A “Tragische Ouvertüre” deixa
isso evidente desde os primeiros compassos. Não há ali a teatralidade explosiva
da ópera wagneriana nem a tentativa de construir personagens ou narrativas
explícitas. A tragédia, em Brahms, é interiorizada. Diferentemente do
romantismo mais expansivo, Brahms evita o excesso sentimental. Sua dor não
transborda; ela se disciplina; transgride sem alardes.
Essa estética da contenção atinge
sua forma mais radical na Quarta Sinfonia. Escrita em 1885, a obra
frequentemente soa como uma reflexão sobre o esgotamento da grande tradição
sinfônica germânica. O primeiro movimento alterna lirismo e fatalismo com
impressionante equilíbrio; o segundo assume um caráter quase arcaico; o
terceiro rompe momentaneamente a atmosfera sombria com uma energia impetuosa,
quase dionisíaca. Mas é no quarto movimento que Brahms realiza um de seus
gestos mais extraordinários.
Ao concluir a sinfonia com uma “passacaglia”
- forma barroca baseada na repetição obstinada de um tema - Brahms recorre
deliberadamente ao passado. Não se trata, contudo, de um exercício
arqueológico. O uso dessa forma antiga adquire significado filosófico: a
repetição deixa de ser apenas técnica composicional e se transforma em
expressão de destino. Em vez de uma conclusão triunfal, típica da tradição
romântica heroica, a Quarta Sinfonia oferece uma sensação de lucidez amarga. A
música avança sem prometer redenção.
Nesse aspecto, Brahms parece
dialogar com o clima intelectual pessimista do fim do século XIX, marcado pela
influência de Arthur Schopenhauer e pela crescente percepção de decadência da
cultura europeia. Sua música não possui o heroísmo afirmativo de Beethoven nem
o impulso revolucionário de Wagner. Existe nela uma consciência histórica
aguda: a percepção de que a tradição ainda sobrevive, mas já carrega em si
sinais de fragilidade.
Não deixe de ouvir essa excelente
versão com Kurt Sanderling. Uma boa apreciação!
Johannes Brahms (1833-1897) -
01 - Brahms Tragische Ouvert¨¹re d-Moll, Op. 81
02 - Brahms Symphonie Nr. 4 in e-Moll, Op. 98 - I. Allegro non troppo
03 - Brahms Symphonie Nr. 4 in e-Moll, Op. 98 - II. Andante moderato
04 - Brahms Symphonie Nr. 4 in e-Moll, Op. 98 - III. Allegro giocoso ¨C Poco meno...
05 - Brahms Symphonie Nr. 4 in e-Moll, Op. 98 - IV. Allegro energico e passionato...
Swedish Radio Symphony Orchestra
Kurt Sanderling, regente
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