sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Gustav Mahler (1860-1911) - Symphony No. 4 in G Major


Já afirmei isso, mas não custa nada ressaltar novamente: a Quarta, de Mahler, é a porta de entrada inquestionável para o seu mundo de fabulosas inquietações filosóficas e existenciais. Todavia, o ouvinte que assimilar a Quarta e tiver por intento a mesma experiência estética nas outras sinfonias, ficará decepcionado. A Quarta é um idílio em meio aos dramas arquiteturais esculpidos pelo compositor austríaco. Ela possui, inegavelmente, uma atmosfera mais ensolarada, mais benfazeja; suave, leve, sorridente. Mahler parecia ter acordado, pela manhã, em algum dia de 1899, e percebido os pássaros em cantorias primaveris. Conduzido por aquele espírito de bem-estar e aquecido pela tepidez da manhã banhada por luminosidade doce, ele sentiu que a vida poderia ser repleta de sentido; que existe uma vocação no Universo e que ele contempla favoravelmente aqueles que procuram experimentá-lo com justiça. A Quarta é esse instante em que a vida ganha dimensões poéticas incontrastáveis, apesar dos seus perigos.

Composta entre 1899 e 1901, a sinfonia encerra um ciclo criativo fortemente ligado ao universo do cancioneiro popular alemão “Des Knaben Wunderhorn” (“A corneta mágica do menino”). Ao contrário das sinfonias anteriores, que incorporam explicitamente canções desse repertório, a Quarta guarda seu segredo até o último movimento, quando a voz humana finalmente aparece para revelar o sentido de tudo o que veio antes.

Desde o início, Mahler propõe um jogo de contrastes. O primeiro movimento se abre com o som de guizos, evocando trenós e paisagens invernais, quase infantis. A música parece caminhar com leveza, mas logo surgem desvios: sombras súbitas, ironias discretas, pequenos abismos emocionais que interrompem a tranquilidade aparente. É Mahler nos lembrando de que, mesmo no idílio, o mundo nunca é totalmente seguro.

O segundo movimento possui um caráter ambíguo. Há uma insinuação trágica representada pelo violino. Um som ácido e espectral faz lembrar que a vida pode ser um lugar de dissabores. Mas nada que seja explicitamente trágico. São insinuações, comedimentos.

No terceiro movimento, surge um adagio de espetacular beleza – daqueles que são colocados na categoria das coisas mais bonitas já escritas por um ser humano.  Uma meditação serena que cresce lentamente até atingir um clímax de intensidade quase transcendental.

E o quarto movimento é o momento em que há a transfiguração, a apoteose, a crença inabalável em um mundo em que não haja tristezas. Uma soprano entoa o poema “Das himmlische Leben” (“A vida celestial”), descrevendo o céu do ponto de vista de uma criança. O paraíso mahleriano não é solene nem grandioso: é um lugar de comida farta, música constante e ausência de sofrimento. Mas mesmo nessa visão luminosa, há algo de inquietante — como se a simplicidade excessiva revelasse também uma distância irreparável entre o mundo ideal e a experiência humana.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Gustav Mahler (1860-1911) - 

01 - I. Bedächtig, nicht eilen
02 - II. In gemächlicher Bewegung
03 - III. Ruhevoll, poco adagio
04 - IV. Sehr behaglich, _Wir geniessen die himmlischen Freuden_

Münchner Philharmoniker
Valery Gergiev, regente 

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