade intensa a uma escrita de notável sobriedade.
Em sentido oposto, Karol Szymanowski oferece uma leitura exuberante do texto, traduzido para o polonês sob o título Stała Matka. Sua escrita, impregnada de lirismo pós-romântico, combina riqueza harmônica e intensa carga emocional, transformando o sofrimento da Virgem em uma experiência sonora de extraordinária intensidade.
A contribuição de Krzysztof Penderecki é mais concisa, mas não menos impactante. Extraído de sua monumental Paixão segundo São Lucas, o trecho preserva a linguagem de vanguarda que tornou essa obra um marco da música sacra do século XX. As texturas corais a cappella, de rigor quase ascético, e a expressividade contida conferem à peça uma força espiritual singular.
Já Wolfgang Rihm apresenta a interpretação mais sintética e concentrada do conjunto. Seu Stabat Mater, retirado da obra Deus Passus, revela uma escrita cromática densa e altamente condensada que, embora pareça à primeira vista a mais distante da tradição, estabelece um diálogo evidente com o universo das Paixões de Johann Sebastian Bach. É uma leitura moderna, mas profundamente enraizada na herança espiritual da música sacra ocidental.
A qualidade da reprodução sonora é satisfatória, preservando a atmosfera das apresentações ao vivo que deram origem à gravação. Ainda assim, a captação poderia oferecer maior nitidez e presença acústica em determinados momentos. Trata-se, contudo, de uma limitação que pouco compromete o valor artístico de um álbum raro e revelador, capaz de demonstrar como um mesmo texto medieval continua a inspirar, séculos depois, algumas das mais profundas reflexões musicais sobre o sofrimento, a fé e a condição humana".
Francis Poulenc (1899-1963) -
Stabat Mater
01. I. Stabat mater dolorosa. Tres calme (3:48)
02. II. Cujus aninmam gementem. Allegro molto, tres violent (1:05)
03. III. O quam tristis. Tres lent (2:39)
04. IV. Quae moerebat. Andantino (1:28)
05. V. Quis est homo. Allegro molto (1:28)
06. VI. Vidit suum. Andante (3:13)
07. VII. Eja mater. Allegro (1:08)
08. VIII. Fac, ut ardeat. Maestoso (2:22)
09. IX. Santa mater. Moderato (3:24)
10. X. Fac, ut portem. Tempo de Sarabande (3:23)
11. XI. Inflammatus et accensus. Anime et tres rythme (1:52)
12. XII. Quando corpus. Tres calme (4:22)
Karol Szymanowski (1882-1937) -
Stabat Mater, Op. 53
13. I. Stabat mater dolorosa. Andante, mesto (6:32)
14. II. Quis es homo. Moderato (2:38)
15. III. O eia mater. Lento, dolcissimo (3:57)
16. IV. Fac me tecum pie fiere. Moderato (2:53)
17. V. Virgo virginum praeclara. Allegro moderato (3:18)
18. VI. Christe, cum sit hinc exire. Andante tranquillissimo (4:19)
Krzysztof Penderecki (b.1933-2020) -
19. Stabat Mater (Lukas-Passion) (7:36)
Wolfgang Rihm (b.1952-2002)
20. Rihm - Stabat Mater (Deus Passus) (4:35)
Chor des Bayerisvchen Rundfunks
Munchner Rundfunkorchester
Marcello Viotti, regente
Krzysztof Penderecki, regente
Helmuth Rilling, regente
Georgina von Benza, soprano
Violeta Urmana, mezzo-soprano
Iris Vermillion, mezzo-soprano
Birgit Remmert, alto
Fabio Previati, barítono
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