sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Jazz - Wes Montgomery (1923-1968) - Full House

Gravado ao vivo em junho de 1962, em uma pequena casa de jazz na Califórnia, o álbum Full House registra Wes Montgomery em um de seus momentos mais expressivos. Ao lado de Johnny Griffin (sax-tenor), Wynton Kelly (piano), Paul Chambers (contrabaixo) e Jimmy Cobb (bateria), o guitarrista encontra um ambiente especialmente favorável à improvisação e à interação entre os músicos.

A ideia de registrar Montgomery ao vivo surgiu em um momento em que o guitarrista já despertava grande expectativa no meio jazzístico. Depois de seus trabalhos anteriores com o conjunto Riverside, havia interesse em documentar a energia de suas apresentações diante de uma plateia. O produtor Orrin Keepnews explica que a gravação ao vivo permitia captar aquilo que dificilmente poderia ser reproduzido em estúdio: a capacidade de Montgomery construir um solo de maneira progressiva, desenvolvendo suas ideias ao longo de vários chorus e explorando amplamente a dinâmica e o registro do instrumento.

A sessão ocorreu em uma segunda-feira, quando os músicos escolhidos estavam disponíveis. Montgomery já conhecia Wynton Kelly, Paul Chambers e Jimmy Cobb, integrantes do célebre grupo associado a Miles Davis, enquanto Johnny Griffin mantinha uma relação de respeito mútuo com o guitarrista. A formação reunia, portanto, músicos de trajetórias distintas, mas particularmente preparados para uma situação em que a improvisação e a escuta recíproca seriam fundamentais.

O repertório combina composições de Montgomery com standards e clássicos do jazz. “Full House”, que dá título ao álbum, abre a apresentação e estabelece imediatamente o caráter do registro: uma música construída sobre a interação entre os cinco instrumentistas. Seguem-se “I've Grown Accustomed to Her Face”, de Frederick Loewe e Alan Jay Lerner, e “Blue ’N’ Boogie”, de Dizzy Gillespie e Frank Paparelli. No segundo lado aparecem “Cariba”, de Montgomery, “Come Rain or Come Shine”, de Harold Arlen e Johnny Mercer, e “S.O.S.”, também assinada pelo guitarrista.

Um dos aspectos destacados nas notas originais é justamente a maneira como Montgomery desenvolve seus solos. Em vez de simplesmente prolongar uma ideia até esgotá-la, o guitarrista constrói os improvisos progressivamente, utilizando diferentes registros, mudanças de dinâmica e combinações de acordes que conferem movimento ao discurso. O resultado é uma música que mantém a tensão sem perder a espontaneidade característica de uma apresentação ao vivo.

A presença de Johnny Griffin acrescenta outra dimensão ao conjunto. Seu sax-tenor estabelece um diálogo direto com a guitarra de Montgomery, enquanto Kelly, Chambers e Cobb formam uma seção rítmica capaz de sustentar e, ao mesmo tempo, estimular as iniciativas dos solistas. O encarte chama atenção para a energia particular do quinteto e para a maneira como os músicos parecem encontrar, durante a sessão, novas possibilidades de interação.

A gravação aconteceu no Tsubo, em Berkeley, diante de uma plateia numerosa. O espaço era pequeno e, segundo o produtor, o público se espalhava inclusive pela área externa, acompanhando a apresentação por meio dos alto-falantes. A atmosfera contribuiu para que o registro preservasse algo essencial da experiência de um concerto de jazz: a comunicação imediata entre músicos e ouvintes.

O álbum também documenta um momento importante da carreira de Montgomery. A sessão ocorreu quando sua reputação estava em plena ascensão, e o registro procurou justamente apresentar o guitarrista em condições que favorecessem sua principal característica: a capacidade de transformar a improvisação em uma narrativa musical contínua, sustentada pela inventividade e pela interação com os companheiros.

Mais do que simplesmente reproduzir um concerto, Full House funciona como um retrato de Wes Montgomery em seu ambiente natural. A combinação entre um quinteto de primeira linha, um repertório cuidadosamente escolhido e a energia de uma apresentação diante do público faz do álbum um documento particularmente representativo da linguagem do guitarrista. Como observa Orrin Keepnews nas notas originais, a força do registro está em permitir que a própria música fale — e, nesse caso, ela fala por meio de solos extensos, diálogo instrumental e uma notável sensação de liberdade.

Uma boa apreciação! 

01. Full House
02. I've Grown Accustomed to Her Face
03. Blue 'n' Boogie
04. Cariba
05. Come Rain or Come Shine (take 2)
06. Come Rain or Come Shine (take 1)
07. S.O.S. (take 3)
08. S.O.S. (take 2)
09. Born to Be Blue

Wes Montgomery, guitar
Johnny Griffin, tenor saxophone
Wynton Kelly, piano
Paul Chambers, bass
Jimmy Cobb, drums 

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