Embora o nome de Grieg seja imediatamente associado ao célebre “Concerto para Piano em Lá menor”, às suítes de Peer Gynt ou à Suíte Holberg, sua produção vai muito além dessas páginas consagradas. O álbum da Chandos interpretado pela Orquestra Sinfônica da Islândia sob a direção de Petri Sakari propõe justamente esse olhar ampliado sobre o compositor norueguês, reunindo obras que revelam diferentes momentos de sua trajetória criativa e sua estreita ligação com a música popular escandinava. O programa é complementado por duas delicadas Melodias Islandesas, de Johan Svendsen, figura fundamental da música norueguesa do século XIX.
O século XIX assistiu ao despertar das identidades nacionais em toda a Europa, mas a Escandinávia demorou mais do que outras regiões a produzir compositores capazes de conquistar projeção internacional. Muitos músicos formavam-se na tradição alemã, especialmente no Conservatório de Leipzig, e traziam consigo uma linguagem profundamente influenciada por Mendelssohn e Schumann. Grieg também estudou em Leipzig, mas sua personalidade artística encontrou um caminho próprio quando entrou em contato com o folclore norueguês por intermédio do compositor Richard Nordraak, fervoroso defensor da cultura nacional. A partir desse momento, a música popular da Noruega deixaria de ser apenas uma referência para tornar-se o alicerce de sua produção madura.
Essa transformação aparece de forma cristalina nas Danças Norueguesas, Op. 35, compostas originalmente para piano a quatro mãos em 1881 e posteriormente orquestradas por Hans Sitt. As quatro danças utilizam melodias recolhidas por Ludvig Mathias Lindeman, responsável por uma das mais importantes coletâneas de música folclórica norueguesa. Grieg não se limita, porém, a harmonizar melodias tradicionais. Ele lhes confere sofisticação harmônica, alternando passagens dançantes com episódios líricos de grande delicadeza. A primeira dança incorpora a célebre Marcha de Sinclair; a segunda apresenta uma das melodias mais conhecidas do compositor; a terceira trabalha habilmente o contraste entre versões em modos maior e menor do mesmo material temático; e a quarta encerra o ciclo com vigor sinfônico e impressionante senso arquitetônico. Trata-se de uma obra injustamente menos conhecida que suas páginas mais populares, mas que sintetiza de maneira exemplar a fusão entre tradição popular e refinamento romântico.
Muito diferente é a atmosfera da Abertura "No Outono", Op. 11, composta em 1866, quando Grieg tinha apenas vinte e três anos. Baseada na canção Tempestades de Outono, ela pertence ao período em que o compositor ainda buscava consolidar sua linguagem. Ao contrário das Danças Norueguesas, a obra possui caráter decididamente romântico, com forte influência da tradição germânica e relativamente pouca presença do nacionalismo que marcaria suas composições posteriores. O próprio Grieg reconheceu as limitações de sua orquestração inicial e revisou profundamente a partitura duas décadas depois. A versão definitiva, apresentada pela primeira vez em Birmingham, em 1888, revela um compositor muito mais seguro no tratamento da massa orquestral, capaz de equilibrar energia dramática e elegância formal.
A maturidade artística de Grieg manifesta-se plenamente no seu Op. 51. Escrita inicialmente para dois pianos em 1891 e orquestrada em 1900, a obra nasceu de outra incursão do compositor pela coletânea de Lindeman, desta vez inspirada na melodia Sigurd e a Noiva Troll. O tema simples serve de ponto de partida para uma série de variações que exploram diferentes cores orquestrais, transformando um canto popular em uma ampla construção sinfônica. O resultado evidencia a extraordinária habilidade de Grieg em desenvolver material aparentemente modesto sem jamais perder sua espontaneidade melódica.
O programa também presta homenagem a Johan Svendsen, contemporâneo e grande amigo de Grieg. Embora hoje seja muito menos lembrado, Svendsen exerceu papel decisivo no desenvolvimento da vida musical da Noruega. Ao contrário de Grieg, cuja genialidade floresceu sobretudo nas formas breves, Svendsen inclinava-se para estruturas sinfônicas mais amplas e demonstrava domínio excepcional da orquestração. Ambos defenderam mutuamente suas obras e trabalharam juntos para elevar o nível da música de concerto em seu país.
As Duas Melodias Islandesas, compostas em 1877, ilustram perfeitamente essa estética. Escritas para orquestra de cordas, baseiam-se em melodias tradicionais apresentadas quase integralmente em uníssono, recebendo apenas discretas variações. A economia dos meios expressivos impressiona: Svendsen demonstra que riqueza musical nem sempre depende de complexidade. Divisões refinadas entre os naipes das cordas e sutis cromatismos conferem profundidade emocional a um material melódico de extrema simplicidade. É uma obra que traduz, com rara elegância, a paisagem austera e contemplativa do universo nórdico.
Mais do que um simples recital de peças pouco conhecidas, este álbum oferece um panorama da evolução artística de Grieg. Nele convivem o jovem compositor ainda influenciado pelo romantismo alemão, o nacionalista que descobre a força da tradição popular e o mestre maduro das pequenas formas poéticas. A presença de Svendsen amplia essa perspectiva ao recordar que a chamada "escola nacional norueguesa" foi construída por uma geração inteira de músicos empenhados em dar voz própria à cultura escandinava.
Num repertório frequentemente dominado pelas obras mais famosas de Grieg, este disco representa um convite para descobrir um compositor de horizontes muito mais amplos. Suas páginas revelam que a verdadeira grandeza de Grieg talvez não esteja apenas nas obras que o tornaram célebre, mas na capacidade de transformar melodias populares, paisagens e tradições locais em música de alcance universal. É precisamente essa universalidade, construída a partir do profundamente regional, que continua fazendo de Grieg uma das vozes mais originais do romantismo europeu.
Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!
01 - Four Norwegian Dances, Op. 35_ I. Allegro marcato - Animato
02 - Four Norwegian Dances, Op. 35_ II. Allegretto tranquillo e grazioso - Allegro
03 - Four Norwegian Dances, Op. 35_ III. Allegro moderato alla Marcia - Tranquillo
04 - Four Norwegian Dances, Op. 35_ IV. Allegro molto
05 - In Autumn, Op. 11
06 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Romanze. Poco tranquillo
07 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation I. Poco Allegro, ma tranquillo
08 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation II. Energico
09 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation III. Allegro leggiero
10 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation IV. Poco andante
11 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation V. Maestoso
12 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation VI. Allegro scherzando e leggiero
13 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation VII. Andante
14 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation VIII. Andante molto tranquillo
15 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation IX. Presto
16 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation X. Tempo di Menuetto
17 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation XI. Allegro marcato
18 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation XII. Tempo di Valse
19 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Variation XIII. Adagio molto espressivo
20 - Old Norwegian Romance with Variations, Op. 51_ Finale. Allegro molto marcato
21 - Lyric Pieces, Op. 43_ V. Erotik
22 - Two Icelandic Melodies, Op. 30_ I. Maestoso
23 - Two Icelandic Melodies, Op. 30_ II. Moderato
Iceland Symphony Orquestra
Petri Sakari, regente
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