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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - Transcriptions – 2

O álbum Bach Piano Transcriptions – 2: Busoni, da Hyperion, reúne na interpretação do pianista Nikolai Demidenko um conjunto de transcrições que revela justamente essa relação: não se trata apenas de transportar para o piano obras originalmente concebidas para órgão, cravo ou violino, mas de recriar, por meio do instrumento moderno, a concepção sonora que Busoni identificava na música de Bach. O disco tem duração total de aproximadamente 70 minutos e foi gravado em Forde Abbey, Somerset, em agosto de 2001.

O programa começa com a monumental Fantasia, Adagio and Fugue, BWV 906/968, em uma combinação que já evidencia a liberdade característica de Busoni. Seguem-se prelúdios corais dos Livros I e II do Cravo Bem Temperado, os Prelúdios e Fugas em mi menor, BWV 533, e em ré maior, BWV 532, além de outras transcrições de corais. O percurso termina com a Chaconne em ré menor, BWV 1004, originalmente escrita por Bach para violino solo. É um repertório que atravessa diferentes manifestações da linguagem bachiana, mas que ganha unidade pela perspectiva pianística de Busoni.

O próprio livreto chama atenção para uma questão fundamental: o que significa transcrever uma obra musical? Busoni não entendia a partitura como um objeto absolutamente intocável. Em seu pensamento estético, a notação seria uma espécie de registro de uma ideia musical, enquanto a realização pelo intérprete poderia recuperar possibilidades que permanecem implícitas no texto. Sua Outline of a New Aesthetic of Music, mencionada no ensaio, defendia uma concepção particularmente ampla da criação musical, na qual a obra não se esgotaria na reprodução literal de sua notação.

Essa concepção ajuda a compreender por que as transcrições de Bach realizadas por Busoni frequentemente soam como verdadeiras recomposições para piano. Ao adaptar obras de órgão, o compositor explorava recursos específicos do instrumento moderno, inclusive a utilização dos pedais, buscando produzir no teclado uma sonoridade capaz de sugerir a amplitude e a arquitetura do órgão sem simplesmente imitá-lo. O livreto observa que suas transcrições procuram preservar a estrutura contrapontística ao mesmo tempo que ampliam as possibilidades de timbre, registro, dinâmica e ressonância.

A questão não era estranha à própria tradição musical anterior. O ensaio lembra que, muito antes de Busoni, compositores e intérpretes já adaptavam obras para diferentes instrumentos. Bach, ele próprio, utilizou e reelaborou materiais de outros autores; posteriormente, Clementi, Liszt e outros músicos também transformaram obras existentes para explorar novas possibilidades instrumentais. Nesse sentido, Busoni não aparece como uma ruptura absoluta com a tradição, mas como alguém que levou a prática da transcrição a uma reflexão estética de grande alcance.

O exemplo mais radical do álbum talvez seja a Chaconne, originalmente pertencente à Segunda Partita para violino solo, BWV 1004. Ao contrário das transcrições das obras de órgão, nas quais Busoni podia recorrer à riqueza sonora do piano para sugerir a dimensão do instrumento original, a Chaconne parte de uma obra concebida para um único instrumento melódico. A transcrição, portanto, altera profundamente a perspectiva sonora. O ensaio de Charles Hopkins observa que Busoni deliberadamente deixa de lado determinadas características do timbre violinístico para enfatizar uma concepção mais ampla e monumental da obra.

É justamente nessa transformação que reside o interesse artístico do projeto. A Chaconne não procura simplesmente parecer uma peça para violino tocada ao piano: ela assume a condição de uma obra pianística derivada de Bach, explorando a densidade harmônica, o peso dos acordes e a capacidade de sustentação do instrumento. O piano passa a funcionar como espaço de expansão da ideia musical. O resultado coloca em primeiro plano aquilo que Busoni considerava essencial: a permanência da obra para além de sua instrumentação original.

A abertura do disco, Fantasia, Adagio and Fugue, apresenta outro aspecto dessa liberdade. A Fantasia BWV 906, cuja fuga permaneceu incompleta, é combinada por Busoni com o Adagio da Sonata para violino em sol maior, BWV 968. O procedimento é revelador: materiais de origens distintas são colocados em relação para formar uma construção musical mais ampla. O próprio livreto destaca o caráter aberto desse processo e a possibilidade de crescimento contínuo contida em determinadas obras de Bach.

Os prelúdios corais oferecem ainda outra dimensão. Neles, a escrita de Busoni procura converter para o piano a riqueza de registros, linhas e planos sonoros própria da música de órgão. A transcrição deixa de ser uma operação meramente mecânica e passa a funcionar como interpretação: é necessário decidir quais vozes serão destacadas, como serão distribuídas no teclado e de que maneira o pedal poderá criar continuidade e profundidade. O livreto relaciona esse procedimento à tradição improvisatória associada à música de órgão de Bach.

A interpretação de Nikolai Demidenko completa essa concepção. O pianista estudou no Conservatório de Moscou com Dmitri Bashkirov, foi premiado em concursos internacionais e desenvolveu carreira particularmente ligada ao repertório pianístico dos séculos XIX e XX. Seu catálogo de gravações para a Hyperion inclui, além das transcrições de Bach-Busoni, obras de Chopin, Liszt, Medtner, Mussorgsky, Prokofiev, Rachmaninov, Schubert e Schumann.

O piano utilizado na gravação foi um Fazioli, instrumento cuja capacidade de sustentar notas longas e oferecer ampla variedade de cores é destacada no material do álbum. Essa característica ganha especial importância em Busoni, cuja escrita frequentemente exige que o piano sugira dimensões sonoras que ultrapassam suas limitações físicas. A gravação foi realizada no Forde Abbey, em Somerset, nos dias 27 a 29 de agosto de 2001, com Ken Blair como engenheiro de gravação e Erik Smith como produtor.

Mais do que um tributo a Bach, portanto, Bach Piano Transcriptions – 2 documenta uma determinada maneira de pensar a própria natureza da música. Para Busoni, a tradição não deveria ser preservada como peça de museu, mas reimaginada a partir das possibilidades de cada época. Demidenko, ao assumir essas transcrições, coloca-se no centro desse processo: entre a partitura de Bach, a visão estética de Busoni e os recursos expressivos do piano contemporâneo. O álbum mostra, assim, que uma transcrição pode ser simultaneamente memória e invenção — uma maneira de olhar para o passado sem deixar de transformá-lo em música viva.

Uma boa apreciação!

01 - Fantasia, Adagio and Fugue BWV906-968, Fantasia
02 - Fantasia, Adagio and Fugue BWV906-968, Adagio
03 - Fantasia, Adagio and Fugue BWV906-968, Fugue
04 - Komm, Gott Schopfer, Heiliger Geist BWV667
05 - Wachet Auf, Ruft Uns Die Stimme BWV645
06 - Prelude and Fugue in E minor BWV533, Prelude
07 - Prelude and Fugue in E minor BWV533, Fugue
08 - Prelude and Fugue in D major BWV532, Prelude
09 - Prelude and Fugue in D major BWV532, Fugue
10 - Herr Gott, Nun schleub den Himmel auf BWV617
11 - Durch Adam's Fall ist ganz verderbt BWV637-705
12 - In Dir Ist Freude BWV615
13 - Jesus Christus, Unser Heiland BWV665
14 - Chaconne in D minor BWV1004

Nikolai Demidenko, piano 

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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - Sonata à Cembalo è Viola da Gamba

O programa deste disco reúne as três sonatas de Bach para esses instrumentos - em Sol maior, BWV 1027; em Ré maior, BWV 1028; e em Sol menor, BWV 1029 -, além da transcrição para viola da gamba da Sonata para violino BWV 1023 e da Toccata para cravo em Dó menor, BWV 911.

A escolha do repertório permite observar diferentes faces da escrita instrumental de Bach. As sonatas BWV 1027 e 1028 seguem o modelo da sonata da chiesa, em quatro movimentos, alternando seções lentas e rápidas. Na primeira, viola e cravo estabelecem um verdadeiro jogo imitativo, que culmina em uma fuga; na segunda, o Andante em Si menor assume uma atmosfera particularmente introspectiva, antes que o Allegro devolva à música sua energia e seu movimento.

A BWV 1029 apresenta uma personalidade diferente. Estruturada em três movimentos, aproxima-se da chamada Sonata auf Concertenart, de caráter concertante. Seu Vivace inicial traz uma linguagem de inspiração vivaldiana; o Adagio central oferece à viola amplas linhas melódicas, ornamentadas à maneira italiana, sobre um acompanhamento que evoca a sarabanda francesa; e o Allegro final combina fuga, cantabilidade e uma progressiva intensificação rítmica. É um pequeno laboratório da capacidade de Bach de reunir, numa mesma obra, diferentes tradições musicais europeias.

Essa variedade é reforçada pela presença da Sonata BWV 1023. Originalmente destinada ao violino, a obra foi transposta pelos intérpretes para Ré maior, tonalidade considerada mais adequada à viola da gamba. A adaptação não constitui, portanto, uma simples troca mecânica de instrumento: a linha original é colocada em outra tessitura, explorando as características próprias da viola. O Prelúdio, de caráter improvisatório, é seguido por um Adagio de harmonias móveis e surpreendentes, antes de duas danças — uma majestosa Allemande e uma viva Giga — encerrarem a sonata.

A concepção do álbum encontra uma imagem particularmente feliz na própria ideia de diálogo. Lucile Boulanger recorre a uma viola da gamba de sete cordas construída em 2006 por François Bodart, segundo um modelo de Joachim Tielke de 1699. O instrumento foi escolhido, entre outras razões, porque a BWV 1028 exige uma extensão até o Lá grave. Já o cravo utilizado é uma cópia de um instrumento atribuído a Johann Heinrich Silbermann, representante de uma tradição saxônica marcada pela busca de clareza e variedade de cores sonoras.

A própria Boulanger explica a opção interpretativa a partir de uma observação atribuída ao primeiro biógrafo de Bach, Johann Nikolaus Forkel: o compositor concebia as diferentes vozes do contraponto como “pessoas” envolvidas em uma conversa. A escolha de instrumentos de timbre caloroso e articulação clara procura justamente preservar essa dimensão quase humana da escrita.

A Toccata BWV 911 amplia o horizonte do programa. Provavelmente pertencente aos anos de Weimar, a obra reúne algumas das características mais contrastantes da produção de Bach para teclado: liberdade improvisatória, contraponto rigoroso, alternância entre tempos lentos e rápidos e a convivência de influências alemãs, francesas e italianas. O longo desenvolvimento fugado ocupa o centro da composição e transforma a peça em uma espécie de síntese da imaginação contrapontística do compositor.

O resultado é um retrato de Bach menos monumental do que doméstico e conversacional. A capa e o encarte recorrem a imagens de Feux d’artifice au-dessus du château Saint-Ange à Rome, de Jacob Philipp Hackert, estabelecendo uma associação entre pintura e música, luz e sombra, movimento e cor. A própria apresentação do projeto aproxima a suavidade da viola do brilho do cravo, numa metáfora que traduz bem a proposta do registro.

Uma boa apreciação! 

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - 

01 - I. (Preludio)
02 - II. Adagio ma non tanto
03 - III. Allemande
04 - IV. Gigue
05 - I. Adagio
06 - II. Allegro, ma non tanto
07 - III. Andante
08 - IV. Allegro moderato
09 - Toccata pour clavecin in C Minor, BWV 911
10 - I. Adagio
11 - II. Allegro
12 - III. Andante
13 - IV. Allegro
14 - I. Vivace
15 - II. Adagio
16 - III. Allegro

Lucile Boulanger, viola da gamba
Arnaud de Pasquale, cravo

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sábado, 22 de agosto de 2026

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - Schemelli Song Book

Na Leipzig de Bach, o coral luterano ainda era uma forma musical viva, submetida a transformações contínuas, e o compositor não foi apenas seu grande conservador: foi também um de seus mais inventivos agentes de desenvolvimento.

O ponto de partida é o Musicalisches Gesang-Buch, publicado em 1736 por Georg Christian Schemelli, aluno da Thomasschule de Leipzig e cantor em Zeitz. A coleção reunia melodias e textos destinados ao uso religioso e, segundo o encarte, não se limitava aos cânticos tradicionais da Igreja luterana. Incluía também materiais mais recentes, ligados ao pietismo, movimento que havia introduzido novas formas de expressão devocional.

Essa coexistência entre tradição e novidade é fundamental para compreender a participação de Bach no projeto. O compositor preparou os baixos contínuos de diversas melodias do hinário e, embora nem todas as composições da coleção possam ser atribuídas a ele com segurança, sua contribuição revela uma relação muito mais dinâmica com o coral do que a imagem de um músico simplesmente voltado para o passado poderia sugerir.

Algumas melodias originalmente destinadas à comunidade aparecem transformadas, em Bach, por procedimentos próximos daqueles da escrita de árias. Um exemplo é Lasset uns mit Jesu ziehen, cuja melodia, apresentada no hinário como pertencente ao repertório de Johann Schop, reaparece associada à linguagem bachiana. A fronteira entre o canto comunitário e a expressão individual, portanto, torna-se menos rígida.

A própria trajetória de Bach ajuda a explicar esse fenômeno. Ao longo dos anos de Leipzig, sua produção religiosa atravessou diferentes momentos: das cantatas corais de 1724 e 1725, fortemente vinculadas à tradição luterana, à Paixão segundo São Mateus e ao Oratório de Natal. Paralelamente, Bach continuou interessado em preservar e reelaborar melodias antigas. Seu trabalho não consistia simplesmente em escolher entre o antigo e o moderno, mas em fazer com que ambos pudessem coexistir.

Essa concepção aparece também na relação entre as melodias do hinário de Schemelli e as peças instrumentais incluídas no registro. Entre elas estão quatro obras para órgão que completam a seleção: Jesus, meine Zuversicht (BWV 728), Jesu, meine Freude (BWV 713), Gelobet seist du, Jesu Christ (BWV 697) e O Lamm Gottes, unschuldig (BWV deest). O conjunto permite observar diferentes maneiras pelas quais Bach transforma uma melodia coral em matéria para elaboração contrapontística.

Jesu, meine Freude, por exemplo, é apresentado como uma fantasia coral, com tratamento particularmente inventivo da melodia. A obra combina procedimentos contrapontísticos com a apresentação do coral, chegando, em sua conclusão, a uma ousada elaboração melódica. Já Gelobet seist du, Jesu Christ assume a forma de uma pequena fughetta construída a partir da primeira linha do coral. A repetição insistente do motivo confere à peça uma concentração extraordinária.

Ainda mais reveladora é O Lamm Gottes, unschuldig, cuja autoria bachiana, segundo o texto, não é absolutamente segura. A obra pertence ao conjunto de quatro peças para órgão tradicionalmente atribuídas a Bach e poderia ser uma das mais antigas desse grupo. Sua escrita remete ao chamado “tipo Pachelbel”, no qual as vozes entram sucessivamente em imitação até que a melodia principal se torne plenamente perceptível.

O registro também recupera um aspecto particularmente interessante da prática pedagógica de Bach. Segundo o testemunho transmitido por Johann Nikolaus Forkel, seus alunos começavam aprendendo a realizar um baixo contínuo de quatro vozes; depois, passavam a cantar as diferentes partes e, finalmente, aprendiam a escrever o baixo. A atividade pedagógica estava, portanto, intimamente ligada à prática musical cotidiana.

Um dos aspectos mais importantes do encarte é justamente a demonstração de que Bach não trabalhava com uma separação absoluta entre baixo contínuo, coral e escrita a quatro vozes. Há exemplos de movimentos entre essas linguagens: materiais originalmente concebidos para quatro partes reaparecem em contextos de baixo contínuo, enquanto linhas de baixo podem conservar características melódicas estreitamente relacionadas ao coral.

A questão da autoria também permanece aberta em diversos casos. O encarte observa que é difícil determinar quantas melodias do Musicalisches Gesang-Buch foram realmente compostas por Bach. Algumas atribuições tradicionais são contestadas, enquanto outras parecem mais seguras. O próprio caráter da coleção — que pretendia oferecer melodias, inclusive algumas pouco conhecidas, para uma futura segunda edição — torna difícil separar completamente o que Bach criou, adaptou, preservou ou simplesmente recebeu da tradição.

Essa incerteza, longe de diminuir o interesse do repertório, torna-o ainda mais significativo. O que emerge é a imagem de um Bach profundamente consciente da tradição, mas também atento às transformações de seu tempo. Ele podia recuperar uma melodia antiga, incorporar procedimentos modernos, aproximar o coral da ária e explorar uma mesma matéria em diferentes contextos musicais.

É essa tensão entre memória e invenção que constitui o verdadeiro centro do registro. O coral luterano não aparece como uma peça de museu, mas como uma linguagem em permanente transformação. Bach, nesse processo, ocupa uma posição singular: preserva melodias, reelabora formas, ensina seus alunos a dominá-las e, simultaneamente, amplia suas possibilidades expressivas.

A frase de Albert Schweitzer escolhida para abrir o texto resume bem essa perspectiva: para Bach, o coral não era simplesmente um repertório herdado, mas o próprio fundamento de sua linguagem. O compositor encontrou nesse patrimônio uma matéria suficientemente sólida para sustentar sua música e suficientemente viva para continuar sendo transformada. É justamente nessa combinação de fidelidade e invenção que reside uma das características mais fascinantes de sua arte.

Uma boa apreciação!

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - 

DISCO 01

01 - Nun lob, mein Seel, den Herren BWV 390
02 - Kommt, Seelen, dieser Tag BWV 479
03 - Brunnquell aller Güter BWV 445
04 - Dir, dir, Jehova, will ich singen BWV 452
05 - Die güldne Sonne BWV 451
06 - Liebes Herz, bedenke doch BWV 482
07 - Eins ist not! Ach Herr, dies Eine BWV 453
08 - Jesus, meine Zuversicht BWV 365
09 - Es kostet viel, ein Christ zu sein BWV 459
10 - DerTag ist hin BWV 447
11 - Der lieben Sonne Licht und Pracht BWV 446
12 - Gott lebet noch BWV 320 & 461
13 - Gib dich zufrieden BWV 460
14 - Ich liebe Jesum alle Stund BWV 468
15 - Jesu meine Freude BWV 358
16 - Liebster Immanuel, Herzog der Frommen BWV 485
17 - Komm süßer Tod BWV 478
18 - Liebster Herr Jesu, wo bleibst du so lange BWV 484
19 - So wünsch ich mir zu guter Letzt BWV 502
20 - O wie selig seid ihr doch, ihr Frommen BWV 405 & 495

DISCO 02

01 - Uns ist ein Kindlein heut geborn BWV 414
02 - Auf, auf die rechte Zeit ist hier BWV 440
03 - Ermuntre dich, mein schwacher Geist BWV 454
04 - Ihr Gestirn, ihr hohlen Lüfte BWV 366 & 476
05 - Ich steh an deiner Krippen hier BWV 469
06 - Ich freue mich in dir BWV 465
07 - O Jesulein süß BWV 493
08 - Beschränkt, ihr Weisen BWV 443
09 - Belobet seist du, Jesu Christ BWV 314
10 - O Mencsh, bewein' dein Sünde groß BWV 402
11 - So gehst du nun, mein Hesu, hin BWV 500
12 - Mein Jesu, was für Seelenweh BWV 487
13 - Es ist vollbracht BWV 458
14 - Sei gegrüßet, Jesu gütig BWV 499 & 410
15 - O Lamm Gottes unschuldig
16 - Auf, auf, mein Herz mit Freuden
17 - Jesu unser Trost und Leben BWV 475
18 - Lasset uns mit Jesu ziehen BWV 481

Gächinger Kantorei Stuttgart
Bach-Collegium Stuttgart
Helmuth Rilling, regente 

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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788) - Symphony in E minor, Wq 178 e Cello Concerto in A minor, Wq 170 e Johann Sebastian Bach (1685-1750) - Keyboard Concerto No.1 in D minor, BWV 1052 e Die Himmel erzählen die Ehre Gottes, BWV76 - Sinfonia

Neste notável álbum de estreia da Orfeus Barock Stockholm, conjunto sueco especializado em instrumentos de época, pai e filho dividem o programa em uma seleção que permite acompanhar uma das transformações mais fascinantes da linguagem musical ocidental: a passagem do barroco maduro para a estética sensível que abriria caminho ao classicismo. O resultado é um percurso que une tradição e inovação, tendo como protagonistas Johann Sebastian Bach e seu segundo filho, Carl Philipp Emanuel Bach.

A gravação abre com a Sinfonia em Mi menor, Wq 178, de Carl Philipp Emanuel, uma obra que sintetiza como poucas o chamado Empfindsamer Stil ("estilo sensível"). Publicada originalmente em 1759, a sinfonia impressionou seus contemporâneos pela intensidade dramática, pelas mudanças repentinas de caráter e pela ousadia harmônica. Diferentemente de muitos compositores de sua geração, C. P. E. Bach elimina interrupções entre os dois primeiros movimentos e constrói uma narrativa contínua, culminando em um final de extraordinária energia que antecipa procedimentos formais explorados apenas décadas depois.

Embora ainda conserve elementos herdados do barroco, a escrita orquestral já aponta para um novo horizonte. A expressividade ocupa o lugar da ornamentação, enquanto o contraste emocional passa a orientar o discurso musical. Não por acaso, o libreto destaca a influência que essas sinfonias exerceram sobre compositores como Haydn, Mozart e até o jovem Mendelssohn.

No centro do programa está o Concerto para Cravo em Ré menor, BWV 1052, uma das obras mais célebres de Johann Sebastian Bach. Longe de ser um concerto concebido de uma só vez, trata-se do resultado de um longo processo de reelaboração. Bach adaptou movimentos provenientes de cantatas compostas por volta de 1728, transformando introduções instrumentais e um coro em um concerto para teclado de impressionante unidade artística. Durante essa reconstrução, reescreveu profundamente a parte do solista, enriquecendo-a com novos ornamentos, contrapontos e uma escrita muito mais elaborada para a mão esquerda.

A interpretação de Luca Guglielmi, que também dirige o conjunto, recupera o espírito dessa obra sem tratá-la como um monumento intocável. O músico utiliza uma versão adaptada da célebre cadência escrita por Johannes Brahms para o último movimento, demonstrando como diferentes gerações continuaram dialogando criativamente com a música de Bach.

A segunda contribuição de Carl Philipp Emanuel é o Concerto para Violoncelo em Lá menor, Wq 170, composto em 1750, justamente o ano da morte de Johann Sebastian. O próprio libreto o descreve como uma obra profundamente pessoal, marcada por um caráter melancólico e por discretas referências à música do pai. Mais importante, porém, é sua impressionante modernidade. A retórica barroca ainda está presente, mas a busca por uma expressão mais intensa e dramática anuncia um novo tempo. O violoncelista Johannes Rostamo, diretor artístico da Orfeus Barock Stockholm, interpreta a obra com grande liberdade expressiva e chega a escrever sua própria cadência para o primeiro movimento, incorporando, de maneira surpreendente, referências ao grupo britânico Radiohead. O resultado não pretende ser uma provocação, mas uma demonstração de que a boa música continua capaz de dialogar com qualquer época.

Como delicado epílogo, o disco apresenta a Sinfonia da Cantata BWV 76, originalmente escrita para oboé d'amore, viola da gamba e contínuo, aqui recriada para violino, violoncelo e baixo contínuo. Segundo os intérpretes, trata-se de uma homenagem à amizade entre os músicos envolvidos na gravação, quase um bis oferecido ao ouvinte ao final do concerto.

A Orfeus Barock Stockholm nasceu em 2015 por iniciativa de integrantes da Royal Stockholm Philharmonic Orchestra apaixonados pela interpretação historicamente informada. Tocando instrumentos de época, o grupo procura equilibrar rigor musicológico e espontaneidade interpretativa, explorando tanto o grande repertório barroco quanto compositores menos conhecidos. Este primeiro registro fonográfico demonstra que a proposta foi plenamente alcançada.

Mais do que reunir obras de dois compositores da mesma família, este álbum evidencia um dos momentos decisivos da história da música europeia. Em Johann Sebastian Bach, encontramos o ápice do barroco; em Carl Philipp Emanuel, ouvimos o nascimento de uma nova sensibilidade que prepararia o caminho para o classicismo. A interpretação calorosa da Orfeus Barock Stockholm torna essa transição não apenas compreensível, mas profundamente emocionante, lembrando que a evolução da música nunca acontece por rupturas absolutas, mas por diálogos constantes entre tradição e inovação.

Uma boa apreciação! 

Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788) - 

Symphony in E minor, Wq 178

01. I. Allegro assai
02. II. Andante moderato
03. III. Allegro

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - 

Keyboard Concerto No.1 in D minor, BWV1052

04. I. Allegro
05. II. Adagio
06. III. Allegro

Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788) - 

Cello Concerto in A minor, Wq 170

07. I. Allegro assai
08. II. Andante
09. III. Allegro assai

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - 

10. Die Himmel erzählen die Ehre Gottes, BWV76 - Sinfonia

Orfeus Barock Stockholm
Luca Guglielmi, cravo e regência
Johannes Rostamo, violoncelo

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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - The 6 French Suites

"A jornada de Francesco Tristano pela obra para teclado de Johann Sebastian Bach ganha um novo capítulo com o lançamento da integral das Seis Suítes Francesas (BWV 812–817), compostas entre aproximadamente 1722 e 1725. Este é o quarto volume do ambicioso projeto desenvolvido pelo pianista luxemburguês para o selo naïve, que pretende registrar toda a produção de Bach para teclado.

As Suítes Francesas ocupam um lugar especial na trajetória artística de Tristano. Foi justamente esse ciclo que o levou a mergulhar de forma mais profunda e duradoura no universo bachiano. O intérprete destaca a beleza discreta e a serenidade quase contemplativa dessas obras, nas quais lirismo e clareza convivem com uma escrita de extraordinária precisão. Para ele, trata-se de uma música espontânea e expressiva, cuja fluidez jamais cede à pressa ou ao excesso de dramatização.

Sob uma aparente simplicidade, as Suítes Francesas revelam um refinamento estrutural notável. Depois da ampliação formal observada nas Suítes Inglesas — registradas por Tristano em 2025 —, Bach parece buscar aqui uma linguagem mais concentrada, condensando suas ideias em formas de extraordinária economia expressiva. Esse processo culminaria, posteriormente, na síntese magistral das Partitas, reunidas na primeira parte do Clavier-Übung, também já gravadas pelo pianista.

Apesar de sua importância, a execução integral das seis suítes permanece relativamente rara. A escrita despojada e a aparente ingenuidade das partituras escondem um sofisticado jogo de contrastes e uma elaboração formal de grande sutileza, fatores que tornam o ciclo um desafio interpretativo considerável. Obras como a Suíte em Mi maior, BWV 817, exemplificam essa delicada combinação entre concisão e riqueza expressiva.

Entre os destaques do programa figura justamente essa suíte, composta por nove movimentos cuidadosamente equilibrados. A obra oferece um amplo panorama das principais danças do barroco, reunindo Allemande, Courante, Sarabande, Gavotte, Bourrée, Gigue, Menuet polonais e Petit Menuet à la française. Nesta gravação, Tristano opta pela versão revisada da partitura, precedida pelo Prelúdio em Mi maior do primeiro livro de O Cravo Bem Temperado, estabelecendo uma introdução de grande coerência musical.

Do ponto de vista interpretativo, o pianista adota uma sonoridade particularmente calorosa e delicada. Em movimentos como a Allemande da Suíte BWV 814, a Sarabande da BWV 815 e a Air da BWV 813, privilegia um toque macio e intimista, ressaltando o caráter contemplativo dessas páginas. A opção contrasta de forma evidente com a abordagem mais expansiva e brilhante das Suítes Inglesas, registradas anteriormente, nas quais predominava uma sonoridade mais incisiva e de maior projeção.

Com este novo lançamento, Francesco Tristano reafirma seu compromisso de revisitar Bach sob uma perspectiva ao mesmo tempo rigorosa e pessoal. Ao explorar a elegância discreta e a profundidade das Suítes Francesas, o pianista acrescenta um capítulo de grande sensibilidade a um projeto que se consolida como uma das mais ambiciosas integrais contemporâneas da obra para teclado do compositor de Leipzig".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

 

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - 

01. French Suite No. 1 in D Minor, BWV 812: I. Allemande
02. French Suite No. 1 in D Minor, BWV 812: II. Courante
03. French Suite No. 1 in D Minor, BWV 812: III. Sarabande
04. French Suite No. 1 in D Minor, BWV 812: IV. Menuet I
05. French Suite No. 1 in D Minor, BWV 812: V. Menuet II
06. French Suite No. 1 in D Minor, BWV 812: VI. Gigue
07. French Suite No. 2 in C Minor, BWV 813: I. Allemande
08. French Suite No. 2 in C Minor, BWV 813: II. Courante
09. French Suite No. 2 in C Minor, BWV 813: III. Sarabande
10. French Suite No. 2 in C Minor, BWV 813: IV. Air
11. French Suite No. 2 in C Minor, BWV 813: V. Menuet (I)
12. French Suite No. 2 in C Minor, BWV 813: VI. Menuet (II, VWV 813a)
13. French Suite No. 2 in C Minor, BWV 813: VII. Gigue
14. French Suite No. 3 in B Minor, BWV 814: I. Allemande
15. French Suite No. 3 in B Minor, BWV 814: II. Courante
16. French Suite No. 3 in B Minor, BWV 814: III. Sarabande
17. French Suite No. 3 in B Minor, BWV 814: IV. Anglaise
18. French Suite No. 3 in B Minor, BWV 814: V. Menuet I
19. French Suite No. 3 in B Minor, BWV 814: VI. Menuet II (Trio)
20. French Suite No. 3 in B Minor, BWV 814: VII. Gigue
21. French Suite No. 4 in E-Flat Major, BWV 815: I. Allemande
22. French Suite No. 4 in E-Flat Major, BWV 815: II. Courante
23. French Suite No. 4 in E-Flat Major, BWV 815: III. Sarabande
24. French Suite No. 4 in E-Flat Major, BWV 815: IV. Gavotte
25. French Suite No. 4 in E-Flat Major, BWV 815: V. Air
26. French Suite No. 4 in E-Flat Major, BWV 815: VI. Menuet
27. French Suite No. 4 in E-Flat Major, BWV 815: VII. Gigue
28. French Suite No. 5 in G Major, BWV 816: I. Allemande
29. French Suite No. 5 in G Major, BWV 816: II. Courante
30. French Suite No. 5 in G Major, BWV 816: III. Sarabande
31. French Suite No. 5 in G Major, BWV 816: IV. Gavotte
32. French Suite No. 5 in G Major, BWV 816: V. Bourrée
33. French Suite No. 5 in G Major, BWV 816: VI. Loure
34. French Suite No. 5 in G Major, BWV 816: VII. Gigue
35. French Suite No. 6 in E Major, BWV 817: I. Prélude
36. French Suite No. 6 in E Major, BWV 817: II. Allemande
37. French Suite No. 6 in E Major, BWV 817: III. Courante
38. French Suite No. 6 in E Major, BWV 817: IV. Sarabande
39. French Suite No. 6 in E Major, BWV 817: V. Gavotte
40. French Suite No. 6 in E Major, BWV 817: VI. Menuet polonais
41. French Suite No. 6 in E Major, BWV 817: VII. Petit Menuet
42. French Suite No. 6 in E Major, BWV 817: VIII. Bourrée
43. French Suite No. 6 in E Major, BWV 817: IX. Gigue

Francesco Tristano Schlimé, piano 

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domingo, 2 de agosto de 2026

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - Brandenburg Concertos, Orchestral Suites

"Para os ouvintes mais familiarizados com a obra de Johann Sebastian Bach, é provável que já existam gravações favoritas dos Concertos de Brandemburgo e das Suítes Orquestrais. Para quem começa a explorar esse repertório, porém, esta coleção de três CDs, com Neville Marriner à frente da Academy of St Martin in the Fields, continua sendo uma opção particularmente atraente, combinando qualidade artística, excelente execução e uma abordagem acessível dessas obras fundamentais do barroco.

Realizadas em 1984 e 1985, as gravações conservam uma qualidade sonora bastante convincente para os padrões do início da era digital. Do ponto de vista interpretativo, Marriner não adota com o mesmo rigor as práticas historicamente informadas associadas a especialistas como Gustav Leonhardt ou Trevor Pinnock. Sua leitura, contudo, está longe de ignorar os conhecimentos musicológicos sobre o período. O resultado é um Bach elegante, vigoroso e musicalmente consistente, ainda que executado em instrumentos modernos — característica que poderá incomodar os defensores mais rigorosos dos instrumentos de época.

A Academy of St Martin in the Fields apresenta sua habitual excelência técnica. A execução é limpa, precisa e profundamente musical. Se a sonoridade não possui os timbres peculiares dos instrumentos históricos e pode parecer mais encorpada do que aquela preferida pelos admiradores de um barroco mais enxuto, dificilmente se poderá acusar essas interpretações de falta de vitalidade ou colorido.

Nos Concertos de Brandemburgo, Marriner privilegia energia e clareza, apoiado por solistas de excelente nível. O resultado é robusto e frequentemente empolgante. Um dos grandes destaques surge no Concerto de Brandemburgo nº 5, no qual George Malcolm assume o célebre solo de cravo com vigor e extraordinária presença, projetando-se claramente sobre o conjunto orquestral.

As interpretações das quatro Suítes Orquestrais também se destacam pelo cuidado técnico, pela aproximação criteriosa às práticas barrocas e pela qualidade da captação digital. Particularmente interessante é a Suíte nº 2 em Si menor, apresentada com um caráter mais vigoroso do que o habitual e executada com a mesma desenvoltura das suítes mais extrovertidas que a sucedem.

Nas Suítes nº 3 e nº 4, ambas em Ré maior, os metais assumem naturalmente posição de destaque, conferindo às interpretações um caráter festivo e jubiloso. Marriner e seus músicos exploram com entusiasmo essa dimensão cerimonial da escrita de Bach, sem comprometer a clareza das texturas.

O contraste mais expressivo aparece na célebre Ária da Suíte nº 3, posteriormente popularizada como Air on the G String. Aqui, a exuberância cede lugar à introspecção. A Academy interpreta a página com excepcional delicadeza, permitindo que sua serenidade melódica surja sem sentimentalismo excessivo.

Embora as décadas seguintes tenham produzido inúmeras gravações historicamente informadas capazes de oferecer perspectivas diferentes sobre essas obras, o Bach de Marriner mantém seu interesse. A elegância, a precisão e a vitalidade da Academy of St Martin in the Fields fazem desta coleção uma excelente introdução aos Concertos de Brandemburgo e às Suítes Orquestrais — e, mesmo para ouvintes experientes, um testemunho valioso de uma tradição interpretativa que soube conciliar o refinamento da orquestra moderna com uma compreensão cada vez mais profunda do estilo barroco".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - 

DISCO 01

Brandenburg Concerto No. 1 in F major, BWV 1046

01. 1. Allegro
02. 2. Adagio
03. 3. Allegro
04. 4. Menuet 1 - Trio 1 - Menuet 2 - Polonaise - Menuet 3 - Trio 2 - Menuet 4

Brandenburg Concerto No. 2 in F major, BWV 1047
05. 1. Allegro
06. 2. Andante
07. 3. Allegro assai

Brandenburg Concerto No. 3 in G major, BWV 1048

08. 1. Allegro
09. 2. Adagio
10. 3. Allegro

Brandenburg Concerto No. 4 in G major, BWV 1049
11. 1. Allegro
12. 2. Andante
13. 3. Presto

DISCO 02

Brandenburg Concerto No. 5 in D major, BWV 1050
01. 1. Allegro
02. 2. Affettuoso
03. 3. Allegro

Brandenburg Concerto No. 6 in B flat major, BWV 1051

04. 1. Allegro
05. 2. Adagio ma non tanto
06. 3. Allegro

Orchestral Suite No. 1 in C major, BWV 1066

07. 1. Overture
08. 2. Courante
09. 3. Gavotte 1 & 2
10. 4. Forlane
11. 5. Menuet 1 & 2
12. 6. Bourrée 1 & 2
13. 7. Passepied 1 & 2

DISCO 03

Orchestral Suite No. 2 in B minor, BWV 1067

01. 1. Overture
02. 2. Rondeau
03. 3. Sarabande
04. 4. Bourrée 1 & 2
05. 5. Polonaise
06. 6. Menuet
07. 7. Badinerie

Orchestral Suite No. 3 in D major, BWV 1068
08. 1. Overture
09. 2. Air
10. 3. Gavotte 1 & 2
11. 4. Bourrée
12. 5. Gigue

Orchestral Suite No. 4 in D major, BWV 1069

13. 1. Overture
14. 2. Bourrée 1 & 2
15. 3. Gavotte
16. 4. Menuet 1 & 2
17. 5. Réjouissance

Academy of St Martin in the Fields
Neville Marriner, regente 

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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Demidenko plays Bach-Busoni

Há quem veja a transcrição musical como um exercício de adaptação, quase uma concessão prática. Ferruccio Busoni pensava exatamente o contrário. Para ele, toda execução já era, em alguma medida, uma transcrição: a passagem da ideia musical para o som. Sob essa perspectiva, recriar Johann Sebastian Bach para o piano não significava diminuir o original, mas revelar novas possibilidades expressivas de uma música capaz de sobreviver a qualquer meio. O álbum Bach-Busoni Transcriptions, interpretado pelo pianista russo Nikolai Demidenko, reúne algumas das mais célebres recriações do compositor italiano e oferece uma oportunidade privilegiada para compreender uma das mais fascinantes relações de continuidade da história da música.

Busoni foi uma das personalidades mais extraordinárias da vida musical europeia. Pianista de técnica monumental, compositor, regente, pensador e professor, enxergava a tradição não como um museu, mas como matéria viva. Admirador profundo de Bach, Beethoven e Liszt, defendia que as grandes obras permanecem essencialmente as mesmas, qualquer que seja o instrumento que lhes dê voz. Em um célebre texto de 1910, afirma que uma transcrição não destrói o original; ao contrário, revela sua essência sob outra linguagem. Essa ideia orienta todo o repertório reunido neste disco.

As obras escolhidas mostram diferentes facetas dessa concepção artística. A monumental Tocata e Fuga em Ré menor, BWV 565, originalmente escrita para órgão, transforma-se em um espetáculo pianístico de enorme impacto sonoro, sem perder a arquitetura contrapontística de Bach. A célebre Tocata, Adagio e Fuga em Dó maior, a fantasia coral Ich ruf' zu dir, Herr Jesu Christ e os demais prelúdios corais revelam outra dimensão de Busoni: a capacidade de preservar a espiritualidade da música sacra enquanto explora toda a riqueza tímbrica do piano moderno.

Talvez a obra mais comovente da coletânea seja o Capriccio sobre a partida do irmão muito amado, uma das primeiras composições de Bach. Busoni amplia suas possibilidades expressivas sem trair o caráter profundamente humano da peça. Cada episódio - o lamento, a despedida, a marcha e a fuga final - ganha nova densidade pianística, demonstrando que a transcrição pode ser também um exercício de interpretação histórica e afetiva.

O libreto insiste em um aspecto importante: Busoni jamais buscou imitar o órgão ou reproduzir mecanicamente a escrita bachiana. Seu objetivo era recriar a música segundo os recursos específicos do piano, aproveitando toda a extensão do teclado, as possibilidades de dinâmica, de pedalização e de coloração sonora disponíveis no instrumento moderno. Assim, suas transcrições não pretendem substituir Bach, mas estabelecer um diálogo entre dois criadores separados por quase dois séculos, unidos pela mesma ambição artística.

Essa postura diferencia Busoni de muitos transcritores românticos. Enquanto outros procuravam apenas tornar obras célebres acessíveis ao público dos salões, ele utilizava a transcrição como um laboratório de composição e interpretação. Cada página evidencia não apenas sua devoção ao mestre barroco, mas também sua própria personalidade criativa. O resultado pertence simultaneamente aos dois compositores: reconhecemos imediatamente Bach, mas também ouvimos a voz inconfundível de Busoni.

Nikolai Demidenko mostra-se o intérprete ideal para esse repertório. Pianista de extraordinária solidez técnica e refinamento intelectual, evita transformar essas obras em simples demonstrações de virtuosismo. Seu toque privilegia a clareza das vozes, a arquitetura do contraponto e a construção das grandes linhas musicais, permitindo que o ouvinte perceba tanto a grandeza de Bach quanto a inteligência criativa de Busoni.

Mais do que um recital de transcrições, este álbum convida à reflexão sobre a própria natureza da criação artística. Ele demonstra que a tradição não se preserva pela repetição literal, mas pela capacidade de dialogar com cada nova época. Nas mãos de Busoni, Bach não é um monumento intocável: continua vivo, respirando através do piano moderno, provando que as grandes obras jamais pertencem exclusivamente ao passado.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

01 Toccata And Fugue In D Minor, BWV 565 - I.
02 Toccata And Fugue In D Minor, BWV 565 - II.
03 Chorale Prelude In F Minor 'Ich Ruf' zu Dir, Herr Jesu Christ' BWV 639
04 Capriccio In B-Flat Major _On The Departure Of A Beloved Brother_ BWV 992-Ario
05 Capriccio In B-Flat Major _On The Departure Of A Beloved Brother_ BWV 992-Fuga
06 Capriccio In B-Flat Major _On The Departure Of A Beloved Brother_ BWV 992-Adag
07 Capriccio In B-Flat Major _On The Departure Of A Beloved Brother_ BWV 992-Mars
08 Capriccio In B-Flat Major _On The Departure Of A Beloved Brother_ BWV 992-Aria
09 Capriccio In B-Flat Major _On The Departure Of A Beloved Brother_ BWV 992-Fuga
10 Chorale Prelude In G Minor _Nun Komm Der Heiden Heiland,_ BWV 659
11 Organ Prelude And Fugue In E-Flat Major, BWV 552 ('St. Anne') - I.
12 Organ Prelude And Fugue In E-Flat Major, BWV 552 ('St. Anne') - II.
13 Chorale Prelude In G Major _Nun Freut Euch, Lieben Christen Gmein,_ BWV 734
14 Toccata, Adagio And Fugue In C Major, BWV 564 - I - Prelude
15 Toccata, Adagio And Fugue In C Major, BWV 564 - II - Intermezzo
16 Toccata, Adagio And Fugue In C Major, BWV 564 - III - Fugue

Nikolai Demidenko, piano 

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domingo, 26 de julho de 2026

Martha Argerich - The Piano Concertos Collection - Prokofiev, Beethoven, Shostakovich, Ravel, J.S. Bach e Tchaikovsky

"The Piano Concertos Collection reúne, em dezenove faixas, um amplo panorama da extraordinária arte pianística de Martha Argerich, uma das intérpretes mais admiradas e influentes da atualidade. Gravado integralmente ao vivo, o álbum registra a pianista argentina em diferentes momentos de sua carreira, revelando a intensidade, a espontaneidade e o virtuosismo que a transformaram em uma referência incontornável da interpretação pianística.

O repertório percorre algumas das mais importantes páginas do concerto romântico, sem deixar de lado obras marcantes do século XX. Essa diversidade permite acompanhar as múltiplas facetas da personalidade musical de Argerich, capaz de transitar com igual naturalidade entre o lirismo, a exuberância técnica e a profundidade expressiva.

Ao longo da coletânea, a pianista divide o palco com um elenco de prestigiados maestros e orquestras. Entre eles destacam-se Charles Dutoit à frente da Orquestra Filarmônica de Israel, Lahav Shani, Sylvain Cambreling dirigindo a Orquestra Sinfônica de Hamburgo e o pianista Adrian Iliescu, parceiros que contribuem para evidenciar diferentes aspectos da interpretação da artista. Cada colaboração acrescenta novas cores ao conjunto, oferecendo leituras marcadas pelo diálogo constante entre solista e orquestra.

O programa percorre universos estéticos bastante distintos. A energia impetuosa dos concertos de Sergei Prokofiev evidencia o vigor e a ousadia técnica de Argerich, enquanto a escrita refinada de Maurice Ravel revela sua precisão cristalina e extraordinária riqueza de timbres. Em contraste, as obras de Johann Sebastian Bach e Ludwig van Beethoven permitem apreciar uma intérprete de rara profundidade musical, capaz de conciliar rigor estrutural, sensibilidade poética e intensa comunicação emocional.

Mais do que uma simples antologia, The Piano Concertos Collection constitui um retrato abrangente de uma artista cuja carreira redefiniu os padrões da interpretação pianística nas últimas décadas. A atmosfera das apresentações ao vivo acrescenta um elemento de espontaneidade que intensifica a força de cada execução, preservando a tensão criativa e a emoção do momento irrepetível do concerto.

Para admiradores de longa data, a coletânea oferece uma síntese eloquente das qualidades que fizeram de Martha Argerich uma verdadeira lenda do piano. Para novos ouvintes, representa uma excelente porta de entrada para o universo artístico de uma intérprete cuja combinação de técnica fulgurante, imaginação musical e intensidade expressiva continua a estabelecer um parâmetro de excelência na música de concerto".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!  

01. Piano Concerto No. 3 in C Major, Op. 26: I. Andante – Allegro
02. Piano Concerto No. 3 in C Major, Op. 26: II. Tema con variazioni
03. Piano Concerto No. 3 in C Major, Op. 26: III. Allegro ma non troppo
04. Piano Concerto in B-Flat Major No. 2, Op. 19: I. Allegro con brio
05. Piano Concerto in B-Flat Major No. 2, Op. 19: II. Adagio
06. Piano Concerto in B-Flat Major No. 2, Op. 19: III. Rondo. Molto allegro
07. Concerto for Piano, Trumpet and String Orchestra in C Minor, Op. 35: I. Allegro moderato
08. Concerto for Piano, Trumpet and String Orchestra in C Minor, Op. 35: II. Lento
09. Concerto for Piano, Trumpet and String Orchestra in C Minor, Op. 35: III. Moderato
10. Concerto for Piano, Trumpet and String Orchestra in C Minor, Op. 35: IV. Allegro con brio
11. Piano Concerto in G Major: I. Allegramente
12. Piano Concerto in G Major: II. Adagio assai
13. Piano Concerto in G Major: III. Presto
14. Concerto for Four Harpsichords and Strings in A Minor, BWV. 1065: I. Allegro
15. Concerto for Four Harpsichords and Strings in A Minor, BWV. 1065: II. Largo
16. Concerto for Four Harpsichords and Strings in A Minor, BWV. 1065: III. Allegro
17. Piano Concerto No. 1 in B Minor, Op. 23: II. Andantino semplice – Prestissimo – Tempo I
18. Piano Concerto No. 1 in B Minor, Op. 23: III. Allegro con fuoco
19. Piano Concerto No. 1 in B Minor, Op. 23: I. Allegro non troppo e molto maestoso

Symphoniker Hamburg
Sylvain Cambreling, regente
Israel Philharmonic Orchestra
Lahav Shani, regente
Symphoniker Hamburg
Charles Dutoit
Sergei Nakariakov, trumpete
Martha Argerich, piano
 

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terça-feira, 21 de julho de 2026

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - Goldberg Variations (Version for 2 Pianos by Rheinberger/Reger)


"Desde sua primeira edição autorizada, publicada entre 1741 e 1742, as Variações Goldberg ocupam um lugar central no repertório para teclado e figuram entre as obras mais emblemáticas da história da música ocidental. Com o advento da indústria fonográfica, a partitura de Johann Sebastian Bach tornou-se um verdadeiro rito de passagem para grandes pianistas, que nela encontraram um espaço privilegiado para afirmar suas identidades artísticas. Interpretações históricas de nomes como Glenn Gould, Evgeny Koroliov, Maria Tipo e Rosalyn Tureck ajudaram a consolidar a obra como um dos maiores desafios da literatura pianística.

A influência das Variações Goldberg estendeu-se também ao campo dos arranjos. Ao longo das décadas, a obra recebeu versões para violão, órgão, trio de cordas e até uma monumental adaptação pianística de Ferruccio Busoni, testemunhando sua inesgotável capacidade de inspirar novas leituras sem perder sua identidade.

Menos conhecida, porém igualmente fascinante, é a transcrição realizada por Josef Rheinberger e posteriormente revisada por Max Reger. Durante muito tempo esquecida, essa versão ressurge agora graças a uma nova gravação lançada pela Sony Classical, em parceria com a Bayer Kultur e o festival Max-Reger-Tage. O projeto ganha vida nas mãos da consagrada dupla de pianistas Yaara Tal e Andreas Groethuysen, responsáveis por devolver ao repertório uma das mais curiosas releituras da obra-prima bachiana.

Profundo admirador de Bach, Rheinberger concebeu, no início da década de 1880, uma versão para dois pianos guiada por três objetivos principais. O primeiro consistia em ampliar a dimensão sonora da obra, explorando possibilidades quase orquestrais proporcionadas pelos dois instrumentos. O segundo buscava preservar integralmente a clareza da extraordinária arquitetura contrapontística de Bach. Por fim, como compositor plenamente inserido no universo romântico, Rheinberger procurou enriquecer a partitura com novos recursos expressivos, aproximando-a da linguagem pianística de seu tempo. O resultado foi amplamente elogiado por sua inventividade e pelo elevado grau de virtuosismo.

Entre 1909 e 1915, Max Reger assumiu a defesa dessa versão em diversos recitais e promoveu uma nova revisão da partitura. Sua intervenção acrescentou uma dimensão interpretativa ainda mais sofisticada, marcada por detalhadas indicações de dinâmica, refinamento na construção das frases e uma exploração das possibilidades tímbricas herdadas de sua vasta experiência como compositor para órgão. Reger procurou realçar a eloquência e o dinamismo próprios da música barroca sem renunciar à intensidade emocional característica do romantismo tardio.

É justamente essa dupla herança que Yaara Tal e Andreas Groethuysen exploram com notável sensibilidade. A interpretação combina absoluto rigor contrapontístico, cuidadosa valorização das linhas do baixo e refinada construção das unidades motívicas, preservando a transparência polifônica da escrita de Bach enquanto evidencia a riqueza expressiva acrescentada por Rheinberger e Reger.

Um dos aspectos mais marcantes da gravação é o uso extremamente criterioso dos contrastes. Na 17ª variação, por exemplo, a dupla alterna delicadíssimos pianissimi com passagens de brilho quase etéreo, criando uma atmosfera de rara elegância. Também chama atenção a liberdade com que administra os andamentos: as variações mais contemplativas — como a Ária e as de números 13 e 25 — são conduzidas em tempos amplos, permitindo que a música respire e revele toda a profundidade de sua arquitetura. Em contrapartida, variações de caráter mais virtuoso, como as de números 5, 14, 19 e 20, irradiam energia, leveza e um irresistível senso de vitalidade.

Outro mérito da interpretação reside na atenção dedicada às repetições, frequentemente tratadas apenas como convenção formal. Aqui, cada retorno é cuidadosamente diferenciado, ampliando a expressividade do discurso musical e recuperando uma prática interpretativa profundamente ligada à tradição barroca.

Com pouco mais de 76 minutos de duração, esta gravação vai muito além da simples recuperação de uma curiosidade histórica. Ela oferece uma perspectiva inédita sobre uma das obras mais celebradas do repertório pianístico, estabelecendo um diálogo entre Bach, Rheinberger, Reger e os intérpretes contemporâneos. O resultado é uma leitura de extraordinária elegância e imaginação, capaz de lançar nova luz sobre um monumento da música ocidental e de reafirmar a inesgotável vitalidade das Variações Goldberg".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - 

01. Aria: Andante Espressivo
02. Variation I: Più Animato
03. Variation II: Allegretto
04. Variation III: Canone All' Unisono. Andantino
05. Variation IV: Energico
06. Variation V: Con Fuoco
07. Variation VI: Canone Alla Seconda. Allegro
08. Variation VII: Allegretto Scherzando
09. Variation VIII: Allegro
10. Variation IX: Canone Alla Terza. Moderato
11. Variation X: Fughetta, Alla Breve
12. Variation XI: Allegro
13. Variation XII: Canone Alla Quarta. Andanta
14. Variation XIII: Adagio
15. Variation XIV: Con Fuoco
16. Variation XV: Canone Alla Quinta. Adagio
17. Variation XVI: Overture. Maestoso-Allegretto
18. Variation XVII: Poco Allegro
19. Variation XVIII: Canone Alla Sexta. Alla Breve
20. Variation XIX: Allegretto
21. Variation XX: Allegro Marcato
22. Variation XXI: Canone Alla Settima
23. Variation XXII: Alla Breve
24. Variation XXIII: Allegro
25. Variation XXIV: Canone All' Ottava. Andantino
26. Variation XXV: Adagio Espressivo
27. Variation XXVI: Allegro Deciso
28. Variation XXVII: Canone Alla Nona. Allegro
29. Variation XXVIII: Allegretto
30. Variation XXIX: Allegro
31. Variation XXX: Quodlibet
32. Aria. Andante Espressivo

Yaara Tal, piano
Andreas Groethuysen, piano 

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sexta-feira, 17 de julho de 2026

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - The Complete Keyboard Concertos

"O ambicioso projeto de Mahan Esfahani de registrar a integral das obras para cravo de Johann Sebastian Bach alcança um de seus momentos mais significativos com o lançamento de The Complete Keyboard Concertos. Mais do que uma nova gravação das célebres partituras, o álbum reafirma a proposta artística que norteia toda a série: revisitar Bach sob uma perspectiva renovada, questionando interpretações cristalizadas ao longo de décadas e convidando o ouvinte a redescobrir um compositor cuja modernidade permanece surpreendente.

Em cada etapa desse projeto, Esfahani tem procurado desafiar concepções tradicionais sobre a música de Bach. Nesta gravação, a parceria com a Britten Sinfonia representa uma das escolhas mais ousadas. Em vez de recorrer a instrumentos de época, como seria esperado em uma abordagem historicamente informada, o cravista opta por dialogar com uma orquestra de instrumentos modernos, demonstrando que o cravo está longe de ser uma relíquia do passado. Pelo contrário, surge aqui como um instrumento de extraordinária vitalidade, plenamente capaz de dialogar com uma sonoridade contemporânea sem perder sua identidade.

Essa perspectiva é aprofundada nas notas de livreto escritas pelo próprio Esfahani, sempre marcadas por rigor acadêmico e grande capacidade de comunicação. Nelas, o intérprete apresenta Bach como um verdadeiro inovador, destacando o papel pioneiro do compositor ao colocar o instrumento de teclado no centro do concerto, inaugurando um modelo que influenciaria profundamente toda a história da música ocidental.

Além de atuar como solista e diretor musical, Esfahani acrescenta uma nova faceta ao projeto ao assumir também o papel de compositor e pesquisador. O álbum traz a primeira gravação de sua reconstrução do chamado Concerto Perdido nº 8 (BWV 1059), obra preservada apenas em um fragmento. A partir desse material incompleto, o músico elaborou uma reconstrução que busca respeitar o pensamento musical de Bach sem abrir mão de um sólido trabalho crítico e criativo.

O resultado é um lançamento que transcende o simples registro fonográfico. Trata-se de uma reflexão sobre a permanência da música de Bach, apresentada por um intérprete que alia virtuosismo, erudição e espírito investigativo. Ao desafiar convenções e propor novas formas de escutar essas obras fundamentais, Mahan Esfahani reafirma não apenas a inesgotável riqueza do repertório bachiano, mas também a capacidade da grande música de renovar continuamente o diálogo entre tradição e modernidade".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação! 

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - 

DISCO 01


01 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in D Minor, BWV 1052_ I. Allegro
02 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in D Minor, BWV 1052_ II. Adagio
03 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in D Minor, BWV 1052_ III. Allegro
04 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in E Major, BWV 1053_ I. [Allegro]
05 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in E Major, BWV 1053_ II. Siciliano
06 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in E Major, BWV 1053_ III. Allegro
07 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in D Major, BWV 1054 (After BWV 1042)_ I. [Allegro]
08 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in D Major, BWV 1054 (After BWV 1042)_ II. Adagio e piano sempre
09 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in D Major, BWV 1054 (After BWV 1042)_ III. Allegro
10 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in F Major, BWV 1057_ I. [Allegro]
11 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in F Major, BWV 1057_ II. Andante
12 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in F Major, BWV 1057_ III. Allegro assai

DISCO 02

01 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in A Major, BWV 1055_ I. Allegro
02 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in A Major, BWV 1055_ II. Larghetto
03 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in A Major, BWV 1055_ III. Allegro ma non tanto
04 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in F Minor, BWV 1056_ I. [Allegro]
05 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in F Minor, BWV 1056_ II. Adagio
06 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in F Minor, BWV 1056_ III. Presto
07 J.S. Bach_ Concerto for Flute, Violin & Harpsichord in A Minor, BWV 1044_ I. Allegro
08 J.S. Bach_ Concerto for Flute, Violin & Harpsichord in A Minor, BWV 1044_ II. Adagio ma non tanto e dolce
09 J.S. Bach_ Concerto for Flute, Violin & Harpsichord in A Minor, BWV 1044_ III. Tempo di alla breve
10 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in G Minor, BWV 1058 (After BWV 1041)_ I. [Allegro]
11 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in G Minor, BWV 1058 (After BWV 1041)_ II. Andante
12 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in G Minor, BWV 1058 (After BWV 1041)_ III. Allegro assai
13 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in D Minor, BWV 1059 (Reconstr. Esfahani)_ I. Allegro
14 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in D Minor, BWV 1059 (Reconstr. Esfahani)_ II. Cembalo ad libitum
15 J.S. Bach_ Keyboard Concerto in D Minor, BWV 1059 (Reconstr. Esfahani)_ III. Presto

Britten Sinfonia
Mahan Esfahani, cravo 

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quarta-feira, 24 de junho de 2026

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - Die Kunst Der Fuge, BWV 1080

Texto escrito por Arthur Nestrovski e publicado na Folha de São Paulo, lá pelos idos de 2000:

"Nesta obra se encontram as mais recônditas belezas possíveis na arte da música." A frase vem do prefácio de Friedrich Marpurg à segunda edição de "A Arte da Fuga", de 1752; os termos são de época, mas expressam um consenso dos músicos até hoje.

Publicada postumamente, inacabada e sem instrumentação definida, "A Arte da Fuga" está num limite do que pode a música. Ela mesma é esse limite para as doze gerações de compositores desde Bach (1685-1750). (...) Em 1746, Bach foi eleito membro da Sociedade de Ciências Musicais de Leipzig. A honraria implicava trabalho: cada membro deveria apresentar à Sociedade uma composição nova por ano, que desse mostra de sua ciência e arte. 

Bach escreveu uma série de cânones em 1747, a "Oferenda Musical" em 1748 e provavelmente tinha intenção de apresentar "A Arte da Fuga" no ano seguinte. Uma catarata, que o levou à cegueira, impediu para sempre a conclusão da partitura. O que se tem é virtualmente a obra inteira: 13 fugas (duas delas em duas versões: normal e "espelhada"), mais quatro cânones. A décima-quarta fuga, verdadeira apoteose, combinaria três temas novos com o tema original do ciclo inteiro. É precisamente este tema que fica faltando quando a partitura se interrompe.

O fato de o terceiro tema corresponder às letras do nome BACH (si bemol, lá, dó, si, em notação alemã) dá um sentido fatídico, para não dizer fantasmagórico, à mais impessoal das composições. "

Texto completo aqui

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - 

DISCO 01

01 - Contrapunctus I
02 - Contrapunctus III
03 - Canon alla Decima Contrapunto alla Terza
04 - Contrapunctus II
05 - Contrapunctus IV
06 - Canon alla Ottava
07 - Contrapunctus V
08 - Contrapunctus IX a 4 alla Duodecima
09 - Contrapunctus X a 4 alla Decima

DISCO 02

01 - Contrapunctus VI a 4 in Stylo Francese 
02 - Contrapunctus VII a 4 per Augmentationem et Diminutionem
03 - Canon alla Duodecima in Contrapunto alla Quinta
04 - Contrapunctus VIII a 3
05 - Contrapunctus XI a 4
06 - Canon IV per Augmentationem in Contrario Motu
07 - Fuga a 3 Soggetti (Contrapunctus XIV)

Martha Cook, cravo

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terça-feira, 9 de junho de 2026

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - Sonatas for Flute & Harpsichord

"Embora a origem exata das sonatas para flauta e cravo de Bach permaneça incerta, sua classificação também tem sido objeto de intenso debate musicológico. As três primeiras são frequentemente descritas como Sonaten auf Concertenart — sonatas em estilo de concerto —, um gênero híbrido que conheceu grande popularidade entre aproximadamente 1720 e 1740. É possível, portanto, que Bach tenha deliberadamente explorado novas possibilidades formais nessas obras, experimentando com os limites entre a sonata e o concerto.

A Sonata em Mi bemol maior, BWV 1031, especialmente por seu encantador siciliano, talvez seja a mais conhecida de todas as sonatas para flauta do compositor, ocupando um lugar privilegiado no repertório. No entanto, cada uma dessas obras oferece uma perspectiva fascinante sobre a maneira como Bach compreendia e reinventava o gênero da sonata, revelando uma inesgotável riqueza de invenção melódica, refinamento estrutural e imaginação contrapontística.

Mais do que simples peças de câmara, essas sonatas testemunham a capacidade singular de Bach de transformar formas estabelecidas em laboratórios de criação musical, conciliando elegância, profundidade e uma extraordinária variedade de ideias".

Não deixe ouvir. Uma boa apreciação! 

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - 

03. Flute Sonata in B Minor, BWV 1030: III. Presto
04. Flute Sonata in E-Flat Major, BWV 1031: I. Allegro moderato
05. Flute Sonata in E-Flat Major, BWV 1031: II. Siciliano
06. Flute Sonata in E-Flat Major, BWV 1031: III. Allegro
07. Flute Sonata in A Major, BWV 1032: I. Vivace
08. Flute Sonata in A Major, BWV 1032: II. Largo e dolce
09. Flute Sonata in A Major, BWV 1032: III. Allegro
10. Flute Sonata in C Major, BWV 1033: I. Andante-Presto
11. Flute Sonata in C Major, BWV 1033: II. Allegro
12. Flute Sonata in C Major, BWV 1033: III. Adagio
13. Flute Sonata in C Major, BWV 1033: IV. Menuetto
14. Flute Sonata in E Minor, BWV 1034: I. Adagio ma non tanto
15. Flute Sonata in E Minor, BWV 1034: II. Allegro
16. Flute Sonata in E Minor, BWV 1034: III. Andante
17. Flute Sonata in E Minor, BWV 1034: IV. Allegro
18. Flute Sonata in E Major, BWV 1035: I. Adagio ma non tanto
19. Flute Sonata in E Major, BWV 1035: II. Allegro
20. Flute Sonata in E Major, BWV 1035: III. Siciliano
21. Flute Sonata in E Major, BWV 1035: IV. Allegro assai

Pauliina Fred, flauta
Aapo Häkkinen, cravo 

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domingo, 24 de maio de 2026

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - Matthaus Passion, BWV 244

 

Composta para a sexta-feira santa de 1727, executada na Igreja de São Tomás de Leipzig da qual Bach era o diretor musical, desde sempre essa “Paixão” foi planejada como algo importante. Já comentamos que Bach teve, por bom tempo, que compor cantatas semanais para a igreja. A “Paixão” se diferencia de todas elas não comente pela duração maior, mas pela ambição maior. Índice melhor disso é sua instrumentação: oito solistas vocais, dois coros, órgão e DUAS orquestras. A obra é grande por design.

Mais exemplos: lembram quando falei da estrutura básica da cantata bachiana, com seu esquema coro-ária-recitativo-coral? Ela está presente aqui, mas em grande escala e com vários twists. Bach aqui brinca de fundir seus moldes, criando compósitos incrivelmente expressivos. Vejam só: a obra já inicia LOGO DE CARA com dois coros sobrepostos a um coral, em que comentários poéticos de Picander são cantados em antífonas, e um hino luterano é cantado por um terceiro coro, ao mesmo tempo. É eletrizante! Funciona como se Bach mostrasse suas credenciais, desse um roundhouse kick e dissesse: “agora o BICHO VAI PEGAR!”.

E pegou mesmo! Seguem a esse coro-coro-coral absurdo mais 67 números de arrepiar os cabelos, em duas grandes partes (1-29, 30-68). É um desfile de momentos de beleza e profundidade inacreditáveis, que não somente contam a história do martírio de Jesus, mas despertam reflexões muito além de qualquer religião.

São cerca de duas horas e meia de música e é até difícil listar minhas partes favoritas. Em geral gosto dos coros (ah, os de abertura e fim de obra!), e das fusões, como o duo/coral do número 27, o recitativo/coro/ária/coro dos números 19-20 ou o recitativo/coro do número 67, o penúltimo. Várias árias ficaram imensamente célebres, como a de número 39, para voz de contralto (e violino obbligato); a de número 35, para tenor (e violoncelo obbligato); e especialmente a de número 65, para baixo, um dos supremos exemplos de alegria triste (ou tristeza alegre?) da história da música.

E pensar que tal monumento tenha passado quase 100 anos na obscuridade? Bach certamente promoveu mais uma ou duas audições da “Paixão” depois da estreia, mas depois disso a obra sumiu. Foi resgatada em 1829 por Mendelssohn e, aí sim, nunca mais deixou de ser reverenciada – universalmente, por músicos e plateia, cristãos e ateus, são-paulinos e corintianos…

Daqui 

Johann Sebastian Bach (1685-1750) - 

DISCO 01

01. First Part: Kommt, Ihr Tochter, Helft Mir Klagen   
02.  First Part. Recitative: Da Jesus Diese Rede   
03.  First Part. Chorale: Herzliebster Jesu   
04.  First Part. Recitative: Da Versammelten Sich   
05.  First Part: Ja Nicht Auf Das Fest/Recitative: Da Nun Jesus War Zu Bethanien   
06.  First Part: Wozu Dienet Dieser Unrath/Recitative: Da Das Jesus Merkete   
07.  First Part. Recitative: Du Lieber Heiland Du   
08.  First Part. Arie: Buss Und Reu   
09.  First Part. Recitative: Da Ging Hin Der Zwolfen Einer   
10.  First Part. Arie: Blute Nur, Du Liebes Herz   
11.  First Part. Recitative: Aber Am Ersten Tag Der Sussen Brod/Wo Willst Du, Dass Wir Dir Bereiten   
12.  First Part. Recitative: Gehet Hin In Die Stadt Zu Einem/Recitative: Und Sie Wurden Sehr Betrubt..."   
13.  First Part. Chorale: Ich Bin's, Ich Sollte Bussen   
14.  First Part. Recitative: Er Antwortete Und Sprach   
15.  First Part. Recitative: Wiewohl Mein Herz In Thranen Schwimmt   
16.  First Part. Arie: Ich Will Dir Mein Herze Schenken   
17.  First Part. Recitative: Und Da Sie Den Lobgesang Gesprochen Hatten   
18.  First Part. Chorale: Erkenne Mich, Mein Huter   
19.  First Part. Recitative: Petrus Aber Antwortete   
20.  First Part. Chorale: Ich Will Hier Bei Dir Stehen   
21.  First Part. Recitative: Da Kam Jesus Mit Ihnen Zu Einem Hofe   
22.  First Part. Recitative: O Schmerz!"  
23.  First Part. Arie: Ich Will Bei Meinem Jesu Wachen   
24.  First Part. Recitative: Und Ging Hin Ein Wenig   
25.  First Part. Recitative: Der Heiland Fallt Vor Seinem Vater Nieder  
26.  First Part. Arie: Gerne Will Ich Mich Bequemen   
27.  First Part. Recitative: Und Er Kam Zu Seinen Jungern   
28.  First Part. Chorale: Was Mein Gott Will  
29.  First Part. Recitative: Und Er Kam Und Fand Sie Aber Schlafend  

DISCO 02

01.  Second Part: So Ist Mein Jesus Nun Gefangen   
02.  Second Part: Und Siehe, Einer Von Denen   
03.  Second Part: O Mensch, Bewein Dein Sunde Gross   
04.  Second Part: Ach Nun Ist Mein Jesus Hin   
05.  Second Part: Die Aber Jesum Gegriffen Hatten   
06.  Second Part: Mir Hat Die Welt Truglich Gericht   
07.  Second Part: Mein Jesus Schweigt Zu Falschen Lugen   
08.  Second Part: Gedult!"   
09.  Second Part: Und Der Hohepriester Antwortete   
10.  Second Part: Da Speieten Sie Aus   
11.  Second Part: Wer Hat Dich So Geschlagen   
12.  Second Part: Petrus Aber Sass Draussen Im Palast   
13.  Second Part: Erbarme Dich, Mein Gott   
14.  Second Part: Bin Ich Gleich Von Dir Gewichen   
15.  Second Part: Des Morgens Aber   
16.  Second Part: Gebt Mir Meinen Jesum Wieder   
17.  Second Part: Sie Aber Hielten Einen Rat   
18.  Second Part: Befiel Du Deine Wege   
19.  Second Part: Auf Das Fest  
20.  Second Part: Wie Wunderbarlich Ist Doch Diese Strafe   
21.  Second Part: Der Landpfleger Sagte   
22.  Second Part: Er Hat Uns Allen Wohlgetan
23. Second Part: Aus Liebe Will Mein Heiland Sterben   

DISCO 03

01.  Third Part: Sie Aber Schrieen Noch Mehr   
02.  Third Part: Erbarm Es Gott   
03.  Third Part: Konnen Tranen Meiner Wangen   
04.  Third Part: Da Nahmen Die Kriegsknechte   
05.  Third Part: O Haupt Voll Blut Und Wunden   
06.  Third Part: Und Da Sie Ihn Verspottet Hatten   
07.  Third Part: Ja! Freilich Will In Uns Das Fleisch Und Blut   
08.  Third Part: Komm, Susses Kreuz, So Will Ich Sagen   
09.  Third Part: Und Als Sie An Die Statte Kamen   
10.  Third Part: Desgleichen Schmaheten Ihn Auch Die Morder   
11.  Third Part: Ach Golgatha, Unsel'ges Golgatha!   
12.  Third Part: Sehet, Jesus Hat Die Hand   
13.  Third Part: Und Von Der Sechsten Stunde An   
14.  Third Part: Wenn Ich Einmal Soll Scheiden   
15.  Third Part: Und Siehe Da   
16.  Third Part: Am Abend, Da Es Kuhle War   
17.  Third Part: Mach Dich Mein Herze Frei   
18.  Third Part: Und Joseph Nahm Den Leib   
19.  Third Part: Nun Ist Der Herr Zur Ruh Gebracht
20.  Third Part: Wir Setzen Uns Mit Tranen Nieder

Großer Chor des Berliner Rundfunks 
The Boys’ Chor der St. Hedwigs-Kathedrale Berlin
Runfunk-Sinfonieorchester Berlin 

Fritz Lehmann, regente 

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sábado, 9 de maio de 2026

Johan Sebastian Bach (1685-1750) - Coffee Cantata BWV 211 e Peasant Cantata BWV 212

A chamada "Coffee Cantata" - oficialmente Schweigt stille, plaudert nicht (“Silêncio, parem de tagarelar”) - foi composta provavelmente entre 1732 e 1735. O libreto é de Christian Friedrich Henrici, colaborador frequente de Bach. A obra nasceu em um contexto muito específico: a explosão da cultura dos cafés na Europa Central. Em Leipzig, os cafés haviam se tornado pontos de encontro da burguesia, de estudantes e intelectuais, seguindo uma tendência iniciada em cidades como Londres e Paris.

O café, porém, era cercado de controvérsias. Muitos moralistas alemães viam o hábito como um luxo estrangeiro perigoso, associado à ociosidade e à decadência de costumes. A cantata explora esse debate em tom cômico: o pai Schlendrian tenta impedir sua filha Lieschen de beber café compulsivamente, ameaçando retirar privilégios e até impedir seu casamento. Lieschen, no entanto, resiste com humor e astúcia. Em uma das árias mais famosas da obra, ela declara que prefere mil beijos a abandonar o café.

Mais do que uma peça divertida, a cantata revela transformações sociais importantes. O consumo de café simbolizava o crescimento da classe média urbana e novos hábitos de sociabilidade. Também chama atenção o protagonismo feminino: Lieschen aparece como uma jovem que desafia a autoridade patriarcal e reivindica prazer individual - ainda que em tom caricatural. Para muitos historiadores da cultura, a obra funciona quase como uma “comédia burguesa em miniatura”. É Bach longe da seara do sagrado, falando a respeito do profano, da vida comum. 

Outro aspecto histórico relevante é o local provável de execução. Bach dirigia o Collegium Musicum de Leipzig, conjunto fundado por Georg Philipp Telemann, que realizava concertos no famoso Café Zimmermann. É bastante provável que a "Coffee Cantata" tenha sido apresentada justamente nesse ambiente, misturando música, entretenimento e convivência social. Isso ajuda a desmontar a imagem de Bach como compositor exclusivamente religioso: ele também produzia música voltada ao lazer urbano e ao consumo cultural.

Já a "Peasant Cantata BWV 212" - Mer hahn en neue Oberkeet (“Temos um novo senhor”) - pertence a outro universo social. Composta em 1742, foi criada para homenagear Carl Heinrich von Dieskau, administrador de propriedades rurais na região saxônica. O libreto também é de Picander e assume forma satírica e pastoral.

Diferentemente da sofisticação urbana da Coffee Cantata, a Peasant Cantata utiliza linguagem coloquial e caricaturas de camponeses para celebrar o senhor feudal local. A obra faz referência a impostos, trabalho agrícola, comida, bebida e relações de poder no campo. Embora festiva, ela oferece uma janela rara para o cotidiano rural da Alemanha do século XVIII.

A peça também evidencia a estrutura hierárquica do período. Era comum compositores escreverem obras ocasionais para aristocratas em troca de prestígio ou remuneração. A música funcionava como instrumento de celebração política e legitimação social. No entanto, Bach introduz um tom ambíguo: os personagens camponeses às vezes parecem exageradamente submissos, o que leva alguns estudiosos a enxergar ironia social por trás do humor.

Musicalmente, as duas cantatas mostram um Bach extremamente versátil. Na Coffee Cantata, predominam elegância melódica e teatralidade quase operística. Na Peasant Cantata, aparecem danças populares, melodias folclóricas e ritmos mais rústicos. Ambas demonstram como Bach absorvia elementos da vida cotidiana e os transformava em música sofisticada.

Disco maravilhoso. Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Johan Sebastian Bach (1685-1750) - 

01 Bach Coffee Cantata BWV211 1.Schweigt stille, plaudert nicht
02 Bach Coffee Cantata BWV211 2.Hat man nicht mit seinen Kindern
03 Bach Coffee Cantata BWV211 3.Du böses Kind, du loses Mädchen
04 Bach Coffee Cantata BWV211 4.Ei, wie schmeckt der Coffee süsse
05 Bach Coffee Cantata BWV211 5.Wenn du mir nicht den Coffee lässt
06 Bach Coffee Cantata BWV211 6.Mädchen, die von harten Sinnen
07 Bach Coffee Cantata BWV211 7.Nun folge, was dein Vater spricht
08 Bach Coffee Cantata BWV211 8.Heute noch, lieber Vater, tut est doch
09 Bach Coffee Cantata BWV211 9.Nun geht und sucht der alte Schlendrian
10 Bach Coffee Cantata BWV211 10.Die Katze lässt das Mausen nicht
11 Bach Peasant Cantata BWV212 1.Ouvertüre
12 Bach Peasant Cantata BWV212 2.Mer hahn en neue Oberkeet
13 Bach Peasant Cantata BWV212 3.Nu, Mieke, gib dein Guschel immer her
14 Bach Peasant Cantata BWV212 4.Ach es smchmeckt doch gar zu gut
15 Bach Peasant Cantata BWV212 5.Der Herr ist gut
16 Bach Peasant Cantata BWV212 6.Ach, Herrr Schösser
17 Bach Peasant Cantata BWV212 7.Es bleibt dabei
18 Bach Peasant Cantata BWV212 8.Unser trefflicher, lieber Kammerherr
19 Bach Peasant Cantata BWV212 9.Er hilft uns allen, alt und jung
20 Bach Peasant Cantata BWV212 10.Das ist galant
21 Bach Peasant Cantata BWV212 11.Und unsre gnädge Frau
22 Bach Peasant Cantata BWV212 12.Fünfzig Taler bares Geld
23 Bach Peasant Cantata BWV212 13.Im Ernst ein Wort!
24 Bach Peasant Cantata BWV212 14.Klein-Zschocher müsse so zart und süsse
25 Bach Peasant Cantata BWV212 15.Das ist zu klug vor dich
26 Bach Peasant Cantata BWV212 16.Es nehme zehntausend Dukaten
27 Bach Peasant Cantata BWV212 17.Das klingt zu liederlich
28 Bach Peasant Cantata BWV212 18.Gib, Schöne
29 Bach Peasant Cantata BWV212 19.Du hast wohl recht
30 Bach Peasant Cantata BWV212 20.Dein Wachstum sei feste
31 Bach Peasant Cantata BWV212 21.Und damit sei es auch genug
32 Bach Peasant Cantata BWV212 22.Und daß ihr's alle wißt
33 Bach Peasant Cantata BWV212 23.Mein Schatz, erraten!
34 Bach Peasant Cantata BWV212 24.Wir gehn nun

Academy of St. Martin-in-the-Fields
Sir Neville Marriner, regente
Julia Varadym soprano
Dietrich Fischer-Dieskau, baixo
Aldo Baldin, tenor 

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