quinta-feira, 16 de julho de 2026

Jean-Phillippe Rameau (1683-1764) - Hippolyte et Aricie

Quando Rameau (1683–1764) estreou Hippolyte et Aricie, em 1º de outubro de 1733, na Ópera de Paris, o público francês percebeu imediatamente que algo havia mudado. Aos cinquenta anos, conhecido sobretudo como teórico e compositor para órgão, Rameau ingressava no teatro lírico com uma obra que revolucionaria a tradição inaugurada por Jean-Baptiste Lully meio século antes. A recepção foi dividida: para alguns, a música era excessivamente complexa; para outros, tratava-se do nascimento de uma nova era da ópera francesa.

Baseado na tragédia Phèdre, de Racine, e em episódios da mitologia grega, o libreto do Abbé Simon-Joseph Pellegrin narra o amor impossível entre Hipólito, filho de Teseu, e Arícia, princesa mantida cativa. A paixão proibida de Fedra pelo enteado desencadeia uma sucessão de ciúmes, mal-entendidos e tragédias, envolvendo deuses, monstros marinhos e intervenções sobrenaturais, até que a deusa Diana restaura a ordem e reúne os amantes no desfecho. O enredo reúne todos os elementos da tragédie lyrique: heroísmo, destino, paixão, moralidade e a constante presença do mundo divino.

Mas é na música que reside a verdadeira grandeza da obra. Rameau preserva a elegância da tradição francesa, marcada pela importância da declamação do texto e pela integração entre canto, dança e coro, ao mesmo tempo em que amplia extraordinariamente os recursos harmônicos e orquestrais. Sua escrita impressiona pela riqueza das cores instrumentais, pela ousadia das modulações e pela capacidade de transformar a orquestra em protagonista do drama. As célebres cenas infernais do segundo ato, os momentos pastorais dedicados a Diana e as grandiosas danças que encerram a ópera revelam um compositor capaz de conciliar sofisticação intelectual e impacto teatral.

Outro aspecto marcante é a variedade expressiva. Em poucos minutos, Rameau transita da serenidade quase contemplativa das cenas de Arícia para a violência emocional de Fedra, da solenidade ritual às explosões dramáticas que acompanham a aparição do monstro enviado por Netuno. Essa alternância constante impede qualquer sensação de monotonia e confere à partitura uma vitalidade que permanece surpreendentemente moderna.

A gravação apresentada neste libreto, realizada pela English Chamber Orchestra, pelos St. Anthony Singers e regida por Anthony Lewis, representa um importante marco na redescoberta da ópera barroca francesa durante o século XX. O elenco, liderado por Angela Hickey, Robert Tear e John Shirley-Quirk, alia clareza estilística e rigor histórico a interpretações expressivas, contribuindo para recolocar Hippolyte et Aricie no repertório internacional.

Quase trezentos anos após sua estreia, Hippolyte et Aricie continua sendo uma obra indispensável para compreender o barroco francês. Mais do que a primeira ópera de Rameau, ela representa a afirmação de uma nova linguagem musical, capaz de unir tradição e inovação com rara naturalidade. Poucas estreias na história da música produziram impacto tão profundo. Ao romper os limites impostos pelo modelo de Lully, Rameau inaugurou uma fase de extraordinária criatividade que consolidaria seu nome como o maior compositor de ópera da França antes da Revolução.

Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Jean-Phillippe Rameau (1683-1764) - 

DISCO 01

01. Acte I ¡P Ouverture
02. Acte I ¡P Scene I - Prelude - Temple sacre, sejour tranquille (Aricie)
03. Acte I ¡P Scene II - Princesse, quels apprets me frappent (Hippolyte)
04. Acte I ¡P Scene III - Marche - Dans ce paisible sejour (Choeur des Pretresses)
05. Acte I ¡P Scene IV - Princesse, ce grand jour par des noeuds eternels (Phedre)
06. Acte I - Scene V - Prelude - Ne vous alarmez pas d'un projet temeraire (Diane)
07. Acte I ¡P Prelude - Scene VI - Quoi ! la terre et le ciel contre moi (Phedre)
08. Acte I ¡P Scene VIII - Mes yeux commencent d'entrevoir (Oenone)
09. Acte II ¡P Scene I - Laisse-moi respirer, implacable Furie! (Thesee)
10. Acte II ¡P Scene II - Prelude - Inexorable Roi de l'Empire infernal! (Thesee)
11. Acte II ¡P Scene III - Qu'a servir mon courroux tout l'Enfer se prepare! (Pluton)
12. Acte II ¡P Scene IV - Dieux! que d'infortunes gemissent (Thesee)
13. Acte II ¡P Scene IV - Ah! qu'on daigne du moins...Puisque Pluton (Thesee)
14. Acte II ¡P Scene V - Prelude - Neptune vous demande grace (Mercure)
15. Acte III ¡P Scene I - Prelude - Cruelle mere des amours (Phedre)

DISCO 02

01. [ACT III] Scene 2 - Phedre Eh bien!
02. Scene 8 - Choeur Que ce rivage retentisse
03. Scene 9 - Thesee Quels biens! Je fremis quand j'y pense
04. [ACT IV] Scene 1 - Hippolyte Ah! faut-il, en ce jour
05. Scene 2 - Aricie C'en est donc fait, cruel
06. Scene 3 - Choeur Faisons partout voler nos traits
07. Scene 4 - Phedre Quelle plainte en ces lieux m'appelle
08. [ACT V] Scene 1 - Thesee Grands dieux! de quels remords
09. Scene 2 - Neptune, Thesee Arrete!...Pour un fils quelle pitie vous presse
10. Scene 3 - Aricie Ou suis-je De mes sens j'ai recouvre l'usage
11. Scene 4 - Choeur Descendez, brillante immortelle
12. Scene 5 - Diane Peuples toujours soumis a mon obeissance
13. Scene 7 - Hippolyte Ou suis-je transporte
14. Scene 8 - Choeur Chantons sur la musette
15. Scene 8 - Diane Bergers, vous allez voir combien je suis fidele
16. Scene 8 - Chaconn
17. Scene 8 - Une Bergere Rossignols amoureux

English Chamber Orchestra
The St. Anthony Singers

Sir Anthony Lewis, regente 

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