O programa deste disco reúne as três sonatas de Bach para esses instrumentos - em Sol maior, BWV 1027; em Ré maior, BWV 1028; e em Sol menor, BWV 1029 -, além da transcrição para viola da gamba da Sonata para violino BWV 1023 e da Toccata para cravo em Dó menor, BWV 911.
A escolha do repertório permite observar diferentes faces da escrita instrumental de Bach. As sonatas BWV 1027 e 1028 seguem o modelo da sonata da chiesa, em quatro movimentos, alternando seções lentas e rápidas. Na primeira, viola e cravo estabelecem um verdadeiro jogo imitativo, que culmina em uma fuga; na segunda, o Andante em Si menor assume uma atmosfera particularmente introspectiva, antes que o Allegro devolva à música sua energia e seu movimento.
A BWV 1029 apresenta uma personalidade diferente. Estruturada em três movimentos, aproxima-se da chamada Sonata auf Concertenart, de caráter concertante. Seu Vivace inicial traz uma linguagem de inspiração vivaldiana; o Adagio central oferece à viola amplas linhas melódicas, ornamentadas à maneira italiana, sobre um acompanhamento que evoca a sarabanda francesa; e o Allegro final combina fuga, cantabilidade e uma progressiva intensificação rítmica. É um pequeno laboratório da capacidade de Bach de reunir, numa mesma obra, diferentes tradições musicais europeias.
Essa variedade é reforçada pela presença da Sonata BWV 1023. Originalmente destinada ao violino, a obra foi transposta pelos intérpretes para Ré maior, tonalidade considerada mais adequada à viola da gamba. A adaptação não constitui, portanto, uma simples troca mecânica de instrumento: a linha original é colocada em outra tessitura, explorando as características próprias da viola. O Prelúdio, de caráter improvisatório, é seguido por um Adagio de harmonias móveis e surpreendentes, antes de duas danças — uma majestosa Allemande e uma viva Giga — encerrarem a sonata.
A concepção do álbum encontra uma imagem particularmente feliz na própria ideia de diálogo. Lucile Boulanger recorre a uma viola da gamba de sete cordas construída em 2006 por François Bodart, segundo um modelo de Joachim Tielke de 1699. O instrumento foi escolhido, entre outras razões, porque a BWV 1028 exige uma extensão até o Lá grave. Já o cravo utilizado é uma cópia de um instrumento atribuído a Johann Heinrich Silbermann, representante de uma tradição saxônica marcada pela busca de clareza e variedade de cores sonoras.
A própria Boulanger explica a opção interpretativa a partir de uma observação atribuída ao primeiro biógrafo de Bach, Johann Nikolaus Forkel: o compositor concebia as diferentes vozes do contraponto como “pessoas” envolvidas em uma conversa. A escolha de instrumentos de timbre caloroso e articulação clara procura justamente preservar essa dimensão quase humana da escrita.
A Toccata BWV 911 amplia o horizonte do programa. Provavelmente pertencente aos anos de Weimar, a obra reúne algumas das características mais contrastantes da produção de Bach para teclado: liberdade improvisatória, contraponto rigoroso, alternância entre tempos lentos e rápidos e a convivência de influências alemãs, francesas e italianas. O longo desenvolvimento fugado ocupa o centro da composição e transforma a peça em uma espécie de síntese da imaginação contrapontística do compositor.
O resultado é um retrato de Bach menos monumental do que doméstico e conversacional. A capa e o encarte recorrem a imagens de Feux d’artifice au-dessus du château Saint-Ange à Rome, de Jacob Philipp Hackert, estabelecendo uma associação entre pintura e música, luz e sombra, movimento e cor. A própria apresentação do projeto aproxima a suavidade da viola do brilho do cravo, numa metáfora que traduz bem a proposta do registro.
Uma boa apreciação!
Johann Sebastian Bach (1685-1750) -
01 - I. (Preludio)
02 - II. Adagio ma non tanto
03 - III. Allemande
04 - IV. Gigue
05 - I. Adagio
06 - II. Allegro, ma non tanto
07 - III. Andante
08 - IV. Allegro moderato
09 - Toccata pour clavecin in C Minor, BWV 911
10 - I. Adagio
11 - II. Allegro
12 - III. Andante
13 - IV. Allegro
14 - I. Vivace
15 - II. Adagio
16 - III. Allegro
Lucile Boulanger, viola da gamba
Arnaud de Pasquale, cravo
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