quarta-feira, 3 de junho de 2026

Arcangelo Corelli (1653–1713) - Church Sonatas, Ops. 1 & 3

"Arcangelo Corelli ocupa um lugar singular na história da música. Embora seja reconhecido como um dos compositores mais célebres do período barroco, sua obra é surpreendentemente reduzida quando comparada à de contemporâneos como Handel ou Telemann: apenas seis coleções publicadas com número de opus, além de algumas peças preservadas em manuscritos. Enquanto a maioria dos compositores de sua época transitava entre diversos gêneros — música vocal sacra e profana, obras orquestrais, música de câmara e repertório para teclado —, Corelli concentrou praticamente toda a sua produção na música de câmara e em um único conjunto de obras “orquestrais”, embora essa designação talvez não seja a mais adequada para caracterizar seus concerti grossi.

Também ao contrário de muitos de seus pares, Corelli pouco viajou. Passou quase toda a vida em Roma. No final da década de 1680, Francesco II d’Este, duque de Módena, tentou repetidas vezes convencê-lo a ingressar em sua corte, mas o compositor recusou. Em compensação, dedicou ao duque as sonatas do Opus 3, recebendo em troca valiosos presentes como demonstração de apreço. As demais coleções de sonatas foram dedicadas a diferentes patronos romanos. O Opus 1 foi oferecido à rainha Cristina da Suécia, estabelecida em Roma após abdicar do trono e converter-se ao catolicismo. Já os Opus 2 e 4 foram dedicados a dois grandes mecenas eclesiásticos — os cardeais Pamphili e Ottoboni — conhecidos pelo generoso apoio às artes e, em especial, à música.

A influência de Corelli sobre a história da música foi imensa. Seus concerti grossi serviram de modelo para inúmeros compositores posteriores, entre eles Handel. A trio sonata tornou-se um dos principais gêneros da música de câmara durante a primeira metade do século XVIII, até ser gradualmente substituída por outras formações, como o trio com teclado. Obras desse tipo proliferaram por toda a Europa, especialmente voltadas ao crescente mercado de músicos amadores, quase sempre inspiradas nos modelos corellianos. Telemann, aliás, reconheceu explicitamente essa influência ao compor suas Sonates corellisantes. Ainda assim, Corelli não inventou o gênero: peças para dois instrumentos melódicos e baixo contínuo já existiam desde as primeiras décadas do século XVII. Na França, independentemente da tradição italiana, Lully escreveu seus Trios pour le coucher du roi. O mérito de Corelli foi reunir e consolidar diversos elementos, fixando uma forma que se tornaria referência fundamental para o gênero dali em diante.

As quatro coleções de trio sonatas costumam ser divididas em duas categorias: sonate da chiesa e sonate da camera. Corelli empregou explicitamente a expressão sonata da camera na página de rosto do Opus 2; os demais conjuntos aparecem simplesmente como sonate a tre. Apesar do nome, o termo sonata da chiesa não implica necessariamente uso litúrgico. Essas obras destinavam-se sobretudo ao ambiente doméstico refinado — salões privados e espaços de concerto frequentados pela aristocracia e pelas camadas mais altas da sociedade. Ainda assim, existem diferenças estruturais claras entre os dois grupos. As sonate da chiesa costumam apresentar quatro movimentos identificados por indicações de andamento, como grave, largo e allegro. Já as sonate da camera iniciam-se geralmente com um prelúdio seguido de uma sequência de danças.

O próprio Corelli, porém, jamais seguiu rigidamente esse esquema. Em cada coleção encontram-se sonatas com mais ou menos de quatro movimentos. Embora a sucessão tradicional lento-rápido-lento-rápido seja predominante, algumas peças começam com movimentos rápidos, enquanto outras apresentam três movimentos rápidos e apenas um lento. O Opus 1, em especial, revela-se o conjunto menos estruturado, sugerindo um compositor ainda experimentando possibilidades formais para a trio sonata.

Apesar da fama de Corelli, a atenção dedicada à sua obra permanece relativamente desequilibrada. Existem inúmeras gravações dos concerti grossi e das sonatas para violino do Opus 5, mas muito menos registros das trio sonatas. Seu discípulo Francesco Geminiani escreveu sobre ele: “Seu mérito não residia na profundidade erudita de um Alessandro Scarlatti, nem numa imaginação exuberante ou numa invenção particularmente rica em melodia ou harmonia, mas num ouvido refinadíssimo e num gosto delicado que o levavam a escolher as harmonias e melodias mais agradáveis e a construir as partes de modo a produzir o efeito mais encantador aos ouvidos.” O comentário pretendia ser um elogio, embora hoje possa soar quase depreciativo. Os músicos sabem que não é o caso, mas talvez intérpretes e gravadoras ainda temam que esse repertório não desperte grande interesse comercial.

Cabe justamente aos intérpretes transformar essa percepção por meio de execuções envolventes e expressivas. Nesse aspecto, as sonatas dos Opus 2 e 4 destacam-se amplamente. Os ritmos de dança são apresentados com clareza exemplar, enquanto os movimentos lentos revelam maior expressividade do que nos Opus 1 e 3. O som parece mais luminoso, caloroso e autenticamente italiano. Como os dois pares de coleções podem ser adquiridos separadamente, a recomendação recai sobretudo sobre as sonate da camera".

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Arcangelo Corelli (1653–1713) -

DISCO 01

Sonata da chiesa a tre in F Major, No. 1
01. I. Grave
02. II. Allegro
03. III. Largo
04. IV. Allegro

Sonata da chiesa a tre in E minor, No. 2
05. I. Grave
06. II. Vivace
07. III. Adagio
08. IV. Allegro

Sonata da chiesa a tre in A Major, No. 3
09. I. Grave
10. II. Allegro
11. III. Adagio
12. IV. Allegro

Sonata da chiesa a tre in A minor, No. 4
13. I. Vivace (attacca)
14. II. Adagio
15. III. Allegro
16. IV. Presto
17. V. Allegro

Sonata da chiesa a tre in B-flat minor, No. 5

18. I. Grave
19. II. Allegro
20. III. Adagio - Allegro
21. IV. Allegro

Sonata da chiesa a tre in B minor, No. 6

22. I. Grave
23. II. Largo
24. III. Adagio
25. IV. Allegro

Sonata da chiesa a tre in C Major, No. 7

26. I. Allegro
27. II. Grave
28. III. Allegro

Sonata da chiesa a tre in C minor, No. 8
29. I. Grave
30. II. Allegro
31. III. Largo
32. IV. Vivace

Sonata da chiesa a tre in G Major, No. 9

33. I. Allegro
34. II. Allegro
35. III. Adagio
36. IV. Allegro - Adagio

Sonata da chiesa a tre in G minor, No. 10
37. I. Grave
38. II. Allegro (attacca)
39. III. Allegro
40. IV. Adagio
41. V. Allegro

Sonata da chiesa a tre in D minor, No. 11

42. I. Grave
43. II. Allegro
44. III. Adagio
45. IV. Allegro

Sonata da chiesa a tre in D Major, No. 12
46. I. Grave
47. II. Largo e puntato
48. III. Grave
49. IV. Allegro

DISCO 02

Sonata da chiesa a tre in F Major, No. 1
01. I. Grave
02. II. Allegro
03. III. Vivace
04. IV. Allegro

Sonata da chiesa a tre in D Major, No. 2
05. I. Grave
06. II. Allegro
07. III. Adagio
08. IV. Allegro

Sonata da chiesa a tre in B-flat Major, No. 3
09. I. Grave
10. II. Vivace
11. III. Largo
12. IV. Allegro

Sonata da chiesa a tre in B minor, No. 4
13. I. Largo
14. II. Vivace
15. III. Adagio
16. IV. Presto

Sonata da chiesa a tre in D minor, No. 5

17. I. Grave
18. II. Allegro
19. III. Largo
20. IV. Allegro

Sonata da chiesa a tre in G Major, No. 6

21. I. Vivace
22. II. Grave
23. III. Allegro
24. IV. Allegro

Sonata da chiesa a tre in E minor, No. 7

25. I. Grave
26. II. Allegro
27. III. Adagio
28. IV. Allegro

Sonata da chiesa a tre in C Major, No. 8

29. I. Largo
30. II. Allegro
31. III. Largo
32. IV. Allegro

Sonata da chiesa a tre in F minor, No. 9
33. I. Grave
34. II. Vivace
35. III. Largo
36. IV. Allegro

Sonata da chiesa a tre in A minor, No. 10
37. I. Vivace
38. II. Allegro
39. III. Adagio
40. IV. Allegro

Sonata da chiesa a tre in G minor, No. 11

41. I. Grave
42. II. Presto
43. III. Adagio
44. IV. Allegro

Sonata da chiesa a tre in A minor, No. 12
45. I. Grave
46. II. Vivace
47. III. Allegro
48. IV. Allegro
49. V. Allegro

The Avison Ensemble 

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