sexta-feira, 31 de julho de 2026

Demidenko plays Bach-Busoni

Há quem veja a transcrição musical como um exercício de adaptação, quase uma concessão prática. Ferruccio Busoni pensava exatamente o contrário. Para ele, toda execução já era, em alguma medida, uma transcrição: a passagem da ideia musical para o som. Sob essa perspectiva, recriar Johann Sebastian Bach para o piano não significava diminuir o original, mas revelar novas possibilidades expressivas de uma música capaz de sobreviver a qualquer meio. O álbum Bach-Busoni Transcriptions, interpretado pelo pianista russo Nikolai Demidenko, reúne algumas das mais célebres recriações do compositor italiano e oferece uma oportunidade privilegiada para compreender uma das mais fascinantes relações de continuidade da história da música.

Busoni foi uma das personalidades mais extraordinárias da vida musical europeia. Pianista de técnica monumental, compositor, regente, pensador e professor, enxergava a tradição não como um museu, mas como matéria viva. Admirador profundo de Bach, Beethoven e Liszt, defendia que as grandes obras permanecem essencialmente as mesmas, qualquer que seja o instrumento que lhes dê voz. Em um célebre texto de 1910, afirma que uma transcrição não destrói o original; ao contrário, revela sua essência sob outra linguagem. Essa ideia orienta todo o repertório reunido neste disco.

As obras escolhidas mostram diferentes facetas dessa concepção artística. A monumental Tocata e Fuga em Ré menor, BWV 565, originalmente escrita para órgão, transforma-se em um espetáculo pianístico de enorme impacto sonoro, sem perder a arquitetura contrapontística de Bach. A célebre Tocata, Adagio e Fuga em Dó maior, a fantasia coral Ich ruf' zu dir, Herr Jesu Christ e os demais prelúdios corais revelam outra dimensão de Busoni: a capacidade de preservar a espiritualidade da música sacra enquanto explora toda a riqueza tímbrica do piano moderno.

Talvez a obra mais comovente da coletânea seja o Capriccio sobre a partida do irmão muito amado, uma das primeiras composições de Bach. Busoni amplia suas possibilidades expressivas sem trair o caráter profundamente humano da peça. Cada episódio - o lamento, a despedida, a marcha e a fuga final - ganha nova densidade pianística, demonstrando que a transcrição pode ser também um exercício de interpretação histórica e afetiva.

O libreto insiste em um aspecto importante: Busoni jamais buscou imitar o órgão ou reproduzir mecanicamente a escrita bachiana. Seu objetivo era recriar a música segundo os recursos específicos do piano, aproveitando toda a extensão do teclado, as possibilidades de dinâmica, de pedalização e de coloração sonora disponíveis no instrumento moderno. Assim, suas transcrições não pretendem substituir Bach, mas estabelecer um diálogo entre dois criadores separados por quase dois séculos, unidos pela mesma ambição artística.

Essa postura diferencia Busoni de muitos transcritores românticos. Enquanto outros procuravam apenas tornar obras célebres acessíveis ao público dos salões, ele utilizava a transcrição como um laboratório de composição e interpretação. Cada página evidencia não apenas sua devoção ao mestre barroco, mas também sua própria personalidade criativa. O resultado pertence simultaneamente aos dois compositores: reconhecemos imediatamente Bach, mas também ouvimos a voz inconfundível de Busoni.

Nikolai Demidenko mostra-se o intérprete ideal para esse repertório. Pianista de extraordinária solidez técnica e refinamento intelectual, evita transformar essas obras em simples demonstrações de virtuosismo. Seu toque privilegia a clareza das vozes, a arquitetura do contraponto e a construção das grandes linhas musicais, permitindo que o ouvinte perceba tanto a grandeza de Bach quanto a inteligência criativa de Busoni.

Mais do que um recital de transcrições, este álbum convida à reflexão sobre a própria natureza da criação artística. Ele demonstra que a tradição não se preserva pela repetição literal, mas pela capacidade de dialogar com cada nova época. Nas mãos de Busoni, Bach não é um monumento intocável: continua vivo, respirando através do piano moderno, provando que as grandes obras jamais pertencem exclusivamente ao passado.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

01 Toccata And Fugue In D Minor, BWV 565 - I.
02 Toccata And Fugue In D Minor, BWV 565 - II.
03 Chorale Prelude In F Minor 'Ich Ruf' zu Dir, Herr Jesu Christ' BWV 639
04 Capriccio In B-Flat Major _On The Departure Of A Beloved Brother_ BWV 992-Ario
05 Capriccio In B-Flat Major _On The Departure Of A Beloved Brother_ BWV 992-Fuga
06 Capriccio In B-Flat Major _On The Departure Of A Beloved Brother_ BWV 992-Adag
07 Capriccio In B-Flat Major _On The Departure Of A Beloved Brother_ BWV 992-Mars
08 Capriccio In B-Flat Major _On The Departure Of A Beloved Brother_ BWV 992-Aria
09 Capriccio In B-Flat Major _On The Departure Of A Beloved Brother_ BWV 992-Fuga
10 Chorale Prelude In G Minor _Nun Komm Der Heiden Heiland,_ BWV 659
11 Organ Prelude And Fugue In E-Flat Major, BWV 552 ('St. Anne') - I.
12 Organ Prelude And Fugue In E-Flat Major, BWV 552 ('St. Anne') - II.
13 Chorale Prelude In G Major _Nun Freut Euch, Lieben Christen Gmein,_ BWV 734
14 Toccata, Adagio And Fugue In C Major, BWV 564 - I - Prelude
15 Toccata, Adagio And Fugue In C Major, BWV 564 - II - Intermezzo
16 Toccata, Adagio And Fugue In C Major, BWV 564 - III - Fugue

Nikolai Demidenko, piano 

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