"As obras reunidas neste CD pertencem tanto ao início quanto ao período final da trajetória criativa de Debussy e, por isso mesmo, revelam um compositor distante da imagem impressionista com a qual seu nome costuma ser associado. O Trio para Piano em Sol maior é uma obra de exuberante romantismo, em que ressoam ecos de Schumann e Franck. Já as sonatas para violoncelo e para violino integram o projeto das seis sonatas iniciado por Debussy em 1915, interrompido prematuramente por sua morte, em 1918 - apenas três chegaram a ser concluídas. Nessas partituras, a escrita se torna mais transparente, com acentos neoclássicos e, por vezes, uma mordacidade rítmica e humorística que remete a Stravinsky. Os intérpretes deste álbum - Federico Guglielmo, Luigi Puxeddu e Jolanda Violante — construíram sua reputação sobretudo no repertório de música antiga, o que confere a estas leituras uma abordagem arejada, espontânea e cheia de vitalidade. Como complemento, o disco inclui arranjos de peças célebres como Rêverie, Arabesque, Minstrels e La fille aux cheveux de lin, além de duas miniaturas juvenis para violoncelo e piano.
O vibrante Trio para Piano em Sol maior desperta imagens de renovação e de paisagens primaveris: riachos cintilantes, flores silvestres e relva coberta de orvalho. Sob o patrocínio de Madame von Meck — célebre mecenas também de Tchaikovsky —, Debussy compôs essa obra promissora e luminosa durante o verão de 1880. Aos dezessete anos, sua voz autoral ainda se formava, e a influência de Franck, Schumann e Brahms se faz perceptível na textura, na arquitetura e na intenção musical. Ainda assim, já emergem traços de charme, leveza e espírito inventivo, enquanto o Finale se afirma com ousadia e vigor. O Trio Stradivari interpreta a peça com calor e delicadeza, construindo um diálogo luminoso de emoções. Essa abordagem flexível e cantabile se evidencia particularmente no uso do pizzicato no segundo movimento, um scherzo-intermezzo de refinada elegância.
Debussy acreditava ser dever do compositor “encontrar a fórmula sinfônica adequada ao seu tempo, aquela exigida pelo progresso, pela audácia e pela vitória da modernidade”, acrescentando com ironia que “o século dos aviões tinha direito à sua própria música”. Escrita nos últimos anos de sua vida, a Sonata para Violino, permeada por discretas reminiscências de Couperin, resgata a essência do barroco francês sob uma linguagem ao mesmo tempo fresca e radicalmente moderna. A interpretação apresentada aqui revela grande sensibilidade, expondo a atmosfera expansiva da obra, seus contrastes cintilantes e sua agilidade expressiva. Abalado pelo impasse sangrento da guerra e atormentado pela doença, Debussy iniciou a sonata em 1916 e só a concluiu no ano seguinte. Ao estreá-la, confessou, exasperado: “Escrevi esta sonata apenas para me livrar dela, pressionado pelo meu querido editor.” Em seguida, porém, ofereceu uma observação mais reveladora: “Esta sonata terá interesse documental como exemplo do que um homem doente pode produzir em tempos de guerra.” Apesar disso, o humor travesso do Intermède e a construção dramática do Finale revelam uma vontade obstinada de permanecer vital, recusando-se a sucumbir à fraqueza ou ao desalento. A obra se torna, assim, um testemunho do espírito combativo de Debussy, em que beleza e pathos atravessam até os trechos mais concisos. O Trio Stradivari aborda essa música com inteligência e compreensão profundas.
A Sonata para Violoncelo, composta em 1915, tinha inicialmente o sugestivo título Pierrot fait fou avec la lune. A referência provavelmente remete ao poema de Albert Giraud que inspirou o Pierrot Lunaire de Schoenberg, escrito três anos antes. O final do século XIX e o início do XX testemunharam, aliás, um renovado fascínio pelas figuras da commedia dell’arte, especialmente Pierrot. Talvez melhor descrita como “um raio de luar aprisionado numa bela garrafa da Boêmia”, nas palavras de Giraud, a sonata reúne uma profusão de elementos interligados: fragmentos líricos agudos que evocam o falsete masculino, mudanças abruptas de andamento, rubatos exagerados, justaposições tonais inesperadas e uma recusa deliberada da regularidade métrica - tudo isso contido dentro de uma forma clássica. Luigi Puxeddu oferece aqui uma interpretação colorida e evocativa.
As peças restantes confirmam a convicção de Debussy de que era preciso “buscar uma disciplina dentro da liberdade” e não se deixar governar por fórmulas oriundas de “filosofias decadentes”, destinadas, segundo ele, “aos espíritos fracos”. Obras como Minstrels e a Première Arabesque, com seus ritmos quase jazzísticos e arpejos fluidos, recebem interpretações vigorosas e límpidas desses músicos consumados. Em perfeita sintonia, os três intérpretes articulam delicadamente contraste, continuidade e refinamento tímbrico. O romantismo impetuoso de Puxeddu reverbera no Intermezzo L27, acompanhado com inteligência e sensibilidade por Jolanda Violante, enquanto o Scherzo L26 surge como uma escapada leve, espirituosa e irreverente.
Este é um CD que celebra a impressionante diversidade da personalidade musical de Debussy. Mais do que uma coletânea de obras, oferece um retrato amplo de suas influências, de seu humor e de suas estratégias composicionais. A gravação desafia a visão limitada de Debussy como compositor exclusivamente impressionista e, ao fazê-lo, o Trio Stradivari revela uma imagem mais rica e complexa de sua música - das emoções que o moviam às técnicas que utilizava para traduzi-las em som. Peças familiares como La fille aux cheveux de lin e a Première Arabesque reaparecem aqui com frescor e espontaneidade renovados. Entre os excelentes músicos reunidos, Federico Guglielmo destaca-se como um intérprete particularmente inventivo e poeticamente cativante".
Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!
Claude Debussy (1862-1918) -
01. Piano Trio in G major, L3 - I. Andantino con moto allegro (09:04)
02. Piano Trio in G major, L3 - II. Scherzo-Intermezzo: Moderato con allegro (03:30)
03. Piano Trio in G major, L3 - III. Andante espressivo (03:55)
04. Piano Trio in G major, L3 - IV. Finale: Appassionato (05:27)
05. Violin Sonata in G minor, L140 - I. Allegro vivo (05:28)
06. Violin Sonata in G minor, L140 - II. Intermede: Fantasque et leger (04:14)
07. Violin Sonata in G minor, L140 - III. Finale: Tres anime (04:32)
08. Cello Sonata in D minor, L135 - I. Prologue: Lent, sostenuto e molto risoluto (04:42)
09. Cello Sonata in D minor, L135 - II. Serenade: Moderement anime (03:32)
10. Cello Sonata in D minor, L135 - III. Final: Anime, leger et nerveux (03:38)
11. Intermezzo for cello and piano, L27 (05:29)
12. Scherzo for cello and piano, L26 (05:24)
13. Minstrels for violin and piano (Preludes L117, No.12) (02:23)
14. La fille aux cheveux de lin for violin and piano (Preludes L117, No.8) (02:36)
15. Premiere arabesque for violin and piano, L66 (04:57)
16. Romance for cello and piano, L79 No.1 (02:09)
17. Reverie for cello and piano, L68 (04:38)
Trio Stradivari
Federico Guglielmo, violino
Luigi Puxeddu, violoncelo
Jolanda Violante, piano
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