terça-feira, 21 de julho de 2026

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - Goldberg Variations (Version for 2 Pianos by Rheinberger/Reger)


"Desde sua primeira edição autorizada, publicada entre 1741 e 1742, as Variações Goldberg ocupam um lugar central no repertório para teclado e figuram entre as obras mais emblemáticas da história da música ocidental. Com o advento da indústria fonográfica, a partitura de Johann Sebastian Bach tornou-se um verdadeiro rito de passagem para grandes pianistas, que nela encontraram um espaço privilegiado para afirmar suas identidades artísticas. Interpretações históricas de nomes como Glenn Gould, Evgeny Koroliov, Maria Tipo e Rosalyn Tureck ajudaram a consolidar a obra como um dos maiores desafios da literatura pianística.

A influência das Variações Goldberg estendeu-se também ao campo dos arranjos. Ao longo das décadas, a obra recebeu versões para violão, órgão, trio de cordas e até uma monumental adaptação pianística de Ferruccio Busoni, testemunhando sua inesgotável capacidade de inspirar novas leituras sem perder sua identidade.

Menos conhecida, porém igualmente fascinante, é a transcrição realizada por Josef Rheinberger e posteriormente revisada por Max Reger. Durante muito tempo esquecida, essa versão ressurge agora graças a uma nova gravação lançada pela Sony Classical, em parceria com a Bayer Kultur e o festival Max-Reger-Tage. O projeto ganha vida nas mãos da consagrada dupla de pianistas Yaara Tal e Andreas Groethuysen, responsáveis por devolver ao repertório uma das mais curiosas releituras da obra-prima bachiana.

Profundo admirador de Bach, Rheinberger concebeu, no início da década de 1880, uma versão para dois pianos guiada por três objetivos principais. O primeiro consistia em ampliar a dimensão sonora da obra, explorando possibilidades quase orquestrais proporcionadas pelos dois instrumentos. O segundo buscava preservar integralmente a clareza da extraordinária arquitetura contrapontística de Bach. Por fim, como compositor plenamente inserido no universo romântico, Rheinberger procurou enriquecer a partitura com novos recursos expressivos, aproximando-a da linguagem pianística de seu tempo. O resultado foi amplamente elogiado por sua inventividade e pelo elevado grau de virtuosismo.

Entre 1909 e 1915, Max Reger assumiu a defesa dessa versão em diversos recitais e promoveu uma nova revisão da partitura. Sua intervenção acrescentou uma dimensão interpretativa ainda mais sofisticada, marcada por detalhadas indicações de dinâmica, refinamento na construção das frases e uma exploração das possibilidades tímbricas herdadas de sua vasta experiência como compositor para órgão. Reger procurou realçar a eloquência e o dinamismo próprios da música barroca sem renunciar à intensidade emocional característica do romantismo tardio.

É justamente essa dupla herança que Yaara Tal e Andreas Groethuysen exploram com notável sensibilidade. A interpretação combina absoluto rigor contrapontístico, cuidadosa valorização das linhas do baixo e refinada construção das unidades motívicas, preservando a transparência polifônica da escrita de Bach enquanto evidencia a riqueza expressiva acrescentada por Rheinberger e Reger.

Um dos aspectos mais marcantes da gravação é o uso extremamente criterioso dos contrastes. Na 17ª variação, por exemplo, a dupla alterna delicadíssimos pianissimi com passagens de brilho quase etéreo, criando uma atmosfera de rara elegância. Também chama atenção a liberdade com que administra os andamentos: as variações mais contemplativas — como a Ária e as de números 13 e 25 — são conduzidas em tempos amplos, permitindo que a música respire e revele toda a profundidade de sua arquitetura. Em contrapartida, variações de caráter mais virtuoso, como as de números 5, 14, 19 e 20, irradiam energia, leveza e um irresistível senso de vitalidade.

Outro mérito da interpretação reside na atenção dedicada às repetições, frequentemente tratadas apenas como convenção formal. Aqui, cada retorno é cuidadosamente diferenciado, ampliando a expressividade do discurso musical e recuperando uma prática interpretativa profundamente ligada à tradição barroca.

Com pouco mais de 76 minutos de duração, esta gravação vai muito além da simples recuperação de uma curiosidade histórica. Ela oferece uma perspectiva inédita sobre uma das obras mais celebradas do repertório pianístico, estabelecendo um diálogo entre Bach, Rheinberger, Reger e os intérpretes contemporâneos. O resultado é uma leitura de extraordinária elegância e imaginação, capaz de lançar nova luz sobre um monumento da música ocidental e de reafirmar a inesgotável vitalidade das Variações Goldberg".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - 

01. Aria: Andante Espressivo
02. Variation I: Più Animato
03. Variation II: Allegretto
04. Variation III: Canone All' Unisono. Andantino
05. Variation IV: Energico
06. Variation V: Con Fuoco
07. Variation VI: Canone Alla Seconda. Allegro
08. Variation VII: Allegretto Scherzando
09. Variation VIII: Allegro
10. Variation IX: Canone Alla Terza. Moderato
11. Variation X: Fughetta, Alla Breve
12. Variation XI: Allegro
13. Variation XII: Canone Alla Quarta. Andanta
14. Variation XIII: Adagio
15. Variation XIV: Con Fuoco
16. Variation XV: Canone Alla Quinta. Adagio
17. Variation XVI: Overture. Maestoso-Allegretto
18. Variation XVII: Poco Allegro
19. Variation XVIII: Canone Alla Sexta. Alla Breve
20. Variation XIX: Allegretto
21. Variation XX: Allegro Marcato
22. Variation XXI: Canone Alla Settima
23. Variation XXII: Alla Breve
24. Variation XXIII: Allegro
25. Variation XXIV: Canone All' Ottava. Andantino
26. Variation XXV: Adagio Espressivo
27. Variation XXVI: Allegro Deciso
28. Variation XXVII: Canone Alla Nona. Allegro
29. Variation XXVIII: Allegretto
30. Variation XXIX: Allegro
31. Variation XXX: Quodlibet
32. Aria. Andante Espressivo

Yaara Tal, piano
Andreas Groethuysen, piano
 

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