sábado, 29 de novembro de 2025

Hector Berlioz (1803-1869) - Symphonie fantastique, H. 48 e Maurice Ravel (1875-1937) - La valse, M. 72

Duas obras espetaculares da música francesa. Elas estão separadas por quase cem anos, mas foram bastante significativas quando de suas composições. A primeira está embriagada pelos aromas do Romantismo; a segunda, escrita em um período de "desconjuntamento histórico", logo após a Primeira Guerra Mundial. 

A obra mais importante de Berlioz, a Sinfonia Fantástica, estreou em 1830; e, desde a sua estreia, sempre foi vista como uma obra representativa e repleta de significações. A obra, descrita pelo próprio autor como “episódios da vida de um artista”, narrava o amor obsessivo de um jovem músico por uma atriz. Mas, longe de ser apenas um romance não correspondido, a sinfonia transformou a orquestra em palco de sonhos, delírios e pesadelos - algo inédito até então. Ao longo dos cinco movimentos, o ouvinte acompanha desde a paixão idealizada até a execução pública do protagonista e um sabbath diabólico. Tudo isso costurado por uma ideia fixa, tema que retorna obsessivamente como um retrato mutante da amada. É, por isso, que ela é chamada de "fantástica".

Em seguida, temos uma das obras de que mais gosto de Ravel. Difícil dizer qual é a minha preferida entre todas compostas pelo francês. Mas "La Valse" é daqueles obras que escuto cinco vezes seguidas sem titubear. Em um primeiro momento, a obra parece sugerir que Ravel tinha por intenção fazer uma homenagem à valsa vienense, à família Strauss. Ou seja, tudo parece inocente, previdente. Todavia, há insinuações de sombras. Ela parece surgir de uma bruma, de névoas que escondem visões menos otimistas. Aos poucos, ela ganha contornos, assume a plenitude com ritmos desencontrados e quebrados. 

Quando escuto "La Valse", imediatamente, lembro "A educação pela pedra", do meu genial conterrâneo - João Cabral de Melo Neto ("pela dicção ela começa as aulas"/ "ao que flui e a fluir..."/ "captar sua voz inenfática"). A beleza de "La Valse" é uma beleza de pedra. Não se trata de uma valsa em sentido límpido, cristalino, repleto de movimentos leves; de eflúvios de sonhos, de salões opalecentes, povoado por luzes claras e damas saídas de uma lenda grega. Não. Ravel olhou para o seu tempo - 1920; uma Europa devastada e sem esperança. Não havia motivos para otimismos cristalinos. E acabou escrevendo uma obra dura, pedregosa, que é preciso "soletrá-la" para achar a beleza. É nisso que reside seu encanto. 

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

01. Symphonie fantastique, H. 48_ I. Rêveries – Passions
02. Symphonie fantastique, H. 48_ II. Un bal. Valse
03. Symphonie fantastique, H. 48_ III. Scène aux champs
04. Symphonie fantastique, H. 48_ IV. Marche au supplice
05. Symphonie fantastique, H. 48_ V. Songe d'une nuit de sabbat
06. La valse, M. 72

Orchestre de Paris
Klaus Mäkelä, regente 

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