quarta-feira, 15 de julho de 2026

Michel-Richard De Lalande (1657-1726) - Leçons de Ténèbres

Celebrado por grandiosos motetos para a Capela Real de Versalhes, Michel-Richard de Lalande soube revelar extraordinária sensibilidade em obras de dimensões muito mais modestas. As Leçons de Ténèbres e o Miserere, compostos para a Semana Santa, pertencem a esse universo intimista e constituem algumas das páginas mais refinadas da música sacra francesa do período barroco.

Durante os séculos XVII e XVIII, os chamados Ofícios das Trevas (Tenebrae) ocupavam lugar singular na vida religiosa e cultural francesa. Celebrados nas noites que antecediam a Páscoa, esses ofícios combinavam profunda devoção com uma impressionante teatralidade litúrgica. À medida que os salmos e as Lamentações de Jeremias eram entoados, quinze velas eram apagadas progressivamente, simbolizando o abandono de Cristo por seus discípulos e conduzindo a igreja à escuridão quase completa. O efeito dramático transformava a cerimônia em uma experiência espiritual de rara intensidade, atraindo não apenas fiéis, mas também a elite parisiense.

Foi nesse contexto que Lalande escreveu suas Três Lições das Trevas e o Miserere para voz solo e baixo contínuo. A economia dos meios contrasta com a riqueza expressiva. Em vez do brilho orquestral de seus grandes motetos, o compositor explora uma escrita de extraordinária delicadeza, na qual a voz humana assume papel central. As longas ornamentações sobre as letras do alfabeto hebraico, que introduzem cada versículo das Lamentações de Jeremias, unem a tradição do canto gregoriano ao refinamento do chamado beau chant francês, caracterizado pela elegância declamatória e pela ornamentação extremamente elaborada.

Lalande, contudo, não se limita a seguir a tradição. Sua escrita alterna passagens de caráter recitativo com momentos de intensa elaboração melódica, utiliza contrastes expressivos cuidadosamente planejados e interrompe a narrativa com breves interlúdios instrumentais que convidam à contemplação. No Miserere, chega mesmo a reorganizar alguns versículos do Salmo 50 para ampliar seu impacto emocional, demonstrando notável liberdade criativa diante da prática litúrgica.

A gravação apresentada pela soprano Sophie Karthäuser, pelo Ensemble Correspondances e dirigida por Sébastien Daucé procura recriar precisamente esse ambiente de recolhimento e solenidade. O uso criterioso do órgão, da viola da gamba, do alaúde e do teorba restitui a sonoridade transparente que caracterizava os conventos franceses do final do século XVII, enquanto a interpretação vocal alia pureza técnica, expressividade e rara sensibilidade ao texto litúrgico.

Mais de três séculos após sua composição, as Leçons de Ténèbres continuam impressionando pela capacidade de transformar penitência em beleza artística. Nelas, Lalande demonstra que a música sacra barroca francesa não se limitava ao esplendor de Versalhes: sabia também encontrar, na simplicidade de uma única voz, uma força expressiva capaz de converter a liturgia em verdadeira experiência estética e espiritual.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Michel-Richard De Lalande (1657-1726) - 

01 O mors, ero mors tua, antiphon for Tenebrae
02 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Miserere mei Deus _ Et secundum multitudinem miserationem tuarum
03 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Amplius lava me _ Tibi soli peccavi
04 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Ecce enim in iniquitatibus _ Ecce enim veritatem dilexisti
05 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Asperges me hyssopo _ Averte faciem tuam
06 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Co mundum - Ne pojicias me
07 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Redde mihi laetitiam _ Docebo iniquos vias tuas
08 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Libera me de sanguinibus _ Quoniam si voluisses sacrificium
09 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Sacrificium Deo spiritus contribulatus _ Benigne fac Domine
10 Miserere, motet for voice & accompaniment, S. 87_ Tunc acceptabis
11 Tristis est anima mea, responsory
12 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Jod. Manum suam misit hostis
13 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Caph. Omnis populus ejus
14 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Vide Domine
15 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Lamed
16 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ O vos omnes
17 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Mem. De excelso
18 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Nun. Vigilavit
19 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Infirmata est
20 IIIe Leçon du Mercredi Saint, S. 118  (Leçons de ténèbres)_ Jerusalem
21 Ecce vidimus, responsory  in Mode 5
22 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Aleph. Ego vir videns
23 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Aleph. Me minavit
24 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Aleph. Tantum in me vertit
25 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Beth. Vetustam fecit
26 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Beth.Aedificavit in gyro meo
27 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Beth. In tenebrosis
28 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Ghimel. Circum aedificavit
29 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Ghimel. Sed, et cum clamavero
30 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Ghimel. Conclusit vias meas
31 IIIe Leçon du Jeudi Saint, S. 121  (Leçons de ténèbres)_ Jerusalem
32 Vinea mea electa, responsory
33 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Incipit oratio
34 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Recordare
35 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Pupili facti sumus
36 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Cervicibus nostris
37 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Lassis non dabatur
38 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Recordare
39 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Ægypto dedimus manum
40 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ In animabus nostris
41 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Pellis nostra
42 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Mulieres
43 IIIe Leçon du Vendredi Saint, S. 124 (Leçons de ténèbres)_ Jerusalem
44 Plange quasi virgo, responsory

Ensemble Correspondances 
Sébastien Daucé, diretor
Sophie Karthäuser, soprano 

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