Em Sonate Concertanti per Fiati, o Collegium Pro Musica propõe justamente essa perspectiva: revelar nos instrumentos de sopro uma dimensão vocal e teatral, como se flauta, fagote e oboé fossem protagonistas de um pequeno palco veneziano. O registro reúne seis obras e tem como solistas Stefano Bagliano, na flauta doce, e Paolo Tognon, no fagote, acompanhados por Ruggero Vartolo (oboé), Alberto Pisani (violoncelo), Pier Mario Grosso (cravo) e Giangiacomo Pinardi (teorba), todos em instrumentos de época.
A proposta artística parte de uma ideia particularmente fértil: aproximar a linguagem dos sopros da voz humana. O encarte recupera o princípio formulado pelo tratadista renascentista Silvestro Ganassi, segundo o qual o instrumentista deveria procurar imitar a voz. Para os intérpretes, essa concepção ganha especial significado em Vivaldi, compositor também profundamente ligado ao teatro. A flauta doce aparece associada a um caráter vivaz, brilhante e cantabile, capaz, graças à variedade de articulações, de sugerir até mesmo a fala; o fagote, por sua vez, explora uma sonoridade melancólica e ligeiramente sombria, mas igualmente capaz de assumir momentos de grande vivacidade e virtuosismo.
O repertório também permite perceber como Vivaldi aproveita as características específicas de cada instrumento. As três sonatas para flauta e baixo contínuo — entre elas as RV 58 e RV 57, provenientes do universo editorial de Il Pastor Fido — distinguem-se pela fluidez melódica e pela importância concedida ao solista. O encarte chega a aproximar sua elegância das célebres sonatas para violino do compositor. O baixo contínuo, longe de funcionar apenas como sustentação harmônica, forma uma espécie de “tapete sonoro” sobre o qual a linha principal pode desenvolver suas possibilidades expressivas.
Particularmente reveladora é a Sonata em Si bemol maior RV 47, originalmente pertencente ao conjunto de seis sonatas para violoncelo e contínuo. A decisão de executá-la no fagote permite colocar em primeiro plano uma escrita ao mesmo tempo cantabile e melancólica, contrastada pelo brilho dos Allegri. O instrumento demonstra, assim, uma extraordinária flexibilidade: pode assumir o protagonismo solístico e, ao mesmo tempo, adaptar-se à função de sustentação característica do baixo contínuo.
Já a Sonata em Lá menor RV 86, para flauta, fagote e contínuo, ocupa posição especial no programa por ser apresentada como a única obra de Vivaldi destinada a essa combinação instrumental. O equilíbrio entre episódios cantáveis e passagens virtuosísticas sugere uma composição pensada para intérpretes de excepcionais recursos. Em seus quatro movimentos, a obra alterna diálogo, competição e contraste: o primeiro apresenta um intercâmbio cantabile entre os instrumentos; o Allegro explora a alternância de ritmos binários e ternários; o terceiro movimento transforma a flauta em uma espécie de voz solista, enquanto o fagote sustenta um baixo obstinado; e o movimento final leva a articulação rítmica e a virtuosidade a um ponto culminante.
Outro destaque é o Concerto em Sol menor RV 103, para flauta, oboé e fagote. Aqui, a dimensão camerística se mistura à lógica orquestral. O encarte observa que alguns musicólogos identificaram na obra uma espécie de “concerto grosso concentrado”, especialmente pelo efeito de ripieno produzido pelas entradas do oboé. A música oscila, portanto, entre o íntimo e o coletivo, entre os solos e o tutti, criando uma estrutura híbrida que faz da peça simultaneamente música de câmara e música de caráter orquestral.
A gravação valoriza essa concepção por meio de uma sonoridade deliberadamente sóbria e transparente. No RV 103, por exemplo, os intérpretes optaram por um contínuo sem instrumento harmônico, uma escolha que torna ainda mais perceptível o cuidado com o fraseado das vozes superiores. Flauta e oboé ora dialogam em igualdade, ora assumem funções distintas, com a primeira conduzindo frequentemente o movimento e o segundo reforçando momentos específicos.
O disco foi registrado entre 27 e 29 de outubro de 2000, na Capela da Igreja de Santa Maria dei Servi, em Pádua, e posteriormente lançado pela Tactus em 2002, com segunda edição em 2007. A gravação digital em 24 bits teve Marco Lincetto na captação, Paolo Tognon na direção artística e Fabio Framba no editing e mastering.
O resultado é um Vivaldi menos associado ao brilho espetacular do concerto barroco e mais atento à retórica dos timbres. As fotografias e a pintura de Francesco Guardi escolhida para a capa — San Giorgio Maggiore con la punta della Giudecca — reforçam visualmente essa atmosfera veneziana. No conjunto, o Collegium Pro Musica apresenta os sopros como verdadeiras vozes em cena: instrumentos que não apenas executam notas, mas respiram, declamam, respondem e dramatizam. É nessa teatralidade, discreta e sofisticada, que reside uma das maiores virtudes deste registro de Vivaldi.
Uma boa apreciação!
Antonio Vivaldi (1678-1741) -
01. Flute Sonata in G Minor, Op. 13, No. 6, RV 58, Il pastor fido - I. Vivace
02. Flute Sonata in G Minor, Op. 13, No. 6, RV 58, Il pastor fido - II. Fuga da cappella
03. Flute Sonata in G Minor, Op. 13, No. 6, RV 58, Il pastor fido - III. Largo
04. Flute Sonata in G Minor, Op. 13, No. 6, RV 58, Il pastor fido - IV. Allegro ma non presto
05. Trio Sonata in A Minor, RV 86 - I. Largo
06. Trio Sonata in A Minor, RV 86 - II. Allegro
07. Trio Sonata in A Minor, RV 86 - III. Largo cantabile
08. Trio Sonata in A Minor, RV 86 - IV. Allegro molto
09. Flute Sonata in C Major, Op. 13, No. 3, Il pastor fido - I. Largo
10. Flute Sonata in C Major, Op. 13, No. 3, Il pastor fido - II. Allegro ma non presto
11. Flute Sonata in C Major, Op. 13, No. 3, Il pastor fido - III. Pastorale
12. Flute Sonata in C Major, Op. 13, No. 3, Il pastor fido - IV. Allegro
13. Cello Sonata in B-Flat Major, Op. 14, No. 1, RV 47 - I. Largo
14. Cello Sonata in B-Flat Major, Op. 14, No. 1, RV 47 - II. Allegro
15. Cello Sonata in B-Flat Major, Op. 14, No. 1, RV 47 - III. Largo
16. Cello Sonata in B-Flat Major, Op. 14, No. 1, RV 47 - IV. Allegro
17. Flute Sonata in E Minor, RV 50, Stokholm Sonata - I. Andante
18. Flute Sonata in E Minor, RV 50, Stokholm Sonata - II. Sicialiano
19. Flute Sonata in E Minor, RV 50, Stokholm Sonata - III. Allegro
20. Flute Sonata in E Minor, RV 50, Stokholm Sonata - IV. Arioso
21. Chamber Concerto in G Minor, RV 103 - I. Allegro ma cantabile
22. Chamber Concerto in G Minor, RV 103 - II. Largo
23. Chamber Concerto in G Minor, RV 103 - III. Allegro non molto
Collegium Pro Musica
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