sábado, 12 de setembro de 2026

Maurice Ravel (1875-1937) - Piano Concerto in G Major, M. 83 e Piano Concerto for the Left Hand in D Major, M. 82

Maurice Ravel (1875–1937) escreveu relativamente pouco para piano e orquestra, mas as duas obras reunidas neste novo registro — o Concerto para piano em Sol maior e o Concerto para a mão esquerda em Ré maior — estão entre as realizações mais originais do repertório concertante do século XX. Em comum, elas revelam um compositor fascinado pela precisão formal, pela transparência da escrita e pela exploração das possibilidades tímbricas do piano e da orquestra. Em contraste, apresentam personalidades quase opostas: de um lado, a leveza, o humor e o brilho; de outro, a dramaticidade, a escuridão e a força quase brutal. O álbum da Deutsche Grammophon reúne Seong-Jin Cho, a Boston Symphony Orchestra e Andris Nelsons, em gravações realizadas no Symphony Hall, em Boston, em 2023 e 2024.

O lançamento também se insere em um momento significativo da trajetória de Seong-Jin Cho. Em 2025, o pianista completou dez anos de sua vitória no Concurso Chopin de Varsóvia, competição que, em 2015, projetou internacionalmente o então jovem músico. Desde então, sua carreira tem sido marcada por uma evolução artística consistente, perceptível também em sua discografia para a Deutsche Grammophon, que inclui repertórios de Liszt, Brahms, Chopin, Mozart e Debussy. O universo pianístico de Ravel oferece, nesse contexto, um terreno particularmente adequado à combinação de precisão técnica e refinamento expressivo que caracteriza o pianista sul-coreano.

A relação de Ravel com a tradição, aliás, é mais complexa do que a imagem de um compositor puramente impressionista poderia sugerir. Formado no Conservatório de Paris, onde estudou entre 1889 e 1905, ele sofreu três derrotas consecutivas na disputa pelo Prix de Rome, acompanhadas de um escândalo que envolveu o julgamento de suas obras como excessivamente avançadas. O encarte ressalta, contudo, que sua estética estava profundamente enraizada nas convenções formais de seu tempo, combinando a sutileza harmônica e a transparência de Gabriel Fauré, o classicismo de Camille Saint-Saëns, a personalidade pianística de Emmanuel Chabrier e as cores e modalidades da música russa do final do século XIX.

É significativo que Ravel tenha chegado relativamente tarde ao concerto para piano. Após uma bem-sucedida turnê pelos Estados Unidos em 1927–28, ele chegou a imaginar uma segunda viagem ao país e pensou em escrever uma obra para seu próprio uso. A viagem não se concretizou, mas o projeto deu origem a dois concertos simultaneamente: o destinado às duas mãos e o concerto concebido para a mão esquerda.

O Concerto para a mão esquerda, encomendado pelo pianista austríaco Paul Wittgenstein, nasceu de uma circunstância extraordinária. Depois de perder o braço direito em combate durante a Primeira Guerra Mundial, Wittgenstein construiu uma nova carreira interpretando obras para a mão esquerda e encomendando partituras a importantes compositores, entre eles Hindemith, Richard Strauss, Korngold, Britten e o próprio Ravel. A relação entre intérprete e compositor, porém, não foi tranquila: Wittgenstein chegou a criticar o longo solo do piano que sucede à introdução orquestral. Ravel não cedeu, e o pianista acabou estreando a obra em Viena, em 5 de janeiro de 1932.

A concepção musical é tão singular quanto sua origem. Escrita em um único movimento contínuo, dividido em três grandes seções, a obra começa em um Lento sombrio, construído a partir das cordas graves, da clarineta baixo e do contrafagote. A música parece emergir lentamente do silêncio até atingir um poderoso clímax, que prepara a entrada do piano. Ravel explora de tal maneira registros e texturas que o ouvinte pode ter a impressão de escutar duas mãos, embora toda a parte solista seja destinada a apenas uma.

A seguir, os metais desencadeiam um Allegro em 6/8, entre marcha e scherzo furioso, impregnado de jazz. O próprio Ravel definiu esse episódio como uma espécie de improvisação jazzística construída sobre os temas da primeira seção. Depois da aceleração, retorna a grande melodia pontuada do início, seguida por uma cadência que reúne os materiais anteriores e conduz a uma breve e dramática coda.

O Concerto em Sol maior, por sua vez, representa quase o avesso dessa atmosfera. Ravel pretendia afastar-se deliberadamente da solenidade e do peso que identificava em muitos concertos para piano do século XIX. Seus modelos eram Mozart e Saint-Saëns, e o compositor defendia uma música concertante “leve e brilhante”, sem a necessidade de buscar profundidade ou efeitos dramáticos.

A abertura confirma imediatamente essa intenção. Um estalo de chicote põe o primeiro movimento em movimento, enquanto o piccolo apresenta o tema principal sobre os arpejos do piano. Trompete, clarinete e as chamadas “blue notes” revelam a absorção do jazz por Ravel; o segundo tema guarda, inclusive, proximidade com o célebre tema lírico em Mi maior da Rhapsody in Blue, de Gershwin. No movimento lento, porém, a aparente espontaneidade do piano esconde uma elaborada construção rítmica: Ravel sobrepõe acompanhamento em 6/8 e melodia em 3/4, fazendo com que as frases atravessem as barras de compasso e produzam uma sensação de suspensão.

O finale retoma o caráter brilhante e espirituoso, com pequenos motivos trocados incessantemente entre piano e orquestra. O virtuosismo não é mero exibicionismo: ele faz parte de uma escrita em que cada grupo instrumental recebe espaço para se destacar. O movimento termina com os mesmos acordes percussivos que o haviam iniciado.

A ironia histórica é que Ravel, embora tivesse escrito o concerto em Sol maior pensando em si próprio como solista, não pôde executá-lo por causa de sua saúde debilitada. Marguerite Long assumiu a parte de piano na estreia parisiense de 1932, sob a direção do próprio compositor. A obra recebeu acolhida crítica quase unânime e teve ainda naquele ano sua primeira gravação.

Neste registro, a reunião das duas partituras permite perceber com especial clareza a amplitude da imaginação ravelliana. O Concerto em Sol maior transforma o virtuosismo em elegância, humor e invenção rítmica; o Concerto para a mão esquerda converte uma limitação física em uma extraordinária experiência de densidade sonora. Seong-Jin Cho encontra, assim, dois Ravel diferentes — o luminoso e o sombrio — enquanto a Boston Symphony Orchestra, sob Andris Nelsons, participa de uma leitura em que o piano nunca aparece isolado do sofisticado universo orquestral do compositor. É justamente nessa capacidade de fazer coexistirem rigor e liberdade, tradição e jazz, transparência e intensidade que reside a força duradoura dos dois concertos.

Uma boa apreciação!

Maurice Ravel (1875-1937) -

01. Piano Concerto in G Major, M. 83 I. Allegramente
02. Piano Concerto in G Major, M. 83 II. Adagio assai
03. Piano Concerto in G Major, M. 83 III. Presto
04. Piano Concerto for the Left Hand in D Major, M. 82 I. Lento
05. Piano Concerto for the Left Hand in D Major, M. 82 II. Allegro
06. Piano Concerto for the Left Hand in D Major, M. 82 III. Tempo I

Boston Symphony Orchestra
Andris Nelsons, regente
Seong-Jin Cho, piano 

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