segunda-feira, 25 de maio de 2026

Johannes Brahms (1833-1897) - Tragische Ouverture d-Moll, Op. 81 e Symphonie Nr. 4 in e-Moll, Op. 98



Brahms é um dos meus compositores indispensáveis. Tudo o que ele escreveu possui um aspecto arrojado, de uma intencionalidade desconcertante, de uma consciência crítica que impressiona. Seu aspecto reservado é uma característica que salta de sua música. Brahms era um continuador da tradição da música absoluta. Seu intento era honrar os nomes da tradição musical. Quando escrevia, procurava seguir aquilo que Bach, Haydn, Mozart e Beethoven haviam iniciado. Fugia das inovações wagnerianas; da megalomania. Procurava sugerir mais do que romper, embora não dispensasse a crítica sutil.

A “Tragische Ouvertüre” deixa isso evidente desde os primeiros compassos. Não há ali a teatralidade explosiva da ópera wagneriana nem a tentativa de construir personagens ou narrativas explícitas. A tragédia, em Brahms, é interiorizada. Diferentemente do romantismo mais expansivo, Brahms evita o excesso sentimental. Sua dor não transborda; ela se disciplina; transgride sem alardes.

Essa estética da contenção atinge sua forma mais radical na Quarta Sinfonia. Escrita em 1885, a obra frequentemente soa como uma reflexão sobre o esgotamento da grande tradição sinfônica germânica. O primeiro movimento alterna lirismo e fatalismo com impressionante equilíbrio; o segundo assume um caráter quase arcaico; o terceiro rompe momentaneamente a atmosfera sombria com uma energia impetuosa, quase dionisíaca. Mas é no quarto movimento que Brahms realiza um de seus gestos mais extraordinários.

Ao concluir a sinfonia com uma “passacaglia” - forma barroca baseada na repetição obstinada de um tema - Brahms recorre deliberadamente ao passado. Não se trata, contudo, de um exercício arqueológico. O uso dessa forma antiga adquire significado filosófico: a repetição deixa de ser apenas técnica composicional e se transforma em expressão de destino. Em vez de uma conclusão triunfal, típica da tradição romântica heroica, a Quarta Sinfonia oferece uma sensação de lucidez amarga. A música avança sem prometer redenção.

Nesse aspecto, Brahms parece dialogar com o clima intelectual pessimista do fim do século XIX, marcado pela influência de Arthur Schopenhauer e pela crescente percepção de decadência da cultura europeia. Sua música não possui o heroísmo afirmativo de Beethoven nem o impulso revolucionário de Wagner. Existe nela uma consciência histórica aguda: a percepção de que a tradição ainda sobrevive, mas já carrega em si sinais de fragilidade.

Não deixe de ouvir essa excelente versão com Kurt Sanderling. Uma boa apreciação!

Johannes Brahms (1833-1897) - 

01 - Brahms Tragische Ouvert¨¹re d-Moll, Op. 81
02 - Brahms Symphonie Nr. 4 in e-Moll, Op. 98 - I. Allegro non troppo
03 - Brahms Symphonie Nr. 4 in e-Moll, Op. 98 - II. Andante moderato
04 - Brahms Symphonie Nr. 4 in e-Moll, Op. 98 - III. Allegro giocoso ¨C Poco meno...
05 - Brahms Symphonie Nr. 4 in e-Moll, Op. 98 - IV. Allegro energico e passionato...

Swedish Radio Symphony Orchestra
Kurt Sanderling, regente 

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