O álbum Bach Piano Transcriptions – 2: Busoni, da Hyperion, reúne na interpretação do pianista Nikolai Demidenko um conjunto de transcrições que revela justamente essa relação: não se trata apenas de transportar para o piano obras originalmente concebidas para órgão, cravo ou violino, mas de recriar, por meio do instrumento moderno, a concepção sonora que Busoni identificava na música de Bach. O disco tem duração total de aproximadamente 70 minutos e foi gravado em Forde Abbey, Somerset, em agosto de 2001.
O programa começa com a monumental Fantasia, Adagio and Fugue, BWV 906/968, em uma combinação que já evidencia a liberdade característica de Busoni. Seguem-se prelúdios corais dos Livros I e II do Cravo Bem Temperado, os Prelúdios e Fugas em mi menor, BWV 533, e em ré maior, BWV 532, além de outras transcrições de corais. O percurso termina com a Chaconne em ré menor, BWV 1004, originalmente escrita por Bach para violino solo. É um repertório que atravessa diferentes manifestações da linguagem bachiana, mas que ganha unidade pela perspectiva pianística de Busoni.
O próprio livreto chama atenção para uma questão fundamental: o que significa transcrever uma obra musical? Busoni não entendia a partitura como um objeto absolutamente intocável. Em seu pensamento estético, a notação seria uma espécie de registro de uma ideia musical, enquanto a realização pelo intérprete poderia recuperar possibilidades que permanecem implícitas no texto. Sua Outline of a New Aesthetic of Music, mencionada no ensaio, defendia uma concepção particularmente ampla da criação musical, na qual a obra não se esgotaria na reprodução literal de sua notação.
Essa concepção ajuda a compreender por que as transcrições de Bach realizadas por Busoni frequentemente soam como verdadeiras recomposições para piano. Ao adaptar obras de órgão, o compositor explorava recursos específicos do instrumento moderno, inclusive a utilização dos pedais, buscando produzir no teclado uma sonoridade capaz de sugerir a amplitude e a arquitetura do órgão sem simplesmente imitá-lo. O livreto observa que suas transcrições procuram preservar a estrutura contrapontística ao mesmo tempo que ampliam as possibilidades de timbre, registro, dinâmica e ressonância.
A questão não era estranha à própria tradição musical anterior. O ensaio lembra que, muito antes de Busoni, compositores e intérpretes já adaptavam obras para diferentes instrumentos. Bach, ele próprio, utilizou e reelaborou materiais de outros autores; posteriormente, Clementi, Liszt e outros músicos também transformaram obras existentes para explorar novas possibilidades instrumentais. Nesse sentido, Busoni não aparece como uma ruptura absoluta com a tradição, mas como alguém que levou a prática da transcrição a uma reflexão estética de grande alcance.
O exemplo mais radical do álbum talvez seja a Chaconne, originalmente pertencente à Segunda Partita para violino solo, BWV 1004. Ao contrário das transcrições das obras de órgão, nas quais Busoni podia recorrer à riqueza sonora do piano para sugerir a dimensão do instrumento original, a Chaconne parte de uma obra concebida para um único instrumento melódico. A transcrição, portanto, altera profundamente a perspectiva sonora. O ensaio de Charles Hopkins observa que Busoni deliberadamente deixa de lado determinadas características do timbre violinístico para enfatizar uma concepção mais ampla e monumental da obra.
É justamente nessa transformação que reside o interesse artístico do projeto. A Chaconne não procura simplesmente parecer uma peça para violino tocada ao piano: ela assume a condição de uma obra pianística derivada de Bach, explorando a densidade harmônica, o peso dos acordes e a capacidade de sustentação do instrumento. O piano passa a funcionar como espaço de expansão da ideia musical. O resultado coloca em primeiro plano aquilo que Busoni considerava essencial: a permanência da obra para além de sua instrumentação original.
A abertura do disco, Fantasia, Adagio and Fugue, apresenta outro aspecto dessa liberdade. A Fantasia BWV 906, cuja fuga permaneceu incompleta, é combinada por Busoni com o Adagio da Sonata para violino em sol maior, BWV 968. O procedimento é revelador: materiais de origens distintas são colocados em relação para formar uma construção musical mais ampla. O próprio livreto destaca o caráter aberto desse processo e a possibilidade de crescimento contínuo contida em determinadas obras de Bach.
Os prelúdios corais oferecem ainda outra dimensão. Neles, a escrita de Busoni procura converter para o piano a riqueza de registros, linhas e planos sonoros própria da música de órgão. A transcrição deixa de ser uma operação meramente mecânica e passa a funcionar como interpretação: é necessário decidir quais vozes serão destacadas, como serão distribuídas no teclado e de que maneira o pedal poderá criar continuidade e profundidade. O livreto relaciona esse procedimento à tradição improvisatória associada à música de órgão de Bach.
A interpretação de Nikolai Demidenko completa essa concepção. O pianista estudou no Conservatório de Moscou com Dmitri Bashkirov, foi premiado em concursos internacionais e desenvolveu carreira particularmente ligada ao repertório pianístico dos séculos XIX e XX. Seu catálogo de gravações para a Hyperion inclui, além das transcrições de Bach-Busoni, obras de Chopin, Liszt, Medtner, Mussorgsky, Prokofiev, Rachmaninov, Schubert e Schumann.
O piano utilizado na gravação foi um Fazioli, instrumento cuja capacidade de sustentar notas longas e oferecer ampla variedade de cores é destacada no material do álbum. Essa característica ganha especial importância em Busoni, cuja escrita frequentemente exige que o piano sugira dimensões sonoras que ultrapassam suas limitações físicas. A gravação foi realizada no Forde Abbey, em Somerset, nos dias 27 a 29 de agosto de 2001, com Ken Blair como engenheiro de gravação e Erik Smith como produtor.
Mais do que um tributo a Bach, portanto, Bach Piano Transcriptions – 2 documenta uma determinada maneira de pensar a própria natureza da música. Para Busoni, a tradição não deveria ser preservada como peça de museu, mas reimaginada a partir das possibilidades de cada época. Demidenko, ao assumir essas transcrições, coloca-se no centro desse processo: entre a partitura de Bach, a visão estética de Busoni e os recursos expressivos do piano contemporâneo. O álbum mostra, assim, que uma transcrição pode ser simultaneamente memória e invenção — uma maneira de olhar para o passado sem deixar de transformá-lo em música viva.
Uma boa apreciação!
01 - Fantasia, Adagio and Fugue BWV906-968, Fantasia
02 - Fantasia, Adagio and Fugue BWV906-968, Adagio
03 - Fantasia, Adagio and Fugue BWV906-968, Fugue
04 - Komm, Gott Schopfer, Heiliger Geist BWV667
05 - Wachet Auf, Ruft Uns Die Stimme BWV645
06 - Prelude and Fugue in E minor BWV533, Prelude
07 - Prelude and Fugue in E minor BWV533, Fugue
08 - Prelude and Fugue in D major BWV532, Prelude
09 - Prelude and Fugue in D major BWV532, Fugue
10 - Herr Gott, Nun schleub den Himmel auf BWV617
11 - Durch Adam's Fall ist ganz verderbt BWV637-705
12 - In Dir Ist Freude BWV615
13 - Jesus Christus, Unser Heiland BWV665
14 - Chaconne in D minor BWV1004
Nikolai Demidenko, piano
Você pode comprar este disco na Amazon
*Para acessar o link, por favor, clicar na imagem.

Nenhum comentário:
Postar um comentário