sábado, 5 de setembro de 2026

Edvard Grieg (1843-1907) - Three Concerti for Violin and Chamber Orchestra

Uma das curiosidades mais conhecidas da obra de Edvard Grieg (1843–1907) é justamente aquilo que ela não contém: o compositor norueguês jamais escreveu um concerto para violino. A ausência é particularmente intrigante porque Grieg demonstrou, desde cedo, extraordinária capacidade para escrever para o instrumento. Suas três sonatas para violino e piano, embora estejam entre suas obras prediletas, permanecem relativamente menos conhecidas do público do que o Concerto para piano ou as páginas inspiradas em Peer Gynt.

Foi para preencher essa lacuna que o violinista norueguês Henning Kraggerud, em colaboração com Bernt Simen Lund, integrante da Tromsø Chamber Orchestra, transformou as três sonatas em três concertos para violino e orquestra de câmara. Não se trata, evidentemente, de obras novas de Grieg, mas de uma cuidadosa transposição do universo camerístico original para uma formação instrumental ampliada. O resultado preserva a parte solista das sonatas e acrescenta às cordas um pequeno grupo de sopros — flauta, oboé, clarinete e fagote — justamente para manter a atmosfera de música de câmara.

A ideia nasceu de uma inquietação antiga de Kraggerud. Como violinista norueguês, ele frequentemente era solicitado a indicar concertos nacionais para seu instrumento, mas a ausência de uma obra de Grieg acabava por se fazer sentir. O próprio músico lembra que chegou a tocar mais de cem vezes o Concerto para violino de Sibelius como alternativa nórdica. Além disso, como professor do Barratt Due Institute of Music, desejava ampliar o repertório norueguês disponível para as novas gerações de violinistas.

A escolha das sonatas não foi arbitrária. Grieg já havia demonstrado nelas que sabia explorar de maneira particularmente expressiva as possibilidades do violino. A Sonata nº 1 em fá maior, op. 8, foi composta em 1865, durante o período em que o compositor vivia na Dinamarca. A obra revela influência de Schumann, mas seu segundo movimento já apresenta uma forte personalidade norueguesa — característica que chegou a ser considerada excessiva por Niels W. Gade. Dois anos depois, a Sonata nº 2 em sol maior, op. 13 aprofundaria ainda mais essa identidade nacional.

A Terceira Sonata, em dó menor, op. 45, surgiu cerca de vinte anos depois. Escrita após a conclusão da casa de Grieg em Troldhaugen, perto de Bergen, ela apresenta uma linguagem mais apaixonada e impetuosa e se distancia, em certa medida, do caráter explicitamente norueguês da segunda. O encarte relaciona sua inspiração também ao encontro de Grieg com a jovem violinista italiana Teresina Tua, presença que o compositor associou poeticamente à criação da nova obra.

A transposição para orquestra não é, portanto, uma simples operação de distribuição das notas. Kraggerud chama atenção para um problema essencial: o piano possui recursos de sustentação e de acumulação sonora que não podem ser reproduzidos mecanicamente por uma orquestra de cordas. O pedal, inclusive aquele que não está explicitamente indicado na partitura, faz com que determinadas notas aparentemente breves permaneçam soando por vários compassos. Arpejos e acordes podem produzir no piano uma densidade que exige soluções específicas quando transferidos para o conjunto orquestral.

Foi justamente nesse ponto que a colaboração entre Kraggerud e Lund se mostrou decisiva. A distribuição das melodias entre os instrumentos exigiu escolhas criativas: em determinados trechos, uma linha poderia permanecer nas cordas; em outros, um sopro ofereceria uma cor mais adequada. Kraggerud cita especialmente o início do movimento lento da Terceira Sonata, que, em sua concepção, “pedia” a presença de uma flauta. Depois da estreia dos arranjos, em novembro de 2012, os autores ainda realizaram modificações antes das sessões de gravação.

O álbum apresenta os resultados dessa experiência em três faixas de grande porte. O Concerto nº 1 em fá maior, op. 8, baseado na primeira sonata, dura pouco mais de 22 minutos; o Concerto nº 2 em sol maior, op. 13, cerca de 21 minutos; e o Concerto nº 3 em dó menor, op. 45, pouco mais de 23 minutos. As três versões são apresentadas como gravações mundiais de estreia, totalizando 66 minutos e 40 segundos de música.

A interpretação está a cargo de Kraggerud e da Tromsø Chamber Orchestra, conjunto profissional de câmara que ocupa lugar de destaque na vida musical do norte da Noruega. A orquestra, conhecida por programas que transitam entre música clássica, contemporânea, jazz e música folclórica, tornou-se a única orquestra profissional de câmara em tempo integral do país. Desde o outono de 2012, Kraggerud exerce sua liderança artística.

O violinista, por sua vez, é apresentado não apenas como virtuose, mas como um músico interessado em ampliar as fronteiras do repertório. Sua atividade inclui a atuação como violinista, violista, compositor, diretor e professor, além de projetos que aproximam a música clássica de outros universos musicais. No registro, toca um Guarneri del Gesù de 1744, instrumento disponibilizado pela Dextra Musica.

Há, assim, uma curiosa inversão histórica neste projeto. Grieg não escreveu o concerto para violino que Kraggerud, quando jovem, sentia falta no repertório de seu país. Mais de um século depois, um violinista norueguês encontrou nas próprias sonatas do compositor a matéria-prima para construí-lo. O resultado não pretende substituir as versões originais para violino e piano, mas revelar outra perspectiva sobre obras que permaneciam relativamente à margem da fama de seu autor.

Uma boa apreciação! 

Edvard Grieg (1843-1907) - 

01. Violin Sonata No. 1 in F Major, Op. 8 (arr. H. Kraggerud and B.S. Lund for violin and orchestra)_ I. Allegro con brio
02. Violin Sonata No. 1 in F Major, Op. 8 (arr. H. Kraggerud and B.S. Lund for violin and orchestra)_ II. Allegretto quasi andantino
03. Violin Sonata No. 1 in F Major, Op. 8 (arr. H. Kraggerud and B.S. Lund for violin and orchestra)_ III. Allegro molto vivace
04. Violin Sonata No. 2 in G Major, Op. 13 (arr. H. Kraggerud and B.S. Lund for violin and orchestra)_ I. Lento doloroso - Allegro vivace
05. Violin Sonata No. 2 in G Major, Op. 13 (arr. H. Kraggerud and B.S. Lund for violin and orchestra)_ II. Allegretto tranquillo
06. Violin Sonata No. 2 in G Major, Op. 13 (arr. H. Kraggerud and B.S. Lund for violin and orchestra)_ III. Allegro animato
07. Violin Sonata No. 3 in C Minor, Op. 45 (arr. H. Kraggerud and B.S. Lund for violin and orchestra)_ I. Allegro molto ed appassionato
08. Violin Sonata No. 3 in C Minor, Op. 45 (arr. H. Kraggerud and B.S. Lund for violin and orchestra)_ II. Allegretto espressivo alla romanza
09. Violin Sonata No. 3 in C Minor, Op. 45 (arr. H. Kraggerud and B.S. Lund for violin and orchestra)_ III. Allegro animato

Tromso Chamber Orchestra
Henning Kraggerud, violino 

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