Já afirmei isso, mas não custa
nada ressaltar novamente: a Quarta, de Mahler, é a porta de entrada
inquestionável para o seu mundo de fabulosas inquietações filosóficas e existenciais.
Todavia, o ouvinte que assimilar a Quarta e tiver por intento a mesma
experiência estética nas outras sinfonias, ficará decepcionado. A Quarta é um
idílio em meio aos dramas arquiteturais esculpidos pelo compositor austríaco.
Ela possui, inegavelmente, uma atmosfera mais ensolarada, mais benfazeja;
suave, leve, sorridente. Mahler parecia ter acordado, pela manhã, em algum dia
de 1899, e percebido os pássaros em cantorias primaveris. Conduzido por aquele
espírito de bem-estar e aquecido pela tepidez da manhã banhada por luminosidade
doce, ele sentiu que a vida poderia ser repleta de sentido; que existe uma
vocação no Universo e que ele contempla favoravelmente aqueles que procuram
experimentá-lo com justiça. A Quarta é esse instante em que a vida ganha
dimensões poéticas incontrastáveis, apesar dos seus perigos.
Composta entre 1899 e 1901, a sinfonia encerra um ciclo criativo
fortemente ligado ao universo do cancioneiro
popular alemão “Des Knaben Wunderhorn” (“A corneta mágica do
menino”). Ao contrário das sinfonias anteriores, que incorporam explicitamente
canções desse repertório, a Quarta guarda seu segredo até o último movimento,
quando a voz humana finalmente aparece para revelar o sentido de tudo o que veio
antes.
Desde o início, Mahler propõe um
jogo de contrastes. O primeiro movimento se abre com o som de guizos, evocando trenós e paisagens invernais, quase
infantis. A música parece caminhar com leveza, mas logo surgem desvios: sombras
súbitas, ironias discretas, pequenos abismos emocionais que interrompem a
tranquilidade aparente. É Mahler nos lembrando de que, mesmo no idílio, o mundo
nunca é totalmente seguro.
O segundo movimento possui um
caráter ambíguo. Há uma insinuação trágica representada pelo violino. Um som
ácido e espectral faz lembrar que a vida pode ser um lugar de dissabores. Mas
nada que seja explicitamente trágico. São insinuações, comedimentos.
No terceiro movimento, surge um adagio de espetacular beleza – daqueles que
são colocados na categoria das coisas mais bonitas já escritas por um ser
humano. Uma meditação serena que cresce
lentamente até atingir um clímax de intensidade quase transcendental.
E o quarto movimento é o momento
em que há a transfiguração, a apoteose, a crença inabalável em um mundo em que
não haja tristezas. Uma soprano entoa o poema “Das
himmlische Leben” (“A vida celestial”), descrevendo o céu do
ponto de vista de uma criança. O paraíso mahleriano não é solene nem grandioso:
é um lugar de comida farta, música constante e ausência de sofrimento. Mas
mesmo nessa visão luminosa, há algo de inquietante — como se a simplicidade
excessiva revelasse também uma distância irreparável entre o mundo ideal e a
experiência humana.
Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!
Gustav Mahler (1860-1911) -
01 - I. Bedächtig, nicht eilen
02 - II. In gemächlicher Bewegung
03 - III. Ruhevoll, poco adagio
04 - IV. Sehr behaglich, _Wir geniessen die himmlischen Freuden_
Münchner Philharmoniker
Valery Gergiev, regente
Você pode comprar este disco na Amazon
*Para acessar o link, por favor, clicar na imagem.
*Se possível, deixe um comentário. Sua participação é importante. Ela ajuda a manter o nosso blog!

Nenhum comentário:
Postar um comentário