As obras camerísticas de Schubert
estão entre as mais bonitas já escritas na história da música. São primorosas.
Delicadas. Possuem reflexões atordoantes e humanas. Schubert foi um gênio
incontestável. Morreu muito jovem e, quando morreu, havia alcançado um . Mais
jovem do que Mozart, Chopin e Mendelssohn. Todavia, escreveu obras geniais e
com uma capacidade inegável de investigação da alma humana.
Além das espetaculares sinfonias,
dos mais de 600 lieds e das inúmeras
obras para piano, acredito que uma das suas páginas mais densas e profundas
sejam as obras camerísticas. Enquanto,
por exemplo, Beethoven parecia desafiar estruturas, com intuições que apontavam
para o futuro e realizava reflexões avassaladoras, Schubert incursionava por outros
platôs. A geografia do compositor era a alma humana. Ou seja, a música de
câmera do compositor austríaco é necessariamente introspectiva. Isso vai se
tornando cada vez mais evidente à medida que os anos da sua morte se aproximam.
Neste disco maravilhoso que ora
surge, parece o espetacular Trio No. 2, umas obras mais bonitas e sensíveis da
história do ser humano. É uma das minhas obras favoritas da vida. Foi escrita
em 1827. A obra revela um Schubert capaz de equilibrar lirismo, arquitetura
formal e intensidade dramática em proporções extraordinárias. Seu movimento
lento tornou-se amplamente conhecido após ser utilizado por Stanley Kubrick no
filme Barry Lyndon (1975), mas sua força
expressiva transcende qualquer associação cinematográfica. O filme de quase
três horas de Kubrick, quando termina, deixa a música em nosso inconsciente.
Ela fica assim por semanas. Foi dessa maneira que a conheci.
O que distingue Schubert dos
demais mestres da música de câmara é sua capacidade de fazer a melodia carregar
o peso da existência humana. Em suas obras, os temas parecem cantar
continuamente, como se cada instrumento fosse uma voz humana compartilhando
lembranças, sonhos e angústias. Mesmo nos momentos mais sombrios, há sempre uma
centelha de esperança; mesmo nos mais luminosos, uma sombra de melancolia.
Essa dualidade talvez reflita a
própria vida do compositor. Schubert escreveu grande parte de suas obras-primas
enquanto enfrentava graves problemas de saúde e dificuldades financeiras. A
consciência da fragilidade da existência impregna sua música, mas nunca a
transforma em desespero absoluto. Ao contrário, ela se converte em compaixão,
ternura e humanidade.
Não deixe de ouvir este
maravilhoso disco. Uma boa apreciação!
Franz Schubert (1797-1827) -
01. Trio for Piano, Violin and Cello No. 1 in B-Flat Major, Op. 99, D. 898 I. Allegro moderato
02. Trio for Piano, Violin and Cello No. 1 in B-Flat Major, Op. 99, D. 898 II. Andante un poco mosso
03. Trio for Piano, Violin and Cello No. 1 in B-Flat Major, Op. 99, D. 898 III. Scherzo
04. Trio for Piano, Violin and Cello No. 1 in B-Flat Major, Op. 99, D. 898 IV. Rondo
05. Piano Trio in B-Flat Major, D. 28
06. Trio for Piano, Violin and Cello No. 2 in B-Flat Major, Op. 100, D. 929 I. Allegro
07. Trio for Piano, Violin and Cello No. 2 in E-Flat Major, Op. 100, D. 929 II. Andante con moto
08. Trio for Piano, Violin and Cello No. 2 in E-Flat Major, Op. 100, D. 929 III. Scherzando. Allegro moderato - Trio
09. Trio for Piano, Violin and Cello No. 2 in E-Flat Major, Op. 100, D. 929 IV. Allegro moderato
10. Piano Trio in E-Flat Major, Op. 148, D. 897
Trio Rafale
Maki Wiederkehr, piano
Daniel Meller, violino
Flurin Cuonz, violoncelo
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