quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Zoltán Kodály (1882-1967) - Concerto for Orchestra, K. 115 e Béla Bartók (1881-1945) - Concerto for Orchestra, Sz. 116, BB 123

O Concerto para Orquestra de Kodály, composto entre 1939 e 1940, abre o programa. Com duração de pouco mais de 16 minutos, é uma obra em movimento único, organizada internamente em diferentes segmentos. A denominação “concerto para orquestra” não deve ser entendida aqui no sentido convencional de uma obra para solista e acompanhamento. O interesse está justamente em transformar os diversos grupos instrumentais da orquestra em protagonistas sucessivos, explorando suas cores, capacidades técnicas e possibilidades de diálogo. O encarte relaciona essa concepção à tradição do concerto grosso barroco, na qual um grupo de solistas é colocado em relação com o tutti.

Kodály, entretanto, não se limita a reproduzir um modelo histórico. Sua escrita combina diferentes correntes estilísticas e incorpora de maneira decisiva o universo da música folclórica húngara. O resultado é uma espécie de síntese em que convivem referências a Brahms, Liszt, Strauss, Debussy e Stravinsky, além da experiência de Kodály como pesquisador da música popular. O encarte recorda que ele e Bartók realizaram extensas pesquisas de campo e desempenharam papel fundamental na documentação e compreensão das tradições musicais húngaras. A obra de Kodály nasce, assim, do encontro entre uma linguagem orquestral sofisticada e uma concepção profundamente ligada à identidade musical de seu país.

O Concerto para Orquestra de Bartók, composto em 1943, apresenta uma situação histórica muito mais dramática. O compositor havia emigrado para os Estados Unidos em 1940 e enfrentava sérias dificuldades financeiras e de saúde. A obra surgiu por encomenda da Fundação Koussevitzky, em um momento particularmente delicado de sua existência. O encarte ressalta o contraste entre essas circunstâncias e a extraordinária energia criativa da partitura: o Concerto foi escrito em um período muito curto e representa uma síntese extremamente equilibrada de diferentes aspectos de sua linguagem.

A estrutura de Bartók é rigorosamente construída em cinco movimentos. A Introduzione começa de maneira lenta e misteriosa antes de conduzir a uma escrita de grande virtuosismo orquestral. O segundo movimento, Presentando le coppie, organiza-se a partir da apresentação sucessiva de pares de instrumentos — fagotes, oboés, clarinetes, flautas e trompetes — criando uma sucessão de diálogos que explica o caráter peculiar do movimento. A técnica não é mero efeito de colorido: cada combinação instrumental assume função estrutural na construção musical.

No centro da obra encontra-se a Elegia, de caráter sombrio e introspectivo. O encarte a descreve como uma passagem que conduz gradualmente da severidade inicial a uma afirmação de vida no movimento final. A atmosfera está ligada às circunstâncias pessoais de Bartók e ao contexto histórico que cercava sua existência. Ainda assim, a música não se reduz a uma manifestação autobiográfica: o compositor mobiliza uma enorme variedade de procedimentos da música do século XX, fundindo lirismo, experimentação harmônica, contraponto e recursos de escrita orquestral.

O quarto movimento, Intermezzo interrotto, é talvez o episódio mais explicitamente contrastante da partitura. A música alterna lirismo, ironia e elementos de caráter popular, enquanto a escrita orquestral explora continuamente o diálogo entre grupos e instrumentos. O finale conduz essa diversidade a uma conclusão exuberante: Bartók desenvolve uma elaborada fuga sobre um motivo húngaro, fazendo a orquestra atingir uma espécie de apoteose contrapontística. A presença de procedimentos associados a Bach, combinados a ritmos e materiais húngaros, sintetiza bem a originalidade do compositor.

A aproximação entre Bartók e Kodály é, portanto, particularmente fértil porque evidencia tanto suas afinidades quanto suas diferenças. Ambos partiram da cultura musical húngara e da pesquisa do folclore, mas transformaram esse material segundo concepções próprias. Kodály tende a construir uma síntese de caráter mais diretamente associado à tradição e à ideia de uma linguagem nacional; Bartók leva a experiência folclórica para um território mais radical, integrando-a a procedimentos harmônicos, rítmicos e contrapontísticos característicos da modernidade. O próprio Hrůša prefere enxergar essa relação para além das classificações nacionais, destacando justamente a riqueza das conexões culturais da Europa Central.

O resultado do álbum é um verdadeiro retrato da orquestra como organismo múltiplo. Em Kodály, os instrumentos parecem vestir uma roupagem barroca renovada por melodias e ritmos húngaros; em Bartók, a orquestra transforma-se em laboratório de timbres, contrapontos, danças, lamentos e explosões de energia. A interpretação do Rundfunk-Sinfonieorchester Berlin, conduzido por Hrůša, coloca em primeiro plano justamente essa extraordinária variedade de vozes. Com duração total de 55 minutos e 30 segundos, o registro propõe não apenas a reunião de dois compositores, mas o encontro de duas maneiras de compreender o próprio conceito de concerto para orquestra.

Mais do que simples demonstrações de virtuosismo coletivo, as duas obras revelam como a orquestra poderia assumir, no século XX, uma nova condição expressiva. Kodály e Bartók fazem do conjunto orquestral um espaço de individualidades, no qual cada instrumento ou grupo pode adquirir momentaneamente o protagonismo. É justamente nessa tensão entre o individual e o coletivo, entre tradição e invenção, que reside a força deste programa.

Uma boa apreciação! 

01. Jakub Hruša - Concerto for Orchestra, K. 115_ Allegro risoluto - Largo - Tempo primo - Largo - Tempo primo
02. Jakub Hruša - Concerto for Orchestra, Sz. 116, BB 123_ I. Introduzione - Andante non troppo
03. Jakub Hruša - Concerto for Orchestra, Sz. 116, BB 123_ II. Presentando le coppie - Allegro scherzando
04. Jakub Hruša - Concerto for Orchestra, Sz. 116, BB 123_ III. Elegia - Andate, non troppo
05. Jakub Hruša - Concerto for Orchestra, Sz. 116, BB 123_ IV. Intermezzo interrotto - Allegretto
06. Jakub Hruša - Concerto for Orchestra, Sz. 116, BB 123_ V. Finale - Pesante

Rundfunk-Sinfoniorchester Berlin

Jakub Hrusa, regente 

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