Embora Joseph Haydn seja reconhecido sobretudo por sua contribuição à música de câmara e ao gênero sinfônico, sua produção para piano e orquestra também revela aspectos importantes de sua personalidade artística. Os concertos para esse instrumento, menos numerosos e conhecidos do que suas sinfonias e quartetos de cordas, apresentam uma combinação característica de inventividade, domínio formal e expressividade. O repertório abordado neste registro reúne duas obras de particular interesse: os Concertos em sol maior e em ré maior, que permitem observar diferentes momentos e possibilidades da escrita concertante do compositor.
A atribuição de algumas obras para piano a Haydn nem sempre foi inteiramente segura. No catálogo temático elaborado por Anthony van Hoboken, pelo menos 14 composições desse gênero foram consideradas autênticas. Muitas delas, porém, são peças breves, de instrumentação simples e conteúdo musical relativamente leve. Entre as exceções estão os concertos em fá maior, Hob. XVIII:3, e em sol maior, além do conhecido Concerto em ré maior, registrado neste álbum. Embora não tenham sobrevivido partituras autógrafas dessas obras, sua autenticidade deixou de ser motivo de dúvida.
O Concerto em sol maior é considerado o mais antigo e também o mais próximo de uma concepção tradicional do gênero. Sua composição provavelmente remonta a aproximadamente 1770. A obra está associada à pianista, cantora e compositora austríaca Maria Theresia von Paradis, que, apesar de cega, desenvolveu uma carreira musical expressiva. Haydn teria cedido a ela determinados direitos de execução da composição. Em 1784, Paradis apresentou o concerto em Paris, durante uma série de apresentações públicas, e a obra foi publicada posteriormente naquela cidade.
Musicalmente, o Concerto em sol maior apresenta uma estrutura em três movimentos. O primeiro, um Allegro de caráter moderado, segue a forma de ritornelo, alternando intervenções orquestrais e passagens do instrumento solista. O movimento seguinte, um Adagio em dó maior, destaca-se pelo caráter grave e dramático, com violinos em surdina e uma parte solista ornamentada. O Finale, por sua vez, assume a forma de um rondó exuberante, cujo tema apresenta características da música folclórica húngara. O encarte observa que sua inspiração pode estar relacionada à dança croata conhecida como Siri Kolo, embora a origem exata do tema seja objeto de discussão.
O Concerto em ré maior, composto provavelmente por volta de 1780, apresenta uma concepção mais elaborada. Sua estrutura também compreende três movimentos, mas a organização do primeiro se aproxima mais claramente da forma sonata, com dois grupos temáticos distintos e uma seção de desenvolvimento. O movimento inicial, bastante vivo, combina a elegância melódica característica de Haydn com uma escrita instrumental que exige agilidade e precisão do solista.
O segundo movimento, em dó maior, é um Un poco Adagio de atmosfera expressiva. A ausência de oboés e trompas contribui para a delicadeza da textura orquestral, enquanto o instrumento solista recebe uma parte ornamentada e de grande refinamento. O encerramento, um rondó, recupera o vigor e a vivacidade do primeiro movimento. Seu tema, de inspiração dançante, remete novamente à música húngara e à dança Siri Kolo, estabelecendo um vínculo entre os dois concertos apresentados no disco.
Diferentemente de compositores como Bach, Mozart e Beethoven, o austríaco não se projetou como pianista virtuose. Embora soubesse tocar teclado, sua atuação estava mais associada às funções de mestre de capela do que à exibição pública de habilidades instrumentais. Essa circunstância ajuda a compreender por que sua produção concertante para teclado não ocupa o mesmo lugar de destaque que suas obras sinfônicas e camerísticas.
Isso não significa, contudo, que os concertos sejam obras de importância secundária. Ao contrário, revelam a capacidade de Haydn de explorar as possibilidades do instrumento solista sem submetê-lo a demonstrações gratuitas de virtuosismo. A escrita para teclado é marcada por equilíbrio, clareza e inventividade, enquanto a orquestra participa ativamente do desenvolvimento musical. Solista e conjunto não se apresentam apenas como protagonistas em oposição, mas como elementos complementares de uma construção compartilhada.
Os dois concertos permitem, portanto, reconhecer a riqueza de uma parcela menos conhecida da produção de Haydn. Entre a elegância do Concerto em sol maior e a elaboração formal do Concerto em ré maior, encontram-se a inteligência construtiva, o humor e a imaginação musical de um compositor que soube transformar recursos aparentemente simples em experiências expressivas de grande qualidade.
Uma boa apreciação!
Joseph Haydn (1732-1809) -
01 - Keyboard Concerto in D major, H. 18-11 1. Vivace
02 - Keyboard Concerto in D major, H. 18-11 2.Un Poco Adagio
03 - Keyboard Concerto in D major, H. 18-11 3. Rondo all’Ungarese (Allegro assai)
04 - Keyboard Concerto in G major, H. 18-4 1. Allegro Moderato - Cadenza - Tempo I
05 - Keyboard Concerto in G major, H. 18-4 2. Adagio Cantabile - Cadenza - Tempo I
06 - Keyboard Concerto in G major, H. 18-4 3. Rondo (Presto)
Züricher Kammerorchester
Edmond de Stoutz, regente
Arturo Michelangeli Benedetti, piano
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Um comentário:
muchas gracias...
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